Doutor sem vocação

Boa noite.

Boa noite, doutor.

Cadê sua filha?

Saiu. Foi até a casa dela descansar.

É muito sério.

O que?, pergunta a interlocutora, com a testa franzida e o olho arregalado por trás dos óculos de lente anti-reflexo varilux. Ela tem 75 anos. Conheceu médicos para parir e tirar um Diu perdido no corpo. Olha no relógio. 23 horas. Será que é sonho?

O que é?

O que você tem?

O que eu tenho?

Intestino.

Todo mundo tem intestino.

Intestino. Vi algo no intestino.

Mas estou sangrando pela vagina.

Eu vi no intestino.

Pólipo?

Mais grave. Mais urgente.

O que?

silêncio

silêncio

Fiquei surda? Será que fiquei surda? Será que é pesadelo?

O doutor sai do quarto. É quase meia noite. A noite é escura. A noite é longa. O medo é gigante.

/Esse blog nasceu porque precisava narrar as minhas emoções. Esse blog segue sendo escrito porque preciso e gosto de contar minhas histórias. O momento é de forte emoção. Envolve mãe. Todo homem precisa de uma mãe, diz a canção. Toda mulher também. Depois conto o que há.  Por enquanto, só posso vomitar o que aconteceu.

 

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Qual a lição?

Na semana passada, trabalhei bastante. Foi bacana. Foi legal. Fiquei feliz. Fiquei satisfeita e, bom, ganhei um dinheiro muito decente. Semana espetacular. No sabadão, avião na madrugada rumo à pousada para ajudar em mais um casamento. Na era do pós-emprego, não tem dia para pegar no pesado. Sem crachá e com contas para pagar, a celebração do amor é garantia de receita extra. Novamente, tudo certo. Uma festa linda, com clientes legais, tudo funcionando bem. Durmo tarde. Acordo cedo. Domingo com casa cheia. Churrasco para os noivos. Apresentação para fazer. Contabilidade. Planilha Excell para preencher. Justo.

As primeiras missões do dia eram simples como o alvorecer. Abrir as cortinas do salão para a piscina. Checar lançamentos de consumo. Pegar as chaves e correr para a padaria buscar o pão. Olho para o meu buggy fofo e desisto dele porque o motor é barulhento e podia acordar hóspedes de sono leve. Embarcado na Ranger, um caminhão travestido de caminhonete cabine dupla. Engato a ré. Faz calor. A cabeça dói. A música está alta. Preciso correr para fazer uma …. Ouço um barulho seco. Pam. Breco imediatamente. Olho no retrovisor. Atrás de mim um voyage cinza. Desço correndo. Olho para meu carro/caminhão e nada. Tudo igual. Viro para o voyage e encontro uma porta amassada como se ela fosse feita de papel machê revestido de papel de alumínio. Miséria.

O dono do carro desce a ladeira. Corro pedir desculpas. O carro é alugado. Me ofereço para pagar tudo. A culpa era só minha. Absolutamente minha. Gentil e muito educado, o meu generoso hóspede é cortês. Aceita minha desculpas. Não se exalta. Coloca as malas no carro e parte para o aeroporto a fim de devolver o bólido e embarcar para casa. Promete ligar na segunda.

Hoje, segunda-feira, eu já tinha quase me esquecido do assunto. A mensagem de WhatsApp com DDD de Porto Alegre me lembrou. Claudia, a conta ficou em R$ 1730. Emudeci. Gelei. Abestalhei.

Sim, a Localiza cobrou R$ 1730 pelo conserto da porta. Sem chance de negociação. Sem oportunidade de pedir reembolso para o meu seguro. Sem chance de regatear. Mas o assunto não é a arbitrariedade da locadora de veículos. Isso é assunto para advogados. O tema é entender o porque e buscar uma razão. Por que trabalhei tanto para perder o trabalhado por causa de uma barbeiragem e uma desatenção? O que preciso aprender com isso? Qual a lição? Que aprendizado tiro? Não pode ser algo tão simples como “presta mais atenção quando der ré naquele caminhão”. Ou vai de bicicleta buscar o pão porque é mais saudável e menos arriscado. Ou ainda, para de querer fazer tudo. Dorme mais. Relaxa. Pensa positivo.

O texto é besta. A reflexão pobre. Mas a pergunta fica. Uma hora a resposta chega. Talvez seja hora de eu deixar de ser pão duro. Avara. Mão de vaca. Ou talvez seja hora de parar de trabalhar tanto. Vou pensar. Vou pensar.

 

 

 

Aconteceu assim

Aconteceu assim.

Ela subia a escada. Um, dois, três, quatro degraus. No quinto, a ficha caiu. É claro que todo mundo sabia. Só ela acreditou na bobagem do “todos fomos enganados”. Já com o pé no sexto degrau, ela entendeu que a vida dela havia sido virada do avesso por puro “rabo”. Milagres acontecem e o desastre anunciado ficou para depois.

— Será hoje?, pensou com o calcanhar no sétimo degrau.

“Não, tranquilize-se. O desastre já aconteceu e você nem tchuns”, esclareceu Lu, o anjo dela que mora no escuro mas adora iluminar tudo com sua boca escancarada de dentes brancos. “Relaxe, desfrute e seja bem-vinda.”

Meio tonta com tantas revelações, ela até tentou pensar positivo. Não deu. Com o pé fraco, comum aos claudicantes, pisou em falso no nono degrau, pequeno e curto. Tombou antes de fazer a passagem para o décimo.

Por cansaço ou preguiça, abdicou de buscar apoio no corrimão da escada caracol. Tipo Alice, se soltou. Foi descendo, descendo até ser acolhida no quinto. Afinal, o inferno são os outros.

Quem vive de passado é museu

A primeira vez que ouvi a frase do título, senti vontade de ser surda. Me ofendi. Protestei. Adoro museu. Não vivo do passado. Será?

Hoje caminhando pelas ruas de Higienópolis, em São Paulo, onde vivi alguns dos melhores anos da minha vida tive um ataque agudo de nostalgia. Parecia filme francês. As cenas, com efeito blur, que combinavam com o dia azul de outono, foram fazendo cineminha na minha memória. O dia em que a gata Nuit apareceu… O dia em que recebi o telegrama avisando que eu tinha sido escolhida para o curso Abril… O dia que tomei o maior porre do mundo… O dia em que fui pedida em casamento… O dia em que trouxe meu filho bebê para casa…

 Descendo a avenida Angélica, surtei quando não vi o edifício Brasília, de honrada memória, onde morei de 1984 a 1992. Cocei os olhos. Cadê a janela de onde o gato Zanzibar pulou para o telhado? Cadê o terraço, onde Carolina, por tantas vezes sonhei com o futuro? Um prédio novo subiu e escondeu a fachada lateral da minha primeira casa da vida adulta. Contei os andares e fiz contas. 

Meu passado, 52 anos bem vividos anos, já é maior do que provavelmente será o meu futuro. E agora, José? Frente à inexorável realidade, decidi optar pelo modo museu a céu aberto, igual ao da minha querida aldeia hippie. O que isso significa? Significa que pretendo colecionar obras que podem ficar no tempo, que são passíveis de interação e abertas a variadas formas de fruição.

 Posso ser também um museu intinerante e, como tal, carregar meu acervo para outros lugares e outros públicos. Parece bom. Parece desespero de alguém buscando uma desculpa para a dor do envelhecimento. Ambas alternativas valem. Não é fácil descobrir-se “vivido”. O tempo corre e as boas memórias permanecem vividas, como se tivessem acontecido ontem. Fecho os olhos e me vejo jovem. Abro os olhos e procuro os óculos para ler o cardápio da padaria. Meu amigo chega e deixo o devaneio para depois. Preciso decidir se meu Museu abrirá todos os dias ou se ficará fechado às segundas.

Férias, agora entendi

Tenho 51 anos e vivo aprendendo coisas novas. Nestes últimos doze dias, aprendi o significado real da palavra férias. Aproveito para pedir desculpas àqueles que tiraram férias em minha companhia antes dessa descoberta.

Férias é um período de pausa, mas principalmente de mudança. Hora de trocar de ares, no caso de quem pode viajar. Hora de trocar de hábitos, em geral. Troquei muito de “ares”. Essa foi a primeira vez que mudei os hábitos. Simples e óbvio, mas eu era incapaz de fazê-lo. Achava que tinha que desbravar, percorrer e conquistar: milhas, lugares, restaurantes, estrelas, atrações. Tirava férias como eu trabalhava: sofregamente.

Dormir? Apenas as seis horas regulamentais. Sentar e ficar de boa? Só para recuperar o fôlego. Enquanto conhecia, tinhas ideias, criava pautas, negociava, vendia, planejava, respondia mensagens, telefones e E-mails. Sim, nestes doze dias respondi e-mails. Tinha hora para fazê-lo. Só à noite. Com calma. Perdi reservas ? Talvez. Paciência. Não vou morrer de fome por isso.

Nessas férias, aprendi inclusive a dosar o uso das redes sociais. Olhei poucos as timelines. Postei pouco também porque não ganho para isso e estava pagando (caro) para descansar. Nossa como os dias renderam. Nossa como vi, aprendi e conheci lugares.

Em meu último destino, Firenze, cidade dos meus antepassados, vi uma cena que me impactou. Uma casal chinês jantava no restaurante I Latini, no anos 80, o preferido da classe média fiorentina. No meio do jantar, com vinho e bisteca, o jovem chinês, cansado da maratona e meio embriagado de vinho Chianti, literalmente desabou sobre o prato. A mulher impassível seguir olhando a tela do iPhone 7 dela. O garçon, assustado, foi saber se estava tudo bem. O rapaz se recompôs um pouco, se encostou na parede, mas cinco minutos depois tombou novamente. A noiva seguiu no celular. Quando pedi a conta, comentei com o garçon a cena. Ele foi definitivo:

“- Não foi a primeira vez, nem será a última. Eles não tiram férias. Eles viajam como se estivessem em uma maratona. Não é prazer. É trabalho. Chega a noite, estão mortos. Eles têm dinheiro e eu tenho pena deles. ”

Ponto final. Que garçon danado de inteligente. Bravo!

O exemplo extraordinário de Mário Gomes

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Hambúrguer com batata frita na beira da praia, com direito a violão, foto com 0 artista empreendedor e notícia no jornal. O ator carioca Mario Gomes, 64 anos, atualmente sem contrato com a Globo e à espera do retorno às gravações da terceira temporada de “Magnífica 70”, do canal HBO, deu um exemplo extraordinário de que sempre é tempo e hora de buscar um plano B. O dele é singelo. Com o filho de dez anos, montou uma carrocinha de madeira e roda de bicicleta para vender lanches em uma praia badalada na zona oeste do Rio de Janeiro. “Estou fazendo um teste para ver se vale a pena investir em um food truck”, declarou o ex-galã das novelas  das 8.

Sem vergonha de assumir que a vida está difícil para ele e para outros 12 milhões de brasileiros, foi à luta com dignidade e peito cheio. Mário Gomes ainda não consolidou a clientela. “Fico bebendo minha cachaça e vendo esse visual da praia”, declarou ao jornal. Para faturar mais um, decidiu alugar sua casa para festas e eventos. “Minha carreira de ator não acabou, muito ao contrário. Faço o seriado, darei aulas no polo de cinema e video sobre como ter o seu próprio canal no youtube e tenho um trabalho voluntário no Retiro dos Artistas”, contou. Como dinheiro não cai do céu e ainda tem filho pequeno para sustentar, está correndo atrás de alternativas de ganhar um dinheiro extra.

A história se espalhou feito raio nas redes sociais. Gente parabenizando. Gente esculhambando. Os colegas de profissão, ambulantes de praia, foram solidários. “A praia é como coração de mãe, sempre cabe mais um”, diz Livia Teixeira que vende quentinhas. O problema apenas é o final do verão, que derruba o movimento, alerta a moça.

Mario Gomes é guerreiro. Gomes sabe se reinventar. No auge na fama, quando fazia par romântico com Bety Faria em uma das novela de estrondoso sucesso, foi vítima de calúnia, difamação e armação montada por um chefão da Globo. O poderoso ficou com dor de corno porque a atriz estava enlevada pelo jovem bonitão. Com muitos casamentos na biografia e quatro filhos, está longe de se aposentar. Está distante de poder viver de papo pro ar. Corajoso e digno, foi à luta. Tomara que dê certo e a carrocinha vire um Food Truck.

Se estivesse em uma situação como a dele, precisando de dinheiro, o que você faria? Já pensou qual seria o seu plano B? Qual talento você tem? Qual patrimônio pessoal seu pode abrir portas em uma outra atividade? O carnaval acabou, pode ser uma boa hora de pensar nisso. Inspire-se no Mário.

Bravo e palmas para ele.

A primeira noite de um homem 2 ou a noite em que meu filho ficou grande

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– Mãe, eu vou tocar violão. Quer ouvir?

O convite era um prenúncio, mas eu não sabia. Respondi sim, claro. Sempre quero ouvir qualquer violão. Sempre quero ouvir o violão dele. Não, não tem letra maiúscula. Me controlo.

O convite, é preciso dizer, era inusitado. Nestes quatro nos, sempre implorei por apresentações e serenatas. Sugeri cachês, propinas e subornos. Lava jato não me pegou, porque nunca logrei sucesso. Ele só tocou quando e porque quis.

Ontem ele queria. Seria um dia especial. Foi um dia especial.

Com o violão malhado de Bela nos braços, ele cresceu. Cinco anos em duas horas de espetáculo. A voz solta e potente em nada lembrava o menino com quem eu cantava “numa folha qualquer eu desenho o sol amarelo”. Confiante, exibia força, peso e estatura. Sem vergonha. Sem timidez. Meu menino era homem.

Cresceu. Emocionada, lembrei do exato dia em que descobri que ele não era mais um bebê. Era verão como ontem. Estávamos na praia sozinhos. Tive uma intoxicação alimentar e me tranquei no banheiro para vomitar os demônios que invadiram minha barriga. A certa altura do meu tormento, ouço um toctoc na porta.

— Mãe, você precisa de ajuda?

Meu bebê, então com cinco anos, crescera. Já era capaz de ficar só e de me oferecer ajuda. Faz tempo que ele bate na porta e pergunta se eu preciso de ajuda. Faz tempo que é jaqueira e, frondoso, me faz e me oferece sombra. Me deleito e descanso tranquila sob a copa dele. É tão extraordinário ser a mãe do Chico.

Ontem foi assim. No início da serenata, eu ainda era a Claudia. Atenta, preocupada, junto, olhando em volta, conferindo a audiência, sugerindo roteiro e trilha. À medida em que soltou a voz, eu o vi crescendo. Sedutoramente, ocupou todos os espaços com a música dele, a presença dele, a força dele. Deixei de olhar ao largo. Abandonei os cuidados com o entorno. Relaxei. Me fiz plateia. Me deixei ser tiete. Me espantei com o tamanho e a senhoridade. Me enchi de orgulho. Me embriaguei de vinho branco, verde e de prazer.

Você escolheu a saideira e encerrou a noite lá no alto. Muitos beijos, muitos parabéns, muitos comprimentos e um pedido de foto. “Vem Chico, tirar um retrato comigo. Quando você virar artista vou mostrar a todos que assisti a um dos seus primeiros shows”, pediu Augusta.

Não sei se serás artista, mas desejo que continue sendo Chico na vida. Prometo estar ao seu lado apoiando suas escolhas, especialmente aquelas que não forem do meu agrado. Isso é prova de amor. Amor temos muito. De mim para você. De você para mim.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.