Memórias

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BigBrother chamado WordPress me avisa que, em breve, comemoro três anos de blog. Faz tempo que não escrevo. Estava de férias? Não. Estava escrevendo no computador para imprimir no papel. Mas, pelo jeito, o momento impressão vai demorar um pouco mais. Por isso, para não perder o hábito nem os leitores, decidi voltar a batucar por aqui. Os assuntos são os de sempre, perdoem-me.

Vida. Viagem. Descobertas. Sentimentos (todo e todos). Obsolescência. Patrimônio pessoal. Vergonha e a perda dela. Vulnerabilidade assumida. Lembranças. Aniversários. Coisa de 50+. A minha turma. E sim, muitos, muitos planos B. É meu mantra. É minha vida. É o jeito que entendo poder colaborar com alguém.

Ontem ganhei um presente. Um amigo amado, jovem companheiro de muitas pautas, viagens, fechamentos e histórias, Eduardo Lopes, fez fotos minhas para a nova capa do Vida Sem Crachá. Foi um momento especial. Pelo honra de ser fotografada por ele, meu garoto, que se tornou um grande fotógrafo. Pela felicidade de vê-lo tão bem e tão realizado. Pelo prazer de me ver, três anos depois, tão feliz com minha vida.

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Viajamos no tempo e nos números. Nostálgicos, lembramos que há 20 anos viajamos pela Itália, depois de uma temporada de trabalho no Castelo de CARAS, onde então trabalhávamos. Edu foi comigo e com meu irmão, Pedro, até a cidade de Fiera de Primiero, onde meu bisavô nasceu e de onde ele partiu, menino, no século XIX, para começar vida nova no Brasil. Naqueles dias, passeamos pelas terras dos meus antepassados e revivemos, de carro, o trajeto que eles teriam feito para vir para cá. Quando voltei, escrevi uma reportagem na qual contava a experiência. As fotos, claro, eram do Edu.

Larguei o batuque e fui procurar a memória. Tentar achar a reportagem para poder transcrevê-la aqui. A bagunça não deixou. Mesmo assim, abri o meu baú de couro com tachinhas douradas. Há 40 anos, guardo nele o que me importa. Abri e me perdi. Me encontrei. Me lembrei. Fotos. Bilhetes. Cartas. Poemas. Jornais antigos. Revistas. Recortes. Saudades. Amores. Dores. Alegrias. Muitas. Tristezas. Intensas. Mexendo nos papéis, revivi situações esquecidas e confirmei como sempre fui privilegiada, amada, querida. Li um texto de uma amiga querida que me fez chorar de tanto carinho: “espero que você seja tão feliz quanto faz aos outros. Que tenha a melhor das vidas – é merecida, pedaço, por pedaço. Fique bem. E conte comigo sempre.”  Conto, conto mesmo, com todos vocês.

 

 

 

 

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De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

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A vida pode ser uma estrada, para quem gosta de viajar. Hoje, enquanto dirigia o ducentésimo quilômetro do dia, contava ao meu filho, Chico, que escolhi ser jornalista por três motivos: sonhava mudar o mundo, queria viajar muito e desejava, um dia, ser escritora.

“E o menino com o brilho do sol

Na menina dos olhos

Sorri e estende a mão

Entregando o seu coração

E eu entrego o meu coração”

De volta ao Começo,  Gonzaguinha

A história de hoje é longa. Bem textão. Tem a ver com estrada, viagem e jornalismo. Não terá lead. Será em partes.

Parte 1_agosto de 2014

Há mais ou menos três anos, deixei a grande imprensa. História velha. Todo mundo já sabe que fui demitida do emprego da minha vida. Tinha uma viagem de férias marcada. Fui porque, mesmo desempregada, não perderia a chance de fazer um tour que estava pago. Destino San Francisco, costa Leste, dos Estados Unidos. Foi lá que começa essa nova história.

Parte 2_setembro de 2014

No primeiro dia, eu e Nil, minha companheira de viagem, saímos para passear. Não andamos nem dois quilômetros e demos de cara com uma galeria de arte mexicana. Na vitrine, dois objetos de cerâmica começaram a piscar para nós. Eram uma árvore da vida e uma pilha de cinco cachorros com um galo no alto. Entramos para pedir o preço. Não era barato, mas também não era um absurdo. Agradecemos e resistimos ao impulso inicial de sair com as duas obras nos braços.

No dia seguinte, sem querer querendo, fizemos o mesmo caminho. De novo, árvore e cachorro abanaram e piscaram para nós. Nil, mais audaciosa e ousada do que eu, entrou na galeria e anunciou: são meus. Pagamos e combinamos de buscá-los dali dois dias, quando estaríamos de carro. Feito. Os dois embrulhos gigantes (mal embrulhados) foram para o fundo do carro, onde sofreram os primeiros e únicos danos.

Viajamos mais de 2000 quilômetros chacoalhando pela costa Oeste, Vegas e Gran Canyon. Quando chegamos em Los Angeles, a última escala, percebemos que tínhamos dois trambolhos que não podiam ser despachados na mala. Viramos a cidade atrás de sacolas, que os abrigassem. Ironia. Destino. Foi na loja do Exército da Salvação que encontrei uma sacola usada para entregar antigos layouts de revista que vestia como uma Luca a minha árvore cabia. Os cachorros divididos em dois blocos foram para duas malas de rodinhas, que embarcaram conosco.

Check in e, por milagre de nossa Senhora de Guadalupe, a turma do aeroporto não implicou com o tronco da árvore, pesado e duro o suficiente para atentar contra toda a tripulação da Delta Airlines. Resumo: chegamos em São Paulo vivos e quase inteiros. Na pousada A Capela, em Arembepe, descobri que a orelha do cachorro rosa tinha se quebrado. Antes que conseguisse restaurar, o pedaço se perdeu. Mesmo sem uma orelha, família de cães e árvore da vida trouxeram uma imensa e profunda novidade em nossas vidas.

Parte 3_novembro de 2014

Primeiro, escrevi um texto usando a árvore como ilustração para falar de amizade. Segundo: por serem tão lindos e chamarem tanta atenção, percebemos que deveríamos enfeitar nossa Capela apenas com legítimo artesanato, com obras de arte popular. Começava com aquelas duas obras de um desconhecido senhor Ortega S, que assim assinava as peças, uma paixão, um novo trabalho, uma missão e o prazer pelo pé na estrada.

Parte 4_março de 2015

Sim, porque mesmo sem perceber, mudamos, mudamos e voltamos aos começos que deixamos pela estrada.

Lá estava eu, pesquisando e entrevistando pessoas para descobrir os encantos da arte popular brasileira. Com caminhonete e waze, viajamos pelo interior de Alagoas, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Fomos à feiras, fizemos inúmeras amizades e descobrimos a linda ética de artistas e dos caminhoneiros de carga fracionada. Encomenda-se, paga-se e tudo chega certinho no endereço combinado. Fio de bigode, admiração e confiança. Esta é a lei. Sim, pode demorar seis meses, às vezes o tempo do artista, mas chega.

 

Parte 5_junho de 2016

Com a pousada enfeitada de obras lindas, que nos davam orgulho e distinção, começamos a ouvir de alguns hóspedes a pergunta: “está a venda?”. Sim, estava.

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Sim, assim nasceu a Coisas da Ninoca, a loja conceito que criamos, digo de brincadeira, por dois motivos: entreter os hóspedes nos raros dias de chuva e ter um motivo nobre para sair viajando por aí.  Em novembro, ela faz uma ano. Rende um dinheirinho, um emprego, do eficiente Almir, e um imenso prazer. De volta ao começo, nos permite viajar, ouvir histórias, que depois escrevo ou conto, e mudar o mundo. Sim, mudar o mundo porque ajudamos a girar uma economia criativa, genial e generosa. Pessoas de todas as idades, origens e gêneros, que vivem do seu fazer e do seu incrível talento imaginário. Artistas. Artistas populares. Artistas geniais.

Desde os primeiros pedidos de “está à venda”, combinei com Nil que venderíamos quase tudo porque a ordem era desapego. As exceções seriam o começo de tudo: nossa árvore e nossa pilha de cachorros. Invendáveis. Claro que ambas eram as campeãs de audiência dos pedidos.

 

Parte 6_novembro de 2016

Que tal ir ao México procurar mais árvores da vida e cachorros empilhados?

Parte 7_junho de 2017

Foi o que fizemos no final de junho e aí começa o pedaço mais lindo dessa história. Chegamos achando que íamos aterrisar e dar de cara com dezenas de peças de Ortega S. Afinal, ele era mexicano…. Estupidez picante como o chili do café da manhã. Rodamos, rodamos e nada se parecia com a arte de Ortega S.

Sacudi a poeira do tempo e lembrei dos tempos de repórter missão impossível. Naquela época pré-google, as ordens chegavam assim: “acha fulano” e a gente, muito jovem, não conseguia nem entender direito o nome do fulano. Mas se queria seguir sendo repórter da maior revista do país, dava um jeito o achava. Com uma foto da assinatura do Ortega S comecei a pesquisa no dia 1 de julho. O google México ajudou, foi generoso. Mandou opções que não aparecia em São Paulo. Fui mergulhando, fuçando e achei uma página simples, tosca, com peças – que eram iguais as minhas – um endereço em Jalisco, um email e dois telefones. Tentei tudo. Consegui resposta por email e WhatsApp.

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Gerardo Ortega Lopez, um dos irmãos Ortega, na foto acima com seu filho cadete, me respondeu de início ressabiado. Fomos trocando mensagens e resumi bastante a história. Disse que estava na Cidade do México e que tinha vindo do Brasil comprar peças dele, que queria conhecê-lo e faria qualquer coisa que fosse necessário para viabilizar meu plano. Primeiro ele sugeriu que eu fosse até San Miguel Allende, onde existem peças da família à venda em lojas. Depois, Gerardo percebeu que a minha paixão era verdadeira e sugeriu que eu fosse até Tonalá, direto do atelier deles. O preço seria melhor. A emoção foi maior.

Parte 8_4 de julho de 2017

Acordamos cedo e partimos. Mais de 550 quilômetros. Muitos dólares de pedágio. Poucos dólares de gasolina, comparado com a nossa. Algumas voltas por culpa nossa e do waze. Chegamos à Colônia Santa Cruz de Las Huertas. As ruas eram simples, decoradas com bandeirolas de São João. Na internet, havia visto a foto da casa, pintada de roxo com um galo ao lado da porta. De longe identifiquei e o coração bateu acelerado. Estacionei e na porta me esperava Oscar Ortega López, irmão de Gerardo, que tinha saído para um compromisso.

 

Entramos. O ateliê era igual a dezenas de ateliês que conheci nos últimos dois anos, correndo atrás de arte popular. Zero de luxo. Zero de charme. Zero de glamour. Beleza pura apenas nas peças, em geral, expostas de modo tosco.

Nos fundos da casa, outros membros da família pintavam peças que seriam vendidas em breve. Eu já havia feito uma encomenda a Gerardo, que participará no final de semana de um concurso mexicano de arte popular.

O saber fazer peças lindas está na família há quatro gerações. “Aprendemos criança, de pai para filho”, conta Oscar. “Quem gosta faz, quem não gosta, busca outra profissão.” Eles trabalham em grupo. Olhando ao redor, bairro incluso, é difícil entender de onde vem a inspiração para tanta riqueza e beleza. Sentada no chão com eles, embalando peça a peça, percebi que a inspiração vem da alma deles, colorida, intensa e naif como as cerâmicas que modelam.

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Compramos tudo o que podia ser comprado e que cabia dentro das malas que trouxemos do Brasil. Para fora, de novo, uma árvore da vida e uma pilha de três cachorros e um galo, que ainda vamos decidir como viajam.

Na porta, uma aperto forte de mão e a foto que ilustra esse textão. Oscar também estava orgulhoso e emocionado. Demos então meia volta em direção a Oaxaca, destino das nossas férias.

Na estrada, no papel de copiloto, escrevo uma mensagem para agradecer Gerardo pela recepção e pelas belíssimas obras. A resposta dele foi encantadora, um abraço quente.

“Muchissimas GRACIAS a ti. Nos haces sentir muy muy orgulhosos de que tu vengas de tan lejos, Brasil, a comprar nuestra arte. No se como agradecerte. Suerte siempre para ti y tu negocio.”

Parte 9_6 de julho de 2017

Agradecer.

Como explicar a ele a mudança que o trabalho dele provocou em minha vida?

Como agradecer a altura tudo o que ele e a família dele fizeram por mim?

Como traduzir, no meu espanhol de esquina, o impacto da descoberta desta nova beleza e deste novo trabalho, a pesquisa e o garimpo de arte popular, justo naquele momento em que eu tinha uma janela aberta à minha frente e ainda não sabia que sabia voar?

Como exprimir a minha satisfação de repórter aposentada, apenas pelo fato de ter conseguido encontrá-lo em uma colônia mexicana depois de três anos de buscas fracassadas?

Acho que só tem um jeito. Voltar correndo para o Brasil, fazer uma linda exposição na Ninoca para poder em breve fazer novas encomendas e outras, e outras e outras. De volta ao começo. É assim que deve ser.

E eu entro na roda

E canto as antigas cantigas

De amigo irmão

As canções de amanhecer

Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho

Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito

Com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse que a força

Esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente eu chegasse

Ao fundo do fim

De volta ao começo

Ao fundo do fim

De volta ao começo

 

 

 

 

Sempre rezo por B.C

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Uma das mais lindas histórias de Plano B que já li foi publicada no livro Achei que meu pai fosse Deus, organizado pelo escritor Paul Auster. Uma mulher com as iniciais B.C conta que decidiu mudar de vida na última primavera. Ela tinha 57 anos e chegou à conclusão que não podia esperar mais 8 anos para se aposentar e que não podia mais ser secretaria de advogado por mais oito anos. “Deixei meu emprego, vendi minha casa, a mobília, o carro, dei meu gato para a vizinha e mudei-me para Prescott, Arizona, uma comunidade de 30 mil pessoas, aninhada nas montanhas Bradshaw, com uma boa biblioteca, uma instituição de ensino superior comunitária e uma bela praça central”, conta.

Para viver, ela investiu tudo o que tinha e recebe 315 dólares de juros por mês. É com eles que se propôs a viver. Não depende de ninguém. Se vira com o que a cidade oferece. A biblioteca está conectada à internet. Tem um armário depósito pelo qual pagava 27 dólares/mês e guardava todas as suas coisas. Por 25 dólares, alugava um canto em um jardim de uma casa para colocar sua barraca, sua moradia. Na escola Yavapai College fazia cursos e usava o vestiário e a piscina olímpica. Diariamente, era lá que fazia sua toalete. “Ter uma aparência apresentável é o aspecto mais importante do meu novo estilo de vida”, diz B.C. “Quando vou a biblioteca, minha sala de estar, ninguém pode adivinhar que não tenho um lar.”

Comer barato e de modo nutritivo é o principal desafio de B.C. Ela tem 200 dólares mês para gastar com comida. Fazia muitas refeições no parque, o quintal dela. Comia também no Jack in the box, que à época do texto tinha quatro coisas que custavam 1 dólar. Frequentava galerias em noites de vernissages para ter uma experiência comestível diferente e apreciar arte.

Deixou o cabelo crescer e parou de pintá-lo. Gosta do grisalho. Parou de usar batom e maquiagem. O look natural não custa nada.

“Adoro ir à escola”, diz. Estudou cerâmica, coral e antropologia cultural. “Adoro ler todos os livros que sempre quis e nunca tive tempo suficiente.

Também tenho tempo para não fazer absolutamente nada.”

O texto de B.C, impactante como a liberdade, termina curto. Fala da saudades dos amigos e do gato Simon. E do medo. “Espero sobreviver ao inverno. Disseram-me que Prescott pode ter muita neve e longos períodos de temperaturas glaciais. Não sei o que fazer se ficar doente. Em geral, sou otimista, mas me preocupo. Rezem por mim.”

Este texto foi publicado pela primeira vez em 2001 nos Estados Unidos. Comprei o livro e li no Brasil em 2005. Fui profundamente tocada pelo desejo e pelo plano dela. Procurei-a e não a encontrei. Faz 12 anos que rezo sempre por ela.

LIVRE. VIVE

Tenho mais sapatos do que pés

Tenho mais camisas do que troncos

Tenho mais compromissos do que neurônios

Tenho mais músicas e programas de músicas do que sou capaz de ouvir até morrer

Tenho mais livros do que tempo para lê-los

Tenho mais dispersão do que foco

Tenho menos paciência do que antes

Tenho mais preguiça do que vontade, porque perdi a vergonha de dizer não

Tem um monte de coisa que eu não entendo, não encontro e não mais me importo.

Basta. Me basta. Na boa, tá tudo certo, combinado.

Desencana,  meu amor. Vive. Deixe o tempo resolver. O que tem que acontecer. Livre.

Foi Bethania, quem mandou.

beijo

 

Ex-trangeira

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Sou daqui, mas tenho cara de lá. Moro aqui e lá. Acabei sendo de lugar nenhum e de todos os lugares. Quando não publico fotos, meus amigos escrevem ou ligam perguntando: onde você está? Às vezes, nem eu sei direito. Estou aqui e lá. Gosto de ambos. Hoje, no entanto, me tornei menos estrangeira. O motivo é tolo, quase torpe, mas para mim significou uma daquelas barreiras invisíveis que demoramos tanto, tanto tempo para derrubar porque alguém diz que é ruim, outro avisa que é perigoso, mais um fala que não fica bem.

Hoje desobedeci. Hoje decidi que abandonaria o castelo da princesa e seria aqui como sou lá, comum. Na prática, significou acordar cedo, botar uma roupa comum, esvaziar a carteira, guardar no fundo da mochila o dinheiro, os cartões e o celular. No bolso da calça, o trocado para o ônibus.

Eu sei que é ridículo contar isso. Especialmente porque faz três anos que ando com meu passe único pendurado no pescoço quando estou lá, em São Paulo. Mas aqui na Bahia, eu havia incorporado o arquétipo “princesinha”. Nunca havia encarado o “buzu” para voltar de Salvador para meu quarto em Arembepe. Não havia cumprido o trajeto de todos os dias de quem desce no ponto final e caminha a pé até o serviço. Foi carregando minha mochila nas costas pela rua dos pescadores, que me dei conta de ter ficado menos estrangeira e mais local. Foi arrastando as chinelas pela rua de paralelepípedo paralela ao mar, que senti o quanto gosto daqui e dessa vida de ciclos de natureza e de gente. Gente que chega e gente que vai, como a nuvem, a chuva e eu.

Pronto, falei.

Quem vive de passado é museu

A primeira vez que ouvi a frase do título, senti vontade de ser surda. Me ofendi. Protestei. Adoro museu. Não vivo do passado. Será?

Hoje caminhando pelas ruas de Higienópolis, em São Paulo, onde vivi alguns dos melhores anos da minha vida tive um ataque agudo de nostalgia. Parecia filme francês. As cenas, com efeito blur, que combinavam com o dia azul de outono, foram fazendo cineminha na minha memória. O dia em que a gata Nuit apareceu… O dia em que recebi o telegrama avisando que eu tinha sido escolhida para o curso Abril… O dia que tomei o maior porre do mundo… O dia em que fui pedida em casamento… O dia em que trouxe meu filho bebê para casa…

 Descendo a avenida Angélica, surtei quando não vi o edifício Brasília, de honrada memória, onde morei de 1984 a 1992. Cocei os olhos. Cadê a janela de onde o gato Zanzibar pulou para o telhado? Cadê o terraço, onde Carolina, por tantas vezes sonhei com o futuro? Um prédio novo subiu e escondeu a fachada lateral da minha primeira casa da vida adulta. Contei os andares e fiz contas. 

Meu passado, 52 anos bem vividos anos, já é maior do que provavelmente será o meu futuro. E agora, José? Frente à inexorável realidade, decidi optar pelo modo museu a céu aberto, igual ao da minha querida aldeia hippie. O que isso significa? Significa que pretendo colecionar obras que podem ficar no tempo, que são passíveis de interação e abertas a variadas formas de fruição.

 Posso ser também um museu intinerante e, como tal, carregar meu acervo para outros lugares e outros públicos. Parece bom. Parece desespero de alguém buscando uma desculpa para a dor do envelhecimento. Ambas alternativas valem. Não é fácil descobrir-se “vivido”. O tempo corre e as boas memórias permanecem vividas, como se tivessem acontecido ontem. Fecho os olhos e me vejo jovem. Abro os olhos e procuro os óculos para ler o cardápio da padaria. Meu amigo chega e deixo o devaneio para depois. Preciso decidir se meu Museu abrirá todos os dias ou se ficará fechado às segundas.

Plano P, de procrastinar

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Procrastinar: verbo transitivo direto e intransitivo. Transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.”p. o início das obras”

Esse verbo é a maldição de quem está a procura de uma saída, uma alternativa e, especialmente uma inspiração para a mudança. Não o conhecia até tirar as minhas primeiras férias de verdade da vida. O bichinho hamham da preguiça grudou “ni mim” feito carrapato em lombo de jumento. Não queria sair. Todos os dias, escrevia na agenda. Escrever o livro. Todos os dias encontrava um zilhão de motivos e razões extremamente justificáveis para mudar de planos e deixar para amanhã. E o amanhã, você sabe, é infinito até o dia em que ele encontra o ponto final.

Você está me imaginando deitada na rede da fotografia que ilustra este post, olhando para o mar da Bahia?Nada disso. Não sou dessas. Procrastino trabalhando, loucamente. Tipo levantar da frente do computador para lavar a louça acumulada na pia. Tipo checar se meu filho havia pendurado a toalha do banho. Tipo iniciar uma pesquisa desnecessária sobre um assunto irrelevante. Tipo abrir para rede social para ver o que está rolando e sempre está rolando algo nessa nossa quinquagésima fase da operação caça político safado na Operação Lava Jato.

Hoje, amém, passou. Comecei cedo a cuidar do filho, do cachorro, da casa, dos emails. Abri o computador e a mão obedeceu. Iniciei o batuque. Até a invasão de um suposto vírus, o tal tranjan, tentou me levou ao mal caminho. Fui salva pelo moço da Apple, rápido e eficiente, que instalou um negocinho e ordenou: “senta-te e trabalha, mulher, tem quem queira ler seus textos.”

Obedeci. E fiquei pensando por que cai em tentação? Procrastinar é bom e vicia. Tipo assim comer chocolate em tarde de frio. Atire a primeira pedra, quem não? Não era apenas sexo, drogas e rock and roll. Acho que tinha medo e insegurança na parada. Perguntas silenciosas como: será que vai dar certo? Será que no final a Roberta vai querer editar o livro? Será que com essa crise o livro vai vender? Será que ele vai fazer a diferença?

A parte mimada, vaidosa e diabólica do meu cérebro foi tecendo um crochê de idiotas justificativas para eu não trabalhar e seguir em frente com o meu projeto. Mimada e amolecida pelos doze dias de dolce far niente, fui encontrando motivos razoáveis para seguir  enrolando. Resgatei até uma frase famosa dos meus tempos de redação impressa: “não faça hoje o que pode cair amanhã”. Isso fazia muito sentido na época do papel, quando as páginas eram distribuídas conforme o números de anúncios e a receita da publicação. Hoje em dia, é falsa justificativa para preguiça mesmo. Acelera. Em frente, marche.