Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

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Acordei com essa dúvida hoje. Lá fora fazia sol. Logo, a questão não é filha de depressão pré-feriado de chuva. Também não passo por nenhuma crise. O assunto não é apenas meu, mas do mundo. Na verdade, ele brota da empatia. Estou envolvida com muitos amigos queridos que estão precisando urgentemente de um plano B. Agora há pouco, conversei com o amigo de uma amiga que estava pensando em fazer o dele depois de participar de um programa de demissão voluntária da Petrobras. Ele quer ser dono de pousada. Espero poder ajudá-lo.

Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

Tenho 52 anos, nunca ouvi meus pais, menos ainda meus avós falando de plano B. Ninguém pensava nisso, muito menos precisava disso. A razão é banal. O mundo e a vida eram planos e lineares. Os desejos e inquietações muito básicos. Os filhos, em geral, seguiam as escolhas dos pais para definir com quem casar, onde trabalhar, o que ser e fazer. A herança definia os nossos destinos, com extraordinárias exceções. Quase ninguém precisava de plano B, porque não era certo ter uma alternativa. A vida seguia bem mais curta do que hoje e os atropelos estavam relacionados a grandes catástrofes.

Meu avô paterno, por exemplo, era o primogênito de uma família de treze irmãos, filhos de fazendeiro rico de café do interior de São Paulo. Ele precisou de um plano B em 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York destruiu, como uma bola de neve, a economia mundial. Ele mudou-se para São Paulo, trocou o uniforme de herdeiro pelo de trabalhador. Foi funcionário do banco Comind a vida inteira dele. Tinha hora para entrar e para sair. Almoçava em casa, o mesmo cardápio, todos os dias. Felizmente morreu antes de o banco falir em 1985. Acreditem, a instituição pagou regiamente o salário dele, que no final da carreira era de diretor financeiro, até morrer aos 74 de idade. Bom tempos aqueles.

  1. O primeiro pingo no i

    Ter um plano B, na real, é ter uma saída, uma alternativa. Vale para momentos ótimos, bons, médios, ruins e péssimos. Ele é um facilitador. Com o tempo, ter plano B se torna um modo de vida. O cérebro se acostuma a pensar alternativas. Quase como um jogo. Pode se tornar tão automático quanto escovar os dentes antes de dormir ou trocar a marcha do carro no trânsito. Acredito que para tudo existe um plano B. Com exceção da morte. Ela, que ironia, só é plano B do suicida.

 

Via Láctea, Renato Russo

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Por que plano B?

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Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.

 

Plano P, de procrastinar

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Procrastinar: verbo transitivo direto e intransitivo. Transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.”p. o início das obras”

Esse verbo é a maldição de quem está a procura de uma saída, uma alternativa e, especialmente uma inspiração para a mudança. Não o conhecia até tirar as minhas primeiras férias de verdade da vida. O bichinho hamham da preguiça grudou “ni mim” feito carrapato em lombo de jumento. Não queria sair. Todos os dias, escrevia na agenda. Escrever o livro. Todos os dias encontrava um zilhão de motivos e razões extremamente justificáveis para mudar de planos e deixar para amanhã. E o amanhã, você sabe, é infinito até o dia em que ele encontra o ponto final.

Você está me imaginando deitada na rede da fotografia que ilustra este post, olhando para o mar da Bahia?Nada disso. Não sou dessas. Procrastino trabalhando, loucamente. Tipo levantar da frente do computador para lavar a louça acumulada na pia. Tipo checar se meu filho havia pendurado a toalha do banho. Tipo iniciar uma pesquisa desnecessária sobre um assunto irrelevante. Tipo abrir para rede social para ver o que está rolando e sempre está rolando algo nessa nossa quinquagésima fase da operação caça político safado na Operação Lava Jato.

Hoje, amém, passou. Comecei cedo a cuidar do filho, do cachorro, da casa, dos emails. Abri o computador e a mão obedeceu. Iniciei o batuque. Até a invasão de um suposto vírus, o tal tranjan, tentou me levou ao mal caminho. Fui salva pelo moço da Apple, rápido e eficiente, que instalou um negocinho e ordenou: “senta-te e trabalha, mulher, tem quem queira ler seus textos.”

Obedeci. E fiquei pensando por que cai em tentação? Procrastinar é bom e vicia. Tipo assim comer chocolate em tarde de frio. Atire a primeira pedra, quem não? Não era apenas sexo, drogas e rock and roll. Acho que tinha medo e insegurança na parada. Perguntas silenciosas como: será que vai dar certo? Será que no final a Roberta vai querer editar o livro? Será que com essa crise o livro vai vender? Será que ele vai fazer a diferença?

A parte mimada, vaidosa e diabólica do meu cérebro foi tecendo um crochê de idiotas justificativas para eu não trabalhar e seguir em frente com o meu projeto. Mimada e amolecida pelos doze dias de dolce far niente, fui encontrando motivos razoáveis para seguir  enrolando. Resgatei até uma frase famosa dos meus tempos de redação impressa: “não faça hoje o que pode cair amanhã”. Isso fazia muito sentido na época do papel, quando as páginas eram distribuídas conforme o números de anúncios e a receita da publicação. Hoje em dia, é falsa justificativa para preguiça mesmo. Acelera. Em frente, marche.

Gratidão

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Gratidão é tipo gentileza. Brota. Brota por geração espontânea. Quanto mais gratidão, mais gratidão. Quanto mais gentileza, mais gentileza. Hoje eu ganhei uma montanha de gratidão. Hoje eu preciso devolver um Everest de gratidão.

Me reuni com uma amiga e colega querida. Já escrevi sobre ela aqui no blog para falar sobre a melhor entrevista de emprego que já fiz. O motivo do encontro – além de matar a permanente saudade – foi falar do projeto de um livro sobre Plano B (sim, agora vai sair). Conversa vai, conversa vem, acertamos tudo. Prazo, modelo, formato. Já estava me levantando para ir embora quando ela, sempre ela, me derrubou no chão com uma dose cavalar de emoção.

— “Preciso te dar uma coisa”, disse esticando para mim um envelope pardo, tamanho meio sulfite. “Demorou, mas estou te devolvendo o dinheiro que você me emprestou quando eu fui roubada e fiquei sem grana para pagar o aluguel. Tem juros, que calculei no site do Banco do Brasil, e tem minha imensa gratidão”, acrescentou. No cheque, o bilhete que reproduzo acima. Nos olhos, uma gratidão que afirmo não merecer afinal nem me lembrava do empréstimo. No peito, senti uma emoção e uma gratidão enormes por ela ser quem é, por ter o privilégio de privar da amizade dela e me fazer lembrar da gratidão que devo a centenas, quiçá milhares, de pessoas que foram sempre tão generosas e carinhosas comigo.

Enquanto eu a abraçava para agradecer pelo gesto tão nobre, lembrei de muita gente que fez muita diferença na minha vida da mesma forma que Roberta diz que fiz na dela. Acho que não demonstrei, à altura, minha gratidão e graças ao encontro de hoje, terei tempo e pressa de fazê-lo. A minha lista é um abecedário. Começa com meus pais e, se Deus quiser, só termina no cemitério. Um fio de nomes, como aquela canção, Gente, do Caetano. Amigos, me aguardem.

Roberta, você é a segunda da fila. Minha gratidão pelo carinho e pela oportunidade de fazer esse projeto tão bacana com você. Já estou trabalhando. #PlanoB#100 lições de gente que mudou de vida. #100 lições que mudam a vida da gente.

 

A alegria de ser o Inocente

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Hoje acabou oficialmente o meu verão. Voltei à minha casa de São Paulo e retorno à ponte-aérea Sampa-Aremba, a vida que escolhi para mim e para os meus. Hoje é dia de pagar as contas atrasadas. Arrumar os papéis. Planejar os próximos meses. Estabelecer as metas. Se inscrever nos cursos. Fazer as contas de 2016. Fazer a avaliação do melhor verão de nossas vidas. Hora de voltar a estudar e a escrever.

Estou empacada. Só vou conseguir seguir em frente depois de cuspir este post. Faz dois dias que eu o escrevo e rescrevo mentalmente. Só vou sossegar depois de apertar o botão “publicar”.

Trata-se da minha homenagem tardia ao arquétipo do Inocente. Trata-se da minha assunção, da minha redenção a este modelo que define minha alma, que traduz meu jeito de ser e que por anos à fio mantive guardado, escondido dentro do armário, como se fosse um desvio, uma fraqueza, uma veleidade.

Vamos explicar.

Na vida, em geral, e no mundo corporativo, em particular, assumimos comportamentos e posturas. Alguns são absolutamente legítimos e naturais. Outros são forjados à ferro e fogo, porque são necessários segundo os padrões de comportamento vigentes nas companhias. Assim, segundo algumas cartilhas, quem é líder tem de ser corajoso, ousado, crítico, inteligente, poderoso. Certo? Eu achava que sim e me esforçava para sê-lo. Me esforcei tanto que achei que enganava todo mundo. Nos testes, dinâmicas e coaches aparecia como “trator”, “fodástica”, “pitbull”, “touro indomável”. Sentia certo orgulho. Sentia desconforto. Na hora H, não era eu. Na hora H, tinha que fazer um esforço hercúleo para produzir a maldade e a pressão que esperavam de mim. Amigos queridos dizem que não era boa intérprete. Duplamente tola.

Os anos passaram. Não fiz mais coach. Deixei a análise, mas continuei refletindo e pensando em mim e no meu lugar nesta estrada sem porteira. E não é que neste final de semana, o último do melhor verão da minha nova vida, tive um insight-revelação após uma conversa, literalmente, ao pé do bar e depois de fazer um teste comportamental que circula no Facebook.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

Na conversa ao pé do bar, descobri que sou crédula até a medula. Que tenho fé. Que apesar dos fatos, sempre acho que a má conduta poderia ter uma justificativa nobre.

Na conversa ao pé do bar, me espantei ao descobrir características e comportamentos repulsivos em pessoas que julgava justas, leais, honestas e amigas. A conversa, curiosamente, foi elucidativa, surpreendente e sem sofrimento. Entendi, intuitivamente, porque fazia tanto tempo que não cruzava com aqueles personagens pelo caminho. Porque eu sempre adiava o telefonema para marcar um café. Santa procrastinação.

Mudando de cenário e continuando no assunto, no FB, tive a felicidade de clicar em um post da minha amiga Vera Lígia. Ela compartilhou um teste  bacana baseado no livro “O herói e o fora-da-lei. Como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos” das autoras Margaret Mark e Carol Pearson. O exercício de múltipla escolha veio à tona, suponho, por conta da declaração do Marcelo Odebrecht, que se definiu como o “bobo da corte” na miséria do Petrolão. Fiz o teste como quem se confessa com Deus. Não fiz finta. Dei adeus aos fingimentos. Não coloquei banca. Fui honesta como quem faz uma delação premiada consigo mesmo.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

O resultado do teste vocês já sabem. Apareceu ali, em letras garrafais, que faço parte do time dos Inocentes. Eu? Eu? Eu? Sim. Com um indescritível e absoluto orgulho, agora que posso ser quem sou, porque sou livre, livre.

Quem é o Inocente?

Segundo Margaret e Carol quando o “Inocente”está ativo em uma pessoa, ela é atraída para a certeza, para ideias positivas e esperançosas, para imagens simples e nostálgicas, para  a promessa de resgate e redenção. O inocente é um otimista, que busca o paraíso, que deseja a Pasárgada. Este arquétipo gosta de coisas previsíveis e não gosta muito do baile da mudança. Por isso, ele é leal às marcas, organizações e pessoas que cumprem suas promessas e se baseiam em valores perenes e duradouros. O inocente luta pelo bem. Não sabe viver sem uma causa. Adora carregar bandeiras. Participar de grandes marchas. É o tipo que sobe feliz ao Everest para buscar algo importante que foi lá esquecido pelo líder que ele tanto admira.

O Inocente, vejam que legal, é capaz de abandonar uma cultura de alta pressão, focada no sucesso, para perseguir a alegria de uma vida simples. Sim, sim, sim!!!! Como Narciso, fui me apaixonando pelo cara e lendo, lendo, lendo…

O lema do Inocente é básico: “somos livres para ser você e eu”. Objetivo: ser feliz, seja lá o que isso seja. Maior medo? Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado. Caramba! Como elas sabem tudo isso sobre mim? Estratégia? Fazer as coisas certas para não tomar bronca porque deu ruim. Tão óbvio…Franqueza do inocente? Ficar chato por toda a sua inocência ingênua neste mundo cheio de maldosos, maldades e sacanices e safadices. Quando li isso, confesso, corei. Odeio chatice. Prometo ser mázinha, de vez em quando.

Qual é o maior talento do Inocente? Fé e otimismo. Por tudo isso, o Inocente também é conhecido como utópico, tradicionalista, ingênuo, místico, santo, romântico e sonhador. Segura, que é tua. E para a confissão ser completa, vou contar que o Inocente, na literatura, segundo a análise dos arquétipos, é identificado com o personagem do Pequeno Príncipe, aquele das misses, que afirma que somos responsáveis pelo que cativamos. Quer saber? Dou fé e subscrevo.

Feliz 2017 para mim e para todos nós. E vamos cuidar de estudar novos planos B para os próximos 30 anos. Sou Inocente, mas não sou boba.

 

 

 

 

Um plano B para chegar aos 70

Tenho o defeito de pensar demais. A cabeça para pouco. Está sempre pensando. No banho, na piscina, no mar, enquanto pedalo, enquanto dirijo o carro. Basta estar só e lá estou eu no gerúndio: refletindo,  planejando e “euloucubrando” (um jeito doce de assumir a loucura mansa). Dessa vez a reflexão surgiu durante uma leitura. Anos 70. Enquanto corria a barca, da jornalista Lucy Dias. Cheguei no livro porque estou estudando a contracultura, especialmente no Brasil, especialmente nos anos 70, especialmente em Arembepe, na Bahia. O livro fala muito do mestre, guru e pesquisador e protagonista do assunto, Luiz Carlos Maciel, que foi dono e autor de uma coluna sobre o tema no jornal Pasquim, nos anos 70. Curiosa, fui ao google saber do Maciel. Wikipidia me contou que ele está vivíssimo, com 78 anos. Outro link, de 2015, me levou a uma reportagem do site GGN na qual o jornalista confessava estar sem trabalho, com a grana curta, muito disposto a prestar serviços naquilo que sabe e domina. “Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel.”

Maciel tem um currículo extraordinário, uma história de vida espetacular e inúmeros amigos relevantes para a cultura e história do país. A necessidade de alguém como ele fazer um apelo deste gênero — que eu pessoalmente desconhecia — me fez mergulhar em um túnel reflexivo. Em qual página do nosso manual de instruções deveria estar escrito que precisamos de um plano B para encarar a vida pós-70 anos?  É piada, claro, porque Deus desistiu de escrever esse manual no sábado à noite e no domingo descansou. Na juventude, os baby boomers e filhos da geração X jamais sonharam com a hipótese de viver mais do que 70 anos com corpinho de 60 e cabeça de 30. Logo, ninguém pensou no assunto. Não tem manual, não tem receita e sobreviver depois dos 70 é um big deal para todos os que não estão na lista da Forbes.

Sim, estou falando de grana. O primeiro objetivo do plano B é ter dinheiro para viver com dignidade, considerando:

  1. a dificuldade de se aposentar na previdência pública no Brasil;
  2. a baixa adesão à previdência privada do time dos BB e X
  3. a baixa renda em tempos de crise
  4. a rara oportunidade de empregos

Não, não estou falando só de grana. Afinal, quem viveu 78 anos – e não precisa ser alguém com a biografia do Maciel – não quer só dinheiro, quer felicidade. Não quer só comida, quer bebida, diversão e balé. Como é que faz? Como é que se prepara? Como se equipa?  É possível transformar o eclipse no melhor instante da vida? É sensato sonhar com isso?

Eu não tenho as respostas ainda, mas uma rápida pesquisa no pai dos burros, dr. Google, garante que sim. Pesquisas de universidades de Estocolmo, Suécia, e Boston, nos Estados Unidos, repetem o óbvio, aquele senhor tão sábio e bonito. O segredo é fazer exercícios e ficar em forma, comer comida boa, beber sem pisar na jaca, ter muitos, muitos amigos para fazer companhia e farra e, principalmente, não perder o hábito de se sentir jovem.

Tudo muito bom, tudo muito bem e crível. Sim, acredito nisso. Mas como é que se faz? Como manter a fleuma e força de vontade? Como manter o desejo de seguir sempre em frente? Como vencer a preguiça? Como vencer o tédio? Como pensar em projetos para preencher as vontades, sonhos e necessidades? Como saber a hora de parar de trabalhar? O que fazer depois de parar de trabalhar? Como criar uma nova rotina? Como tornar esse pedaço da vida tão legal e divertido quanto os anteriores?

Se encontrar alguma resposta, juro compartilhar no próximo capítulo. Deixo vocês com a canção do Caetano, que odeia envelhecer, mas canta que o “homem é o rei dos animais”. Verdade, verdade.

 

 

 

 

 

 

 

Orgulho

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Ter orgulho dos filhos é digno. Ter orgulho de um legado é saudável. Acho o orgulho uma coisa besta quando ele é auto-dirigido. Orgulho é quase um pecado capital quando se derrete em torno do próprio umbigo. Tanto que no pai dos burros, ele carrega seu duplo sentido freudiano:

orgulho
substantivo masculino
  1. 1.
    sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra.
  2. 2.
    pej. sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba.

Como este blog nasceu com o formato de um divã em praça pública, vou confessar o que só diria para a Marta, minha competente, generosa e saudosa ex-analista. Hoje, fui soberba. Senti incontível  orgulho ao mandar meu email @pousadaacapela cheio de selinhos, prêmios e estrelas para uma reservas das minhas férias. Fiz a descoberta há pouco, quando recebi a resposta de um colega de setor, uma pousada de agroturismo em San Giminiano. Ele também tem selos e estrelas, mas as minhas são muito mais bonitas. Isso é orgulho e pretensão.

Na encarnação antiga, eu sentia muito orgulho das publicações nas quais trabalhei e dirigi. Não eram minhas, mas meu sentimento de posse era igual ao que tenho em relação à Capela, cuja escritura e CNPJ figuram em meu nome e no de minha sócia. Confesso novamente a soberba que eu tinha ao enviar mensagens assinadas com o selinho das marcas que eu tatuava no peito. Dava prazer. Dava satisfação. Era uma honra.

Quando mudei de casca, pele e vida, confesso, outra vez, tinha certa timidez. Para meu ego inflado e doente parecia pouco ser apenas “dona de pousada”. Me sentia (estupidamente) como aquele craque que tinha tido a aposentadoria antecipada por uma entrada dura e maldosa no joelho. Hoje, exatos três verões depois após um dia chatinho, nublado, congestionado de pepinos, tive essa saborosa epifania.

Orgulho besta, verdade. Mas eu quero tanto bem a ele. E, sinceramente, desejo que todos os que perderam o crachá — somam-se 12 MM — tenham a oportunidade de ter um orgulho besta assim.