De onde vem o amor?

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De onde vem o amor? Como nasce esse sentimento tão indefinido e tão concreto por alguém, lugar, coisa, bicho?

Penso nas duas respostas enquanto sinto um calor gostoso, quase sufocante, passeando no peito. Levo minha mão esquerda ao colo para sentir se há palpitação. O sentimento que me arrebata nesta manhã de quinta-feira e me faz sorrir aquele riso disfarçado de Monalisa não combina com a paisagem cinza do dia molhado. Desde ontem já choveu mais que nos últimos 60 dias, diz a moça da previsão do tempo.

Estou em Arembepe. Arembepe não combina com chuva. Arembepe combina com amor. Por isso, escrevo. Por isso, sorrio. Por isso, sinto esse calor de amor enchendo o peito. Estou feliz por um motivo besta, mas felicidade é assim. Combina com besteira. Hoje Arembepe é tema da capa do jornal Folha de São Paulo!!!!

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Podia fazer a blase e fingir que tanto faz. Não tenho mais idade para isso. Faz muito, importa muito, ajuda muito. Estamos há mais de um ano lutando para tornar Arembepe um destino turístico. Nos reunimos na associação dos comerciantes (ASCARB) semanalmente. Fizemos um trabalho lindo de planejamento estratégico com a ajuda do Sebrae.  Realizamos campanhas de mobilização pela preservação ambiental e contra as invasões em Arembepe. Organizamos eventos para celebrar os 50 anos do movimento hippie, assunto que foi pauta e gancho para a matéria. Batalhamos. Falamos. Sonhamos. Investimos. Lutamos. Ser capa de jornal é um puta motivo para ficar MUITO feliz.

Ser capa de jornal também foi motivo dessa reflexão. Por que sinto tanta alegria e tanto amor? Não nasci em Arembepe. Não tenho parentes aqui. Fiz alguns queridos amigos. Mas os tenho em tantos outros lugares e nenhum me arrebatou tanto. De onde vem o amor? Como ele nasceu? Por que nasceu? Lembro do dia que senti que não conseguiria mais ficar longe daqui. Em prantos, tive certeza de que Arembepe era o meu lugar. O motivo até hoje não sei. Apenas aceitei o destino. Apenas acatei a ordem. E sempre que vou, parto louca de vontade de voltar. De novo, de novo, de novo.

De onde vem o amor?

Ainda não achei a resposta. Mas meu amigo Nestor Amazonas respondeu a resposta dele em versos, por meio de uma “co-criação” linda de Gilberto Gil. Roubo as palavras deles para deixar minha reflexão mais bonita.

De onde vem a paixão?
Vem debaixo do barro do chão.
De onde vêm a esperança, a sustança,
espalhando o verde dos teus olhos pela pelo marzão?
Vêm debaixo do barro do chão.
Que sobe pelo chão
E se transforma em ondas de baião, xaxado e xote
Que balança o cabelo da menina, e quanta alegria!
(Nestor Amazonas plagiando Gil)

 

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Não se afobe, não

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Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

Futuros amantes é uma das músicas que mais gosto dele. Adoro a imagem do amor, entidade concreta, esperando em silêncio, no fundo do armário, no correio, milênios e milênios, até a hora de unir, juntar, apaixonar, novamente ou pela primeira vez, tanto faz. Melhor ainda é a ideia deste amor perdido aqui, que pode, quiçá, servir ali, para outrem. Eles, os futuros amantes, que, amavelmente, irão reciclar o sentimento que, um dia, tive, ganhei, perdi e deixei para você.

Nada é para já. Eu sei. Mas sou afobada, acelerada, alucinada. Sempre que o peito aperta, cantarolo o refrão baixinho, só para mim, para me acalmar, me convencer que vai dar tudo certo, que sempre dá.

Ontem deu. Mais que deu. Ontem eu voltei lá. Feito a sabiá. A convite de um amigo único, ímpar, gentil, generoso, que jamais será suficientemente agradecido e retribuído. Obrigada MFC, outra vez, outra vez e outra vez. Nós, ali, bem na frente dele. Tão perto, que, no começo, fiquei nervosa, tensa. Não podia dar vexame. Não podia exagerar. Sem fotos. Sem arroubos. Olhos nos olhos. Olhos de ardósia. Olhos luminosos e molhados.

Ontem eu voltei as horas para trás. Não teve caravanas, não teve atropelo, não teve gota d’água. Ontem foi só música, lirismo e poesia. Mentira. Estou me contendo com vergonha de parecer uma daquelas loucas que berram no escuro: “lindo, eu te amo Chico.” Ontem foi único. Foi mágico. Foi feliz. Foi arrebatador. Ontem foi todo sentimento. Ontem ainda não acabou. Por isso, não se afobe, não.

 

 

 

 

Qual a lição?

Na semana passada, trabalhei bastante. Foi bacana. Foi legal. Fiquei feliz. Fiquei satisfeita e, bom, ganhei um dinheiro muito decente. Semana espetacular. No sabadão, avião na madrugada rumo à pousada para ajudar em mais um casamento. Na era do pós-emprego, não tem dia para pegar no pesado. Sem crachá e com contas para pagar, a celebração do amor é garantia de receita extra. Novamente, tudo certo. Uma festa linda, com clientes legais, tudo funcionando bem. Durmo tarde. Acordo cedo. Domingo com casa cheia. Churrasco para os noivos. Apresentação para fazer. Contabilidade. Planilha Excell para preencher. Justo.

As primeiras missões do dia eram simples como o alvorecer. Abrir as cortinas do salão para a piscina. Checar lançamentos de consumo. Pegar as chaves e correr para a padaria buscar o pão. Olho para o meu buggy fofo e desisto dele porque o motor é barulhento e podia acordar hóspedes de sono leve. Embarcado na Ranger, um caminhão travestido de caminhonete cabine dupla. Engato a ré. Faz calor. A cabeça dói. A música está alta. Preciso correr para fazer uma …. Ouço um barulho seco. Pam. Breco imediatamente. Olho no retrovisor. Atrás de mim um voyage cinza. Desço correndo. Olho para meu carro/caminhão e nada. Tudo igual. Viro para o voyage e encontro uma porta amassada como se ela fosse feita de papel machê revestido de papel de alumínio. Miséria.

O dono do carro desce a ladeira. Corro pedir desculpas. O carro é alugado. Me ofereço para pagar tudo. A culpa era só minha. Absolutamente minha. Gentil e muito educado, o meu generoso hóspede é cortês. Aceita minha desculpas. Não se exalta. Coloca as malas no carro e parte para o aeroporto a fim de devolver o bólido e embarcar para casa. Promete ligar na segunda.

Hoje, segunda-feira, eu já tinha quase me esquecido do assunto. A mensagem de WhatsApp com DDD de Porto Alegre me lembrou. Claudia, a conta ficou em R$ 1730. Emudeci. Gelei. Abestalhei.

Sim, a Localiza cobrou R$ 1730 pelo conserto da porta. Sem chance de negociação. Sem oportunidade de pedir reembolso para o meu seguro. Sem chance de regatear. Mas o assunto não é a arbitrariedade da locadora de veículos. Isso é assunto para advogados. O tema é entender o porque e buscar uma razão. Por que trabalhei tanto para perder o trabalhado por causa de uma barbeiragem e uma desatenção? O que preciso aprender com isso? Qual a lição? Que aprendizado tiro? Não pode ser algo tão simples como “presta mais atenção quando der ré naquele caminhão”. Ou vai de bicicleta buscar o pão porque é mais saudável e menos arriscado. Ou ainda, para de querer fazer tudo. Dorme mais. Relaxa. Pensa positivo.

O texto é besta. A reflexão pobre. Mas a pergunta fica. Uma hora a resposta chega. Talvez seja hora de eu deixar de ser pão duro. Avara. Mão de vaca. Ou talvez seja hora de parar de trabalhar tanto. Vou pensar. Vou pensar.

 

 

 

A culpa deve ser do sol

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Os primeiros 30 minutos foram lindos. Você lá, todo de preto, mais grisalho que no último encontro, cantando com seu fio de voz os versos e as melodias que mais amo em qualquer idioma, a qualquer hora, em qualquer tempo. Nem ouvi as vozes esganiçadas ao meu redor. Nem dei nota aos gritos histéricos. Não me toquei com o coro fora de hora exigindo o despacho tardio do presidente.  Tudo o que importava era o nosso encontro amoroso, que se repete, religioso, a cada nova caravana. Dessa vez, era para ser ainda mais especial, porque trazia comigo outro Chico, meu curumim, de pai e avô paulistanos, e minha baiana querida, vinha de longe, para compartilhar desse encontro.

Você ainda não tinha cantado:

“É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga”… 

O momento ainda era romântico, doce, lírico, tempo de delicadeza, quando o homem de calça social bege e camisa branca, com listas finas azuis, desferiu o soco. Soco seco, de intensidade média, com punho cerrado. Foi um soco raivoso, irritado, impaciente. Soco de quem não aprendeu a dizer “por favor, será que você pode abaixar o celular que está me atrapalhando”. Soco de quem não gosta de caravana. Soco de quem não pode ser contrariado.

O soco não me atingiu. Estava no meio. Estava com o celular na bolsa, exceção na casa de espetáculos, onde mais de mil mãos tentavam registrar e guardar um pouco de você em seus modernos smartphone. O soco atingiu as costas da minha amiga, que viajou dois mil quilômetros para lhe ver. O soco a deixou irritada e transtornada. O soco me deixou transtornada e enfraquecida. Desliguei de você. Lhe disse adeus e mergulhei na fossa imunda ao meu redor. Depois do soco, à flor da pele, os gritos de “cala a boca-seu idiota, sai da frente-senta seu cretino-cala a boca sua vaca-dá licença-não dou” ficaram mais altos que sua voz.

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará
Não há, não há

Sol
A culpa deve ser do sol que bate na moleira
O sol que estoura as veias

A culpa deve ser do sol. A culpa de ser do Lula, da Marielle, a culpa deve ser sua… Pensei em quebrar uma garrafa e partir para cima do cara. Pensei em fugir correndo da sala. Pensei em pedir socorro. Pedir para você mandar o homem de camisa branca com listas azuis pedir desculpas e prometer nunca mais socar ninguém. Mas depois de outra gritaria coletiva, você disse que, graças aos fones de ouvido, não ouve a balbúrdia. Logo, não ia me ouvir. Sorte sua. Dessa vez, pode cantar Sábia sem ligar para os apupos. Eu não. Ouvi mais um “cala boca seu idiota” e chorei como se tivesse voltado à aquela noite de setembro de 1968. A culpa deve ser do sol.

Verão 18

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A água estava perfeita. Morna. Como a lágrima que escorria do rosto. Primeiro na face direita. Depois na esquerda. Era cedo. Era hora de partir, mas ela não conseguia largar aquele abraço quente. Estava agarrada ao tronco do seu filho como nunca estivera. Ele ia partir, como sempre partia no final do verão por causa da volta às aulas. Daquela vez, no entanto, era diferente. Quem partia não era apenas ele, seu corpo e sua presença. Quem partia junto era uma infância, sua criancice, sua meninice. Ele ia para ser e ficar adulto. Aquele abraço era uma profunda despedida. Aquele abraço era um ponto final. Feliz. Vitorioso. Bem sucedido. Mas era um ponto final. Ponto.

Ela sabia que ele retornaria, retornaria e retornaria outras inúmeras vezes. Seria o mesmo. Seria completamente diferente. Seria dela, como sempre foi. Seria do mundo, como deveria ser. Ela sentia a felicidade da missão cumprida. Sentia, também, a dor advinda da nostalgia do amanhã.

Com afeto e um pouco de agonia, abraçou-o de novo e de novo, como ele fazia e pedia quando era pequeno e gostava de uma brincadeira. De novo, filho. Mais um beijo. Mais um abraço. De novo. No carro, já perto de estacionar no aeroporto, eles se olharam nos olhos outra vez. De novo. Havia amor absoluto. Havia carinho. Havia confiança. Havia saudade.

Sim, eles sabiam que nada seria como antes. De novo.

Benção

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A praia estava quase vazia no final de tarde. Nem quente nem frio. O sol morno como a água. A luz deslumbrante. A caminhada tinha sido despretensiosa. Era apenas para ajudar a descer a moqueca de peixe e camarão. O dendê sempre pesa.

Na frente iam o filho e duas amigas. Ela ficou para trás com o menino, João. Não, não era o mesmo das garrafas de água. Esse era paulista. Filho de uma hóspede. A conversa era sobre o futuro. Como seria o Pirui daqui a 120 anos. 2029, quando João teria 129. Ela escapou da conversa quando o menino correu para pular uma onda. Foi por um segundo, tempo suficiente para ela sentir e entender o significado da palavra benção.

Aquilo tudo, que incluía o jogo das nuvens refletidas no chão molhado de areia eram benção. Com ou sem mérito, não importa. Era benção. E ela entendeu que era dela, que podia se apropriar daquele sentimento legítimo de satisfação, calma, prazer, acolhimento, amplitude, infinitude, pequeneza, simplicidade, riqueza e pobreza. Era tudo dela. Porque, enfim, ela entendia. Porque, enfim, sentia.  Porque, enfim, bastava.

O menino seguiu brincando com as ondas. Ela seguiu caminhando.

 

Samba da Benção, por Vinícius de Moraes

 

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

 

 

Cinco anos

No dia 20 de dezembro de 2012, a pousada A Capela abriu seu portão elétrico, pesado, de madeira, pela primeira vez para receber hóspedes. Eram 20 pessoas. Ocuparam todos os oito apartamentos que tínhamos à época. Chegaram ao Pirui, praia linda da mítica Arembepe, trazidos pelo empresário baiano Xuxa, que fora contratado para produzir o evento de lançamento da pedra fundamental da planta da Jac Motors em Camaçari. Não vi nem conheci ninguém. Foi Nil Pereira, minha sócia, quem atendeu os primeiros clientes. Começou com pé direito, fazendo tudo com sua costumeira e famosa eficiência.

A Jac nunca abriu suas portas por aqui. Mudou de ideia e de Estado. Nós, felizmente, nunca mais fechamos as nossas portas. O portão pesado de madeira abre e fecha o dia todo. Às vezes, com tanta frequência que, o coitado, cansa e pifa.

São cinco anos e 1820 dias, totalizando milhares de diárias. Hoje são 17 apartamentos, que hospedaram clientes em mais de 80 casamentos realizados na frente da capela ou do mar. São mais de cinco dúzias de festas de aniversários, que fizeram com que o sentimento de alegria e prazer sempre estivesse entre novos.

Melhor do que as festas foram os novos e profundos amigos, feitos em meio à conversas na praia, no bar e no restaurante. Em cinco anos, colecionamos e vivemos histórias incríveis, incluso nelas meia dúzia de perrengues sérios, muito, muito aprendizado e um absurdo prazer solidificado na certeza de que nascemos para fazer isso. Servir é o meu maior talento.

Há cinco anos, eu e Nil éramos profissionais felizes e realizadas. Eu, em particular, não era capaz de imaginar, prever, supor, inventar o futuro que o destino me ofereceu. Não era capaz avaliar o tamanho da mudança de alma e de vida que a curva da vida me proporcionaria.

Há cinco anos, no entanto, tinha certeza de que o projeto Pousada A Capela tinha princípios e metas muito claros. Este ano, fazendo o nosso planejamento estratégico com o Sebrae, viajei no tempo para frente e para trás ao escrever:

MISSÃO: Hospedar, receber e servir com qualidade, eficiência e pessoalidade e aconchego, fazendo com que o nosso hospede sinta-se como se estivesse em casa porem cercado de mimos e pequenas  mordomias.

VISÃO: Conquistar um numero sustentável de hospedes fieis que  para manter uma taxa de ocupação estável que nos garanta um faturamento necessário para garantir a qualidade do nossos serviço  e proporcionar uma rentabilidade estável. 

VALORES: gentileza, hospitalidade, generosidade, eficiência e compromisso com a realização com sonho de férias do nosso hóspede

Parece conversa para boi dormir, eu sei. Mas não é. É tudo verdade. Só a verdade, nua e crua, explica o que aconteceu conosco. Uma pousadinha simples e despretenciosa, em uma praia fora do circuito, com fama de hiponga e popular, atrair tanta gente legal e bacana sem qualquer megainvestimento de marketing? De onde? Como? Por que?

Foi assim desde nosso primeiro Réveillon, recheado de amigos queridos do peito e de amigos de amigos vindos do circuito Trancoso/Copacabana Palace. Foi assim com a chegada do norte-americano Johannes, que pediu um nono apartamento para uma estadia de cinco meses. Não, ainda não estávamos no Booking. Foi o SEO bem feito e a sorte que colocou nosso querido gringo frente ao link pousadaacapela.com.br.

Foi a oportunidade que nos colocou frente à possibilidade de realizar casamentos e fazer parte da história de amor de uma centena de casais. Sim, a casa tinha uma capela feito pelo senhor Osório para mostrar seu amor por dona Lúcia — sim, o nosso Taj Mahal. Percebemos que era possível celebrar depois do pedido de empréstimo da Vanessa e do Jean. A celebração foi linda e a pousada ainda nem pronta estava. Depois foi a que pediu para casar sua sobrinha aqui. Um viu, outro contou, as fotos rodaram e chegaram mais um, mais outro e temos casamentos na agenda até 2019, garantindo vida longa e estabilidade para o nosso negócio. O dinheiro é fundamental. Mais importante para o conjunto da obra, é ter ciência que celebramos o amor e mobilizamos famílias e sentimentos. Temos muita gratidão por isso. Temos muita responsabilidade também.

No verão, há cinco anos, chegaram também as primeiras crianças. Os filhos da Dani Folonni foram nossas cobaias. Gostaram e, por força do trabalho e da generosidade da mãe, a Dani, que falou de nossa pousada em seu poderoso site itmae, abriram uma portaria de brincadeiras, jogos e corre-corres. Somos, modéstia a parte, craques em bebês e criançada.

Todos os dias, lembro do João, ainda trôpego, balbuciando com suas cinco sílabas o pedido para eu ligar o ventilador. Assim como não consigo apagar da memória o lindo encontro do jovem casal paulistano com a médium mineira. Juntos, dentro de uma poça de água do mar, nas piscinas aqui na frente, acalmar a filhota pequena, que chorava intermitentemente. Como esquecer, então, do sorriso de felicidade do casal jovem, pai de dois filhos pequenos e terríveis, que experimentaram aqui, depois de quase quatro anos de casamento, o prazer de bater papo, beliscar e bebericar do jeito que os adultos fazem.

Enquanto escrevo revejo minha missão. O que publiquei acima não está errado. A síntese, no entanto,  é mais clara e bem simples. Gosto de fazer os outros felizes. Como?

Com singelezas. Tipo uma cama gostosa forrada com lençol limpo. Um enfeite novo na estante branca. Um prato de comida quente e bom. Um travesseiro adequado ao pescoço.  Com o empréstimo do meu buggy para levar a garotada até o projeto Tamar e aldeia hippie. Um presente para aquele amigo especial. Um papo furado no fim de tarde. Com um brinde com prosecco honesto, quando a luz acabava e ainda não tínhamos gerador. Com pequenos mimos e agrados. Com um pedido de desculpas quando pisamos na bola. Com um desejo de bom dia vindo do coração. Com uma oração para Santa Clara para fazer sol no feriado e para não chover durante o casamento. Com um bom dia e uma oferta de ajuda.

São coisas miúdas e bobas. Várias delas não são mais do que a minha obrigação. Mas cinco anos depois sei que fazem a diferença. Na minha vida principalmente. Obrigada a todos que fazem parte desses cinco anos. Que venham mais cinco.