Relógio, celular e sorvete de chocolate

Captura de Tela 2018-09-27 às 09.30.01.pngMeu relógio quebrou. Relógio de pulso, para o qual olho o dia todo, como um vício . É pesadão e caro. H Stern. Ganhei de presente de aniversário faz anos. Sem ele piro. Almocei e fui procurar um médico. Brincadeira. Fui atrás de um relojoeiro, daqueles antigos, que usam pinça e outras ferramentas exóticas.
Evitei o shopping Iguatemi, porque a grana está curta. Caminhando na avenida Faria Lima entrei em todas as galerias procurando uma lojinha de consertadores de Cuco. Nada. Onde eles habitavam, agora vivem reparadores de celular . Os jovens não usam relógio. Quando precisam ver a hora, consultam o smartphone, me explicou o moço que conserta Sansung, Apple, Motorola e Ching-lingue.
Sai da galeria. Tipo desolada. Tipo saudosa. Considerando o que fazer com minha crescente obsolescência. Atravessei a rua e cheguei à uma banca de revistas que um dia, há quatro anos, cogitei comprar. Mais saudosa ainda, a surpresa. Na lateral da banca brilhava uma plaquinha discreta onde estava escrito: conserta-se relógios. Revista, relógio, obsolescência, saudade. Tudo pertence ao mesmo conjunto.

Eba. Vou consertar, enfim, meu relógio. Seu Jorge foi rápido. Com habilidade de mestre, abriu meu patacão, que apesar de old fashion também funciona a pilha. Olhou, limpou, disse que o material dele era original. Em menos de três minutos, meu relógio contava segundos novamente. Paguei e não resisti à pergunta: “o senhor ainda vende revista ?”.
“Pouco”, ele respondeu. “Elas estão acabando, feito os relógios. Os jovens preferem o celular”. Confirmei com a cabeça e parti. Fui tomar sorvete para aplacar a saudade  e aceitar minha inexorável obsolescência com lambidas de chocolate.

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Tomara que eu tenha razão

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Tem uma música do Chico Buarque, dentre as muitas que amo, que gosto deveras. Diz o refrão:

“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”

Pensei em Meu Caro Amigo enquanto construía o lego do meu texto. Estou longe da cidade onde não existe amor desde o final de junho. Mudei de cor. Não calço sapato há 30 dias. Acordo com o galo cantando e durmo com o uivo dos cachorros. Hoje vai ter festa. Rave animal. A lua cheia está azul. Blue Moon. Como o caro amigo do Chico, sei das coisas porque me escrevem, me contam e, às vezes, fuço na internet. Faz dias que não abro a edição digital da Folha, nem compro a Tarde ou o Correio. Não é falta de interesse, não. É excesso de trabalho.

“É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão.”

A coisa está preta eu sei. Os números são números. As notícias, fatos. Mesmo assim não consigo entoar o coro grego do fim do mundo. Excesso de sol na cabeça? Feitiço da lua? Abuso da cachaça na caipirinha de limão?

“Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão”

Definitivamente, não. Apenas uma percepção de quem está vivendo fora do centro e experimenta a rotina concreta da chuva, do sol, da compra e da venda na Ceasa, do serviço simples de um pequeno estabelecimento turístico. Da venda fiado. Do troco. Da moeda. Da paga diária do pedreiro que faz empreitada. Do pescador que pega o peixe e vende no caminho de casa. Não pretendo provocar nem atiçar economistas, jornalistas econômicos e especialistas em macro e micro economia. A intenção é, apenas, compartilhar uma percepção e uma conversa. Dar a luz a uma visão menos preta. Vamos a ela:

– “Você mora aqui?”, pergunta Renato, visitante, que almoça na Capela e se hospeda em Salvador.
– “Não, moro em São Paulo. Trabalho aqui na temporada”, respondo enquanto limpo a mesa de mármore na varanda frente ao mar.
– “As coisas estão feias por lá. E aqui, como estão?”, ele pergunta, fazendo que não sabe que estamos lotados e que por isso ele não pode se hospedar conosco.
– “Estamos lotados, graças a Deus. Julho foi muito bom. Acho que a alta do dólar nos ajudou”, argumento e tiro os pratos sujos da mesa.
– “Ele subiu pra valer. Mas como você consegue estar lotada no meio da crise?”, indaga, meio indignado com minha versão otimista para a alta das verdinhas.
– “Procuro oferecer um bom serviço e preços justos. Aumento a tarifa uma vez por ano apenas”, explico. “Tenho uma boa equação de custo e benefício”.
– “Mas e a inflação? Como você faz com a inflação?”, ele protesta. Descubro, depois, que é economista e gestor de uma grande empresa.
– “Aqui ela não é o mesmo monstro que ronda por São Paulo. O mercado se autorregula. Se tem muita oferta e pouca procura o preço até abaixa. A melancia, por exemplo, custava R$ 5 em janeiro e segue com o mesmo preço. Idem para o coco. Um real. Se não aumenta lá, estaria sendo desonesta em aumentar cá…”, defendo.
– “Verdade. Mas a gasolina aumentou. A luz aumentou…”, ele diz
– “A gasolina sim. A luz baixou. Estamos economizando com luzes de led e, agora no inverno, as pessoas usam menos ar condicionado”, contraponho.

Um hóspede me chama, peço licença e abandono a conversa sem um ponto final. O tom dela, no entanto, me acompanha há dias. Foi um diálogo nonsense. Eu defendendo a manutenção dos preços a despeito do discurso inflacionário reinante. Ele, cliente, me incitando a deixar a conta dele mais cara. Eu feliz com o resultado do meu mês, que teve crescimento de 40% em relação a 2014. Não voltamos a falar. Ele paga a conta do almoço. Cem reais para dois adultos e uma criança. Preço justo, considerando o lugar e a qualidade da comida. Preço de elite, considerando que na praça da vila um PF com arroz, feijão, salada e peixe sai por R$ 15.

Renato é economista. Se fosse jornalista, talvez, tivesse me jogado contra a parede com a pergunta que não quer calar: “Você tem medo da inflação?” A resposta é: sim. Tenho muito medo. E por isso, talvez, procuro enxergar a chance, a oportunidade, a sacada em meio a possibilidade de voltar a viver daquele jeito doido dos anos 80/90. Tenho tanto medo que talvez esteja perdendo dinheiro porque não quero ser mais um comerciante, mais um empresário, forçando a curva dos aumentos.

Tomara que eu tenha razão. Tomara que em janeiro, o valor da diária que eu vendi hoje faça sentido e que eu possa sentir cantando, com a licença do Chico:

“Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá de novo azul”.

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Quer comprar uma banca?

IMG_2761O senhor Kenji colocou a sua banca à venda. Passa o ponto e a lata, razoavelmente bem cuidada, por R$ 85.000. Se o pagamento for à vista, ele negocia. Não disse quanto. Senhor Kenji descende de japoneses. É sério, fechado, de poucas palavras. O barulho dos ônibus e carros da Faria Lima, avenida nobre de São Paulo, também não ajuda a conversa. Ele fala para dentro e eu me lembro do meu amigo e grande jornalista Sérgio Zális. “Ah, ah?” quando pergunto alguma coisa, quase grudando meu ouvido da boca pequena dele.

Senhor Kenji não conta quanto fatura por mês. Diz que tem duas bancas e pouco tempo para cuidar de ambas, por isso quer vende uma. Esta que esta à venda, só abre de segunda a sexta. Vende cigarros, chicletes, chocolates, alguns gadgets, além dos óbvios jornais, livros e revistas. Ele percebe o meu interesse e pergunta se já tive banca. Respondo que já tive revistas. Ele me olha incrédulo até meu esclarecimento. “Dirigi e fiz muitas revistas, conheço o negócio e sei como funciona a Dinap”. Ele, então, se entusiasma e esboça um sorriso.
“Você pode ganhar mais dinheiro se colocar uma geladeira para vender sorvetes e refrigerantes”, ensina o senhor Kenji, alertando que teria de investir algum para isso. Pergunto se posso vender outras coisas. “Sim, pode vender crédito para celular, alguns eletro eletrônicos”.  Agradeço a ideia e digo que vou pensar. Tiro a foto para registrar o telefone e digo adeus.
Subo na minha Lola e volto a pedalar pensando como seria a minha banca. Primeiro faria uma bela faxina, como ensinava o senhor Icaro da Dinap. Ele era um especialista em bancas e nos tempos áureos fazia rondas na cidade para dar pito nos jornaleiros porcões. Adora sair com ele. Fazia check up do número de vendas das revistas só olhando as pilhas. Nunca errava. Sabia o que era capa boa e capa ruim. Era um gênio.
Na minha banca, depois da faxina, colocaria uma poltrona bem gostosa e colorida para sentar nas horas de pouco movimento e para oferecer aos clientes interessados em um bom lead (para quem não é do ramo, lead é o princípio de uma boa reportagem. Quando bem escrito, seduz o leitor a seguir até o fim). Teria também uma máquina de Nespresso para vender cafés e oferecer mimos aos clientes fiéis e amigos. No fim da tarde, traria um bolo quentinho para que o cheiro saboroso atraísse clientes. Também venderia livros e revistas de colecionador. Faria um minisebo no fundo da banca, dispensando a exibição de revistas ruins. Sempre que estivesse lá trabalhando, aproveitaria o tempo livre para ler matérias dos meus jornais e revistas preferidos. Seria uma espécie ombudswoman aleatória e informal dos meus títulos preferidos. E escreveria histórias, porque estaria todo ouvidos aos clientes interessados em desabafar. Moro perto dessa banca e cheguei em casa antes mesmo de avaliar quanto renderia o aluguel do costado. Esqueci do assunto e segui em um dia cheio de ótimas conversas. Agora pouco, olhando as fotos do dia, lembrei e senti nostalgia. Cantarolei: “o Sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta noticia? Eu vou.
Quem quer comprar uma banca? Quem lê tanta notícia? Quanto fatura o senhor Kenji?