Fazer a mala

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Abro a mala sobre o sofá e uma luz se acende. Paro tudo e reparo nela. Perdoem-me se parece estúpido ou ridículo, para mim é muito, muito relevante. Estou em estado de quase férias. Viajo segunda-feira, 8, depois de cinco meses de trabalho muito intenso. 7 por 24, sem qualquer exagero. Pela primeira vez desde 1987, faço uma mala com quatro dias de antecedência. Isso significa que pela primeira vez em 30 anos, tenho controle sobre o meu tempo e o meu desejo. Pude decidir e escolher deixar os textos que estou escrevendo para depois e focar nas roupas, nos sapatos, nos remédios e objetos que quero levar para o meu passeio.

É uma bobagem, eu sei. Tem gente que, inclusive, paga para outrem fazer esse serviço. Mas para mim está sendo importante. Parei para escrever porque queria deixar registrado na minha história, esse momento de enorme alegria e felicidade. De liberdade. De privilégio. De poder. De vitória.

Até já. Minha mala me espera.

Ideia de jerico

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Encontrei o texto abaixo na timeline de um amigo. Reproduzo na íntegra porque vale e faço uma reflexão/ideia de jerico no final. Acho que vale porque tudo o que é de jerico é bom.

 

Meu amigo escreveu o seguinte:

1) O Mp3 faliu as gravadoras;
2) O Netflix faliu as locadoras;
3) O Booking complicou as agências de turismo;
4) O Google faliu a Listel, Páginas Amarelas e as enciclopédias;
5) O Airbnb está complicando os hotéis;
6) O Whatsapp está complicando as operadoras de telefonia;
7) As mídias sociais estão complicando os veículos de comunicação;
8) O Uber está complicando os taxistas;
9) A OLX acabou com os classificados de jornal;
10) O celular acabou com as revelações fotográficas e com as câmeras amadoras;
11) O Zip Car está complicando as locadoras de veículos;
12) A Tesla está complicando a vida das montadoras de automóveis;
13) O email e a má gestão complicou os Correios;
14) O Waze acabou com o GPS;
15) O 5 andar está acabando com as imobiliárias que intermediam aluguéis;
16) O Original e o Nubank ameaçam o sistema bancário tradicional;
17) A “nuvem” complicou a vida dos “pen drive”;
18) O youtube complica a vida das tvs. Adolescentes não assistem mais canais abertos;
19) O Facebook complicou a vida dos portais de conteúdo;
20) O Marketing de Rede mudou a forma de comércio;
21) Tinder e similares complicando baladas e “similares”;

E você quer viver como vivia há 10 anos atrás? Você ainda quer viver com os “direitos” trabalhistas que saem do seu próprio bolso, como se vive desde 1940?

 

Verdade, mano.

22) Com o fim da CLT, chegou o uber profissões.  Precisa de um médico? Chame o Uberdoutor mais perto da sua dor. Precisa de um construtor? Uber engenharia de obra feita. Precisa de um dentista? Ubertiradentes. Precisa de um professor? Uberpapaisabetudo. Como paga? Por minuto de consulta. Aceita-se cartão de crédito, em três parcelas. Atende-se em domicílio, na rua, no carro, no café, no coworking.

Topa?

 

Como eu trabalho – entrevista

Como trabalha Claudia Giudice

Claudia Giudice é empresária, jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade São Paulo e autora do livro A Vida Sem Crachá.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Começo o dia cedo. Durmo de janela aberta e acordo com a luz. Tenho uma rotina que muda conforme o lugar que estou, São Paulo, Arembepe ou Salvador.

Em São Paulo, levanto para ajudar meu filho a ir para a escola. Depois passeio com o cachorro pelas ruas do bairro, tomo café e começo a trabalhar. Faço uma agenda de trabalho com tarefas para concluir. Sempre.

Na Bahia, acordo, checo as reservas, reabro o sistema operacional e vou à vila de bicicleta buscar o pão fresco. Ajudo a arrumar o café da manhã dos hóspedes. Sirvo. Dou uma geral. Quando acalma, vou tocar minhas outras tarefas.

Como você administra o seu tempo? Você prefere ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo?

Toco vários projetos e trabalhos ao mesmo tempo. Cuidar da pousada, cuidar da loja de arte popular, Coisas da Ninoca, cuidar da rede social, cuidar do blog, escrever o próximo livro sobre Plano B e tocar o projeto do museu a céu aberto na aldeia hippie de Arembepe. Preciso aprender a trabalhar menos. Risos.

Como é sua relação com a tecnologia? O e-mail tem interrompido sua vida produtiva? Que ferramentas você usa para se manter organizada?

O e-mail é uma das minhas principais ferramentas de trabalho. Faço as reservas da minha pousada por e-mail. Uso e-mail, WhatsApp, redes sociais. Para me organizar, uso minha agenda de papel com listas de coisas para fazer escritas à mão, como antigamente.

Como costuma ser o seu local de trabalho? Você precisa de silêncio e um ambiente em particular para trabalhar?

Trabalho em casa quando estou em São Paulo. Mas posso trabalhar em qualquer lugar. Não preciso de silêncio. Na Bahia, trabalho na recepção, na varanda, na frente do mar, em qualquer lugar. Gosto de trabalhar também no clube, em cafés e se for preciso até dentro do carro.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?

As minhas ideias surgem de conversas, leituras e situações do cotidiano. Gosto muito de andar ou pedalar pensando na vida e nos meus projetos. São situações que me ajudam a criar. Tomar banho de chuveiro ou de mar também ajudam as ideias.

Como você lida com bloqueios criativos, como o perfeccionismo, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Eu começo a fazer. O livro que estou escrevendo, por exemplo, começou a ser escrito como uma colcha de retalhos. Vou fazendo e a angústia diminui. Depois, vou arrumando, mudando, mexendo, editando. Não sou perfeccionista. Sou adepta do “bom o suficiente”. Vou fazendo, fazendo e os pontos vão se ligando. Uma das vantagens da idade é perder a vergonha de errar. Saber da própria vulnerabilidade. Entender que o erro e o fracasso são maiores que o sucesso. Raro é dar certo.

Você desenvolveu técnicas para lidar com a procrastinação? Que conselhos sobre produtividade não funcionaram para você?

Detesto a procrastinação. Ela sim, me paralisa. Preciso fazer, acabar logo, para me sentir livre, feliz, em paz. Por isso, tenho dificuldades de lidar com a preguiça. Por isso, também, trabalho mais do que quero e preciso.

Qual é o livro que mais mudou a sua vida e por quê? O que você considera inspirador ler ou aprender sem que lhe peçam ou esperem isso de você?

São tantos os livros que mudaram a minha vida em diferentes momentos dela. Adoro literatura. Adoro poesia. Adoro biografia. Mas acho que o livro que mudou a minha vida foi o meu, A vida sem crachá, porque depois que eu o fiz perdi a vergonha de me expor e me arriscar.

Que conselho você queria ter ouvido aos vinte anos? Com o que você sabe hoje, se tivesse que começar novamente, o que você faria de diferente?

Acho que gostaria de ter ouvido que eu poderia encarar a vida de modo mais leve e relaxado e aproveitar mais as situações espetaculares que vivi. Mas confesso que tive grandes mestres e ouvi muitos conselhos fundamentais. Não sei o que faria diferente. Fui muito feliz a vida toda e mesmo os momentos de dor e sofrimento foram muito importantes para eu chegar até aqui. Não abro mão deles. Talvez eu apenas teria relaxado um pouco mais e evitado algumas crises lombares.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

O meu projeto para 2020 será um sabático/volta ao mundo. Não chego a contar os dias, mas ficarei feliz quando a data chegar. Sobre livros, gostaria de ter mais tempo para ler muitos que ainda não consegui ler.

Gratidão

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Gratidão é tipo gentileza. Brota. Brota por geração espontânea. Quanto mais gratidão, mais gratidão. Quanto mais gentileza, mais gentileza. Hoje eu ganhei uma montanha de gratidão. Hoje eu preciso devolver um Everest de gratidão.

Me reuni com uma amiga e colega querida. Já escrevi sobre ela aqui no blog para falar sobre a melhor entrevista de emprego que já fiz. O motivo do encontro – além de matar a permanente saudade – foi falar do projeto de um livro sobre Plano B (sim, agora vai sair). Conversa vai, conversa vem, acertamos tudo. Prazo, modelo, formato. Já estava me levantando para ir embora quando ela, sempre ela, me derrubou no chão com uma dose cavalar de emoção.

— “Preciso te dar uma coisa”, disse esticando para mim um envelope pardo, tamanho meio sulfite. “Demorou, mas estou te devolvendo o dinheiro que você me emprestou quando eu fui roubada e fiquei sem grana para pagar o aluguel. Tem juros, que calculei no site do Banco do Brasil, e tem minha imensa gratidão”, acrescentou. No cheque, o bilhete que reproduzo acima. Nos olhos, uma gratidão que afirmo não merecer afinal nem me lembrava do empréstimo. No peito, senti uma emoção e uma gratidão enormes por ela ser quem é, por ter o privilégio de privar da amizade dela e me fazer lembrar da gratidão que devo a centenas, quiçá milhares, de pessoas que foram sempre tão generosas e carinhosas comigo.

Enquanto eu a abraçava para agradecer pelo gesto tão nobre, lembrei de muita gente que fez muita diferença na minha vida da mesma forma que Roberta diz que fiz na dela. Acho que não demonstrei, à altura, minha gratidão e graças ao encontro de hoje, terei tempo e pressa de fazê-lo. A minha lista é um abecedário. Começa com meus pais e, se Deus quiser, só termina no cemitério. Um fio de nomes, como aquela canção, Gente, do Caetano. Amigos, me aguardem.

Roberta, você é a segunda da fila. Minha gratidão pelo carinho e pela oportunidade de fazer esse projeto tão bacana com você. Já estou trabalhando. #PlanoB#100 lições de gente que mudou de vida. #100 lições que mudam a vida da gente.

 

O exemplo extraordinário de Mário Gomes

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Hambúrguer com batata frita na beira da praia, com direito a violão, foto com 0 artista empreendedor e notícia no jornal. O ator carioca Mario Gomes, 64 anos, atualmente sem contrato com a Globo e à espera do retorno às gravações da terceira temporada de “Magnífica 70”, do canal HBO, deu um exemplo extraordinário de que sempre é tempo e hora de buscar um plano B. O dele é singelo. Com o filho de dez anos, montou uma carrocinha de madeira e roda de bicicleta para vender lanches em uma praia badalada na zona oeste do Rio de Janeiro. “Estou fazendo um teste para ver se vale a pena investir em um food truck”, declarou o ex-galã das novelas  das 8.

Sem vergonha de assumir que a vida está difícil para ele e para outros 12 milhões de brasileiros, foi à luta com dignidade e peito cheio. Mário Gomes ainda não consolidou a clientela. “Fico bebendo minha cachaça e vendo esse visual da praia”, declarou ao jornal. Para faturar mais um, decidiu alugar sua casa para festas e eventos. “Minha carreira de ator não acabou, muito ao contrário. Faço o seriado, darei aulas no polo de cinema e video sobre como ter o seu próprio canal no youtube e tenho um trabalho voluntário no Retiro dos Artistas”, contou. Como dinheiro não cai do céu e ainda tem filho pequeno para sustentar, está correndo atrás de alternativas de ganhar um dinheiro extra.

A história se espalhou feito raio nas redes sociais. Gente parabenizando. Gente esculhambando. Os colegas de profissão, ambulantes de praia, foram solidários. “A praia é como coração de mãe, sempre cabe mais um”, diz Livia Teixeira que vende quentinhas. O problema apenas é o final do verão, que derruba o movimento, alerta a moça.

Mario Gomes é guerreiro. Gomes sabe se reinventar. No auge na fama, quando fazia par romântico com Bety Faria em uma das novela de estrondoso sucesso, foi vítima de calúnia, difamação e armação montada por um chefão da Globo. O poderoso ficou com dor de corno porque a atriz estava enlevada pelo jovem bonitão. Com muitos casamentos na biografia e quatro filhos, está longe de se aposentar. Está distante de poder viver de papo pro ar. Corajoso e digno, foi à luta. Tomara que dê certo e a carrocinha vire um Food Truck.

Se estivesse em uma situação como a dele, precisando de dinheiro, o que você faria? Já pensou qual seria o seu plano B? Qual talento você tem? Qual patrimônio pessoal seu pode abrir portas em uma outra atividade? O carnaval acabou, pode ser uma boa hora de pensar nisso. Inspire-se no Mário.

Bravo e palmas para ele.

A alegria de ser o Inocente

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Hoje acabou oficialmente o meu verão. Voltei à minha casa de São Paulo e retorno à ponte-aérea Sampa-Aremba, a vida que escolhi para mim e para os meus. Hoje é dia de pagar as contas atrasadas. Arrumar os papéis. Planejar os próximos meses. Estabelecer as metas. Se inscrever nos cursos. Fazer as contas de 2016. Fazer a avaliação do melhor verão de nossas vidas. Hora de voltar a estudar e a escrever.

Estou empacada. Só vou conseguir seguir em frente depois de cuspir este post. Faz dois dias que eu o escrevo e rescrevo mentalmente. Só vou sossegar depois de apertar o botão “publicar”.

Trata-se da minha homenagem tardia ao arquétipo do Inocente. Trata-se da minha assunção, da minha redenção a este modelo que define minha alma, que traduz meu jeito de ser e que por anos à fio mantive guardado, escondido dentro do armário, como se fosse um desvio, uma fraqueza, uma veleidade.

Vamos explicar.

Na vida, em geral, e no mundo corporativo, em particular, assumimos comportamentos e posturas. Alguns são absolutamente legítimos e naturais. Outros são forjados à ferro e fogo, porque são necessários segundo os padrões de comportamento vigentes nas companhias. Assim, segundo algumas cartilhas, quem é líder tem de ser corajoso, ousado, crítico, inteligente, poderoso. Certo? Eu achava que sim e me esforçava para sê-lo. Me esforcei tanto que achei que enganava todo mundo. Nos testes, dinâmicas e coaches aparecia como “trator”, “fodástica”, “pitbull”, “touro indomável”. Sentia certo orgulho. Sentia desconforto. Na hora H, não era eu. Na hora H, tinha que fazer um esforço hercúleo para produzir a maldade e a pressão que esperavam de mim. Amigos queridos dizem que não era boa intérprete. Duplamente tola.

Os anos passaram. Não fiz mais coach. Deixei a análise, mas continuei refletindo e pensando em mim e no meu lugar nesta estrada sem porteira. E não é que neste final de semana, o último do melhor verão da minha nova vida, tive um insight-revelação após uma conversa, literalmente, ao pé do bar e depois de fazer um teste comportamental que circula no Facebook.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

Na conversa ao pé do bar, descobri que sou crédula até a medula. Que tenho fé. Que apesar dos fatos, sempre acho que a má conduta poderia ter uma justificativa nobre.

Na conversa ao pé do bar, me espantei ao descobrir características e comportamentos repulsivos em pessoas que julgava justas, leais, honestas e amigas. A conversa, curiosamente, foi elucidativa, surpreendente e sem sofrimento. Entendi, intuitivamente, porque fazia tanto tempo que não cruzava com aqueles personagens pelo caminho. Porque eu sempre adiava o telefonema para marcar um café. Santa procrastinação.

Mudando de cenário e continuando no assunto, no FB, tive a felicidade de clicar em um post da minha amiga Vera Lígia. Ela compartilhou um teste  bacana baseado no livro “O herói e o fora-da-lei. Como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos” das autoras Margaret Mark e Carol Pearson. O exercício de múltipla escolha veio à tona, suponho, por conta da declaração do Marcelo Odebrecht, que se definiu como o “bobo da corte” na miséria do Petrolão. Fiz o teste como quem se confessa com Deus. Não fiz finta. Dei adeus aos fingimentos. Não coloquei banca. Fui honesta como quem faz uma delação premiada consigo mesmo.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

O resultado do teste vocês já sabem. Apareceu ali, em letras garrafais, que faço parte do time dos Inocentes. Eu? Eu? Eu? Sim. Com um indescritível e absoluto orgulho, agora que posso ser quem sou, porque sou livre, livre.

Quem é o Inocente?

Segundo Margaret e Carol quando o “Inocente”está ativo em uma pessoa, ela é atraída para a certeza, para ideias positivas e esperançosas, para imagens simples e nostálgicas, para  a promessa de resgate e redenção. O inocente é um otimista, que busca o paraíso, que deseja a Pasárgada. Este arquétipo gosta de coisas previsíveis e não gosta muito do baile da mudança. Por isso, ele é leal às marcas, organizações e pessoas que cumprem suas promessas e se baseiam em valores perenes e duradouros. O inocente luta pelo bem. Não sabe viver sem uma causa. Adora carregar bandeiras. Participar de grandes marchas. É o tipo que sobe feliz ao Everest para buscar algo importante que foi lá esquecido pelo líder que ele tanto admira.

O Inocente, vejam que legal, é capaz de abandonar uma cultura de alta pressão, focada no sucesso, para perseguir a alegria de uma vida simples. Sim, sim, sim!!!! Como Narciso, fui me apaixonando pelo cara e lendo, lendo, lendo…

O lema do Inocente é básico: “somos livres para ser você e eu”. Objetivo: ser feliz, seja lá o que isso seja. Maior medo? Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado. Caramba! Como elas sabem tudo isso sobre mim? Estratégia? Fazer as coisas certas para não tomar bronca porque deu ruim. Tão óbvio…Franqueza do inocente? Ficar chato por toda a sua inocência ingênua neste mundo cheio de maldosos, maldades e sacanices e safadices. Quando li isso, confesso, corei. Odeio chatice. Prometo ser mázinha, de vez em quando.

Qual é o maior talento do Inocente? Fé e otimismo. Por tudo isso, o Inocente também é conhecido como utópico, tradicionalista, ingênuo, místico, santo, romântico e sonhador. Segura, que é tua. E para a confissão ser completa, vou contar que o Inocente, na literatura, segundo a análise dos arquétipos, é identificado com o personagem do Pequeno Príncipe, aquele das misses, que afirma que somos responsáveis pelo que cativamos. Quer saber? Dou fé e subscrevo.

Feliz 2017 para mim e para todos nós. E vamos cuidar de estudar novos planos B para os próximos 30 anos. Sou Inocente, mas não sou boba.

 

 

 

 

Um plano B para chegar aos 70

Tenho o defeito de pensar demais. A cabeça para pouco. Está sempre pensando. No banho, na piscina, no mar, enquanto pedalo, enquanto dirijo o carro. Basta estar só e lá estou eu no gerúndio: refletindo,  planejando e “euloucubrando” (um jeito doce de assumir a loucura mansa). Dessa vez a reflexão surgiu durante uma leitura. Anos 70. Enquanto corria a barca, da jornalista Lucy Dias. Cheguei no livro porque estou estudando a contracultura, especialmente no Brasil, especialmente nos anos 70, especialmente em Arembepe, na Bahia. O livro fala muito do mestre, guru e pesquisador e protagonista do assunto, Luiz Carlos Maciel, que foi dono e autor de uma coluna sobre o tema no jornal Pasquim, nos anos 70. Curiosa, fui ao google saber do Maciel. Wikipidia me contou que ele está vivíssimo, com 78 anos. Outro link, de 2015, me levou a uma reportagem do site GGN na qual o jornalista confessava estar sem trabalho, com a grana curta, muito disposto a prestar serviços naquilo que sabe e domina. “Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel.”

Maciel tem um currículo extraordinário, uma história de vida espetacular e inúmeros amigos relevantes para a cultura e história do país. A necessidade de alguém como ele fazer um apelo deste gênero — que eu pessoalmente desconhecia — me fez mergulhar em um túnel reflexivo. Em qual página do nosso manual de instruções deveria estar escrito que precisamos de um plano B para encarar a vida pós-70 anos?  É piada, claro, porque Deus desistiu de escrever esse manual no sábado à noite e no domingo descansou. Na juventude, os baby boomers e filhos da geração X jamais sonharam com a hipótese de viver mais do que 70 anos com corpinho de 60 e cabeça de 30. Logo, ninguém pensou no assunto. Não tem manual, não tem receita e sobreviver depois dos 70 é um big deal para todos os que não estão na lista da Forbes.

Sim, estou falando de grana. O primeiro objetivo do plano B é ter dinheiro para viver com dignidade, considerando:

  1. a dificuldade de se aposentar na previdência pública no Brasil;
  2. a baixa adesão à previdência privada do time dos BB e X
  3. a baixa renda em tempos de crise
  4. a rara oportunidade de empregos

Não, não estou falando só de grana. Afinal, quem viveu 78 anos – e não precisa ser alguém com a biografia do Maciel – não quer só dinheiro, quer felicidade. Não quer só comida, quer bebida, diversão e balé. Como é que faz? Como é que se prepara? Como se equipa?  É possível transformar o eclipse no melhor instante da vida? É sensato sonhar com isso?

Eu não tenho as respostas ainda, mas uma rápida pesquisa no pai dos burros, dr. Google, garante que sim. Pesquisas de universidades de Estocolmo, Suécia, e Boston, nos Estados Unidos, repetem o óbvio, aquele senhor tão sábio e bonito. O segredo é fazer exercícios e ficar em forma, comer comida boa, beber sem pisar na jaca, ter muitos, muitos amigos para fazer companhia e farra e, principalmente, não perder o hábito de se sentir jovem.

Tudo muito bom, tudo muito bem e crível. Sim, acredito nisso. Mas como é que se faz? Como manter a fleuma e força de vontade? Como manter o desejo de seguir sempre em frente? Como vencer a preguiça? Como vencer o tédio? Como pensar em projetos para preencher as vontades, sonhos e necessidades? Como saber a hora de parar de trabalhar? O que fazer depois de parar de trabalhar? Como criar uma nova rotina? Como tornar esse pedaço da vida tão legal e divertido quanto os anteriores?

Se encontrar alguma resposta, juro compartilhar no próximo capítulo. Deixo vocês com a canção do Caetano, que odeia envelhecer, mas canta que o “homem é o rei dos animais”. Verdade, verdade.