De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

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A vida pode ser uma estrada, para quem gosta de viajar. Hoje, enquanto dirigia o ducentésimo quilômetro do dia, contava ao meu filho, Chico, que escolhi ser jornalista por três motivos: sonhava mudar o mundo, queria viajar muito e desejava, um dia, ser escritora.

“E o menino com o brilho do sol

Na menina dos olhos

Sorri e estende a mão

Entregando o seu coração

E eu entrego o meu coração”

De volta ao Começo,  Gonzaguinha

A história de hoje é longa. Bem textão. Tem a ver com estrada, viagem e jornalismo. Não terá lead. Será em partes.

Parte 1_agosto de 2014

Há mais ou menos três anos, deixei a grande imprensa. História velha. Todo mundo já sabe que fui demitida do emprego da minha vida. Tinha uma viagem de férias marcada. Fui porque, mesmo desempregada, não perderia a chance de fazer um tour que estava pago. Destino San Francisco, costa Leste, dos Estados Unidos. Foi lá que começa essa nova história.

Parte 2_setembro de 2014

No primeiro dia, eu e Nil, minha companheira de viagem, saímos para passear. Não andamos nem dois quilômetros e demos de cara com uma galeria de arte mexicana. Na vitrine, dois objetos de cerâmica começaram a piscar para nós. Eram uma árvore da vida e uma pilha de cinco cachorros com um galo no alto. Entramos para pedir o preço. Não era barato, mas também não era um absurdo. Agradecemos e resistimos ao impulso inicial de sair com as duas obras nos braços.

No dia seguinte, sem querer querendo, fizemos o mesmo caminho. De novo, árvore e cachorro abanaram e piscaram para nós. Nil, mais audaciosa e ousada do que eu, entrou na galeria e anunciou: são meus. Pagamos e combinamos de buscá-los dali dois dias, quando estaríamos de carro. Feito. Os dois embrulhos gigantes (mal embrulhados) foram para o fundo do carro, onde sofreram os primeiros e únicos danos.

Viajamos mais de 2000 quilômetros chacoalhando pela costa Oeste, Vegas e Gran Canyon. Quando chegamos em Los Angeles, a última escala, percebemos que tínhamos dois trambolhos que não podiam ser despachados na mala. Viramos a cidade atrás de sacolas, que os abrigassem. Ironia. Destino. Foi na loja do Exército da Salvação que encontrei uma sacola usada para entregar antigos layouts de revista que vestia como uma Luca a minha árvore cabia. Os cachorros divididos em dois blocos foram para duas malas de rodinhas, que embarcaram conosco.

Check in e, por milagre de nossa Senhora de Guadalupe, a turma do aeroporto não implicou com o tronco da árvore, pesado e duro o suficiente para atentar contra toda a tripulação da Delta Airlines. Resumo: chegamos em São Paulo vivos e quase inteiros. Na pousada A Capela, em Arembepe, descobri que a orelha do cachorro rosa tinha se quebrado. Antes que conseguisse restaurar, o pedaço se perdeu. Mesmo sem uma orelha, família de cães e árvore da vida trouxeram uma imensa e profunda novidade em nossas vidas.

Parte 3_novembro de 2014

Primeiro, escrevi um texto usando a árvore como ilustração para falar de amizade. Segundo: por serem tão lindos e chamarem tanta atenção, percebemos que deveríamos enfeitar nossa Capela apenas com legítimo artesanato, com obras de arte popular. Começava com aquelas duas obras de um desconhecido senhor Ortega S, que assim assinava as peças, uma paixão, um novo trabalho, uma missão e o prazer pelo pé na estrada.

Parte 4_março de 2015

Sim, porque mesmo sem perceber, mudamos, mudamos e voltamos aos começos que deixamos pela estrada.

Lá estava eu, pesquisando e entrevistando pessoas para descobrir os encantos da arte popular brasileira. Com caminhonete e waze, viajamos pelo interior de Alagoas, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Fomos à feiras, fizemos inúmeras amizades e descobrimos a linda ética de artistas e dos caminhoneiros de carga fracionada. Encomenda-se, paga-se e tudo chega certinho no endereço combinado. Fio de bigode, admiração e confiança. Esta é a lei. Sim, pode demorar seis meses, às vezes o tempo do artista, mas chega.

 

Parte 5_junho de 2016

Com a pousada enfeitada de obras lindas, que nos davam orgulho e distinção, começamos a ouvir de alguns hóspedes a pergunta: “está a venda?”. Sim, estava.

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Sim, assim nasceu a Coisas da Ninoca, a loja conceito que criamos, digo de brincadeira, por dois motivos: entreter os hóspedes nos raros dias de chuva e ter um motivo nobre para sair viajando por aí.  Em novembro, ela faz uma ano. Rende um dinheirinho, um emprego, do eficiente Almir, e um imenso prazer. De volta ao começo, nos permite viajar, ouvir histórias, que depois escrevo ou conto, e mudar o mundo. Sim, mudar o mundo porque ajudamos a girar uma economia criativa, genial e generosa. Pessoas de todas as idades, origens e gêneros, que vivem do seu fazer e do seu incrível talento imaginário. Artistas. Artistas populares. Artistas geniais.

Desde os primeiros pedidos de “está à venda”, combinei com Nil que venderíamos quase tudo porque a ordem era desapego. As exceções seriam o começo de tudo: nossa árvore e nossa pilha de cachorros. Invendáveis. Claro que ambas eram as campeãs de audiência dos pedidos.

 

Parte 6_novembro de 2016

Que tal ir ao México procurar mais árvores da vida e cachorros empilhados?

Parte 7_junho de 2017

Foi o que fizemos no final de junho e aí começa o pedaço mais lindo dessa história. Chegamos achando que íamos aterrisar e dar de cara com dezenas de peças de Ortega S. Afinal, ele era mexicano…. Estupidez picante como o chili do café da manhã. Rodamos, rodamos e nada se parecia com a arte de Ortega S.

Sacudi a poeira do tempo e lembrei dos tempos de repórter missão impossível. Naquela época pré-google, as ordens chegavam assim: “acha fulano” e a gente, muito jovem, não conseguia nem entender direito o nome do fulano. Mas se queria seguir sendo repórter da maior revista do país, dava um jeito o achava. Com uma foto da assinatura do Ortega S comecei a pesquisa no dia 1 de julho. O google México ajudou, foi generoso. Mandou opções que não aparecia em São Paulo. Fui mergulhando, fuçando e achei uma página simples, tosca, com peças – que eram iguais as minhas – um endereço em Jalisco, um email e dois telefones. Tentei tudo. Consegui resposta por email e WhatsApp.

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Gerardo Ortega Lopez, um dos irmãos Ortega, na foto acima com seu filho cadete, me respondeu de início ressabiado. Fomos trocando mensagens e resumi bastante a história. Disse que estava na Cidade do México e que tinha vindo do Brasil comprar peças dele, que queria conhecê-lo e faria qualquer coisa que fosse necessário para viabilizar meu plano. Primeiro ele sugeriu que eu fosse até San Miguel Allende, onde existem peças da família à venda em lojas. Depois, Gerardo percebeu que a minha paixão era verdadeira e sugeriu que eu fosse até Tonalá, direto do atelier deles. O preço seria melhor. A emoção foi maior.

Parte 8_4 de julho de 2017

Acordamos cedo e partimos. Mais de 550 quilômetros. Muitos dólares de pedágio. Poucos dólares de gasolina, comparado com a nossa. Algumas voltas por culpa nossa e do waze. Chegamos à Colônia Santa Cruz de Las Huertas. As ruas eram simples, decoradas com bandeirolas de São João. Na internet, havia visto a foto da casa, pintada de roxo com um galo ao lado da porta. De longe identifiquei e o coração bateu acelerado. Estacionei e na porta me esperava Oscar Ortega López, irmão de Gerardo, que tinha saído para um compromisso.

 

Entramos. O ateliê era igual a dezenas de ateliês que conheci nos últimos dois anos, correndo atrás de arte popular. Zero de luxo. Zero de charme. Zero de glamour. Beleza pura apenas nas peças, em geral, expostas de modo tosco.

Nos fundos da casa, outros membros da família pintavam peças que seriam vendidas em breve. Eu já havia feito uma encomenda a Gerardo, que participará no final de semana de um concurso mexicano de arte popular.

O saber fazer peças lindas está na família há quatro gerações. “Aprendemos criança, de pai para filho”, conta Oscar. “Quem gosta faz, quem não gosta, busca outra profissão.” Eles trabalham em grupo. Olhando ao redor, bairro incluso, é difícil entender de onde vem a inspiração para tanta riqueza e beleza. Sentada no chão com eles, embalando peça a peça, percebi que a inspiração vem da alma deles, colorida, intensa e naif como as cerâmicas que modelam.

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Compramos tudo o que podia ser comprado e que cabia dentro das malas que trouxemos do Brasil. Para fora, de novo, uma árvore da vida e uma pilha de três cachorros e um galo, que ainda vamos decidir como viajam.

Na porta, uma aperto forte de mão e a foto que ilustra esse textão. Oscar também estava orgulhoso e emocionado. Demos então meia volta em direção a Oaxaca, destino das nossas férias.

Na estrada, no papel de copiloto, escrevo uma mensagem para agradecer Gerardo pela recepção e pelas belíssimas obras. A resposta dele foi encantadora, um abraço quente.

“Muchissimas GRACIAS a ti. Nos haces sentir muy muy orgulhosos de que tu vengas de tan lejos, Brasil, a comprar nuestra arte. No se como agradecerte. Suerte siempre para ti y tu negocio.”

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Agradecer.

Como explicar a ele a mudança que o trabalho dele provocou em minha vida?

Como agradecer a altura tudo o que ele e a família dele fizeram por mim?

Como traduzir, no meu espanhol de esquina, o impacto da descoberta desta nova beleza e deste novo trabalho, a pesquisa e o garimpo de arte popular, justo naquele momento em que eu tinha uma janela aberta à minha frente e ainda não sabia que sabia voar?

Como exprimir a minha satisfação de repórter aposentada, apenas pelo fato de ter conseguido encontrá-lo em uma colônia mexicana depois de três anos de buscas fracassadas?

Acho que só tem um jeito. Voltar correndo para o Brasil, fazer uma linda exposição na Ninoca para poder em breve fazer novas encomendas e outras, e outras e outras. De volta ao começo. É assim que deve ser.

E eu entro na roda

E canto as antigas cantigas

De amigo irmão

As canções de amanhecer

Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho

Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito

Com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse que a força

Esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente eu chegasse

Ao fundo do fim

De volta ao começo

Ao fundo do fim

De volta ao começo

 

 

 

 

A alegria de ser o Inocente

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Hoje acabou oficialmente o meu verão. Voltei à minha casa de São Paulo e retorno à ponte-aérea Sampa-Aremba, a vida que escolhi para mim e para os meus. Hoje é dia de pagar as contas atrasadas. Arrumar os papéis. Planejar os próximos meses. Estabelecer as metas. Se inscrever nos cursos. Fazer as contas de 2016. Fazer a avaliação do melhor verão de nossas vidas. Hora de voltar a estudar e a escrever.

Estou empacada. Só vou conseguir seguir em frente depois de cuspir este post. Faz dois dias que eu o escrevo e rescrevo mentalmente. Só vou sossegar depois de apertar o botão “publicar”.

Trata-se da minha homenagem tardia ao arquétipo do Inocente. Trata-se da minha assunção, da minha redenção a este modelo que define minha alma, que traduz meu jeito de ser e que por anos à fio mantive guardado, escondido dentro do armário, como se fosse um desvio, uma fraqueza, uma veleidade.

Vamos explicar.

Na vida, em geral, e no mundo corporativo, em particular, assumimos comportamentos e posturas. Alguns são absolutamente legítimos e naturais. Outros são forjados à ferro e fogo, porque são necessários segundo os padrões de comportamento vigentes nas companhias. Assim, segundo algumas cartilhas, quem é líder tem de ser corajoso, ousado, crítico, inteligente, poderoso. Certo? Eu achava que sim e me esforçava para sê-lo. Me esforcei tanto que achei que enganava todo mundo. Nos testes, dinâmicas e coaches aparecia como “trator”, “fodástica”, “pitbull”, “touro indomável”. Sentia certo orgulho. Sentia desconforto. Na hora H, não era eu. Na hora H, tinha que fazer um esforço hercúleo para produzir a maldade e a pressão que esperavam de mim. Amigos queridos dizem que não era boa intérprete. Duplamente tola.

Os anos passaram. Não fiz mais coach. Deixei a análise, mas continuei refletindo e pensando em mim e no meu lugar nesta estrada sem porteira. E não é que neste final de semana, o último do melhor verão da minha nova vida, tive um insight-revelação após uma conversa, literalmente, ao pé do bar e depois de fazer um teste comportamental que circula no Facebook.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

Na conversa ao pé do bar, descobri que sou crédula até a medula. Que tenho fé. Que apesar dos fatos, sempre acho que a má conduta poderia ter uma justificativa nobre.

Na conversa ao pé do bar, me espantei ao descobrir características e comportamentos repulsivos em pessoas que julgava justas, leais, honestas e amigas. A conversa, curiosamente, foi elucidativa, surpreendente e sem sofrimento. Entendi, intuitivamente, porque fazia tanto tempo que não cruzava com aqueles personagens pelo caminho. Porque eu sempre adiava o telefonema para marcar um café. Santa procrastinação.

Mudando de cenário e continuando no assunto, no FB, tive a felicidade de clicar em um post da minha amiga Vera Lígia. Ela compartilhou um teste  bacana baseado no livro “O herói e o fora-da-lei. Como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos” das autoras Margaret Mark e Carol Pearson. O exercício de múltipla escolha veio à tona, suponho, por conta da declaração do Marcelo Odebrecht, que se definiu como o “bobo da corte” na miséria do Petrolão. Fiz o teste como quem se confessa com Deus. Não fiz finta. Dei adeus aos fingimentos. Não coloquei banca. Fui honesta como quem faz uma delação premiada consigo mesmo.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

O resultado do teste vocês já sabem. Apareceu ali, em letras garrafais, que faço parte do time dos Inocentes. Eu? Eu? Eu? Sim. Com um indescritível e absoluto orgulho, agora que posso ser quem sou, porque sou livre, livre.

Quem é o Inocente?

Segundo Margaret e Carol quando o “Inocente”está ativo em uma pessoa, ela é atraída para a certeza, para ideias positivas e esperançosas, para imagens simples e nostálgicas, para  a promessa de resgate e redenção. O inocente é um otimista, que busca o paraíso, que deseja a Pasárgada. Este arquétipo gosta de coisas previsíveis e não gosta muito do baile da mudança. Por isso, ele é leal às marcas, organizações e pessoas que cumprem suas promessas e se baseiam em valores perenes e duradouros. O inocente luta pelo bem. Não sabe viver sem uma causa. Adora carregar bandeiras. Participar de grandes marchas. É o tipo que sobe feliz ao Everest para buscar algo importante que foi lá esquecido pelo líder que ele tanto admira.

O Inocente, vejam que legal, é capaz de abandonar uma cultura de alta pressão, focada no sucesso, para perseguir a alegria de uma vida simples. Sim, sim, sim!!!! Como Narciso, fui me apaixonando pelo cara e lendo, lendo, lendo…

O lema do Inocente é básico: “somos livres para ser você e eu”. Objetivo: ser feliz, seja lá o que isso seja. Maior medo? Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado. Caramba! Como elas sabem tudo isso sobre mim? Estratégia? Fazer as coisas certas para não tomar bronca porque deu ruim. Tão óbvio…Franqueza do inocente? Ficar chato por toda a sua inocência ingênua neste mundo cheio de maldosos, maldades e sacanices e safadices. Quando li isso, confesso, corei. Odeio chatice. Prometo ser mázinha, de vez em quando.

Qual é o maior talento do Inocente? Fé e otimismo. Por tudo isso, o Inocente também é conhecido como utópico, tradicionalista, ingênuo, místico, santo, romântico e sonhador. Segura, que é tua. E para a confissão ser completa, vou contar que o Inocente, na literatura, segundo a análise dos arquétipos, é identificado com o personagem do Pequeno Príncipe, aquele das misses, que afirma que somos responsáveis pelo que cativamos. Quer saber? Dou fé e subscrevo.

Feliz 2017 para mim e para todos nós. E vamos cuidar de estudar novos planos B para os próximos 30 anos. Sou Inocente, mas não sou boba.

 

 

 

 

A primeira noite de um homem 2 ou a noite em que meu filho ficou grande

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– Mãe, eu vou tocar violão. Quer ouvir?

O convite era um prenúncio, mas eu não sabia. Respondi sim, claro. Sempre quero ouvir qualquer violão. Sempre quero ouvir o violão dele. Não, não tem letra maiúscula. Me controlo.

O convite, é preciso dizer, era inusitado. Nestes quatro nos, sempre implorei por apresentações e serenatas. Sugeri cachês, propinas e subornos. Lava jato não me pegou, porque nunca logrei sucesso. Ele só tocou quando e porque quis.

Ontem ele queria. Seria um dia especial. Foi um dia especial.

Com o violão malhado de Bela nos braços, ele cresceu. Cinco anos em duas horas de espetáculo. A voz solta e potente em nada lembrava o menino com quem eu cantava “numa folha qualquer eu desenho o sol amarelo”. Confiante, exibia força, peso e estatura. Sem vergonha. Sem timidez. Meu menino era homem.

Cresceu. Emocionada, lembrei do exato dia em que descobri que ele não era mais um bebê. Era verão como ontem. Estávamos na praia sozinhos. Tive uma intoxicação alimentar e me tranquei no banheiro para vomitar os demônios que invadiram minha barriga. A certa altura do meu tormento, ouço um toctoc na porta.

— Mãe, você precisa de ajuda?

Meu bebê, então com cinco anos, crescera. Já era capaz de ficar só e de me oferecer ajuda. Faz tempo que ele bate na porta e pergunta se eu preciso de ajuda. Faz tempo que é jaqueira e, frondoso, me faz e me oferece sombra. Me deleito e descanso tranquila sob a copa dele. É tão extraordinário ser a mãe do Chico.

Ontem foi assim. No início da serenata, eu ainda era a Claudia. Atenta, preocupada, junto, olhando em volta, conferindo a audiência, sugerindo roteiro e trilha. À medida em que soltou a voz, eu o vi crescendo. Sedutoramente, ocupou todos os espaços com a música dele, a presença dele, a força dele. Deixei de olhar ao largo. Abandonei os cuidados com o entorno. Relaxei. Me fiz plateia. Me deixei ser tiete. Me espantei com o tamanho e a senhoridade. Me enchi de orgulho. Me embriaguei de vinho branco, verde e de prazer.

Você escolheu a saideira e encerrou a noite lá no alto. Muitos beijos, muitos parabéns, muitos comprimentos e um pedido de foto. “Vem Chico, tirar um retrato comigo. Quando você virar artista vou mostrar a todos que assisti a um dos seus primeiros shows”, pediu Augusta.

Não sei se serás artista, mas desejo que continue sendo Chico na vida. Prometo estar ao seu lado apoiando suas escolhas, especialmente aquelas que não forem do meu agrado. Isso é prova de amor. Amor temos muito. De mim para você. De você para mim.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

 

 

 

 

 

Bem-vindo a era do pós-emprego. Sem crachá, sem salário e com propósito

Na era do pós-emprego, o trabalho formal se precariza, muda de natureza e adquire novo sentido associado a causas, ao prazer e ao empreendedorismo social

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Há exatos 20 anos, o economista Jeremy Rifkin e o consultor William Brigdes, ambos norte-americanos, lançaram dois livros gêmeos: O Fim dos Empregos e Um mundo sem empregos. O assunto era moda nos Estados Unidos, porque uma crise econômica lambia o mundo. À época, a crítica considerou Rifkin excessivamente pessimista e apocalíptico. Bridges foi chamado de marqueteiro porque oferecia um guia de auto-ajuda para executivos fadados a sobreviver sem crachá. No Brasil de FHC, com o início da estabilidade econômica e o fim da inflação, a conversa era outra. Renato Russo, do Legião Urbana, cantava Música de Trabalho, sucesso do disco A Tempestade, para protestar contra os empregos (abundantes) com salários miseráveis e o trabalho como falsa identidade do indivíduo.

Sem trabalho eu não sou nada

Não tenho dignidade

Não sinto o meu valor

Não tenho identidade

Mas o que eu tenho

É só um emprego

E um salário miserável

O tempo correu e todos tinham razão. O trabalho na forma de emprego e crachá corporativo se tornou identidade das gerações Coca-Cola, yuppie e geração X. Hoje, o mundo sombrio desenhado pelos autores norte-americanos é um pouco mais cinza. O último Fórum Econômico Mundial (WEF), realizado em janeiro de 2016 em Davos, na Suíça, teve como tema  “A Quarta Revolução Industrial”. A partir dela, a expansão das tecnologias emergentes no setor produtivo fará com que 5 milhões de empregos sejam extintos em 2020, em quinze economias, que correspondem a 67% da força de trabalho global.

A escala é massiva. Quase metade (47%) de todos os trabalhos nos EUA e 35% na Grã-Bretanha estarão suscetíveis à automatização pela tecnologia nas próximas duas décadas, de acordo com a a revista The Economist e os pesquisadores da Universidade de Oxford. A Consultoria McKinsey relatou em estudo recente que 140 milhões de trabalhos poderão ser automatizados até 2025. Vivemos a Era do Gelo do emprego. Ele está em extinção como os dinossauros e derrete como picolé no deserto. Na opinião de Klaus Schwab, presidente e fundador do Fórum de Davos, é um caminho sem volta. “Só com uma atuação urgente e focada, a partir de agora, será possível gerir ests transição a médio prazo e criar uma mão de obra com competências para o futuro. Sem isso, os governos enfrentarão desemprego crescente e constante e muita desigualdade”, alerta Schawb.

O processo está em curso e é mais intenso em algumas áreas do conhecimento. Se você é amigo de jornalistas, administradores, prestadores de serviço, deve estar acompanhando o desespero da turma. Dessa vez, é diferente do que ocorreu nas revoluções anteriores. Antes, quando uma inovação tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo segmento surgia para absorver a mão-de-obra excedente. Hoje a conta não fecha. O menos é maior que o mais. Estima-se que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. E o que existe, não existirá mais. As áreas administrativas e de escritório serão os mais afetados. Vão sofrer também segmentos da medicina impactados pelo avanço da telemedicina, seguidos pelos de energia e indústria, construção e extração, entretenimento e comunicação, e ainda, o setor jurídico. Já os setores de negócios e operações financeiras, gestão, computação, arquitetura e engenharia, vendas, educação e treinamentos juntos terão um crescimento de 2 milhões de empregos. Apesar da expansão do setor do conhecimento, 2 menos 5 é igual a 3. Serão três milhões de empregos a menos. Duro.

A Arca de Noé dos que sobreviverão com crachá tem uma lógica própria, segundo o especialista em futuro e tecnologia, Bruno Macedo, autor do texto O fim do emprego e a ascensão do trabalho com propósito na era das máquinas inteligentes. “Haverá uma maior demanda por especialistas em big data, desenvolvedores de Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias emergentes e, também, por vendedores especializados. As mulheres poderão ser as mais afetadas com o declínio dos setores administrativos, escritórios e vendas. A matemática segundo o relatório de Davos será: a mulher perderá cinco empregos para ganhar um, enquanto os homens ganham um emprego perdendo três.” Sem exagerar, quase todos perderão, com exceção dos gênios.

Não sou gênio. Tenho mais de 50 anos. Sou mulher. Me tornei estatística em 2014. Perdi meu emprego de 23 anos. Ainda não conhecia a matemática de Davos, mas rápido percebi que não havia outro crachá para pendurar no meu pescoço àquela altura do campeonato. Intuitivamente, embarquei na nau dos descobridores do trabalho com propósito na era do pós-emprego. Mulheres e crianças primeiro. Não há motivo para festa. Não há motivo para pânico. A mudança é inexorável. A existência será precária, mais simples e possível. Menos será mais. Vou explicar.

Antes de falar do propósito, a parte legal, incrível, dessa história, vamos pingar alguns is. O sistema segue sendo capitalista e a lógica do lucro mantém-se acima de todas as coisas. O que mudou? Na época do trabalho clássico, dos tempos do capitalismo fordista, as relações eram opressoras e muito claras. Patrão x empregado. Lucro e mais valia. Quem trabalhava recebia salário e contava com seus direitos trabalhistas, defendidos pelo sindicato da categoria. Havia hora para entrar e hora para sair. O que passasse disso, virava hora extra, remunerada com um valor superior ao da hora normal. As regras eram claras. Uma vez por ano, campanha salarial por aumento. Podia ser ruim como na música do Legião Urbana, mas era certo, seguro e combinado.

Hoje tudo mudou. A fábrica está na metrópole. A fábrica está em nossa casa. Os bancários ficaram em greve por mais de um mês e ninguém ligou. A grita foi dos velhinhos que não sabem mexer no computador e de quem precisava fazer uma transação presencial. No mais, tudo está na nuvem. O sistema financeiro funciona 24 por 7 e alguns correntistas são atendidos por “gerentes digitais”. O Fábio que me atende, por exemplo, trabalha na casa dele. Se for à agência não vou encontrá-lo, mas posso receber a resposta de um whatsapp às 22 horas. “A metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro em um trabalho precário, mal-remunerado e, às vezes, sequer reconhecido como trabalho”, descreve Giuseppe Cocco, cientista político italiano radicado no Brasil e professor Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele abordou o tema em uma palestra ministrada no ciclo Metrópoles: Territórios, governamento da vida e o comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (link para a palestra http://uninomade.net/tenda/da-fabrica-a-metropole/). “Não é a toa que se discute o PL 4330, da terceirização, e que se multiplicam os estagiários onde antes haviam trabalhadores formais. Os jovens do setor da criação (publicitários, cineastas, atores, artistas, etc.) entram no mercado com contratos temporários ou informais, sem direitos trabalhistas e a mão de obra não qualificada é terceirizadas, às vezes quarterizada. Na metrópole, trabalha-se para poder trabalhar’, diz Cocco.

Enquanto escrevo este texto, sinto na pele – ou melhor, nos dedos, nos ombros pesados e na cabeça cheia de assunto – essa urgência. Preciso produzir conteúdo para tentar vender projetos. Procuro, sem certeza de sucesso, personagens dispostos a falar sobre contracultura por causa de um museu que pretendo montar. Troco de página no Facebook e faço um post para divulgar meu site e uma palestra que farei na próxima semana. Feito isso, abro o site do Booking.com para checar reservas e melhorar a oferta de preços da minha pousada. Trabalhar para poder trabalhar é a condição da precariedade. A quarta revolução industrial impôs o precário como modo de vida para a maioria. A precariedade é um modo de subjetivação, afirma o professor Cocco. Se antes educação e saúde eram direitos universais, que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que, constantemente, invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. “Isso nos torna precários, e o precário é um sujeito endividado”, afirma Cocco.

Ele tem razão. Para não perder o passo e o espaço para a máquina tecnológica, somos forçados a trabalhar sobre nós mesmos o tempo todo. Não basta faculdade, é preciso ter master, pós, mestrado e doutorado. Para garantir empregabilidade, não basta mais ter a força-de-trabalho para vender. É preciso ter ideias inovadoras, geniais e disruptivas. O capitalismo cognitivo explora também a criatividade e a produção de subjetividade, parasitando todos os fluxos criativos. Somos cobrados para existir (saúde como mercadoria), para aprender (educação como mercadoria), para nos mover (transporte como mercadoria), para nos comunicar (conectividade é condição de sobrevivência) e para nos divertir. Na ponta mais sofisticada do parasitismo capitalista dos fluxos estão, veja só, as redes sociais. O amigo Facebook é de graça, mas ele não nos paga pelo conteúdo bacana que produzimos. E sem conteúdo legal, o algoritmo nos deixa invisíveis.

Tem saída? Mesmo precária, conceitualmente endividada e vítima do capitalismo cognitivo — que se baseia na exploração da criatividade e da produção da subjetividade –, acho que tem. A minha crença não é fruto apenas do meu otimismo. Existe um novo processo de subjetivação em curso. O termo, para o filósofo Alain Touraine, define “a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito”. Essa é uma das marcas da sociedade contemporânea. Quando o “estabelecido”, os sistemas e as instituições começam a ruir surge um espaço para o novo, para o diverso e para o diferente. Jeremy Rifkin estava certo quando previu que nada seria como antes na hora em que o “emprego”, enquanto forma de normatização do trabalho, estivesse se decompondo.

É nesse ponto que surge a ideia do trabalho com propósito. É nessa curva de rio que a esfera cultural ganha proeminência. É nesse instante de absoluta precariedade e conflito, que a subjetivação procura uma forma de escapar da pressão por meio da construção de laços de forma reflexiva e criativa. Preciso citar novamente Alain Touraine. Para ele, a subjetivação se dá sob a forma de conflito, de luta contra poderes que limitam a autoconstrução, resistindo ao mundo impessoal e de consumo, à lógica de mercado, e à violência da guerra. Esse processo é indissociável da luta pela afirmação de direitos universais (igualdade política, jurídica, etc.) e específicos (pela liberdade, pela particularidade). Essa “causa” seria um conteúdo fundamental da subjetivação. Como ele afirma: “sente-se sujeito apenas aquele ou aquela que se sente responsável pela humanidade de um outro ser humano”.

O trabalho com propósito é repleto dessa força. Deve proporcionar sustento para quem o realiza, mas essa não é a sua razão primordial. Prazer e felicidade superam em relevância o modelo tradicional do “bom emprego” das pessoas “bem-sucedidas”. Os jovens milennials, nascidos entre 1980 e 2000, foram os primeiros a reivindicar atividades produtivas que proporcionassem diversão, bem estar e realização pessoal. Ao grupo, a cada dia, se juntam ex-yuppies, ex-executivos e ex-bambambãs filhos das gerações X e Coca Cola, nascidos entre (1960 e 1980), que foram cuspidos de suas companhias. Gente como eu, que desfrutou de todas as mordomias e de todos as pressões do mundo corporativo, e percebeu que era hora de mudar.

Mudar pra onde? Mudar como?

Se fosse possível, o ideal seria mudar para Marte para facilitar a transformação. O trabalho com propósito precisa ser completamente diferente do tradicional. Uma das chaves do sucesso dos empreendedores com causa é deixar tudo da outra encarnação para trás. A saber:

  • estamos falando de uma nova filosofia de trabalho que aposta na transição do “work to” (trabalhar para) para o “work with” (trabalhar com);
  • o crescimento deve ser orgânico e sustentável;
  • o risco, a perda e a falha devem fazer parte da natureza do negócio. É preciso haver liberdade para criar e arriscar. É fundamental saber perder;
  • doar parte do lucro pode ser uma das chaves do sucesso;
  • produzir impacto social é condição;
  • ter uma estrutura horizontal, franciscana e enxuta;
  • operar em rede com colaboradores, fornecedores e consumidores, numa equação de ganha-ganha e múltiplas parcerias;
  • aprender a operar com pouco custo, zero desperdício e muito compartilhamento;
  • aprender a viver com menos para poder ganhar menos e viver com menos pressão, menos angústia, menos sofrimento e menos ansiedade. O paradoxo/equação do – = +.

 

Propósito.

 

Menos.

 

Anote essas duas palavras em seu smartphone. Você irá ouvi-las muitas vezes nos próximos anos. O mundo precisará de pessoas sensíveis, lógicas e com capacidade de se moldar às mudanças no presente e futuro.

A adaptação ao “desconhecido” (o que está por vir) será a única de superar as incertezas do mercado. “O amanhã será governado por ambientes caórdicos (caos + ordem), subversivos, divertidos, fluídos, flexíveis em que prevalece a inteligência coletiva, as lideranças rotativas, conduzido por algoritmos e plataformas e que têm como base a ampla conectividade e o propósito. O mundo amanhã vai ser completamente diferente do que é hoje”, avisa Bruno Macedo. Quem olhar para o lado verá que a quarta revolução industrial está desmontando os modelos tradicionais, um a um, substituindo-os por negócios disruptivos. Exemplos? A TV aberta sendo substituída pelo consumo de imagens on demand no You Tube ou no Netflix rodando no smartphone. Jornais e revistas minguando pela força do consumo de informação digital. O compartilhamento de ativos pessoais, como carros, vagas de garagem e carros, reduzindo o tamanho do mercado automobilístico e ao mesmo tempo diversificando as fontes de receita das pessoas.

 

A vida com plano B

 

No século passado, plano B era um recurso utilizado para quando tudo dava errado. Ninguém queria ter um plano B. Ele era sinal, símbolo e signo de fracasso. Hoje, plano B é condição. Deveríamos aprender a construí-los ainda no ensino fundamental, junto com as operações aritméticas. A razão é singela. Todo mundo vai precisar de um plano B em algum momento da vida, especialmente se der tudo certo e ela for longa e saudável. A novidade da vida sem crachá e com propósito é a possibilidade, bem-vinda, de todos termos múltiplas carreiras. O que isso quer dizer? Que deixou de ser vexame mudar de carreira e atividade ao longo da vida. A jornalista norte-americana Jessica Stillman, do site Inc.com, defende que este é o momento de assumirmos “carreiras slashes”. Slash é o termo em inglês que define a barra de separação. “Por muito tempo eu tinha vergonha de usar a “/” , porque ela fazia a minha carreira parecer híbrida. Eu era atriz/autora teatral/ escritora free-lancer/colunista/jornalista. Eu me sentia pouco séria, indefinida e inconsistente”, escreve Jessica. Ela mudou de ideia quando olhou ao redor e percebeu que a carreira “monocromática” é que era a exceção. “A economia mudou e o trabalho tornou-se fluído. Explorar diferentes possibilidades de atuação profissional e pessoal é o que nos fará crescer”.

A história da publicitária/jornalista/designer e agora artesã paulistana Beth Klock é exemplar. Depois de perder o último emprego em uma grande editora, ela percebeu que não teria nenhuma chance de recolocação. Também não tinha mais idade nem saco de trabalhar com publicidade, assessoria de comunicação ou estratégia. Partiu então para o design. Começou a desenhar com os dedos na tela do iPad. Definiu um estilo próprio e lindo. Usou a rede social para divulgar seus talentos. Graças ao grupo Dots, uma rede fechada de empreendedores individuais, micro e pequenos, encontrou parceiros e clientes. “Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida”, diz Beth, que recomenda aos que estão à procura de um rumo experimentar fazer coisas que nunca fez antes. “Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento?”.

O cientista norte-americano Ray Kurzweil, um especialista em tendências e futurologia, é otimista quando o assunto é trabalho + propósito. Ele acredita que no futuro próximo vamos trabalhar menos e com prazer. Que precisaremos de menos e que tudo custará menos dinheiro também. Ele justifica sua tese a partir do desenvolvimento da tecnologia, que barateia os bens de consumo e faz o trabalho chato pelos humanos. Para sustentar esse modelo, ele defende uma política efetiva de bem-estar, que batizou de “renda básica universal”. Parece muito com o projeto do “Renda Mínima” do vereador eleito por São Paulo e ex-senador Eduardo Suplicy. A equação, segundo Ray, é simples. A renda universal básica é uma forma de seguro social, onde cidadãos e residentes de um país recebem, de forma regular e incondicional, uma quantia de dinheiro do governo ou de alguma instituição pública, independente de qualquer outra renda que por acaso recebam. “Realmente temos de repensar o que devemos fazer de nossas vidas. Temos um modelo econômico onde as pessoas trabalham, ganham seu dinheiro, e então podem comprar as coisas que precisam. Mas, nós vamos chegar a um ponto em que não vamos precisar de muito dinheiro. Teremos impressoras 3D que por centavos podem imprimir todas as coisas físicas de que você precisa. Não vamos precisar trabalhar para produzir estes produtos…”, defende Kurzweil. A ideia dele é um imposto de renda ao contrário. O governo paga para o cidadão sobreviver em um modelo open source. “No futuro, manteremos o trabalho, mas num conceito movido para o modelo onde você faz algo por paixão e de que você gosta e que lhe permita mover-se na hierarquia de Maslow e ter satisfação. É possível que a gente trabalhe menos mesmo.”

A chef de cozinha paulista Bel Coelho, 37 anos, bate panela pelo “menos”. Depois de estudar em grandes escolas de gastronomia, como o americano Culinary Institute of America (CIA) e o espanhol El Celler de Can Roca, brilhar à frente de várias casas badaladas da capital paulistana, ficar famosa na TV e ganhar muitos prêmios, ela disse: chega, basta, fim. Decidiu lutar por menos. Viver com menos. Simples assim. “Quem quer ser muito rico não pode se espelhar, nem se inspirar, num negócio como o meu”, escreveu Bel Coelho para o projeto Draft (http://projetodraft.com/no-clandestino-bel-coelho-desconstroi-o-restaurante-tradicional-abre-so-uma-semana-por-mes-e-vive-bem/), site que diariamente traz histórias de pessoas buscando trabalhar e viver com propósito.

Bel é dona do restaurante Clandestino, aberto em 2014, na Vila Madalena. O negócio começou com um propósito simples. Ela queria, apenas, ser feliz, se sustentar, e ter uma vida boa, razoável, de classe média, normal. Na prática, significava não trabalhar insanamente, não ter metas extraordinárias de faturamento e fugir da badalação. Por isso, o lugar funciona apenas uma semana por mês, de segunda a sábado, e oferece um cardápio pré-montado, o menu degustação, para apenas 24 pessoas por noite. Para ser uma delas, é preciso fazer reserva, momento no qual se determinam quantos lugares haverá em cada mesa e em que se esclarecem possíveis restrições alimentares. O pagamento também é feito antecipadamente. Custa 260 por pessoa, ou 380 se o jantar for harmonizado com bebidas alcoólicas.

Nesse modelo existem vários drives de inovação, que funcionam porque a Bel é a Bel e porque existe um conhecimento por trás da regra. Ao subverter a lógica e criar um serviço em data móvel (a semana em que ele será aberto só é definida um mês antes), ela evita  desperdício de comida, porque a quantidade de pessoas por noite é fixa e ela compra exatamente o que vai preparar. A equipe de trabalho pode ser enxuta, excelente e formada por frilas, reduzindo os custos fixos. “A grande diferença é que estou crescendo organicamente. Não é como quando você abre um restaurante para 100 pessoas e, de cara, tem que bancar os custos para receber 100 pessoas”, diz. “Eu resolvi, por aprendizado, fazer o contrário. Fiz um investimento inicial na cozinha e depois ir evoluindo e melhorando coisas no salão e na cozinha, conforme o tamanho vai aumentando. Busquei autonomia, Dinheiro não é o mais importante. Não me arrependo de nada. Sou muito mais feliz hoje”, garante. Ela acha que ganha menos, provavelmente, do que ganharia se estivesse num esquema tradicional. “Acho que vou ganhar mais, em algum momento. Mas quando você busca autonomia e é de fato autônomo, demora para se estabelecer como estava no mercado tradicional”, diz.

 Eu vivo sem crachá, às custas do meu plano B que virou A, há dois anos e alguns meses. No começo foi sofrido. Não pelo trabalho, nem pela redução de custos, menos ainda pela mudança de rotina. Doeu o pé na bunda. A rejeição. A mudança feita a ferro e fogo. Feridas curadas, juro que não sinto nada. Nem saudades. Descobri que posso criar sem parar para mim mesma. Minha inspiração para incontáveis planos B brotam do meu patrimônio pessoal. O que é isso? Tudo o que fiz, vivi e aprendi em meus 51 anos de vida. É fascinante. Tem meu DNA, minha história, meu conhecimento e minha experiência na parada. Tem todos os meus fracassos e sucessos. Dali nasceu a vontade de ter uma pousada. Depois o projeto de abrir uma loja de arte popular. E agora, mais recente, o sonho de fazer um museu a céu aberto na Aldeia Hippie de Arembepe, na Bahia.

Meus ingredientes secretos? Vou contar. Anota ai:

  1. Fazer o que gosto
  2. Sentir prazer
  3. Inventar moda
  4. Ousar
  5. Aprender
  6. Não sossegar o facho
  7. Ouvir a intuição
  8. Ouvir a opinião alheia
  9. Usar tudo o que sabe
  10. Colocar a mão na massa.

Anotou?

Simples, não é?

 

 

 

 

Veruska e a duna

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A mensagem era curta e sincera.

“Fui lá antes de 1970. Era namorada do pai dos meus filhos. Dei uma guinada em minha mãe e escapamos para a Aldeia Hippie. Fizemos amor nas dunas, sob o luar.

Depois, já na década de 1970, livre do jugo materno e da prisão do marido, voltava lá, de vez em quando, com um parceiro. Íamos namorar e ficávamos naquela pousada das barracas. Esqueci o nome do dono. Era muito gente fina.”

O teor explícito e honesto da mensagem mexeu comigo. Poucos expõem com tanta simplicidade e transparência momentos tão intensos e íntimos. Confesso, fiquei curiosa e fui fuçar no FB quem era a Veruska. Não encontrei muita informação disponível, apenas o retrato de uma senhora de cabelos curtos e óculos escuros. Admirei dona Veruska. Invejei-a também. Noites de amor nas dunas não são para qualquer um.

Fiquei imaginando como ela se sentiu, 40 anos depois, revivendo aquelas memórias. Será que um arrepio de prazer acendeu a espinha dela? Será que sentiu saudades do pai do filho dela? Será que teve algum arrependimento? Desejou voltar lá com alguém?

Fiquei imaginando dona Veruska fuçando o álbum de fotografia em busca do namorado que a levou às dunas. Será que ela perdoou ou entendeu a caretice da mãe, que a impedia de ser feliz? E o parceiro? Quem seria? Um namorado? Um amante? Era casado? Era colega de trabalho? Será que fugiam da firma ao meio dia, inventando uma visita a um cliente em Feira de Santana e tomavam o rumo de Arembepe?

Pensei em mandar uma mensagem para dona Veruska. Propor uma entrevista. Ou apenas uma conversa franca. Desisti. Alimentar a dúvida, às vezes, é mais gostoso do que procurar saber. Vou imaginar muitas ousadias para dona Veruska. Ela e eu seremos mais felizes assim.

 

 

Amor

16 de setembro de 2002.

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Eu me lembro de olhar para a parede e ver o relógio digital derrubando as plaquinhas com os números. 16h00. 16h02. 16h05. A essa altura, todos na sala repetiam, força, força, força. Mais uma vez, força, força.

Eu me lembro de suar. De sentir uma estranha ansiedade. Acho que era medo. Lembro de fazer uma força danada para expulsar, para colocar para fora, para tirar de dentro de mim, você.

Eu me lembro que consegui. Não lembro a hora exata. Parei de olhar para o relógio. Quando o vi novamente já era 16h16. Colocaram você todo sujo no meu peito. Quis chorar mas não consegui. Achava que tinha que estar emocionada. Não estava. Estava cansada e assustada. Você também tinha os olhos cansados e arregalados. Que luz forte. Que lugar frio. Quanta gente estranha!

Hoje, 14 anos depois, lembro do nosso primeiro encontro e fico feliz em acreditar que não foi naquele momento estranho que você nasceu. Foi antes. Bem antes.

Você nasceu para mim no dia que senti um amor profundo, que entendi que precisava se reproduzir na forma de alguém que poderia ser ou não minha, nossa, imagem e semelhança. Eu me lembro que escrevi um poema chamado Théo. Era o nome que queria que você tivesse. Dizia assim:

théo nasceu antes de ser concebido

théo gestou-se no verbo

théo encarnou na palavra e ganhou forma

transformou-se em metáfora

metalinguagem

metonímia

théo pode até parecer pleonasmo vicioso

diante do ventre ainda vazio

do seio seco

do coração pleno

théo ainda virá a luz, ele feito de magia, e lerá

estas linhas, contente e assustado, com o poder

de uma profecia, de um verbo intransitivo.

de um ato falho mais que perfeito

théo, meu filho, seja bem vindo!

théo, meu querido, seja feliz.

théo, meu companheiro, seja breve

nesta sua viagem de mil anos luz.

Théo virou nome da moda e seu pai preferiu mudar. Francisco. Vai chamar-se Francisco, ele disse no instante em que revelei a sua chegada. Francisco porque é nome de santo. Francisco porque foi para ele, o Santo, que pedi, rezei, fiz promessa, peregrinação para que você chegasse logo. Ainda não paguei minha promessa. Temos que ir lá, mas essa é outra história.

Quatorze anos depois, escrevo para falar de amor. O amor que nasceu com o desejo da sua vinda e que cresceu, segundo a segundo, após o nosso encontro.

Não, não foi um amor instantâneo. Quando expeli você de dentro de mim, éramos estranhos. Quando nos vimos pela primeira vez, nos desconhecíamos. O amor incondicional era uma ficção, uma imagem poética. Eu não o sentia ainda. Eu amava teoricamente aquilo que desejava que você fosse. Mas ainda não amava você. Não tínhamos intimidade. Eu não entendia o que você queria. E você me olhava com olhos de espanto. Que espaço era aquele? Que gente era aquela? Por que tinham te tirado daquele lugar quente, escuro e gostoso? Quem fizera tão perversa maldade? Eu filho, fui eu. Te expulsei de dentro de mim para te dar a vida. Meu maior legado. Minha obra.

Nesta semana, quando voltei de viagem para estar contigo em seu aniversário, sua avó me disse que você achava que eu não desejava que você voltasse para minha barriga. Você tem razão, filho. Não tenho essa fantasia de te guardar para mim. Não é falta de amor. Talvez seja excesso. Com certeza, é amor.

Te ver crescer é o que mais me empolga, me entusiasma, me motiva e me inspira. Te ouvir falar, questionar e discutir me encanta. Vejo um homem crescendo com princípios, convicções, qualidades e defeitos. Vejo um rapaz surgindo no corpo do menino. O tênis 42 em nada lembra o pezinho 18 dos primeiros dias. Sua voz, que engrossa a cada dia, dá o tom da mudança. Você está crescendo, Chico.

Viajo no tempo do mundo quando ouço você tocar no seu violão as músicas que eu mais amo. Você cresceu, Chico. Na Roda Viva, no Canto de Ossanha, traidor, na Rosa dos Ventos,  no Retrato em Branco e Preto… E ontem, quando você cantou Canção da América para mim, tive certeza que o amor é tudo o que eu tenho para te dar e a única coisa que espero receber.

Ame muito, Chico.

Seja feliz. Se livre. Seja o que vier. O que importa é ouvir a voz que vem do coração.

Te amo, Chico.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tem muro alto, tem cerca mas chamar de prisão dói, dói muito

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Na minha fase terapia em praça pública, usei esse espaço várias vezes para discutir a opinião alheia, a crítica, o elogio, a minha mania de perfeição, a minha auto-estima oscilante e a dificuldade que é ouvir, lidar e aceitar o outro. Depois de uma sexta e um sábados carga pesada, acordei com uma mensagem de avaliação do TripAdvisor (o programa de divulgação e avaliação de hotéis, restaurantes e bares, que se tornou o guia oficial da opinião popular sobre o segmento no planeta Terra) piscando no meu telefone. Para quem ainda não sabe, sou dona de Pousada. Sou a feliz e ciosa proprietária da Pousada A Capela. Corri ler, claro. Estava em inglês. Tinha só uma bolinha. Uma ferroada invisível, mas verdadeira, estocou meu estômago que, ato contínuo, começou a dor. O gosto amargo tomou minha boca, como se tivesse pecado com um vinho já avinagrado. Insegura, cliquei duas vezes para abrir a avaliação.

A autora do post é a Dianna. Uma senhora estrangeira, que esteve no apartamento 11 no final de semana passado. Não veio porque escolheu. Veio porque foi convidada por um adorável casal que celebrou a sua união em nosso espaço. Ela bateu feio na gente. Não gostou da comida. Reclamou do horário do café da manhã. Reclamou que não tinha café, o que era mentira. Reclamou que o wifi era uma bomba, justo no final de semana que o danado funcionou direitinho. Reclamou que os funcionários recomendaram que ela não caminhasse sozinha, com câmera fotográfica, no final do dia. Tudo certo. É a opinião dela. Gosto não se discute. Até se justifica ou se lamenta, mas discutir não. Gosto é direito adquirido.

O que doeu, no entanto, foi ela ter chamado a minha a nossa Capela de prisão. Ela escreveu que sentiu-se presa porque temos muros altos e cercas elétricas ao redor de toda a propriedade. Sim, é verdade. A mais pura verdade. Somos um lugar seguro. Temos proteção. É bom. É ruim.

Claro que eu preferia morar em um lugar sem muros, nem portas, nem portões. Claro que eu preferia me sentir segura sempre. Claro que eu desejaria que não existissem roubos, assaltos, sequestros, latrocínios e assassinatos na minha vila, na minha cidade, no meu estado e no meu país. A Dianna, que mora, acho, nos Estados Unidos, é pesquisadora, professora, vive em uma cidade bucólica. Deve se sentir segura sempre. Deve ser bem mais livre do que eu. Pode viver sem muro nem tranca na porta. Só teme a vitória do Donald Trump e os terroristas. Entendo. Mas, puxa vida, chamar a minha Capela de prisão é sacanagem. Pronto, falei.