De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

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A vida pode ser uma estrada, para quem gosta de viajar. Hoje, enquanto dirigia o ducentésimo quilômetro do dia, contava ao meu filho, Chico, que escolhi ser jornalista por três motivos: sonhava mudar o mundo, queria viajar muito e desejava, um dia, ser escritora.

“E o menino com o brilho do sol

Na menina dos olhos

Sorri e estende a mão

Entregando o seu coração

E eu entrego o meu coração”

De volta ao Começo,  Gonzaguinha

A história de hoje é longa. Bem textão. Tem a ver com estrada, viagem e jornalismo. Não terá lead. Será em partes.

Parte 1_agosto de 2014

Há mais ou menos três anos, deixei a grande imprensa. História velha. Todo mundo já sabe que fui demitida do emprego da minha vida. Tinha uma viagem de férias marcada. Fui porque, mesmo desempregada, não perderia a chance de fazer um tour que estava pago. Destino San Francisco, costa Leste, dos Estados Unidos. Foi lá que começa essa nova história.

Parte 2_setembro de 2014

No primeiro dia, eu e Nil, minha companheira de viagem, saímos para passear. Não andamos nem dois quilômetros e demos de cara com uma galeria de arte mexicana. Na vitrine, dois objetos de cerâmica começaram a piscar para nós. Eram uma árvore da vida e uma pilha de cinco cachorros com um galo no alto. Entramos para pedir o preço. Não era barato, mas também não era um absurdo. Agradecemos e resistimos ao impulso inicial de sair com as duas obras nos braços.

No dia seguinte, sem querer querendo, fizemos o mesmo caminho. De novo, árvore e cachorro abanaram e piscaram para nós. Nil, mais audaciosa e ousada do que eu, entrou na galeria e anunciou: são meus. Pagamos e combinamos de buscá-los dali dois dias, quando estaríamos de carro. Feito. Os dois embrulhos gigantes (mal embrulhados) foram para o fundo do carro, onde sofreram os primeiros e únicos danos.

Viajamos mais de 2000 quilômetros chacoalhando pela costa Oeste, Vegas e Gran Canyon. Quando chegamos em Los Angeles, a última escala, percebemos que tínhamos dois trambolhos que não podiam ser despachados na mala. Viramos a cidade atrás de sacolas, que os abrigassem. Ironia. Destino. Foi na loja do Exército da Salvação que encontrei uma sacola usada para entregar antigos layouts de revista que vestia como uma Luca a minha árvore cabia. Os cachorros divididos em dois blocos foram para duas malas de rodinhas, que embarcaram conosco.

Check in e, por milagre de nossa Senhora de Guadalupe, a turma do aeroporto não implicou com o tronco da árvore, pesado e duro o suficiente para atentar contra toda a tripulação da Delta Airlines. Resumo: chegamos em São Paulo vivos e quase inteiros. Na pousada A Capela, em Arembepe, descobri que a orelha do cachorro rosa tinha se quebrado. Antes que conseguisse restaurar, o pedaço se perdeu. Mesmo sem uma orelha, família de cães e árvore da vida trouxeram uma imensa e profunda novidade em nossas vidas.

Parte 3_novembro de 2014

Primeiro, escrevi um texto usando a árvore como ilustração para falar de amizade. Segundo: por serem tão lindos e chamarem tanta atenção, percebemos que deveríamos enfeitar nossa Capela apenas com legítimo artesanato, com obras de arte popular. Começava com aquelas duas obras de um desconhecido senhor Ortega S, que assim assinava as peças, uma paixão, um novo trabalho, uma missão e o prazer pelo pé na estrada.

Parte 4_março de 2015

Sim, porque mesmo sem perceber, mudamos, mudamos e voltamos aos começos que deixamos pela estrada.

Lá estava eu, pesquisando e entrevistando pessoas para descobrir os encantos da arte popular brasileira. Com caminhonete e waze, viajamos pelo interior de Alagoas, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Fomos à feiras, fizemos inúmeras amizades e descobrimos a linda ética de artistas e dos caminhoneiros de carga fracionada. Encomenda-se, paga-se e tudo chega certinho no endereço combinado. Fio de bigode, admiração e confiança. Esta é a lei. Sim, pode demorar seis meses, às vezes o tempo do artista, mas chega.

 

Parte 5_junho de 2016

Com a pousada enfeitada de obras lindas, que nos davam orgulho e distinção, começamos a ouvir de alguns hóspedes a pergunta: “está a venda?”. Sim, estava.

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Sim, assim nasceu a Coisas da Ninoca, a loja conceito que criamos, digo de brincadeira, por dois motivos: entreter os hóspedes nos raros dias de chuva e ter um motivo nobre para sair viajando por aí.  Em novembro, ela faz uma ano. Rende um dinheirinho, um emprego, do eficiente Almir, e um imenso prazer. De volta ao começo, nos permite viajar, ouvir histórias, que depois escrevo ou conto, e mudar o mundo. Sim, mudar o mundo porque ajudamos a girar uma economia criativa, genial e generosa. Pessoas de todas as idades, origens e gêneros, que vivem do seu fazer e do seu incrível talento imaginário. Artistas. Artistas populares. Artistas geniais.

Desde os primeiros pedidos de “está à venda”, combinei com Nil que venderíamos quase tudo porque a ordem era desapego. As exceções seriam o começo de tudo: nossa árvore e nossa pilha de cachorros. Invendáveis. Claro que ambas eram as campeãs de audiência dos pedidos.

 

Parte 6_novembro de 2016

Que tal ir ao México procurar mais árvores da vida e cachorros empilhados?

Parte 7_junho de 2017

Foi o que fizemos no final de junho e aí começa o pedaço mais lindo dessa história. Chegamos achando que íamos aterrisar e dar de cara com dezenas de peças de Ortega S. Afinal, ele era mexicano…. Estupidez picante como o chili do café da manhã. Rodamos, rodamos e nada se parecia com a arte de Ortega S.

Sacudi a poeira do tempo e lembrei dos tempos de repórter missão impossível. Naquela época pré-google, as ordens chegavam assim: “acha fulano” e a gente, muito jovem, não conseguia nem entender direito o nome do fulano. Mas se queria seguir sendo repórter da maior revista do país, dava um jeito o achava. Com uma foto da assinatura do Ortega S comecei a pesquisa no dia 1 de julho. O google México ajudou, foi generoso. Mandou opções que não aparecia em São Paulo. Fui mergulhando, fuçando e achei uma página simples, tosca, com peças – que eram iguais as minhas – um endereço em Jalisco, um email e dois telefones. Tentei tudo. Consegui resposta por email e WhatsApp.

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Gerardo Ortega Lopez, um dos irmãos Ortega, na foto acima com seu filho cadete, me respondeu de início ressabiado. Fomos trocando mensagens e resumi bastante a história. Disse que estava na Cidade do México e que tinha vindo do Brasil comprar peças dele, que queria conhecê-lo e faria qualquer coisa que fosse necessário para viabilizar meu plano. Primeiro ele sugeriu que eu fosse até San Miguel Allende, onde existem peças da família à venda em lojas. Depois, Gerardo percebeu que a minha paixão era verdadeira e sugeriu que eu fosse até Tonalá, direto do atelier deles. O preço seria melhor. A emoção foi maior.

Parte 8_4 de julho de 2017

Acordamos cedo e partimos. Mais de 550 quilômetros. Muitos dólares de pedágio. Poucos dólares de gasolina, comparado com a nossa. Algumas voltas por culpa nossa e do waze. Chegamos à Colônia Santa Cruz de Las Huertas. As ruas eram simples, decoradas com bandeirolas de São João. Na internet, havia visto a foto da casa, pintada de roxo com um galo ao lado da porta. De longe identifiquei e o coração bateu acelerado. Estacionei e na porta me esperava Oscar Ortega López, irmão de Gerardo, que tinha saído para um compromisso.

 

Entramos. O ateliê era igual a dezenas de ateliês que conheci nos últimos dois anos, correndo atrás de arte popular. Zero de luxo. Zero de charme. Zero de glamour. Beleza pura apenas nas peças, em geral, expostas de modo tosco.

Nos fundos da casa, outros membros da família pintavam peças que seriam vendidas em breve. Eu já havia feito uma encomenda a Gerardo, que participará no final de semana de um concurso mexicano de arte popular.

O saber fazer peças lindas está na família há quatro gerações. “Aprendemos criança, de pai para filho”, conta Oscar. “Quem gosta faz, quem não gosta, busca outra profissão.” Eles trabalham em grupo. Olhando ao redor, bairro incluso, é difícil entender de onde vem a inspiração para tanta riqueza e beleza. Sentada no chão com eles, embalando peça a peça, percebi que a inspiração vem da alma deles, colorida, intensa e naif como as cerâmicas que modelam.

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Compramos tudo o que podia ser comprado e que cabia dentro das malas que trouxemos do Brasil. Para fora, de novo, uma árvore da vida e uma pilha de três cachorros e um galo, que ainda vamos decidir como viajam.

Na porta, uma aperto forte de mão e a foto que ilustra esse textão. Oscar também estava orgulhoso e emocionado. Demos então meia volta em direção a Oaxaca, destino das nossas férias.

Na estrada, no papel de copiloto, escrevo uma mensagem para agradecer Gerardo pela recepção e pelas belíssimas obras. A resposta dele foi encantadora, um abraço quente.

“Muchissimas GRACIAS a ti. Nos haces sentir muy muy orgulhosos de que tu vengas de tan lejos, Brasil, a comprar nuestra arte. No se como agradecerte. Suerte siempre para ti y tu negocio.”

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Agradecer.

Como explicar a ele a mudança que o trabalho dele provocou em minha vida?

Como agradecer a altura tudo o que ele e a família dele fizeram por mim?

Como traduzir, no meu espanhol de esquina, o impacto da descoberta desta nova beleza e deste novo trabalho, a pesquisa e o garimpo de arte popular, justo naquele momento em que eu tinha uma janela aberta à minha frente e ainda não sabia que sabia voar?

Como exprimir a minha satisfação de repórter aposentada, apenas pelo fato de ter conseguido encontrá-lo em uma colônia mexicana depois de três anos de buscas fracassadas?

Acho que só tem um jeito. Voltar correndo para o Brasil, fazer uma linda exposição na Ninoca para poder em breve fazer novas encomendas e outras, e outras e outras. De volta ao começo. É assim que deve ser.

E eu entro na roda

E canto as antigas cantigas

De amigo irmão

As canções de amanhecer

Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho

Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito

Com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse que a força

Esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente eu chegasse

Ao fundo do fim

De volta ao começo

Ao fundo do fim

De volta ao começo

 

 

 

 

Sempre rezo por B.C

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Uma das mais lindas histórias de Plano B que já li foi publicada no livro Achei que meu pai fosse Deus, organizado pelo escritor Paul Auster. Uma mulher com as iniciais B.C conta que decidiu mudar de vida na última primavera. Ela tinha 57 anos e chegou à conclusão que não podia esperar mais 8 anos para se aposentar e que não podia mais ser secretaria de advogado por mais oito anos. “Deixei meu emprego, vendi minha casa, a mobília, o carro, dei meu gato para a vizinha e mudei-me para Prescott, Arizona, uma comunidade de 30 mil pessoas, aninhada nas montanhas Bradshaw, com uma boa biblioteca, uma instituição de ensino superior comunitária e uma bela praça central”, conta.

Para viver, ela investiu tudo o que tinha e recebe 315 dólares de juros por mês. É com eles que se propôs a viver. Não depende de ninguém. Se vira com o que a cidade oferece. A biblioteca está conectada à internet. Tem um armário depósito pelo qual pagava 27 dólares/mês e guardava todas as suas coisas. Por 25 dólares, alugava um canto em um jardim de uma casa para colocar sua barraca, sua moradia. Na escola Yavapai College fazia cursos e usava o vestiário e a piscina olímpica. Diariamente, era lá que fazia sua toalete. “Ter uma aparência apresentável é o aspecto mais importante do meu novo estilo de vida”, diz B.C. “Quando vou a biblioteca, minha sala de estar, ninguém pode adivinhar que não tenho um lar.”

Comer barato e de modo nutritivo é o principal desafio de B.C. Ela tem 200 dólares mês para gastar com comida. Fazia muitas refeições no parque, o quintal dela. Comia também no Jack in the box, que à época do texto tinha quatro coisas que custavam 1 dólar. Frequentava galerias em noites de vernissages para ter uma experiência comestível diferente e apreciar arte.

Deixou o cabelo crescer e parou de pintá-lo. Gosta do grisalho. Parou de usar batom e maquiagem. O look natural não custa nada.

“Adoro ir à escola”, diz. Estudou cerâmica, coral e antropologia cultural. “Adoro ler todos os livros que sempre quis e nunca tive tempo suficiente.

Também tenho tempo para não fazer absolutamente nada.”

O texto de B.C, impactante como a liberdade, termina curto. Fala da saudades dos amigos e do gato Simon. E do medo. “Espero sobreviver ao inverno. Disseram-me que Prescott pode ter muita neve e longos períodos de temperaturas glaciais. Não sei o que fazer se ficar doente. Em geral, sou otimista, mas me preocupo. Rezem por mim.”

Este texto foi publicado pela primeira vez em 2001 nos Estados Unidos. Comprei o livro e li no Brasil em 2005. Fui profundamente tocada pelo desejo e pelo plano dela. Procurei-a e não a encontrei. Faz 12 anos que rezo sempre por ela.

Fazer a mala

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Abro a mala sobre o sofá e uma luz se acende. Paro tudo e reparo nela. Perdoem-me se parece estúpido ou ridículo, para mim é muito, muito relevante. Estou em estado de quase férias. Viajo segunda-feira, 8, depois de cinco meses de trabalho muito intenso. 7 por 24, sem qualquer exagero. Pela primeira vez desde 1987, faço uma mala com quatro dias de antecedência. Isso significa que pela primeira vez em 30 anos, tenho controle sobre o meu tempo e o meu desejo. Pude decidir e escolher deixar os textos que estou escrevendo para depois e focar nas roupas, nos sapatos, nos remédios e objetos que quero levar para o meu passeio.

É uma bobagem, eu sei. Tem gente que, inclusive, paga para outrem fazer esse serviço. Mas para mim está sendo importante. Parei para escrever porque queria deixar registrado na minha história, esse momento de enorme alegria e felicidade. De liberdade. De privilégio. De poder. De vitória.

Até já. Minha mala me espera.

Bem-vindo a era do pós-emprego. Sem crachá, sem salário e com propósito

Na era do pós-emprego, o trabalho formal se precariza, muda de natureza e adquire novo sentido associado a causas, ao prazer e ao empreendedorismo social

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Há exatos 20 anos, o economista Jeremy Rifkin e o consultor William Brigdes, ambos norte-americanos, lançaram dois livros gêmeos: O Fim dos Empregos e Um mundo sem empregos. O assunto era moda nos Estados Unidos, porque uma crise econômica lambia o mundo. À época, a crítica considerou Rifkin excessivamente pessimista e apocalíptico. Bridges foi chamado de marqueteiro porque oferecia um guia de auto-ajuda para executivos fadados a sobreviver sem crachá. No Brasil de FHC, com o início da estabilidade econômica e o fim da inflação, a conversa era outra. Renato Russo, do Legião Urbana, cantava Música de Trabalho, sucesso do disco A Tempestade, para protestar contra os empregos (abundantes) com salários miseráveis e o trabalho como falsa identidade do indivíduo.

Sem trabalho eu não sou nada

Não tenho dignidade

Não sinto o meu valor

Não tenho identidade

Mas o que eu tenho

É só um emprego

E um salário miserável

O tempo correu e todos tinham razão. O trabalho na forma de emprego e crachá corporativo se tornou identidade das gerações Coca-Cola, yuppie e geração X. Hoje, o mundo sombrio desenhado pelos autores norte-americanos é um pouco mais cinza. O último Fórum Econômico Mundial (WEF), realizado em janeiro de 2016 em Davos, na Suíça, teve como tema  “A Quarta Revolução Industrial”. A partir dela, a expansão das tecnologias emergentes no setor produtivo fará com que 5 milhões de empregos sejam extintos em 2020, em quinze economias, que correspondem a 67% da força de trabalho global.

A escala é massiva. Quase metade (47%) de todos os trabalhos nos EUA e 35% na Grã-Bretanha estarão suscetíveis à automatização pela tecnologia nas próximas duas décadas, de acordo com a a revista The Economist e os pesquisadores da Universidade de Oxford. A Consultoria McKinsey relatou em estudo recente que 140 milhões de trabalhos poderão ser automatizados até 2025. Vivemos a Era do Gelo do emprego. Ele está em extinção como os dinossauros e derrete como picolé no deserto. Na opinião de Klaus Schwab, presidente e fundador do Fórum de Davos, é um caminho sem volta. “Só com uma atuação urgente e focada, a partir de agora, será possível gerir ests transição a médio prazo e criar uma mão de obra com competências para o futuro. Sem isso, os governos enfrentarão desemprego crescente e constante e muita desigualdade”, alerta Schawb.

O processo está em curso e é mais intenso em algumas áreas do conhecimento. Se você é amigo de jornalistas, administradores, prestadores de serviço, deve estar acompanhando o desespero da turma. Dessa vez, é diferente do que ocorreu nas revoluções anteriores. Antes, quando uma inovação tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo segmento surgia para absorver a mão-de-obra excedente. Hoje a conta não fecha. O menos é maior que o mais. Estima-se que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. E o que existe, não existirá mais. As áreas administrativas e de escritório serão os mais afetados. Vão sofrer também segmentos da medicina impactados pelo avanço da telemedicina, seguidos pelos de energia e indústria, construção e extração, entretenimento e comunicação, e ainda, o setor jurídico. Já os setores de negócios e operações financeiras, gestão, computação, arquitetura e engenharia, vendas, educação e treinamentos juntos terão um crescimento de 2 milhões de empregos. Apesar da expansão do setor do conhecimento, 2 menos 5 é igual a 3. Serão três milhões de empregos a menos. Duro.

A Arca de Noé dos que sobreviverão com crachá tem uma lógica própria, segundo o especialista em futuro e tecnologia, Bruno Macedo, autor do texto O fim do emprego e a ascensão do trabalho com propósito na era das máquinas inteligentes. “Haverá uma maior demanda por especialistas em big data, desenvolvedores de Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias emergentes e, também, por vendedores especializados. As mulheres poderão ser as mais afetadas com o declínio dos setores administrativos, escritórios e vendas. A matemática segundo o relatório de Davos será: a mulher perderá cinco empregos para ganhar um, enquanto os homens ganham um emprego perdendo três.” Sem exagerar, quase todos perderão, com exceção dos gênios.

Não sou gênio. Tenho mais de 50 anos. Sou mulher. Me tornei estatística em 2014. Perdi meu emprego de 23 anos. Ainda não conhecia a matemática de Davos, mas rápido percebi que não havia outro crachá para pendurar no meu pescoço àquela altura do campeonato. Intuitivamente, embarquei na nau dos descobridores do trabalho com propósito na era do pós-emprego. Mulheres e crianças primeiro. Não há motivo para festa. Não há motivo para pânico. A mudança é inexorável. A existência será precária, mais simples e possível. Menos será mais. Vou explicar.

Antes de falar do propósito, a parte legal, incrível, dessa história, vamos pingar alguns is. O sistema segue sendo capitalista e a lógica do lucro mantém-se acima de todas as coisas. O que mudou? Na época do trabalho clássico, dos tempos do capitalismo fordista, as relações eram opressoras e muito claras. Patrão x empregado. Lucro e mais valia. Quem trabalhava recebia salário e contava com seus direitos trabalhistas, defendidos pelo sindicato da categoria. Havia hora para entrar e hora para sair. O que passasse disso, virava hora extra, remunerada com um valor superior ao da hora normal. As regras eram claras. Uma vez por ano, campanha salarial por aumento. Podia ser ruim como na música do Legião Urbana, mas era certo, seguro e combinado.

Hoje tudo mudou. A fábrica está na metrópole. A fábrica está em nossa casa. Os bancários ficaram em greve por mais de um mês e ninguém ligou. A grita foi dos velhinhos que não sabem mexer no computador e de quem precisava fazer uma transação presencial. No mais, tudo está na nuvem. O sistema financeiro funciona 24 por 7 e alguns correntistas são atendidos por “gerentes digitais”. O Fábio que me atende, por exemplo, trabalha na casa dele. Se for à agência não vou encontrá-lo, mas posso receber a resposta de um whatsapp às 22 horas. “A metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro em um trabalho precário, mal-remunerado e, às vezes, sequer reconhecido como trabalho”, descreve Giuseppe Cocco, cientista político italiano radicado no Brasil e professor Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele abordou o tema em uma palestra ministrada no ciclo Metrópoles: Territórios, governamento da vida e o comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (link para a palestra http://uninomade.net/tenda/da-fabrica-a-metropole/). “Não é a toa que se discute o PL 4330, da terceirização, e que se multiplicam os estagiários onde antes haviam trabalhadores formais. Os jovens do setor da criação (publicitários, cineastas, atores, artistas, etc.) entram no mercado com contratos temporários ou informais, sem direitos trabalhistas e a mão de obra não qualificada é terceirizadas, às vezes quarterizada. Na metrópole, trabalha-se para poder trabalhar’, diz Cocco.

Enquanto escrevo este texto, sinto na pele – ou melhor, nos dedos, nos ombros pesados e na cabeça cheia de assunto – essa urgência. Preciso produzir conteúdo para tentar vender projetos. Procuro, sem certeza de sucesso, personagens dispostos a falar sobre contracultura por causa de um museu que pretendo montar. Troco de página no Facebook e faço um post para divulgar meu site e uma palestra que farei na próxima semana. Feito isso, abro o site do Booking.com para checar reservas e melhorar a oferta de preços da minha pousada. Trabalhar para poder trabalhar é a condição da precariedade. A quarta revolução industrial impôs o precário como modo de vida para a maioria. A precariedade é um modo de subjetivação, afirma o professor Cocco. Se antes educação e saúde eram direitos universais, que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que, constantemente, invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. “Isso nos torna precários, e o precário é um sujeito endividado”, afirma Cocco.

Ele tem razão. Para não perder o passo e o espaço para a máquina tecnológica, somos forçados a trabalhar sobre nós mesmos o tempo todo. Não basta faculdade, é preciso ter master, pós, mestrado e doutorado. Para garantir empregabilidade, não basta mais ter a força-de-trabalho para vender. É preciso ter ideias inovadoras, geniais e disruptivas. O capitalismo cognitivo explora também a criatividade e a produção de subjetividade, parasitando todos os fluxos criativos. Somos cobrados para existir (saúde como mercadoria), para aprender (educação como mercadoria), para nos mover (transporte como mercadoria), para nos comunicar (conectividade é condição de sobrevivência) e para nos divertir. Na ponta mais sofisticada do parasitismo capitalista dos fluxos estão, veja só, as redes sociais. O amigo Facebook é de graça, mas ele não nos paga pelo conteúdo bacana que produzimos. E sem conteúdo legal, o algoritmo nos deixa invisíveis.

Tem saída? Mesmo precária, conceitualmente endividada e vítima do capitalismo cognitivo — que se baseia na exploração da criatividade e da produção da subjetividade –, acho que tem. A minha crença não é fruto apenas do meu otimismo. Existe um novo processo de subjetivação em curso. O termo, para o filósofo Alain Touraine, define “a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito”. Essa é uma das marcas da sociedade contemporânea. Quando o “estabelecido”, os sistemas e as instituições começam a ruir surge um espaço para o novo, para o diverso e para o diferente. Jeremy Rifkin estava certo quando previu que nada seria como antes na hora em que o “emprego”, enquanto forma de normatização do trabalho, estivesse se decompondo.

É nesse ponto que surge a ideia do trabalho com propósito. É nessa curva de rio que a esfera cultural ganha proeminência. É nesse instante de absoluta precariedade e conflito, que a subjetivação procura uma forma de escapar da pressão por meio da construção de laços de forma reflexiva e criativa. Preciso citar novamente Alain Touraine. Para ele, a subjetivação se dá sob a forma de conflito, de luta contra poderes que limitam a autoconstrução, resistindo ao mundo impessoal e de consumo, à lógica de mercado, e à violência da guerra. Esse processo é indissociável da luta pela afirmação de direitos universais (igualdade política, jurídica, etc.) e específicos (pela liberdade, pela particularidade). Essa “causa” seria um conteúdo fundamental da subjetivação. Como ele afirma: “sente-se sujeito apenas aquele ou aquela que se sente responsável pela humanidade de um outro ser humano”.

O trabalho com propósito é repleto dessa força. Deve proporcionar sustento para quem o realiza, mas essa não é a sua razão primordial. Prazer e felicidade superam em relevância o modelo tradicional do “bom emprego” das pessoas “bem-sucedidas”. Os jovens milennials, nascidos entre 1980 e 2000, foram os primeiros a reivindicar atividades produtivas que proporcionassem diversão, bem estar e realização pessoal. Ao grupo, a cada dia, se juntam ex-yuppies, ex-executivos e ex-bambambãs filhos das gerações X e Coca Cola, nascidos entre (1960 e 1980), que foram cuspidos de suas companhias. Gente como eu, que desfrutou de todas as mordomias e de todos as pressões do mundo corporativo, e percebeu que era hora de mudar.

Mudar pra onde? Mudar como?

Se fosse possível, o ideal seria mudar para Marte para facilitar a transformação. O trabalho com propósito precisa ser completamente diferente do tradicional. Uma das chaves do sucesso dos empreendedores com causa é deixar tudo da outra encarnação para trás. A saber:

  • estamos falando de uma nova filosofia de trabalho que aposta na transição do “work to” (trabalhar para) para o “work with” (trabalhar com);
  • o crescimento deve ser orgânico e sustentável;
  • o risco, a perda e a falha devem fazer parte da natureza do negócio. É preciso haver liberdade para criar e arriscar. É fundamental saber perder;
  • doar parte do lucro pode ser uma das chaves do sucesso;
  • produzir impacto social é condição;
  • ter uma estrutura horizontal, franciscana e enxuta;
  • operar em rede com colaboradores, fornecedores e consumidores, numa equação de ganha-ganha e múltiplas parcerias;
  • aprender a operar com pouco custo, zero desperdício e muito compartilhamento;
  • aprender a viver com menos para poder ganhar menos e viver com menos pressão, menos angústia, menos sofrimento e menos ansiedade. O paradoxo/equação do – = +.

 

Propósito.

 

Menos.

 

Anote essas duas palavras em seu smartphone. Você irá ouvi-las muitas vezes nos próximos anos. O mundo precisará de pessoas sensíveis, lógicas e com capacidade de se moldar às mudanças no presente e futuro.

A adaptação ao “desconhecido” (o que está por vir) será a única de superar as incertezas do mercado. “O amanhã será governado por ambientes caórdicos (caos + ordem), subversivos, divertidos, fluídos, flexíveis em que prevalece a inteligência coletiva, as lideranças rotativas, conduzido por algoritmos e plataformas e que têm como base a ampla conectividade e o propósito. O mundo amanhã vai ser completamente diferente do que é hoje”, avisa Bruno Macedo. Quem olhar para o lado verá que a quarta revolução industrial está desmontando os modelos tradicionais, um a um, substituindo-os por negócios disruptivos. Exemplos? A TV aberta sendo substituída pelo consumo de imagens on demand no You Tube ou no Netflix rodando no smartphone. Jornais e revistas minguando pela força do consumo de informação digital. O compartilhamento de ativos pessoais, como carros, vagas de garagem e carros, reduzindo o tamanho do mercado automobilístico e ao mesmo tempo diversificando as fontes de receita das pessoas.

 

A vida com plano B

 

No século passado, plano B era um recurso utilizado para quando tudo dava errado. Ninguém queria ter um plano B. Ele era sinal, símbolo e signo de fracasso. Hoje, plano B é condição. Deveríamos aprender a construí-los ainda no ensino fundamental, junto com as operações aritméticas. A razão é singela. Todo mundo vai precisar de um plano B em algum momento da vida, especialmente se der tudo certo e ela for longa e saudável. A novidade da vida sem crachá e com propósito é a possibilidade, bem-vinda, de todos termos múltiplas carreiras. O que isso quer dizer? Que deixou de ser vexame mudar de carreira e atividade ao longo da vida. A jornalista norte-americana Jessica Stillman, do site Inc.com, defende que este é o momento de assumirmos “carreiras slashes”. Slash é o termo em inglês que define a barra de separação. “Por muito tempo eu tinha vergonha de usar a “/” , porque ela fazia a minha carreira parecer híbrida. Eu era atriz/autora teatral/ escritora free-lancer/colunista/jornalista. Eu me sentia pouco séria, indefinida e inconsistente”, escreve Jessica. Ela mudou de ideia quando olhou ao redor e percebeu que a carreira “monocromática” é que era a exceção. “A economia mudou e o trabalho tornou-se fluído. Explorar diferentes possibilidades de atuação profissional e pessoal é o que nos fará crescer”.

A história da publicitária/jornalista/designer e agora artesã paulistana Beth Klock é exemplar. Depois de perder o último emprego em uma grande editora, ela percebeu que não teria nenhuma chance de recolocação. Também não tinha mais idade nem saco de trabalhar com publicidade, assessoria de comunicação ou estratégia. Partiu então para o design. Começou a desenhar com os dedos na tela do iPad. Definiu um estilo próprio e lindo. Usou a rede social para divulgar seus talentos. Graças ao grupo Dots, uma rede fechada de empreendedores individuais, micro e pequenos, encontrou parceiros e clientes. “Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida”, diz Beth, que recomenda aos que estão à procura de um rumo experimentar fazer coisas que nunca fez antes. “Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento?”.

O cientista norte-americano Ray Kurzweil, um especialista em tendências e futurologia, é otimista quando o assunto é trabalho + propósito. Ele acredita que no futuro próximo vamos trabalhar menos e com prazer. Que precisaremos de menos e que tudo custará menos dinheiro também. Ele justifica sua tese a partir do desenvolvimento da tecnologia, que barateia os bens de consumo e faz o trabalho chato pelos humanos. Para sustentar esse modelo, ele defende uma política efetiva de bem-estar, que batizou de “renda básica universal”. Parece muito com o projeto do “Renda Mínima” do vereador eleito por São Paulo e ex-senador Eduardo Suplicy. A equação, segundo Ray, é simples. A renda universal básica é uma forma de seguro social, onde cidadãos e residentes de um país recebem, de forma regular e incondicional, uma quantia de dinheiro do governo ou de alguma instituição pública, independente de qualquer outra renda que por acaso recebam. “Realmente temos de repensar o que devemos fazer de nossas vidas. Temos um modelo econômico onde as pessoas trabalham, ganham seu dinheiro, e então podem comprar as coisas que precisam. Mas, nós vamos chegar a um ponto em que não vamos precisar de muito dinheiro. Teremos impressoras 3D que por centavos podem imprimir todas as coisas físicas de que você precisa. Não vamos precisar trabalhar para produzir estes produtos…”, defende Kurzweil. A ideia dele é um imposto de renda ao contrário. O governo paga para o cidadão sobreviver em um modelo open source. “No futuro, manteremos o trabalho, mas num conceito movido para o modelo onde você faz algo por paixão e de que você gosta e que lhe permita mover-se na hierarquia de Maslow e ter satisfação. É possível que a gente trabalhe menos mesmo.”

A chef de cozinha paulista Bel Coelho, 37 anos, bate panela pelo “menos”. Depois de estudar em grandes escolas de gastronomia, como o americano Culinary Institute of America (CIA) e o espanhol El Celler de Can Roca, brilhar à frente de várias casas badaladas da capital paulistana, ficar famosa na TV e ganhar muitos prêmios, ela disse: chega, basta, fim. Decidiu lutar por menos. Viver com menos. Simples assim. “Quem quer ser muito rico não pode se espelhar, nem se inspirar, num negócio como o meu”, escreveu Bel Coelho para o projeto Draft (http://projetodraft.com/no-clandestino-bel-coelho-desconstroi-o-restaurante-tradicional-abre-so-uma-semana-por-mes-e-vive-bem/), site que diariamente traz histórias de pessoas buscando trabalhar e viver com propósito.

Bel é dona do restaurante Clandestino, aberto em 2014, na Vila Madalena. O negócio começou com um propósito simples. Ela queria, apenas, ser feliz, se sustentar, e ter uma vida boa, razoável, de classe média, normal. Na prática, significava não trabalhar insanamente, não ter metas extraordinárias de faturamento e fugir da badalação. Por isso, o lugar funciona apenas uma semana por mês, de segunda a sábado, e oferece um cardápio pré-montado, o menu degustação, para apenas 24 pessoas por noite. Para ser uma delas, é preciso fazer reserva, momento no qual se determinam quantos lugares haverá em cada mesa e em que se esclarecem possíveis restrições alimentares. O pagamento também é feito antecipadamente. Custa 260 por pessoa, ou 380 se o jantar for harmonizado com bebidas alcoólicas.

Nesse modelo existem vários drives de inovação, que funcionam porque a Bel é a Bel e porque existe um conhecimento por trás da regra. Ao subverter a lógica e criar um serviço em data móvel (a semana em que ele será aberto só é definida um mês antes), ela evita  desperdício de comida, porque a quantidade de pessoas por noite é fixa e ela compra exatamente o que vai preparar. A equipe de trabalho pode ser enxuta, excelente e formada por frilas, reduzindo os custos fixos. “A grande diferença é que estou crescendo organicamente. Não é como quando você abre um restaurante para 100 pessoas e, de cara, tem que bancar os custos para receber 100 pessoas”, diz. “Eu resolvi, por aprendizado, fazer o contrário. Fiz um investimento inicial na cozinha e depois ir evoluindo e melhorando coisas no salão e na cozinha, conforme o tamanho vai aumentando. Busquei autonomia, Dinheiro não é o mais importante. Não me arrependo de nada. Sou muito mais feliz hoje”, garante. Ela acha que ganha menos, provavelmente, do que ganharia se estivesse num esquema tradicional. “Acho que vou ganhar mais, em algum momento. Mas quando você busca autonomia e é de fato autônomo, demora para se estabelecer como estava no mercado tradicional”, diz.

 Eu vivo sem crachá, às custas do meu plano B que virou A, há dois anos e alguns meses. No começo foi sofrido. Não pelo trabalho, nem pela redução de custos, menos ainda pela mudança de rotina. Doeu o pé na bunda. A rejeição. A mudança feita a ferro e fogo. Feridas curadas, juro que não sinto nada. Nem saudades. Descobri que posso criar sem parar para mim mesma. Minha inspiração para incontáveis planos B brotam do meu patrimônio pessoal. O que é isso? Tudo o que fiz, vivi e aprendi em meus 51 anos de vida. É fascinante. Tem meu DNA, minha história, meu conhecimento e minha experiência na parada. Tem todos os meus fracassos e sucessos. Dali nasceu a vontade de ter uma pousada. Depois o projeto de abrir uma loja de arte popular. E agora, mais recente, o sonho de fazer um museu a céu aberto na Aldeia Hippie de Arembepe, na Bahia.

Meus ingredientes secretos? Vou contar. Anota ai:

  1. Fazer o que gosto
  2. Sentir prazer
  3. Inventar moda
  4. Ousar
  5. Aprender
  6. Não sossegar o facho
  7. Ouvir a intuição
  8. Ouvir a opinião alheia
  9. Usar tudo o que sabe
  10. Colocar a mão na massa.

Anotou?

Simples, não é?

 

 

 

 

Palavra certa. Palavra errada

 

Este texto não é romântico. Nem falará sobre o Chico Buarque. Abro com ele e com essa canção linda, porque a adoro e porque não consigo imaginar ilustração melhor para a delicadeza do uso da palavra. Uma palavra bem dita na hora exata pode mudar o mundo. Virar o destino. Uma palavra a mais ou a menos. Uma palavra torta. Uma palavra engasgada ou escondida pode destruir tudo. Terra arrasada.

Aconteceu isso comigo nesta semana e ainda estou perplexa. Afinal, sou jornalista. Vivi a minha vida toda. Paguei conta. Comprei casa. Alimentei filho por força e meio do uso insistente e, às vezes, impertinente das palavras. Até hoje a regra vale. Faço palestras. Escrevo. Vendo. Negocio diárias. Foi fazendo isso que me atolei na verborragia. Que naufraguei na gastança de vocábulos. Sim, vou explicar.

Atendi uma cliente, que queria fazer um minievento no próximo feriado, coincidentemente dia do meu aniversário. Achei ótimo. Sempre é bom ter lotação máxima no meio da semana. Começamos a negociar em 29 de setembro. Trocamos mais de 20 emails de lá até anteontem, quando coloquei tudo a perder. Sim, fui eu. Errei sim. Manchei o meu nome, como diz a outra canção. Por que? Porque escrevi demais. Porque tentei explicar demais. Porque quis ser explicitamente gentil.

Em comunicação, existe uma regra terrível. A saber: quem comunica é responsável pela compreensão e entendimento do outro. Se falo ou escrevo algo que não é entendido pelo meu interlocutor, a falha é minha, o erro é meu. A burra sou eu. Fui.

Quis dizer não a um pedido com toda a gentileza que imaginei possível e acabei irritando, ofendendo, destratando (segundo o ponto de vista do outro) a cliente. Tomei uma porretada. Perdi a cliente. Perdi as reservas.

Estou perplexa até agora. Não pelo dinheiro. Não pelo negócio. Apenas pela complicada equação que é trocar, comunicar, interagir com o outro. Por escrito, às vezes, é pior que ao vivo e a cores. As palavras na tela branca não têm tom, volume, suavidade. Ao ser excessiva, volumosa e, talvez, prolixa, fui grossa. Lição dada, lição aprendida. Pois como ensina meu amigo, Claudio Ferreira, a dor de não se fazer compreender fica com a gente.

Menos Claudia, menos. É a segunda vez neste ano que termino um texto com essa recomendação.

 

 

Palavra minha

Matéria, minha criatura, palavra

Que me conduz

Mudo

E que me escreve desatento, palavra

 

 

Obrigada

Hoje é um dia Para agradecer.
Obrigada, Senhor.

Por que agradeço? Porque hoje deu tudo errado no limite de chegar em casa sã e salva.
Estranho? Parece. Não é. Explico.
Quando o dia começa dando tudo errado é exasperador. São sequências mínimas de pequenos episódios que somados vão te deixando louco. É a goteira, que de tanto pingar inunda a sala. Provoca infiltração e curto circuito.
O dia começou a dar errado ontem quando uma pessoa muito querida revelou estar doente. Está aprisionada no quarto escuro de seu inconsciente. Imóvel. Insone. Refém de pesadelos. Terror.

A agonia alheia me atordoou também. Fugi do diálogo. Embarquei para longe. No caminho, muita carga. Na prática, uma tarifa cara pra Uber nenhum reclamar da vida. No guichê da Latam, excesso de peso. No caixa da companhia, preço abusivo. Na fila do quilo, uma atendente chata querendo que eu mude meu lugar na fila. No prato, comida estragada. No embarque, escolha aleatória que me leva à fila para Guantanamo. Sou revistada como se estivesse embarcando para Ebrom. Assédio sexual. “Estamos zelando pela sua segurança”, justifica o guardinha de cabelo esticadinho.

Respiro fundo. Podia ser pior. Podia ser da lavandeira. Poderia ser do lava a jato. Poderiam ser as lavadeiras da Lagoa do Abaeté. Embarco. O senhor grisalho não deixa eu abrir o bagageiro. Começa a gritar que vou estragar a bolsa da mulher dele. Ela é bonitona. Certo ele de defender seu patrimônio. Calo para não enforcá-lo. Durmo para passar o mau humor.

O avião não caiu. Aterrissou sem susto e chego a conclusão que tenho sorte. Que preciso agradecer. Obrigada, senhor.

 

A beleza (e um plano B) na ponta dos dedos

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Conheci a jornalista e publicitária paulistana Beth Klock, 62 anos, na minha antiga encarnação. Ela era uma especialista em coleções de fascículos e produtos colecionáveis. Não éramos amigas. Apenas nos conhecíamos e nos cumprimentávamos com respeito. Um dia, a área de colecionáveis da empresa acabou e ela foi mandada embora. Outro dia, eu fui mandada embora. Um belo dia, vejo um post da Beth no Facebook. Havia um desenho lindo, de flores. Dei um like. Dias depois, dei outros likes para outras coisas lindas que a Beth havia feito. Passou mais um tempo e no Dots (um grupo fechado no FB que reúne pessoas legais que trocam favores e serviços) vi outro trabalho da Beth, dessa vez com uma função decorativa. Acho que era uma bandeja.

Em vias de inaugurar uma loja de arte popular, decoração, objetos e serviços na Bahia, decidi entrar em contato com a Beth para saber se ela não poderia produzir objetos para eu vender. O encontro foi pura sincronicidade. Era o que ela estava precisando. Rápido como quem furta, Beth arrumou outros parceiros, fornecedores, prestadora de serviço e criou uma linha de produtos que inclui porta copos, bandeja, jogo americano, quebra-cabeça, descanso de talheres, quadrinhos para parede e o que mais vier. Acho que vão vender muito bem e novas encomendas virão.

A história de Beth é linda e ela escreve bem pra burro. Por isso, vou reproduzir — com a autorização dela, claro — um texto que ela publicou no site trintaeumas  (http://www.trintaeumas.com.br) . Ela e a história dela são um exemplo e tanto de plano B.

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Bom, primeiro preciso confessar uma coisa: não sou da turma dos “trinta e umas”. Sou da turma dos trinta e muitos – 30 e mais 32, para ser exata.

Tenho 62 anos (se estamos em 2016 é isso, se não, é só fazer a conta), mas ainda me sinto como se tivesse 30 e poucos. Apesar de uma dor ou outra, o corpo já não tão flexível, não tenho do que me queixar. Tanto que me foi permitido compartilhar este espaço com vocês, que são contemporâneos dos meus filhos.

Mas a verdade verdadeira é que nem mesmo com 30 e poucos eu me sinto. Porque há pouco mais de dois ou três anos, inaugurei uma vida nova.

Eu explico: desde criança alfabetizada eu escrevo. Tirava notas boas nas redações, acreditei nos meus professores e fiz disso a minha profissão. Comecei pelos textos curtos, os publicitários. Exercitei também o dom da síntese, ao passar a contar (e vender) uma ideia em parcos 30 ou 15 segundos de um comercial de TV. Depois me esparramei em textos longos, que preenchiam páginas de revistas. Sempre fui boa em cortar, em editar o texto até fazê-lo caber na medida que a tirania dos diretores de arte e diagramadores de então (hoje designers) nos impunham. (Li este texto e fui cortando várias palavrinhas das quais você não sentiu a menor falta).

Mas, num belo dia, antes de completar meus 60, perdi o meu emprego, minha mãe adoeceu, a vida deu uma bela capotada e, sem notar, comecei a pintar. Eu, que nunca tinha desenhado direito nem casinha com fumaça saindo pela chaminé. Sim, porque hoje pinto como criança, com o dedo na tela do tablet.

Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida.

Ainda estou engatinhando, longe de andar com desenvoltura. Achei que seria útil contar isso a vocês, porque um dia, se se cuidarem direitinho e tiverem uma certa dose de sorte, também chegarão aos 30 e tantos! E, quem sabe, também queiram, ou precisem, reaprender a andar.

Infelizmente não tenho receita para passar. Ou será que tenho?

Talvez algumas poucas reflexões.

A primeira é a de fazer tudo o que você tiver de fazer do melhor jeito que conseguir. Faça sempre como se fosse exclusivamente para você. Capriche, se empenhe, veja se não dá para melhorar. Não faça para o chefe ou em troca do dinheiro. Os chefes se vão, o dinheiro também, mas o que você aprender fazendo bem-feito, ah! Isso fica para você para o resto da sua vida. E ninguém te tira!

Outra coisa: experimente fazer coisas que nunca fez antes. Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento, não é mesmo? E, importantíssimo: tire um tempo para não fazer absolutamente nada. Isso! Para ficar bestando, ócio total. Parece que o cérebro precisa disso para “restartar”, eu acho.

Por último, uma coisa que acho beeeem difícil aos 30 e poucos – na verdade, é difícil desde os 12 ou 13: não tenha medo do ridículo, do erro. Não quero dizer com isso que você deva sair azarando por aí, cometendo as maiores barbaridades. Não é isso.

Falo de ousadia responsável. Sustentável (está na moda ainda?). Para falar o que pensa. Para vestir o que gosta. Para não concordar só para agradar o outro. Para experimentar de outro jeito. Para se calar quando todos parecem ter encontrado a verdade absoluta. Para se expor sem receio do juízo alheio. Para cair, engatinhar e voltar a andar.

Obrigada, Beth, por sua linda história. E pelas coisas lindas que você faz.

http://entretenimento.r7.com/hoje-em-dia/videos/internautas-unem-seus-talentos-em-rede-social-e-criam-oportunidades-de-renda-05092016