Reinvenção ou apenas o essencial

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Quando os editores da revista Let’s Go, com a qual eu colaboro, me avisaram que a edição seria dedicada à reinvenção e ao recomeço, confesso que travei. “Vou escrever o que?”, pensei com meus botões. Desde que morri executiva em agosto de 2014 e reencarnei meses depois na versão sem crachá, tenho escrito exageradamente sobre esse assunto. Será que ainda tenho algo a dizer?

Enrolei, enrolei e enrolei até chegar aqui. Cheguei à conclusão de que nunca é demais repetir sobre a inexorável urgência de todos os imigrantes digitais (gente como eu, que nasceu antes da década de 1980) terem um plano B e beberem a mudança no café da manhã. Por que tanta urgência? Simples, porque queiramos ou não, o mundo no qual respiramos está passando pela maior e mais acelerada revolução, desde que viramos os reis entre os animais. Não dá para dizer que é ruim. A tecnologia promete vida longa a todos nós.

Por isso mesmo, todos os dias, sem qualquer exagero, temos que acordar dispostos a fazer diferente e a recomeçar. Pode ser uma guinada geral na vida. Pode ser uma simples mudança de hábito, como, por exemplo, trocar o carro pela bicicleta, deixar de chupar suco e caipirosca com canudinho ou, iniciar pela enésima vez a corrida contra a morte na esteira da academia.

A revolução digital, a inteligência artificial e a era da informação esfarelaram, sorrateiramente, boa parte do mundo que conhecíamos e navegávamos com relativa confiança. O futuro é hoje. Conforme a lente, pode ser fascinante e também assustador. É tudo junto e misturado. É tudo rápido e silencioso.

Enfrentar a obsolescência é o desafio diário de quem não é nativo digital. As novas tecnologias, presentes nas menores atividades do dia a dia, exigem aprendizado constante. Perdeu um capítulo, corre o risco de, em breve, não saber mais ligar a TV da sala.

Encontrar um modo de sobrevivência para a vida que se alonga em um mercado de trabalho em transformação é outro desafio. A era do pós-emprego acabou com a estabilidade. A garantia de remuneração para toda a vida não é mais privilégio nem dos melhores profissionais. Os postos de trabalho estão sendo extintos porque o modo de produção está mudando. A inteligência artificial e os algoritmos estão povoando territórios antes reservados aos doutos, como, por exemplo, a medicina, o direito, a administração, a comunicação e até as artes. A “überização” do mercado de trabalho é o novo modelo de gestão das grandes e pequenas companhias.

Prepare-se, portanto, para recomeçar, reinventar e reaprender. Todos os dias. De novo, de novo e de novo. Seremos (somos) todos Sísifos de um eterno recomeço se quisermos estar em dia com a última atualização do sistema operacional global. Está sentindo preguiça? Estão apertando sua mente? Tem dias que eu me sinto como quem partiu ou morreu. Quer saber? É tão bom quanto quando acordo disposta a aprender tudo sobre Blockchain. Desligo o smartphone e vou olhar o mar. Respiro. Limpo a tela da mente. Sossego. Silencio. Respiro de novo. Deixo pra lá tudo o que é supérfluo e foco apenas no essencial. A vida.

Ps: se o futuro é um assunto que te interessa, recomendo a leitura do livro Homo Deus – Uma breve história do amanhã do historiador Yuval Noah Harari (Companhia das Letras), que é absolutamente sensacional.

 

 

 

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Mágoa sem acento prosódico

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Ontem fui dormir e a mágoa veio falar comigo. Veio no formato de mácula. Uma nódoa escura, tipo graxa com areia e sangue pisado. Tava magoadinha, coitada. Cheia de razão.

Mas não dei muita bola para ela era não.

Mágoa é uma desgrama para o coração, para o fígado, para o pâncreas e para o pulmão.

Amargura, amargura, amargura. Amargura tanto, que tudo fica com gosto de fel misturado com angustura, aquele bitter que antigamente usava-se para fazer coquetel.

A mágoa com cara de nódoa escura, contrariada, partiu. Voltou de madrugada. Pegou carona em uma crise de falta de ar.

O ar era tão pouco que nem ouvi o que ela sibilava

Provavelmente era: “tá vendo a sua tristeza”.

Dei de ombros e encontrei a bombinha salvadora.

Puf, puf, puf, puf, puf

O ar voltou e a mágoa correu. A asma dormiu.

Não demorou muito e o despertador tocou. Lembrei do encontro com a danada na madrugada. Tomei café pensando na mágoa. Caminhei pensando na mágoa. Pedalei pensando na mágoa. Qual é o plano B para mágoa? Não achei. Na dúvida, decidi escrever sobre ela. Fazê-la de sentimento palavra. Funcionou.

A mágoa amarrada na frase, sílaba fica.

Sílaba tônica. Sílaba átona. Sem acento prosódico.

Só sílaba. Bem fraquinha. Tadinha.

Cinco anos

No dia 20 de dezembro de 2012, a pousada A Capela abriu seu portão elétrico, pesado, de madeira, pela primeira vez para receber hóspedes. Eram 20 pessoas. Ocuparam todos os oito apartamentos que tínhamos à época. Chegaram ao Pirui, praia linda da mítica Arembepe, trazidos pelo empresário baiano Xuxa, que fora contratado para produzir o evento de lançamento da pedra fundamental da planta da Jac Motors em Camaçari. Não vi nem conheci ninguém. Foi Nil Pereira, minha sócia, quem atendeu os primeiros clientes. Começou com pé direito, fazendo tudo com sua costumeira e famosa eficiência.

A Jac nunca abriu suas portas por aqui. Mudou de ideia e de Estado. Nós, felizmente, nunca mais fechamos as nossas portas. O portão pesado de madeira abre e fecha o dia todo. Às vezes, com tanta frequência que, o coitado, cansa e pifa.

São cinco anos e 1820 dias, totalizando milhares de diárias. Hoje são 17 apartamentos, que hospedaram clientes em mais de 80 casamentos realizados na frente da capela ou do mar. São mais de cinco dúzias de festas de aniversários, que fizeram com que o sentimento de alegria e prazer sempre estivesse entre novos.

Melhor do que as festas foram os novos e profundos amigos, feitos em meio à conversas na praia, no bar e no restaurante. Em cinco anos, colecionamos e vivemos histórias incríveis, incluso nelas meia dúzia de perrengues sérios, muito, muito aprendizado e um absurdo prazer solidificado na certeza de que nascemos para fazer isso. Servir é o meu maior talento.

Há cinco anos, eu e Nil éramos profissionais felizes e realizadas. Eu, em particular, não era capaz de imaginar, prever, supor, inventar o futuro que o destino me ofereceu. Não era capaz avaliar o tamanho da mudança de alma e de vida que a curva da vida me proporcionaria.

Há cinco anos, no entanto, tinha certeza de que o projeto Pousada A Capela tinha princípios e metas muito claros. Este ano, fazendo o nosso planejamento estratégico com o Sebrae, viajei no tempo para frente e para trás ao escrever:

MISSÃO: Hospedar, receber e servir com qualidade, eficiência e pessoalidade e aconchego, fazendo com que o nosso hospede sinta-se como se estivesse em casa porem cercado de mimos e pequenas  mordomias.

VISÃO: Conquistar um numero sustentável de hospedes fieis que  para manter uma taxa de ocupação estável que nos garanta um faturamento necessário para garantir a qualidade do nossos serviço  e proporcionar uma rentabilidade estável. 

VALORES: gentileza, hospitalidade, generosidade, eficiência e compromisso com a realização com sonho de férias do nosso hóspede

Parece conversa para boi dormir, eu sei. Mas não é. É tudo verdade. Só a verdade, nua e crua, explica o que aconteceu conosco. Uma pousadinha simples e despretenciosa, em uma praia fora do circuito, com fama de hiponga e popular, atrair tanta gente legal e bacana sem qualquer megainvestimento de marketing? De onde? Como? Por que?

Foi assim desde nosso primeiro Réveillon, recheado de amigos queridos do peito e de amigos de amigos vindos do circuito Trancoso/Copacabana Palace. Foi assim com a chegada do norte-americano Johannes, que pediu um nono apartamento para uma estadia de cinco meses. Não, ainda não estávamos no Booking. Foi o SEO bem feito e a sorte que colocou nosso querido gringo frente ao link pousadaacapela.com.br.

Foi a oportunidade que nos colocou frente à possibilidade de realizar casamentos e fazer parte da história de amor de uma centena de casais. Sim, a casa tinha uma capela feito pelo senhor Osório para mostrar seu amor por dona Lúcia — sim, o nosso Taj Mahal. Percebemos que era possível celebrar depois do pedido de empréstimo da Vanessa e do Jean. A celebração foi linda e a pousada ainda nem pronta estava. Depois foi a que pediu para casar sua sobrinha aqui. Um viu, outro contou, as fotos rodaram e chegaram mais um, mais outro e temos casamentos na agenda até 2019, garantindo vida longa e estabilidade para o nosso negócio. O dinheiro é fundamental. Mais importante para o conjunto da obra, é ter ciência que celebramos o amor e mobilizamos famílias e sentimentos. Temos muita gratidão por isso. Temos muita responsabilidade também.

No verão, há cinco anos, chegaram também as primeiras crianças. Os filhos da Dani Folonni foram nossas cobaias. Gostaram e, por força do trabalho e da generosidade da mãe, a Dani, que falou de nossa pousada em seu poderoso site itmae, abriram uma portaria de brincadeiras, jogos e corre-corres. Somos, modéstia a parte, craques em bebês e criançada.

Todos os dias, lembro do João, ainda trôpego, balbuciando com suas cinco sílabas o pedido para eu ligar o ventilador. Assim como não consigo apagar da memória o lindo encontro do jovem casal paulistano com a médium mineira. Juntos, dentro de uma poça de água do mar, nas piscinas aqui na frente, acalmar a filhota pequena, que chorava intermitentemente. Como esquecer, então, do sorriso de felicidade do casal jovem, pai de dois filhos pequenos e terríveis, que experimentaram aqui, depois de quase quatro anos de casamento, o prazer de bater papo, beliscar e bebericar do jeito que os adultos fazem.

Enquanto escrevo revejo minha missão. O que publiquei acima não está errado. A síntese, no entanto,  é mais clara e bem simples. Gosto de fazer os outros felizes. Como?

Com singelezas. Tipo uma cama gostosa forrada com lençol limpo. Um enfeite novo na estante branca. Um prato de comida quente e bom. Um travesseiro adequado ao pescoço.  Com o empréstimo do meu buggy para levar a garotada até o projeto Tamar e aldeia hippie. Um presente para aquele amigo especial. Um papo furado no fim de tarde. Com um brinde com prosecco honesto, quando a luz acabava e ainda não tínhamos gerador. Com pequenos mimos e agrados. Com um pedido de desculpas quando pisamos na bola. Com um desejo de bom dia vindo do coração. Com uma oração para Santa Clara para fazer sol no feriado e para não chover durante o casamento. Com um bom dia e uma oferta de ajuda.

São coisas miúdas e bobas. Várias delas não são mais do que a minha obrigação. Mas cinco anos depois sei que fazem a diferença. Na minha vida principalmente. Obrigada a todos que fazem parte desses cinco anos. Que venham mais cinco.

 

Preguiça

Hoje acordei com uma coceirinha no dedão do pé. Leve. Gostosa. Daquelas que prendem a gente. Hoje acordei com uma vontade danada de dormir até acordar. Vontade de jogar o celular pela janela quando o alarme começou a apitar.

Hoje senti um desejo absurdo de ligar o foda-se e ficar. Ficar na cama abraçada no cachorro. Ficar em casa imaginando o cheiro do café fresquinho, porque nem deu vontade de levantar para fazê-lo.

Hoje eu só queria ficar pela casa, de camiseta, calcinhas e chinelos, ouvindo Chico tocar violão.

Hoje eu queria saber aplicar mentiras cabeludas. Queria saber dizer não. Queria ligar de novo o foda-se para perder o avião.

Hoje eu queria que fosse ontem e anteontem porque estava bom demais e ainda dava tempo de cancelar tudo e começar de novo sem pressa nem compromisso.

Só hoje. Só hoje queria poder me entregar ao amor da preguiça. Que delícia.

Não mata baratas mas ajuda a combater ataques de pânico

Ataque de pânico I

Viver do plano B é tão bom que pode acontecer o seguinte: está tudo andando bem, os clientes felizes, a casa cheia, os funcionários produzindo bem, satisfeitos, as contas em dia, os pagamentos feitos, o pró-labore pingando… Daí, você que sempre viveu na base do perrengue, da pressão, da meta, do sufoco, olha para um lado, outra para o outro, e pensa: “meu Deus, está tão bom. Está tão bem, que dá até medo. Será que estou errando em alguma coisa?”.

Vivia tendo pensamentos assim.

Quando eles chegavam, sentia frio na barriga. A espinha gelava. O coração começa a batucar. Tremia. Incomodava. Então, dava um tranco na minha cabeça e repetia em voz alta na frente do espelho: “deixa de ser idiota, mulher. Você trabalha para caralho, está tudo bem mesmo. Parabéns. Você merece. Seja feliz.”

Funcionava, mas non troppo. A sensação de que a qualquer momento eu teria de descer a ladeira rolando era permanente. Sempre a dúvida, vai dar certo?

Ataque de pânico II

Enquanto escrevo, leio vários livros ao mesmo tempo. Um deles é A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown, um dos quatro best-sellers que ela escreveu. Qual foi a minha surpresa em descobrir que a sensação de alegria precedida do mau presságio não é uma doideira minha, mas um comportamento coletivo utilizado como forma de escudo contra a vulnerabilidade.

Não entendeu nada? Calma, calma. É complexo mesmo.

Antes deixa eu apresentar a Brenè Brown.  Ela é professora e pesquisadora da Universidade de Houston, Texas, nos Estados Unidos e tem uma cadeira na Fundação Huffington de Trabalho Social. Nos últimos 16 anos, Brenè se aprofundou no estudo de temas como coragem, vulnerabilidade, vergonha e empatia. Ela se tornou uma das cinco figuras mais vistas no TED no mundo com a apresentação O poder da vulnerabilidade (segue o link The Power of Vulnerability ).

Brenè é craque. Brenè explica o seguinte: sentimos esses ataques de pânico porque vivemos em uma sociedade capitalista baseada na cultura da escassez. Parece que nunca temos o suficiente de comida, roupa, amor, sucesso, felicidade, tempo, viagem, amigos, likes… A intenção do sistema é essa mesmo. Nunca nos sentirmos seguros ou certos o bastante para trabalharmos e gastarmos mais e mais. O sentimento produzido por essa roda viva é a alegria sempre parecer uma farsa.

 

“Nós acordamos pela manhã e pensamos: “O trabalho vai bem, todos na família estão com saúde, nenhuma grande crise está acontecendo, a casa ainda está de pé, eu estou me sentindo bem. Que droga. Isso é ruim! Muito ruim. Algum desastre deve estar a espreita, só esperando para acontecer.” 

Ela, como eu, considerava a sua permanente preparação para um desastre como um segredo, um truque que a tornava (me tornava) superior e infalível. Estava convencida também de que era a única no mundo que contemplava os filhos enquanto dormiam e que, no momento seguinte da onda de amor, imaginava algo terrível acontecendo com eles. Por que fazemos isso?

Brown responde: “Sacrificamos a alegria para evitar a dor”.

Qual dor? “Uma vez que fazemos a ligação entre vulnerabilidade e alegria, a resposta é bastante direta: estamos tentando vencer a vulnerabilidade à força.

Não queremos ser surpreendidos pela dor, por isso, masoquistas, enxotamos a alegria e fazemos ensaios macabros de fundo do poço como uma defesa contra a decepção. Eu sempre fui craque nisso. Pensei tantos absurdos que tenho vergonha de reproduzir.

Como escapar? Brené Brown descobriu que existe um vínculo forte entre alegria e gratidão. O processo é o seguinte:

– Escassez e o medo levam a alegria como mau presságio.

– Tememos que a felicidade dure pouco, que não seja suficiente ou que a tristeza que vem depois seja muito intensa.

– Aprendemos que se entregar à alegria é igual a se preparar para a decepção e a tragédia. Afinal, não merecemos ser alegres se somos incapazes e imperfeitos.

– Quem somos nós para sermos dignos de alegria com tantas guerras e crianças famintas?

Como escapar desse looping de fundo do poço?

Ela garante que o antídoto é simples. Se o oposto da escassez é entender que temos o bastante, então, praticar a gratidão é a forma de reconhecer que há o bastante e que nós somos o bastante.

Praticar a gratidão é a saída para aceitar a alegria e o prazer.

Tipo assim: “obrigada Senhor. Trabalhei como cão no final de semana e merece essa folga hoje, segunda-feira”.

Praticar a gratidão é o caminho para se livrar da culpa.

Tipo assim também: “obrigada Senhor por esse jantar delicioso, no restaurante que adoro, na companhia do meu filho, que passou de ano e de escola e como eu merece comemorar. Amanhã voltamos à rotina.”

Praticar a gratidão é o jeito de eliminar o desejo de entorpecimento que anestesia a dor, que vem dos sentimentos de inadequação e inferioridade.

Tipo assim: enfrentar o medo da dor do fracasso, da vergonha, da vulnerabilidade e aceitar o prazer, fulgaz mas delicioso, do aqui e do agora.

Tenho praticado todos os dias e está funcionando. Como estou fazendo isso? É bem simples. Digo mais obrigada do que antes. Tenho tentado ser mais gentil do que antes. Tenho mostrado mais carinho e mais amor para quem convive comigo. Presto atenção em pequenos detalhes. Presto atenção e valorizo pequenos instantes de prazer. Agradeço em voz alta Deus (porque acredito Nele) esses momentos. Agradeço em volta alta o destino (porque acredito nele também) esses momentos. Parece papo de doido, eu sei, mas é sensacional olhar para o céu (fiz isso anteontem na Faria Lima, em São Paulo) e dizer “obrigada Senhor por essa tarde em que deu tudo certo.”

 

Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

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Acordei com essa dúvida hoje. Lá fora fazia sol. Logo, a questão não é filha de depressão pré-feriado de chuva. Também não passo por nenhuma crise. O assunto não é apenas meu, mas do mundo. Na verdade, ele brota da empatia. Estou envolvida com muitos amigos queridos que estão precisando urgentemente de um plano B. Agora há pouco, conversei com o amigo de uma amiga que estava pensando em fazer o dele depois de participar de um programa de demissão voluntária da Petrobras. Ele quer ser dono de pousada. Espero poder ajudá-lo.

Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

Tenho 52 anos, nunca ouvi meus pais, menos ainda meus avós falando de plano B. Ninguém pensava nisso, muito menos precisava disso. A razão é banal. O mundo e a vida eram planos e lineares. Os desejos e inquietações muito básicos. Os filhos, em geral, seguiam as escolhas dos pais para definir com quem casar, onde trabalhar, o que ser e fazer. A herança definia os nossos destinos, com extraordinárias exceções. Quase ninguém precisava de plano B, porque não era certo ter uma alternativa. A vida seguia bem mais curta do que hoje e os atropelos estavam relacionados a grandes catástrofes.

Meu avô paterno, por exemplo, era o primogênito de uma família de treze irmãos, filhos de fazendeiro rico de café do interior de São Paulo. Ele precisou de um plano B em 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York destruiu, como uma bola de neve, a economia mundial. Ele mudou-se para São Paulo, trocou o uniforme de herdeiro pelo de trabalhador. Foi funcionário do banco Comind a vida inteira dele. Tinha hora para entrar e para sair. Almoçava em casa, o mesmo cardápio, todos os dias. Felizmente morreu antes de o banco falir em 1985. Acreditem, a instituição pagou regiamente o salário dele, que no final da carreira era de diretor financeiro, até morrer aos 74 de idade. Bom tempos aqueles.

  1. O primeiro pingo no i

    Ter um plano B, na real, é ter uma saída, uma alternativa. Vale para momentos ótimos, bons, médios, ruins e péssimos. Ele é um facilitador. Com o tempo, ter plano B se torna um modo de vida. O cérebro se acostuma a pensar alternativas. Quase como um jogo. Pode se tornar tão automático quanto escovar os dentes antes de dormir ou trocar a marcha do carro no trânsito. Acredito que para tudo existe um plano B. Com exceção da morte. Ela, que ironia, só é plano B do suicida.

 

Via Láctea, Renato Russo

Por que plano B?

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Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.