Passagem

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— Oi, bom dia, tudo bem?

— Bom dia. Está tudo bem. Tudo ótimo. Hoje é a formatura do meu filho.

Hoje, 16 de novembro, passei o dia repetindo essa frase. Contei para o porteiro, para o padeiro, para a minha inquilina, para todos os amigos, para a vendedora da loja de bíquinis.

Ontem, antes de embarcar para São Paulo para vir à formatura do meu Chico, contei para todos os hóspedes. Para os amigos de Arembepe. Para a vendedora do mercado. Para a dona do hortifruti. Para Almir, vendedor da Ninoca, para Rose agente da quilombola da Cordoaria, para os meus amigos dos grupos de WhatsApp. Agora, não me cabendo em mim de tanta emoção, catei o computador para escrever . Quem sabe se depois de colocar em palavras, eu me contenha. Eu me estabilize. Eu me aprume.

Por que tudo isso, afinal ele, Chico, só está se formando no nono ano? Por que tanto exagero se ainda faltam o ensino médio, a faculdade, o mestrado…?

Porque sim, é a primeira resposta.

Porque estou feliz e emocionada é a segunda resposta.

Porque hoje ele faz uma importante passagem é a terceira resposta, mas racional, objetiva e igualmente emocionada.

Estou fazendo essa onda toda porque  acho que a entrada no Ensino Médio, colegial do meu tempo, marca a entrada definitiva na adolescência e na juventude. A infância oficialmente acaba. É uma passagem. Um caminho sem volta para uma trilha que entendo linda, divertida, criativa e libertadora.

Meu pequeno Chico fica na memória e na fotografia acima. Hoje, ele deixa de ser menino grande para se tornar um jovem homem. Um adulto aprendiz. Alguém capaz de cuidar de si e dos outros. Alguém apto a criar e a produzir. Alguém que pode até procriar (não, não, por favor, ainda não, é muito cedo). Alguém apto para ser senhor de si e cidadão do mundo.

Hoje, na hora do almoço com os avós na cabeceira, lembramos do primeiro dia de aula. Da primeira escola que não deu certo. Da segunda, Grão de Chão, que o abrigou tão carinhosamente. Lembramos dos professores e professoras. Lembramos das festas. Lembramos dos passeios. Lembramos da rotina do início da vida escolar, quando para acostumá-lo à distância da casa, eu fazia um longo passeio antes de deixá-lo na escola. Íamos ao parque da Água Branca. Dávamos comida aos cavalos. Brincávamos com as tartarugas. Víamos o pavão e as abelhas. Feliz, percebi que ele se lembrava de tudo.  E sabia que era mentira quando diziam que eu ficava o tempo todo do lado de fora no café esperando a aula acabar. “Eu olhava pela fresta e via que você não estava lá, já tinha ido trabalhar”, comentou Chico, hoje, orgulhoso.

Comecei a escrever esse texto à tarde, antes da cerimônia da formatura. Parei para tomar banho e ir. Ainda bem. O ponto final não podia acontecer antes da emoção real, concreta, verdadeira.

Foi lindo ver Chico grande discursando em homenagem a uma professora que irá se aposentar. Foi bacana vê-lo e sabê-lo querido pelos professores e colegas. Foi quente vê-lo lindo e estiloso de terno azul tocando “eu fico assim sem você”.  O que valeu a vida, a minha e a dele, foi vê-lo descer do palco, com uma rosa nas mãos. Sem titubear entre a mãe e a avó, com um sorriso especial nos lábios, ele entregou a flor para Maria, a Mamá, que junto comigo o cuida e o cria. A Mamá que o nina e o alimenta desde o dia em que saímos da maternidade, há quinze anos. A Mamá que generosamente dividiu seu amor entre Luciano e Cristiano, filhos dela, e Chico, filho nosso.

Sim, a passagem está feita. Chico aprendeu matemática, português, desenho, inglês e literatura. Chico aprendeu a fazer amigos. Chico aprendeu a respeitar os mestres. Chico tem conhecimento. Chico tem sabedoria. Chico é amor.

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Chico, vovó e Mamá: muito amor

 

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Amor intransitivo

Eu amo

Tu amas

Ele ama

Nós amamos

Vós amais

Eles amam

Amar. Tipo de verbo: regular. Transitividade: transitivo direto, intransitivo e pronominal. Gerúndio: amando. Particípio passado: amado. Infinitivo: amar.

Ah meu Deus, como ela odiava gramática. Na verdade, ela odiava o mundo cheio de regras, ordens e arrumações. A gramática era a regra, a ordem e a arrumação na forma mais chata. A gramática tentava conter a fala. Dominar a palavra. Restringir a conversa. Se meter no papo. Atrapalhar o fluxo. Reduzir o encanto. A gramática era um porre.

Ela odiava gramática na mesma proporção em que amava literatura. A literatura era, na verdade, sua cúmplice no desafio de aprender a ler e a escrever sem aprender as regras. Graças a literatura, ela aprendeu a escrever “de ouvido” para usar uma expressão dos virtuosos que tocam violão sem saber música. Regência? Concordância? Crase? Conjugação? Transitividade? Não, não sabia explicar, mas sabia o que era certo ou errado de tanto ler e repetir. Algumas coisas, é verdade, escaparam. Ela até hoje tem vergonha quando lembra do seguinte diálogo:

— Por que você escreve obrigado e não obrigada?

Silêncio

Silêncio

Silêncio

A resposta foi safa. “É brincadeira. Escrevo obrigado por causa do Fábio Júnior, que diz “obrigadu”. Mas às vezes o corretor corrige, o dedo escapa e sai obrigado.

— Ah, que engraçado.

Findo o dialógo, realizado na era pré-google, ela correu para os livros e descobriu que mulheres falavam “obrigada” e não “obrigado” como ela escrevia sempre no final das mensagens.

A história do amar verbo intransitivo segue sendo, portanto, um mistério, já que ela leu e amou o livro do Mário de Andrade mas ainda não conseguiu entender porque o verbo amar pode ser transitivo direto, intransitivo e pronominal. Quer dizer, ela até entendeu porque já amou muito e esse sentimento é mesmo dúbio, estranho, esquisito, incontrolável, indomável e avesso às regras. Por isso, talvez, a gramática tenha sido assim tão ampla e aberta com o verbo.

Afinal, dizem, que verbos transitivos são verbos que, tendo sentido incompleto, necessitam de um complemento verbal para completar o seu sentido. Amar, portanto, necessita de um objeto direto ou indireto. A gente, em geral, ama alguém ou alguma coisa.

É?

Amar a si mesmo é amar alguma coisa? A dúvida era recente. Sim, há poucos dias, depois de ler um livro — sempre eles — ela descobriu que amava profundamente a si mesma. Era uma paixão louco, que ao ser descoberta a fez e a faz andar de sorriso nos lábios, rídicula, como as cartas de amor. A descoberta do amor próprio foi recente e chegou junto com o aniversário de 52. Não houve nenhum fato especial, nenhuma situação externa, apenas um entendimento claro e sútil. Ela amava a vida que tinha. Amava a pessoa que se tornara. Amava o jeito. Amava as escolhas. Amava-se. Não era um amor narciso. Ao contrário. Ela amava especialmente os defeitos, as fraquezas e a capacidade recém-adquirida de aceitar a própria vulnerabilidade. Ela amava o fracasso e o caminho cheio de buracos que havia escolhido. Amava também a solidão. Amava o desprendimento. Amava o passado e as roupas velhas.

Epa, epa, epa.

Ela deu um google e leu: “verbos intransitivos são verbos com significado completo, não sendo necessária a junção de objeto direto e objeto indireto para complementar o seu sentido. Referem-se a ações que iniciam e terminam no próprio sujeito, não transitando para um objeto.”

Ela se amava. Ponto. Ela era o sujeito. O verbo era o verbo. Ela se amava. Ela não precisava mais do amor nem da aprovação de ninguém. Ser amado era bom, era gostoso, era agradável, mas não era mais necessário. Ela, enfim, não precisava fazer ginástica olímpica nem malabarismo do Cirque de Soleil para ganhar sua dose diária de amor. Bastava existir. Bastava ser. Bastava amar. A si mesmo como aos outros.  Amor próprio, sem ciúmes nem conflito. Apenas amor. Intransitivo.

 

Os olhos da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse a mais tempo
Não amava quem amei

Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou
Ele agora está mais firme
Do que quando começou

E se não tivesse o amor
E se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar (ah, o amor)
E se não tivesse o amor

No Abaeté tem uma lagoa escura
Arrodeada de areia branca

CAETANO VELOSO, IT S A LONG WAY

 

 

 

 

 

A conquista da vulnerabilidade

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Ela sempre se orgulhou de duas coisas. Ter uma alma sem relevo e raramente sonhar.

A alma sem relevo facilitava a vida. Privava de dores. Encurtava caminhos. Resumia os sentimentos. Encurtava os períodos de tristeza. Espantava a depressão.

A escassez de sonhos lhe dava orgulho. Um dia, ouviu dizer que os iogues também não sonhavam. Apenas dormiam um sono profundo e algumas horas depois acordavam prontos e revigorados para a vida. Ela era muito orgulhosa e tinha orgulho dessa semelhança. Apesar de jamais desejar ser iogue. Ela não gostava de meditar.

Um dia, no entanto, ela sonhou. O sonho era muito, muito estranho. Ela estava em um avião. O que sempre foi comum na vida dela. O avião começava a cair. Cair. Cair. Ela sentia medo. Muito medo. Mas não achava que ia morrer. Ela não morreu. O piloto deu um jeito. O avião se espatifou com jeito no chão e ela saiu ilesa.

Na sessão de terapia da quarta-feira pela manhã, ela contou o raro sonho para a analista. A versão que ela deu para o enredo foi espetacular. Ela, que se achava foda, entendeu a quimera como um sinal de poder, controle, domínio e invulnerabilidade.

Com muita certeza, ela falou: “Sabe Marta, eu sei que as coisas estão difíceis para o meu lado. A vida está dura. Não estou entregando o resultado. O trabalho está puxado. Mas esse sonho… acho que ele significa que eu vou sobreviver. O avião vai cair mas mesmo assim manterei o controle, seguirei viva. Invulnerável. Sempre foi assim. Essa é a minha grande qualidade”, ela afirmou. Marta era freudiana e nada falou. Ouviu. Anotou. Tentou saber mais detalhes. Não tinha. Ela havia contado tudo.

Na semana seguinte, ela sonhou de novo. Não estava mais em um avião. O veículo era um carro. Ela adorava carros. Esportivos. Conversíveis. Velozes. No sonho, ela estava numa estrada íngrime, com curvas estranhas, meio que disputando uma corrida com um funcionário da equipe dela. Ele era executivo também. Ambicioso também. Sem filtro e sem escrúpulo também. Era capaz de tudo para entregar o número. Missão dada, missão cumprida, especialmente se na ponta da linha tivesse um bônus gordinho.

No sonho, eles trombavam. Ninguém se machucava, mas o carro dela pifava e o dele seguia ileso. Que nem na Fórmula 1. Ele a deixava para trás, comendo poeira. Ela sabia que tinha perdido. Mas na hora de resumir o enredo onírico, deu um jeito de ficar bacana na fita. Dourou a história. Interpretou. Disfarçou. Ponderou. Marta ouviu tudo novamente em silêncio. Anotou. Perguntou detalhes. A sessão acabou.

Na sessão seguinte, a queda do avião e a trombada do carro se tornaram excelentes metáforas para o que estava acontecendo com a vida dela. A pessoa invencível, invulnerável, campeoníssima, todo-poderosa, tinha tomado um pé na bunda fenomenal, seguido de uma rasteira. Estava na lona. Ferida. Pelada. Escalpelada. Na hora, ela não lembrou dos sonhos. Nem mais falou sobre eles. Apenas tentou mostrar que estava bem e que podia caminhar sozinha.

Se despediu de Marta com uma desculpa esfarrapada. Disse que ficaria indo e vindo e não poderia mais manter a rotina de sessões. Verdade. Mentira. Queria mesmo era fazer economia. Eliminar o custo supérfluo.

O tempo passou. Ela se virou como pode, sem as sessões de análise e sem os sonhos. A alma até ganhou umas colinas, que ela subiu e desceu para ganhar músculos e curar a dor. Teve jeito. Teve conserto. Teve fé e, graças a Deus, ela encontrou a melhora dela.

Na semana passada, ela visitou uma livraria. Tinha que esperar uma amiga. Na prateleira do térreo, encontrou um livro escrito por uma conhecida. Ficou curiosa, folheou, leu a orelha e comprou. O dia em que morri em Nova York, da jornalista Milly Lacombe. A história era diferente da dela mas tinha muito a ver com ela.  Devorou o livro. Enquanto, o engolia lembrou. Lembrou dos dois sonhos esquecidos. Lembrou de outro livro lido e de um texto já escrito. Juntou as peças.

Sonhos  são como deuses. Quando não se acredita neles, deixam de existir. E a gente se ferra porque erra muito. Ela se ferrou, mas não durou. Não sonhava, mas acreditava nos deuses. Foram Eles que a colocaram no devido lugar.

Como assim? Assim, derrubada das nuvens e do Olimpo, ela entendeu que era vulnerável. Logo, humana. Logo, falha. Logo, sensível. Logo, verdadeira. Logo, fraca. Logo, forte. Logo, bacana. Logo, safa. Logo capaz e pronta para sacudir a poeira e levantar. Dar, a seu modo, um volta por cima. Se amar acima de todas as coisas, como Ele sugeriu. Ao fazê-lo, descobriu de verdade o que significava ser feliz.

 

 

 

Jesus seja louvado!

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Aconteceu assim.

Era feriado e a criança acordou cedo. A mãe não deu conta de fazê-la parar de chorar. Para não acordar o pai, cansado, decidiu sair com o menino de casa. Aproveitar para fazer mercado. Lá ele sossega, pensou.

Menino pequeno, viaja de cadeirinha. Colocou o pequeno lá, no banco de trás. Foram rodando pela cidade deserta. Todo mundo ainda em casa, dormindo até acordar, graças ao dia festivo. Na porta do mercado, um espécie de boutique de delícias, encontraram uma placa educada.

Hoje o Santa Luzia ficará fechado por motivo de feriado religioso.

O que fazer? Dar meia volta e buscar outro assunto. Mãe e filho seguiram no carrinho, um corsa azul, quatro portas, pequeno e discreto. Subiram a Augusta ainda vazia. Cruzaram a Paulista, àquela época ainda aberta ao tráfego, viraram na Luís Coelho. A mãe tinha lindas memórias daquela rua.

Virou-se para trás e falou ao filho bebê.

– Sabe que a mamãe nasceu ali?

Ela apontava a maternidade São Paulo, berço da maior parte dos bebês abastados dos anos 60/70 do século passado. Talvez o passado remoto tenha produzido a reação no pequeno curioso.

Do silêncio fez-se o pranto e a agitação. Como um boneco de posto de gasolina, ele começou a agitar os braços e o tronco para tentar escapar da prisão da cadeirinha de segurança. Na virada da Matias Aires, a tentativa de fuga virou rebelião armada. A mãe até tentou contê-lo com um braço, enquanto que segurava o volante com o outro. Não deu. Ciosa, parou o carro quase na esquina, do outro lado da banca de jornal.

Desceu e foi à guerra no banco traseiro. O bebê fofinho, tipo Johnson, havia se transformado. Era um pedúnculo. Um capeta de cachos loiros. Um exu mirim. Berrava e lutava contra a mãe, determinada a amarra-lo novamente na cadeirinha , da qual ele havia escapado.

A berraria é interrompida por um toc toc na janela. “Que hora para alguém pedir informação”, ela pensou. Gentil, baixou o vidro manual, enquanto tentava fechar o cinto de segurança em torno do corpo do filhote.

— Jesus seja louvado! Pare de bater em seu filho. Vamos chamar a polícia, disse a mulher do lado de fora do carro, acompanhada por um homem de terno.

— Jesus seja louvado, repetiu ele. Senhor, afaste o demônio do corpo dessa mulher.

— A mulher endemoniada sou eu, pensou ela enquanto segurava seu bebê fujão pelo tornozelo.

O mantra do Jesus seja louvado interessou o garoto que parou de berrar e passou a se divertir com a fala do casal do lado de fora. A mãe, desesperada para se livrar dos dois, teve uma ideia genial.

Com olhar esbugalhado e sorriso Monalisa nos lábios, começou a berrar também:

— Amém, Jesus. Que o senhor seja louvado. Adeus capeta que partiu do meu corpo. Amém Jesus. Que o senhor seja louvado.

Os gritos dela agradaram o casal, que foram baixando o tom, baixando, baixando, até se calarem.

— Vá com Deus, irmã, disseram antes de partir.

Suando, ela viu o casal subir a ladeira. O bebê estava quieto, sentado na cadeira. Tinha um sorriso maroto nos pequenos lábios.

— Você está rindo do mico que sua mãe pagou, né sua peste? Vamos para casa e agora sem dar um pio e sem se mover dessa cadeira.

A mãe, então, voltou para o banco do motorista, engatou primeira e partiu.

Com fé em Deus e a paz de Cristo.

15 anos de amor e música

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Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…

Sai piaba, saia da lagoa. Sai piaba, saia da lagoa.

A dona aranha subiu pela parede. Caiu do aranha.

Rebola a cintura, dá uma umbigada.

O que tem na sopa do neném? O que tem na sopa do neném?

Samba lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Samba lelê precisava de umas boas lambadas

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O mar é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe neste colchão de amar

O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem quando a gente dorme?

Todo mundo tem um irmão meio zarolho, só a bailarina que não tem…

Estou morrendo de saudade. Rio de sol, praia sem fim. Rio você foi feito pra mim. Cristo Redentor, Braços abertos, sobre a Guanabara…

Eu quis dizer você não quis escutar, agora não peça não me faça promessas

Meu coração, não sei porque. Bate feliz quando te vê. E os meus olhos ficam sorrindo

Quand il me prend dans ses bras, Il me parle tout bas. Je vois la vie en rose.

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Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos 

Com amor no coração, preparamos a invasão. Cheios de felicidade, entramos na cidade amada

Foi assim com versos, acordes e sons que quinze anos se passaram. Passou rápido como um segundo. Parece ontem. Mas foi tanto. Tão intenso. Tão grande. Tão, tão, tão absoluto. 

Foi amor. É amor. Foi música. É música. 15 anos de amor e música. Essa pode ser a síntese tão difícil de fazer e escrever. Detalhes, episódios, instantes. É tudo tão relevante para mim e para todos aqueles que fizeram parte dessa história, desse amor, dessa canção.

Música, amor e poema. Descoberta. Aprendizado. É permanente. Contínuo. É felicidade. A maior que já senti. A maior que sentirei. Insuperável. Inacreditável.

 

Amor e música que embalam a nossa história. Amor e música que alimentam a vida do meu filho, Chico, 15 anos, uma alma excepcional feita de som e sentimento.

 

A princesa do povo

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Onde você estava quando a princesa Diana morreu? Muita gente se perguntou isso hoje, quando o calendário marcou a data redonda dos 20 anos da morte da princesa do coração dos ingleses e do mundo.

Eu estava em Brissac, uma pequena cidade no vale do Loire, na França. Eu era editora da equipe de São Paulo da Revista CARAS e participava da cobertura dos eventos do Castelo  da revista naquele verão europeu. Dias antes, havíamos organizado o casamento da atriz Carolina Dieckmann com o ator e artista circense Marcos Frota. Por isso, em 31 de agosto de 1997, um domingo, estávamos tranquilos. O material da boda já tinha seguido para São Paulo e tínhamos uma linda capa para a semana. Naquela época, a tiragem da revista superava 400 mil exemplares. Naquela época, a revista “fechava” às 19 horas de todas as segundas-feiras. O telefone que tocou às 6 da matina mudou tudo.

Os jornalistas em São Paulo, horas atrás no fuso, ficaram sabendo da tragédia na madrugada e nos despertaram para avisar. A ordem era urgente. Levanta da cama e viaja para Londres. Londres? Eu não conhecia Londres. Se vira. Levantei da cama, catei umas roupas e corri para a estação de trem. Desci em Paris e lá encontrei nosso correspondente, Alvaro de Almeida, que já havia providenciado a passagem para Londres. No meio do caminho, falávamos com a agência para reservar hotel. Um corre corre danado. Uma adrenalina absurda. Pelo celular, um tijolo de plástico da Motorola, combinávamos com São Paulo como seria a cobertura. Tínhamos pouco mais de 24 horas para fazer a tradução da morte da nossa princesa!

Hoje, em tempos digitais, é difícil avaliar a relevância da morte da Diana e a relevância da cobertura feita pelas publicações impressas sobre qualquer assunto relacionado a uma celebridade mundial como ela. Acompanhávamos, semanalmente, a vida dela. Semanas antes, pagamos uma fortuna por uma série de fotos dela passeando de iate com Dodi, seu namorado de então, em uma praia européia. Era um flagra armado por ela com os fotógrafos (ela era mestre na manipulação da mídia), no qual aparecia diáfana e feliz, de maio branco, olhando o horizonte com cara de apaixonada. Especulava-se que ela poderia estar grávida do milionário anglo-egípcio.  Diana era tão próxima dos nossos leitores quanto qualquer estrela da TV. Diana era princesa. Diana era linda. Diana tinha causas humanitárias. Diana tinha carisma. Quem não torcia para que, enfim, ela tivesse um final feliz nos braços de Dodi?

A bordo do Eurotrem, que cruzava veloz o Canal da Mancha, senti o peso da responsabilidade. Não conhecia Londres. Não conhecia ninguém em Londres e tinha poucas horas para me virar nos 30 e produzir material de qualidade para a edição que fechava no dia seguinte. Da estação corri para o hotel (chiquérrimo, porque naqueles anos as revistas eram ricas e os jornalistas tinham boa vida), com o mapinha da cidade nas mãos.

Vamos lembrar: em 1997, celular era algo raro, caro e precário. Servia apenas para falar ou para atirar na cabeça de alguém. O que era muito em um tempo em que as pessoas se comunicavam por carta, telegrama, pombo correio e telefone fixo com telefonista para fazer ligações internacionais. A internet ainda era movida à lenha. Google ainda não era nada. Quando pesquisávamos, usávamos um tal de alta vista. Rede social? Ahh? Não, esse termo ainda não existia.

Larguei as coisas no hotel e fui para a rua. Como eu faço agora?, pensei já quase em pânico.

O amor dos ingleses por Diana me salvou de perder o emprego 17 anos antes do prazo. Bastou colocar o pé na rua para perceber que a cobertura seria simples. Bastava olhar e sentir. Bastava me emocionar e escolher personagens tocados por aquela indescritível dor. Os caminhos à seguir também se mostraram fáceis. Era só seguir mulheres, homens, jovens e famílias que caminhavam constritas, com flores e bonecos de pelúcia na mão. Rapidamente percebi que seguiam todos em direção ao palácio de Kensington, última residência da princesa.

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Quando lá cheguei, me surpreendi com o silêncio. Era um silêncio pesado de dor e saudade. E flores, muitas flores, com mensagens escritas à mão, que traduziam o carinho e a sensação brutal de perda dos súditos da “rainha do coração dos ingleses”. Poucas vezes, vi tanta gente sofrendo a mesma orfandade. Despidos de pudor, os ingleses choravam sem disfarçar lágrimas e soluços. Haviam perdido a “princesa do povo”, a princesa amiga, parceira, que sofriam com e como eles. Entrevistei uma senhora que chorava muito. Não lembro o nome dela. Mas lembro, perfeitamente, que no final de nossa conversa, lhe dei um abraço que ela aceitou sem cerimônia. Juntas choramos aquela morte besta, de uma mulher jovem, linda e bacana que podia ser nossa amiga e que parecia, como nós, ter um futuro incrível pela frente.

 

 

 

 

 

 

 

Conselhos

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Abro uma pasta onde uma etiqueta branca traz a legenda em letra cursiva:

Poemas, matérias, check ups, desenhos e memórias.

Abro. Surgem emails dos século passado. Brota um conselho de um importante diretor de redação, que comentava, generoso, o meu primeiro texto na revista que ele comandava. Aparece uma carta inventário de outro manda-chuva recém chegado de um sabático esculhambando o trabalho que fazíamos sob nova gestão. Relembro quantas dores de estômago essas mensagens provocaram um dia. Sorrio. Tempo, tempo, tempo. Senhor da razão e do fígado. Nada faz sentido.

Apenas o poema que diz: “seus olhos estavam cerrados. Com aquela expressão de abismo para mergulhar no sonho.”

Apenas o outro poema que aconselha:

“No resplendor das criaturas, busca o esplendor do Criador

na simetria das formas puras,

busca o Sem-Forma, o Sem-Cor.

Nos nomes de todas as Escrituras,

Busca o inominável Autor.”

Foi escrito em agosto de 1991 por um amigo que sumiu da minha vida. À época não fui capaz de compreender a mensagem. Perdi. Pena. Paciência. Tudo faz sentido.fullsizeoutput_10c4