Plano P, de procrastinar

IMG_0118

 

Procrastinar: verbo transitivo direto e intransitivo. Transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.”p. o início das obras”

Esse verbo é a maldição de quem está a procura de uma saída, uma alternativa e, especialmente uma inspiração para a mudança. Não o conhecia até tirar as minhas primeiras férias de verdade da vida. O bichinho hamham da preguiça grudou “ni mim” feito carrapato em lombo de jumento. Não queria sair. Todos os dias, escrevia na agenda. Escrever o livro. Todos os dias encontrava um zilhão de motivos e razões extremamente justificáveis para mudar de planos e deixar para amanhã. E o amanhã, você sabe, é infinito até o dia em que ele encontra o ponto final.

Você está me imaginando deitada na rede da fotografia que ilustra este post, olhando para o mar da Bahia?Nada disso. Não sou dessas. Procrastino trabalhando, loucamente. Tipo levantar da frente do computador para lavar a louça acumulada na pia. Tipo checar se meu filho havia pendurado a toalha do banho. Tipo iniciar uma pesquisa desnecessária sobre um assunto irrelevante. Tipo abrir para rede social para ver o que está rolando e sempre está rolando algo nessa nossa quinquagésima fase da operação caça político safado na Operação Lava Jato.

Hoje, amém, passou. Comecei cedo a cuidar do filho, do cachorro, da casa, dos emails. Abri o computador e a mão obedeceu. Iniciei o batuque. Até a invasão de um suposto vírus, o tal tranjan, tentou me levou ao mal caminho. Fui salva pelo moço da Apple, rápido e eficiente, que instalou um negocinho e ordenou: “senta-te e trabalha, mulher, tem quem queira ler seus textos.”

Obedeci. E fiquei pensando por que cai em tentação? Procrastinar é bom e vicia. Tipo assim comer chocolate em tarde de frio. Atire a primeira pedra, quem não? Não era apenas sexo, drogas e rock and roll. Acho que tinha medo e insegurança na parada. Perguntas silenciosas como: será que vai dar certo? Será que no final a Roberta vai querer editar o livro? Será que com essa crise o livro vai vender? Será que ele vai fazer a diferença?

A parte mimada, vaidosa e diabólica do meu cérebro foi tecendo um crochê de idiotas justificativas para eu não trabalhar e seguir em frente com o meu projeto. Mimada e amolecida pelos doze dias de dolce far niente, fui encontrando motivos razoáveis para seguir  enrolando. Resgatei até uma frase famosa dos meus tempos de redação impressa: “não faça hoje o que pode cair amanhã”. Isso fazia muito sentido na época do papel, quando as páginas eram distribuídas conforme o números de anúncios e a receita da publicação. Hoje em dia, é falsa justificativa para preguiça mesmo. Acelera. Em frente, marche.

Gratidão

gratidao

Gratidão é tipo gentileza. Brota. Brota por geração espontânea. Quanto mais gratidão, mais gratidão. Quanto mais gentileza, mais gentileza. Hoje eu ganhei uma montanha de gratidão. Hoje eu preciso devolver um Everest de gratidão.

Me reuni com uma amiga e colega querida. Já escrevi sobre ela aqui no blog para falar sobre a melhor entrevista de emprego que já fiz. O motivo do encontro – além de matar a permanente saudade – foi falar do projeto de um livro sobre Plano B (sim, agora vai sair). Conversa vai, conversa vem, acertamos tudo. Prazo, modelo, formato. Já estava me levantando para ir embora quando ela, sempre ela, me derrubou no chão com uma dose cavalar de emoção.

— “Preciso te dar uma coisa”, disse esticando para mim um envelope pardo, tamanho meio sulfite. “Demorou, mas estou te devolvendo o dinheiro que você me emprestou quando eu fui roubada e fiquei sem grana para pagar o aluguel. Tem juros, que calculei no site do Banco do Brasil, e tem minha imensa gratidão”, acrescentou. No cheque, o bilhete que reproduzo acima. Nos olhos, uma gratidão que afirmo não merecer afinal nem me lembrava do empréstimo. No peito, senti uma emoção e uma gratidão enormes por ela ser quem é, por ter o privilégio de privar da amizade dela e me fazer lembrar da gratidão que devo a centenas, quiçá milhares, de pessoas que foram sempre tão generosas e carinhosas comigo.

Enquanto eu a abraçava para agradecer pelo gesto tão nobre, lembrei de muita gente que fez muita diferença na minha vida da mesma forma que Roberta diz que fiz na dela. Acho que não demonstrei, à altura, minha gratidão e graças ao encontro de hoje, terei tempo e pressa de fazê-lo. A minha lista é um abecedário. Começa com meus pais e, se Deus quiser, só termina no cemitério. Um fio de nomes, como aquela canção, Gente, do Caetano. Amigos, me aguardem.

Roberta, você é a segunda da fila. Minha gratidão pelo carinho e pela oportunidade de fazer esse projeto tão bacana com você. Já estou trabalhando. #PlanoB#100 lições de gente que mudou de vida. #100 lições que mudam a vida da gente.

 

A alegria de ser o Inocente

Captura de Tela 2017-03-07 às 18.32.25

 

Hoje acabou oficialmente o meu verão. Voltei à minha casa de São Paulo e retorno à ponte-aérea Sampa-Aremba, a vida que escolhi para mim e para os meus. Hoje é dia de pagar as contas atrasadas. Arrumar os papéis. Planejar os próximos meses. Estabelecer as metas. Se inscrever nos cursos. Fazer as contas de 2016. Fazer a avaliação do melhor verão de nossas vidas. Hora de voltar a estudar e a escrever.

Estou empacada. Só vou conseguir seguir em frente depois de cuspir este post. Faz dois dias que eu o escrevo e rescrevo mentalmente. Só vou sossegar depois de apertar o botão “publicar”.

Trata-se da minha homenagem tardia ao arquétipo do Inocente. Trata-se da minha assunção, da minha redenção a este modelo que define minha alma, que traduz meu jeito de ser e que por anos à fio mantive guardado, escondido dentro do armário, como se fosse um desvio, uma fraqueza, uma veleidade.

Vamos explicar.

Na vida, em geral, e no mundo corporativo, em particular, assumimos comportamentos e posturas. Alguns são absolutamente legítimos e naturais. Outros são forjados à ferro e fogo, porque são necessários segundo os padrões de comportamento vigentes nas companhias. Assim, segundo algumas cartilhas, quem é líder tem de ser corajoso, ousado, crítico, inteligente, poderoso. Certo? Eu achava que sim e me esforçava para sê-lo. Me esforcei tanto que achei que enganava todo mundo. Nos testes, dinâmicas e coaches aparecia como “trator”, “fodástica”, “pitbull”, “touro indomável”. Sentia certo orgulho. Sentia desconforto. Na hora H, não era eu. Na hora H, tinha que fazer um esforço hercúleo para produzir a maldade e a pressão que esperavam de mim. Amigos queridos dizem que não era boa intérprete. Duplamente tola.

Os anos passaram. Não fiz mais coach. Deixei a análise, mas continuei refletindo e pensando em mim e no meu lugar nesta estrada sem porteira. E não é que neste final de semana, o último do melhor verão da minha nova vida, tive um insight-revelação após uma conversa, literalmente, ao pé do bar e depois de fazer um teste comportamental que circula no Facebook.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

Na conversa ao pé do bar, descobri que sou crédula até a medula. Que tenho fé. Que apesar dos fatos, sempre acho que a má conduta poderia ter uma justificativa nobre.

Na conversa ao pé do bar, me espantei ao descobrir características e comportamentos repulsivos em pessoas que julgava justas, leais, honestas e amigas. A conversa, curiosamente, foi elucidativa, surpreendente e sem sofrimento. Entendi, intuitivamente, porque fazia tanto tempo que não cruzava com aqueles personagens pelo caminho. Porque eu sempre adiava o telefonema para marcar um café. Santa procrastinação.

Mudando de cenário e continuando no assunto, no FB, tive a felicidade de clicar em um post da minha amiga Vera Lígia. Ela compartilhou um teste  bacana baseado no livro “O herói e o fora-da-lei. Como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos” das autoras Margaret Mark e Carol Pearson. O exercício de múltipla escolha veio à tona, suponho, por conta da declaração do Marcelo Odebrecht, que se definiu como o “bobo da corte” na miséria do Petrolão. Fiz o teste como quem se confessa com Deus. Não fiz finta. Dei adeus aos fingimentos. Não coloquei banca. Fui honesta como quem faz uma delação premiada consigo mesmo.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

O resultado do teste vocês já sabem. Apareceu ali, em letras garrafais, que faço parte do time dos Inocentes. Eu? Eu? Eu? Sim. Com um indescritível e absoluto orgulho, agora que posso ser quem sou, porque sou livre, livre.

Quem é o Inocente?

Segundo Margaret e Carol quando o “Inocente”está ativo em uma pessoa, ela é atraída para a certeza, para ideias positivas e esperançosas, para imagens simples e nostálgicas, para  a promessa de resgate e redenção. O inocente é um otimista, que busca o paraíso, que deseja a Pasárgada. Este arquétipo gosta de coisas previsíveis e não gosta muito do baile da mudança. Por isso, ele é leal às marcas, organizações e pessoas que cumprem suas promessas e se baseiam em valores perenes e duradouros. O inocente luta pelo bem. Não sabe viver sem uma causa. Adora carregar bandeiras. Participar de grandes marchas. É o tipo que sobe feliz ao Everest para buscar algo importante que foi lá esquecido pelo líder que ele tanto admira.

O Inocente, vejam que legal, é capaz de abandonar uma cultura de alta pressão, focada no sucesso, para perseguir a alegria de uma vida simples. Sim, sim, sim!!!! Como Narciso, fui me apaixonando pelo cara e lendo, lendo, lendo…

O lema do Inocente é básico: “somos livres para ser você e eu”. Objetivo: ser feliz, seja lá o que isso seja. Maior medo? Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado. Caramba! Como elas sabem tudo isso sobre mim? Estratégia? Fazer as coisas certas para não tomar bronca porque deu ruim. Tão óbvio…Franqueza do inocente? Ficar chato por toda a sua inocência ingênua neste mundo cheio de maldosos, maldades e sacanices e safadices. Quando li isso, confesso, corei. Odeio chatice. Prometo ser mázinha, de vez em quando.

Qual é o maior talento do Inocente? Fé e otimismo. Por tudo isso, o Inocente também é conhecido como utópico, tradicionalista, ingênuo, místico, santo, romântico e sonhador. Segura, que é tua. E para a confissão ser completa, vou contar que o Inocente, na literatura, segundo a análise dos arquétipos, é identificado com o personagem do Pequeno Príncipe, aquele das misses, que afirma que somos responsáveis pelo que cativamos. Quer saber? Dou fé e subscrevo.

Feliz 2017 para mim e para todos nós. E vamos cuidar de estudar novos planos B para os próximos 30 anos. Sou Inocente, mas não sou boba.

 

 

 

 

Um plano B para chegar aos 70

Tenho o defeito de pensar demais. A cabeça para pouco. Está sempre pensando. No banho, na piscina, no mar, enquanto pedalo, enquanto dirijo o carro. Basta estar só e lá estou eu no gerúndio: refletindo,  planejando e “euloucubrando” (um jeito doce de assumir a loucura mansa). Dessa vez a reflexão surgiu durante uma leitura. Anos 70. Enquanto corria a barca, da jornalista Lucy Dias. Cheguei no livro porque estou estudando a contracultura, especialmente no Brasil, especialmente nos anos 70, especialmente em Arembepe, na Bahia. O livro fala muito do mestre, guru e pesquisador e protagonista do assunto, Luiz Carlos Maciel, que foi dono e autor de uma coluna sobre o tema no jornal Pasquim, nos anos 70. Curiosa, fui ao google saber do Maciel. Wikipidia me contou que ele está vivíssimo, com 78 anos. Outro link, de 2015, me levou a uma reportagem do site GGN na qual o jornalista confessava estar sem trabalho, com a grana curta, muito disposto a prestar serviços naquilo que sabe e domina. “Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel.”

Maciel tem um currículo extraordinário, uma história de vida espetacular e inúmeros amigos relevantes para a cultura e história do país. A necessidade de alguém como ele fazer um apelo deste gênero — que eu pessoalmente desconhecia — me fez mergulhar em um túnel reflexivo. Em qual página do nosso manual de instruções deveria estar escrito que precisamos de um plano B para encarar a vida pós-70 anos?  É piada, claro, porque Deus desistiu de escrever esse manual no sábado à noite e no domingo descansou. Na juventude, os baby boomers e filhos da geração X jamais sonharam com a hipótese de viver mais do que 70 anos com corpinho de 60 e cabeça de 30. Logo, ninguém pensou no assunto. Não tem manual, não tem receita e sobreviver depois dos 70 é um big deal para todos os que não estão na lista da Forbes.

Sim, estou falando de grana. O primeiro objetivo do plano B é ter dinheiro para viver com dignidade, considerando:

  1. a dificuldade de se aposentar na previdência pública no Brasil;
  2. a baixa adesão à previdência privada do time dos BB e X
  3. a baixa renda em tempos de crise
  4. a rara oportunidade de empregos

Não, não estou falando só de grana. Afinal, quem viveu 78 anos – e não precisa ser alguém com a biografia do Maciel – não quer só dinheiro, quer felicidade. Não quer só comida, quer bebida, diversão e balé. Como é que faz? Como é que se prepara? Como se equipa?  É possível transformar o eclipse no melhor instante da vida? É sensato sonhar com isso?

Eu não tenho as respostas ainda, mas uma rápida pesquisa no pai dos burros, dr. Google, garante que sim. Pesquisas de universidades de Estocolmo, Suécia, e Boston, nos Estados Unidos, repetem o óbvio, aquele senhor tão sábio e bonito. O segredo é fazer exercícios e ficar em forma, comer comida boa, beber sem pisar na jaca, ter muitos, muitos amigos para fazer companhia e farra e, principalmente, não perder o hábito de se sentir jovem.

Tudo muito bom, tudo muito bem e crível. Sim, acredito nisso. Mas como é que se faz? Como manter a fleuma e força de vontade? Como manter o desejo de seguir sempre em frente? Como vencer a preguiça? Como vencer o tédio? Como pensar em projetos para preencher as vontades, sonhos e necessidades? Como saber a hora de parar de trabalhar? O que fazer depois de parar de trabalhar? Como criar uma nova rotina? Como tornar esse pedaço da vida tão legal e divertido quanto os anteriores?

Se encontrar alguma resposta, juro compartilhar no próximo capítulo. Deixo vocês com a canção do Caetano, que odeia envelhecer, mas canta que o “homem é o rei dos animais”. Verdade, verdade.

 

 

 

 

 

 

 

Orgulho

captura-de-tela-2017-02-09-as-18-50-32

Ter orgulho dos filhos é digno. Ter orgulho de um legado é saudável. Acho o orgulho uma coisa besta quando ele é auto-dirigido. Orgulho é quase um pecado capital quando se derrete em torno do próprio umbigo. Tanto que no pai dos burros, ele carrega seu duplo sentido freudiano:

orgulho
substantivo masculino
  1. 1.
    sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra.
  2. 2.
    pej. sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba.

Como este blog nasceu com o formato de um divã em praça pública, vou confessar o que só diria para a Marta, minha competente, generosa e saudosa ex-analista. Hoje, fui soberba. Senti incontível  orgulho ao mandar meu email @pousadaacapela cheio de selinhos, prêmios e estrelas para uma reservas das minhas férias. Fiz a descoberta há pouco, quando recebi a resposta de um colega de setor, uma pousada de agroturismo em San Giminiano. Ele também tem selos e estrelas, mas as minhas são muito mais bonitas. Isso é orgulho e pretensão.

Na encarnação antiga, eu sentia muito orgulho das publicações nas quais trabalhei e dirigi. Não eram minhas, mas meu sentimento de posse era igual ao que tenho em relação à Capela, cuja escritura e CNPJ figuram em meu nome e no de minha sócia. Confesso novamente a soberba que eu tinha ao enviar mensagens assinadas com o selinho das marcas que eu tatuava no peito. Dava prazer. Dava satisfação. Era uma honra.

Quando mudei de casca, pele e vida, confesso, outra vez, tinha certa timidez. Para meu ego inflado e doente parecia pouco ser apenas “dona de pousada”. Me sentia (estupidamente) como aquele craque que tinha tido a aposentadoria antecipada por uma entrada dura e maldosa no joelho. Hoje, exatos três verões depois após um dia chatinho, nublado, congestionado de pepinos, tive essa saborosa epifania.

Orgulho besta, verdade. Mas eu quero tanto bem a ele. E, sinceramente, desejo que todos os que perderam o crachá — somam-se 12 MM — tenham a oportunidade de ter um orgulho besta assim.

A primeira noite de um homem 2 ou a noite em que meu filho ficou grande

img_0699

 

– Mãe, eu vou tocar violão. Quer ouvir?

O convite era um prenúncio, mas eu não sabia. Respondi sim, claro. Sempre quero ouvir qualquer violão. Sempre quero ouvir o violão dele. Não, não tem letra maiúscula. Me controlo.

O convite, é preciso dizer, era inusitado. Nestes quatro nos, sempre implorei por apresentações e serenatas. Sugeri cachês, propinas e subornos. Lava jato não me pegou, porque nunca logrei sucesso. Ele só tocou quando e porque quis.

Ontem ele queria. Seria um dia especial. Foi um dia especial.

Com o violão malhado de Bela nos braços, ele cresceu. Cinco anos em duas horas de espetáculo. A voz solta e potente em nada lembrava o menino com quem eu cantava “numa folha qualquer eu desenho o sol amarelo”. Confiante, exibia força, peso e estatura. Sem vergonha. Sem timidez. Meu menino era homem.

Cresceu. Emocionada, lembrei do exato dia em que descobri que ele não era mais um bebê. Era verão como ontem. Estávamos na praia sozinhos. Tive uma intoxicação alimentar e me tranquei no banheiro para vomitar os demônios que invadiram minha barriga. A certa altura do meu tormento, ouço um toctoc na porta.

— Mãe, você precisa de ajuda?

Meu bebê, então com cinco anos, crescera. Já era capaz de ficar só e de me oferecer ajuda. Faz tempo que ele bate na porta e pergunta se eu preciso de ajuda. Faz tempo que é jaqueira e, frondoso, me faz e me oferece sombra. Me deleito e descanso tranquila sob a copa dele. É tão extraordinário ser a mãe do Chico.

Ontem foi assim. No início da serenata, eu ainda era a Claudia. Atenta, preocupada, junto, olhando em volta, conferindo a audiência, sugerindo roteiro e trilha. À medida em que soltou a voz, eu o vi crescendo. Sedutoramente, ocupou todos os espaços com a música dele, a presença dele, a força dele. Deixei de olhar ao largo. Abandonei os cuidados com o entorno. Relaxei. Me fiz plateia. Me deixei ser tiete. Me espantei com o tamanho e a senhoridade. Me enchi de orgulho. Me embriaguei de vinho branco, verde e de prazer.

Você escolheu a saideira e encerrou a noite lá no alto. Muitos beijos, muitos parabéns, muitos comprimentos e um pedido de foto. “Vem Chico, tirar um retrato comigo. Quando você virar artista vou mostrar a todos que assisti a um dos seus primeiros shows”, pediu Augusta.

Não sei se serás artista, mas desejo que continue sendo Chico na vida. Prometo estar ao seu lado apoiando suas escolhas, especialmente aquelas que não forem do meu agrado. Isso é prova de amor. Amor temos muito. De mim para você. De você para mim.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

 

 

 

 

 

Como anda a minha vida sem crachá

_mg_0866-26

O galo canta. Acorda o burro que zurra, que acorda, Yves, o pastor alemão que late. O dia amanhece cedo no Piruí, uma praia linda no mítico vilarejo de Arembepe, a apenas três quilômetros do luxuoso condomínio de Interlagos, litoral norte de Salvador, Bahia. De sexta a segunda-feira, meu despertador é essa sinfonia animal. Madrugo para ajudar na preparação do café da manhã dos hóspedes da Capela, uma pousada de charme, pé na areia, com apenas 15 apartamentos. Faço os sucos. Compro pão fresco na padaria. Descasco as frutas. Preparo os rolinhos de presunto e queijo. Corto o pão dormido para fazer rabanada. Ponho e tiro os pratos. Vendo diárias. Recebo, converso e sorrio. Também compro peixe fresco na mão do pescador. Organizo passeios de barco, faço transfer do aeroporto para cá e de cá para lá.

Servir é a minha atividade. Servir é a minha segunda paixão, depois de escrever. Recentemente, abri uma loja. Aumentei minhas atribuições. Aumentei as minhas paixões. Descobri que adoro vender. Adoro escolher coisas que vão agradar aos olhos e aos corações alheios. Que farão coçar a mão. Que produzirão um impulso e um desejo incontido, irresistível, de posse. Sem relutar ou com alguma relutância, a pessoa vai ceder, colocar a mão que coça no bolso e comprar. Adoro quando essa compra é pura paixão. Quando a atração se dá pela beleza e pelo inusitado. Vender é minha terceira paixão.

img_9596

Por que eu gosto? Porque me sinto orgulhosa. A maior parte das peças que vendo foram garimpadas por ai. Viajo, procuro, conheço, pesquiso e compro. Crio histórias. Escrevo sobre os artistas. Vendo trazendo áudio, memória e legenda. Explico. Encanto. Quando eu vendo, faço uma reportagem de arte popular ao vivo e a cores. Como uma repentista do comércio limitado, s.a.

Sou farta e privilegiada. Tenho duas casas, duas cidades e dois trabalhos. Vivo entre dois mundos, diferentes e, para mim, complementares. Desfruto o melhor dos dois. De segunda a sexta, moro no meu apartamento paulistano, agora em versão pocket para ser muito, muito menos caro, onde tenho família, amigos e bichos. De quinta a segunda, estou em Arembepe, onde tenho trabalho, amigos, bichos e um marzão azul todo meu. Não me mudo de vez, porque meu filho, Chico, tem apenas 14 anos e estuda em São Paulo. Por ele e para ele, viverei para sempre na ponte-aérea.

Sou sócia de pousada, sou sócia de loja de artesanato, arte popular, decoração e serviço e jornalista candidata à escritora. Sou aposentada. Sou uma profissional slash. Faço muitas coisas, com muito orgulho. Meu cartão de visita é novo e essa vida alternativa também. Há pouco mais de dois anos, eu era executiva em uma grande empresa em São Paulo. Trabalhava no regime 24 x 7. Não desconectava nunca. Tinha tudo no formato super: poder, cargo, salário, equipe, responsabilidade, metas, projetos, mordomias e benefícios. Era também superfeliz. Não fui eu quem escolheu mudar de vida. Escolheram. Fui demitida. Despedida. Tomei um pé na bunda. Graças a Deus, já tinha o meu plano B funcionando. Os anos em que passei fazendo planejamento estratégico para a empresa e minha alma escorpiana me ensinaram a não dar ponto sem nó.

Escrever e trabalhar duro na minha pousada me ajudaram a fazer da “vida sem crachá” uma plataforma de mudança e reinvenção. Aos 49 anos, comecei de novo. Confesso, não foi fácil. Era muito apegada ao trabalho. Tinha embolado a pessoa física na jurídica. Tudo meu era também da firma: celular, e-mail, carro, plano de saúde, amigos, guarda-roupa comprado para frequentar o ambiente corporativo e, inclusive, o meu segundo sobrenome. Eu era Claudia Giudice da editora xis. Por isso, a perda mais difícil de superar não foi a financeira. Já tinha o meu patrimônio. Já tinha a pousada funcionando a todo vapor. Sem dor, vendi o carro, cortei supérfluos e mudei meu modo de consumo.

Só gasto com o que é indispensável ou extremamente recompensador, como livros, revistas e música. A bicicleta é meu meio de transporte. Em São Paulo, tenho o privilégio de morar perto da Faria Lima e da Cidade Jardim, onde sou bem servida por ciclovias e transporte coletivo de qualidade. Administro o que tenho e ganho com obstinação de investidor do mercado financeiro. Controlo centavos. Não é avareza, não. Apenas planejo ser uma velhinha saudável e com um dinheiro para viajar pelo mundo. Quer um exemplo? Parei de cortar o cabelo no salão chique da Cidade Jardim e hoje sou atendida pelo gentílissimo e competente Cristiano Atayde da Volta do Rubalo, em Arembepe. A limpeza semestral dos dentes, feita em um consultório na Faria Lima também mudou-se para um ótimo consultório no minishopping de Arembepe.

A dor de perder o emprego não bateu no bolso, mas no fígado. “Por que eu e não fulano? Essa pergunta gotejou na minha mente meses a fio. Nela estavam embutidos sentimentos como rejeição, competição, vaidade, ressentimento e inveja, para resumir. Por que fui demitida depois de 23 anos de trabalho, dedicação e paixão? Porque eu e não ela, que tinha braço curto? Por que? Nossa mente é monstruosa. Por mais que eu fosse racional e soubesse as respostas, a pergunta voltava a me perturbar. Goteira gelada. Ping, ping, ping. Para me livrar dessa esquizofrenia, dessa voz doente em meu ouvido, comecei a escrever e a pegar cedo no batente da pousada. Trabalho braçal e terapia em praça pública foram meu Rivotril. Decidi falar abertamente sobre a experiência da demissão e do desemprego, um assunto que descobri tabu. Essa decisão não foi racional nem pragmática, como costumavam ser as minhas escolhas. Brotou de um insight. Ouvi meu fígado. Ouvi meus anjos. Ouvi meu coração.

A memória deste instante ainda me arrepia. Estava em São Paulo, indo de casa até o INSS, quando aconteceu pela primeira vez. Pedalava na ciclovia quando a voz da minha intuição (ou do anjo que cuida de mim) falou:

– Por que você não faz um blog? Escreva o blog Claudia Giudice em a vida sem crachá.

Juro pelo meu filho que aconteceu assim. O nome e a proposta vieram à minha cabeça como um raio. Uma inspiração. Cheguei no meu destino e anotei na agenda do celular o nome do blog. Peguei os papéis no INSS, estacionei minha bike e fui de metrô para o centro. No trajeto, lembrei de histórias, prestei atenção em conversas e reparei na cidade. Na volta, em casa, escrevi. Postei minha crônica no Facebook e choveram likes. Um amigo, sugeriu: “Anda, faz um blog.” Anta digital que sou, encarei o desafio e abri o WordPress. Nascia ali o projeto da Vida Sem Crachá. Nascia ali o livro A Vida Sem Crachá, que menos de um mês após o lançamento já foi para a reimpressão.

A sugestão do anjo e o que eu fiz com ela mudaram a minha vida. Sou formada em comunicação. Trabalhei 21 anos como jornalista e nove como executiva. Sempre sonhei ser escritora. Sempre sonhei morar na frente do mar. No início da carreira, precisava me sustentar e livro não dá camisa a ninguém. Guardei o sonho na gaveta e fui à luta nas redações. Em 2012, consegui realizar o sonho número dois. Inaugurei com minha sócia baiana, Nil Pereira, a pousada. O plano B deu incrivelmente certo. Em seis meses, estávamos no break even. No primeiro ano, ampliamos de 8 para 10 apartamentos. No segundo, crescemos para 14. Em 2016, ano de crise, abrimos a loja Coisas da Ninoca e ainda aumentamos mais um apartamento. Agora temos 15. De novo, graças a Deus. Planejei cuidar e viver na pousada com dedicação total somente em 2020, quando meu Chico entrará na faculdade e eu, aos 55 anos, terei direito à minha previdência privada. A ampulheta quebrou antes. Demorei a ver o lado bom, ótimo, desse novo tempo. Por isso, sofri. Por isso, minha pele arrancada com o crachá, demorou a cicatrizar.

Nos primeiros meses pós demissão, acreditava que poderia voltar à trabalhar em uma empresa de comunicação ou tocar um grande projeto. Tinha a fantasia (e a pretensão) de que haveria uma fila de pretendentes e de convites para assumir uma importante posição. Não aconteceu. Não rolou. Os projetos grandiosos também empacaram. Fiquei rodando em falso. Fiquei oscilando entre momentos de extrema euforia e otimismo, com outros de profunda tristeza e desânimo. Uma montanha-russa. Eu odeio montanha-russa.

De novo, um insight me salvou. Ou outro anjo, na forma de gavião e música. Era novembro, eu estava na pousada instalando um novo sistema de gerenciamento hoteleiro. Tipo trabalho escravo. Manualmente, passava, nome por nome, todas as reservas de outubro de 2014 a dezembro de 2015. Meu braço parecia que ia cair. Decidi mudar do escritório para a varanda e ver o mar. Estava lá batucando no computador, quando um gavião carcará, morador do pedaço, deu um rasante. Parei tudo e comecei a observá-lo. Voa pra lá, voa pra cá, me enfeitiçando. Quando estava livre dos maus humores, na caixa de som, começa a tocar Gilberto Gil:

O melhor lugar do mundo é aqui,

E agora

Aqui onde indefinido

Agora que é quase quando

Quando ser leve ou pesado

Deixa de fazer sentido

Aqui de onde o olho mira

Agora que ouvido escuta

O tempo que a voz não fala

Mas que o coração tributa

O melhor lugar do mundo é aqui

E agora

Outro raio partiu a minha cabeça. Por que mesmo eu estava reclamando da vida? O que mesmo eu estava desejando? Quais eram os meus sonhos? Quais eram os meus projetos e planos? Ser jornalista e comandar publicações? Feito. Ser uma executiva bem sucedida e fazer um bom pé de meia? Cumprido. Ter uma casa no litoral e poder escrever olhando o mar? Realizado. Naquele momento, com as ondas batendo na minha porta, o gavião desenhando o ar e Gilberto Gil cantando em meus ouvidos, entendi o significado da canção. Aqui e agora, era uma felizarda por ter tudo, absolutamente tudo, o que eu merecia. Olhei para o horizonte e agradeci.

A partir desse instante, comecei, de verdade, a me reinventar. Passei a escrever crônicas com um outro tom. Redescobri o prazer de aprender tudo o que eu ainda não sabia sobre o meu negócio. Por exemplo, fazer suco de laranja para o café da manhã.

_mg_0717-11-2

“Enche a pia de laranja. A medida empírica funciona. Corta as laranjas ao meio e coloca-as lado a lado, grudadinhas. Com duas mãos a pressão é maior, mas dobra o número de movimentos. Vou alternando. Uma mão duas metades de laranja. Duas mãos, uma metade. O suco vai enchendo o copão de alumínio . Quando chega à boca, hora de passa-lo pela peneira e depois jogá-lo para a jarra. Jogo todo o líquido de uma vez e bato com o copão para escorrer rápido. Desce e o cheiro de laranja sobe pelo nariz.”

Graças a este texto, simples, consegui chamar a atenção da editora executiva, Carolina Chagas, que me enviou uma mensagem-provocação, dizendo que a minha vida sem crachá podia virar um livro. Obrigada mar, obrigada gavião, obrigada Gilberto Gil. Meu sonho juvenil podia acontecer. Se eu trabalhasse muito e bem, poderia virar escritora. Assim foi acontecendo. Segui escrevendo, escrevendo e escrevendo. Logo depois da mensagem da Carolina, aproveitei a deixa e mandei o projeto do livro com os três capítulos iniciais. Sim, Deus ajuda quem cedo madruga. Ela sentiu firmeza. Em janeiro, com a pousada lotada, recebo o email mais feliz da minha vida. “Claudia, seu projeto foi aprovado. Pode escrever o livro.” Bendito, suco de laranja. Respondi de pronto. “Perfeito, em 6 de abril, ele estará na sua máquina.” Escolhi a data por crença e fé. Cinco de abril de 2015 foi Páscoa, que para os católicos, eu, significa Ressureição. Era o que estava acontecendo comigo aos 49 anos.

Outros episódios mágicos me tocaram. Em janeiro de 2015, quando ainda faltavam 100 mil caracteres para terminar o livro, o telefone tocou. Era a Paula Ribeiro Santos do Sebrae de Camaçari, Bahia, me oferecendo uma vaga no curso Empretec, que aconteceria em março na Cidade do Saber. Assim, do nada, eu conseguia um final triunfal para a minha obra, já que este é um dos melhores cursos que um candidato a Plano B pode fazer. Agradeci o convite com lágrimas nos olhos. Havia sido escolhida mais uma vez. Hoje sou parceira do Sebrae. Já participei de outros seminários, fiz uma palestra em um encontro superimportante e fui selecionada para o prêmio Sebrae Mulher de Negócios.

Segui recebendo meus hóspedes e colecionando histórias de pessoas incríveis. Segui trabalhando e escrevendo defronte ao mar. Em fevereiro, véspera do Carnaval, decido quebrar a rotina. Sirvo o café da manhã e fujo para a praia. Com máscara, snorkel e pé de pato, mergulho e viajo na minha nova experiência de vida. Entendo ali, debaixo d’água, que havia feito as escolhas certas e que não havia mais porque lamentar o destino. Ao sair da água, dou de cara com meu amigo, Paulo Borges. Sim, o criador do São Paulo Fashion Week também tem uma casa no Piruí e passou o Carnaval na minha pousada, hospedado com seu filho, Henrique, e dezenas de amigos. Ele me vê e, sorrindo, diz: “Isso é que é vida, Claudia”. O terceiro raio partiu minha cabeça. Na hora, a frase arranhou meus ouvidos. Pensei: “como assim? Ele está dizendo que deixei de ser estoica, espartana, workaholic?” Ia responder que havia acordado às seis horas da manhã para fazer o café, quando uma gota escorreu até meus lábios. Lembrei do mergulho. Apenas sorri, concordando. Sim, isso é que é vida.

Mais um episódio excepcional marcou o período anterior ao lançamento do livro e da minha nova vida. Acredito que gentileza gera gentileza, como dizia o profeta José Datrino, o Gentileza. Quando estava apurando histórias para minha obra, entrevistei o jornalista Adriano Silva, dono do site Projeto Draft. Ao agradecer efusivamente a disponibilidade dele, Adriano me convidou a escrever um depoimento. Aceitei com a intenção de devolver à altura a gentileza dele. Fiz um texto inédito, com emoção e novidade em relação ao blog e ao livro, que a esta altura estava no prelo. O post viralizou. Mais de 440 mil pessoas leram minha história e outras 90 mil compartilharam. Foi uma loucura. Da noite para o dia, a minha saga era pública.

Na pousada começaram a chegar hóspedes interessados em me conhecer e trocar ideias. Compartilhar passou a ser meu plano C. Virei porta-voz oficial de um tema saia justa, a demissão, assunto que muitos têm vergonha de falar. Logo que o texto viralizou, recebi uma mensagem linda de uma mulher que não me conhecia. Ela me agradecia por ajudá-la a sair da tristeza que a envolvia desde que fora demitida. Ela dizia que eu havia sido escolhida para fazer e falar aquilo tudo e ajudar outras pessoas no difícil processo de começar de novo, de renascer e de se reinventar. Na ocasião, agradeci a mensagem mas achei que era um pouco de exagero. Ser escolhida? Ter uma missão? Será?

Não acho que sou predestinada. Mas acredito que os caminhos que escolhi me levaram a esse momento de poder inspirar pessoas e de me inspirar. Fiz 51 anos em novembro e estou em ritmo de “volver a los 17”. Nesse paradoxo, entre ser velha e nova, posso acalmar a alma e prestar atenção no gavião que passa nos finais de tarde em Arembepe ou na maritaca que fez ninho no canteiro central da Faria Lima, em São Paulo. Posso fazer compras na Ceasa de Simões Filho, um município da grande Salvador, e comparar a inflação de lá inexistente com os preços absurdos do Hortifruti do Itaim, na frente de casa. Posso mudar o meu padrão de consumo e comprar apenas aquilo que eu preciso. O peixe fresco para o almoço. A alface orgânica do jantar. Pouco desperdício e muito foco. Posso lembrar o ego, sempre que ele se meter à besta, que a vida é feita de escolhas. Que devo agradecer ao De(u)stino todas às vezes que lembrar do arrepio que senti ao ter este estalo. Que posso cantarolar Gilberto Gil convicta de que “o melhor lugar do mundo é mesmo aqui e agora”. E é.*

*Este texto foi originalmente escrito para ser publicado na revista Vogue de novembro de 2015. Fiz uma atualização, já que ele continua pertinente e atual.