Rua

Estava atrás da porta esperando quando ela, repentinamente, se abriu. Não sei quem foi porque do outro lado não havia ninguém. Empurrei a porta lentamente para espreitar o corredor. Vazio. Coloquei a cabeça para fora. Ninguém. Nada. Dei um passo, eu pus o corpo inteiro do lado de lá.

Cruzei a soleira. Estava fora. Atrás de mim a porta aberta e o passado. Não senti qualquer nostalgia. Também não senti saudade. Acho que é a idade. Estou perdendo a memória. Olhei para frente e caminhei. A porta aberta ficou aberta e eu não liguei quando entrei no elevador.

fullsizeoutput_4504

Não sei o motivo, mas deixei tudo para a trás. O relógio. O iPhone. O MacBook. Nem me preocupei em desligar a conta do FB e do Insta. Que seja o que Deus quiser. O cachorro, que está velhinho, não ouviu a chave chacoalhando na porta. Só a gata me viu, mas preferiu ficar parada dentro. Fez a egípcia. Não quis me seguir, nem se aventurar. Não tem saudades do seus tempos de rua. Cuidará da casa, do cachorro, do menino e das histórias.

O elevador desceu direto. Amém. Não precisei sorrir nem dizer boa noite para a velha do nono andar. Não gosto dela. Ela me denunciou à síndica porque um dia desci com o cão pelo elevador social. Solidão amarga. Solidão caduca.

O porteiro gosta de mim e abriu o portão grande para facilitar minha saída. Ele não sabe, mas é meu cúmplice. Porta aberta, cachorro sai para a rua. Rua. Estou na rua. Na rua da  rua. Na rua da cidade. Na rua da vida. Rua.

Anúncios

Abraço

 

 
O homem de lábios finos caminha de braços abertos em minha direção. Ele se esforça para sorrir, simpático, esgarçando ainda mais os lábios muito finos.
 
Sinto dor.
Não quero o abraço dele. O dele nunca. Como escapar sem chamar a atenção? Olho para um lado. Olho para o outro. Uma multidão de homens e mulheres de lábios finos se aproxima. Sorrindo. Esgarçando os lábios. Estão verdadeiramente felizes. Os olhos brilham. Caminham em passo acelerado, como se fossem realizar uma missão. A grande marcha. Deles. Preciso fugir.
 
Estão vindo ao meu encontro. Todos.
Leio nos lábios finos deles o desejo de me abraçar. Querem me envolver. Querem fazer com que eu faça parte da alegria deles. Estou triste. Não quero abraço de ninguém.
 
Por que eu? O que eu fiz? Será que fiz algum sinal errado? Que eu me lembre não tenho lábios finos. Só tenho olhos verdes. Serão os olhos?
 
Diminuo meus passos, buscando com os olhos uma rota de fuga. O homem dos lábios mais finos, olhos miúdos e casaco de sarja bege com emblema do cavalinho está a três metros de mim.
 
— Socorro, socorro, socorro! Grito, mas a voz não sai. Ouço o som dos passos mais perto, mais perto.
Agora já não enxergo direito. O lábio fino pretende um beijo. Os braços abertos se armam para um abraço.
 
Parabéns! Muita felicid…. Desmaio antes de o lábio fino terminar a sílaba.
 
SOCORRO. SOCORRO
 
— Mãe, o que foi? Acorda, mãe? Acorda! Por que você está gritando? Sonho ruim?
 
Desperto e vejo meu filho em pânico perto da minha cama, eu meu quarto. Estou inteira. Estava dormindo.
 
Parabéns, hoje é o seu aniversário.
 
Apago outra vez.

Porque hoje é sábado, bom dia!

Porque hoje é sábado, escorreguei da cama mais tarde. Ganhei uma hora de sono. Quando levantei, meu companheiro de caminhadas, Zapata, já me olhava de soslaio ao pé da cama. Sim, estava atrasada e preguiçosa. Meio triste, um tanto desenxabida porque odeio a palavra deprimida. Minha mãe sempre diz que um banho cura tudo. Obedeci à memória maternal e para o chuveiro fui. Ajudou sim. Levantou o ânimo e limpou a craca da véspera, mais um dia difícil, mais um dia de resistência.

Com Zapa no comando, fui às ruas vazias, porque, afinal, hoje é sábado. Mas hoje não era um sábado qualquer, descobri há pouco. Hoje é sábado e também o dia do poeta. Hoje é dia de Vinicius, Bandeira, Drummond, Adélia, Ana, Cabral, Chico, Caetano, Gil, Hilda, Cartola, Noel e vou parar por aqui para não dar briga. Estou cheia de brigas.

Porque hoje é sábado, dia do poeta e porque estou desenxabida (como tenho andado atualmente e ultimamente) resolvi ser auto-indulgente. Aceitei minha obsolescência e fui à banca de revistas ver o que podia alegrar meus olhos e minha alma. Não vou comentar alguns horrores que vi, nem outros que comprei por curiosidade mórbida. Vou falar do que me fez bem. Me alegrou encontrar uma Vida Simples, de capa amarela, falando de reinvenção. A revista é, alegria geral, um exercício mensal de reinvenção e resistência. Antes de ser fechada pelos antigos donos do finado império editorial, foi comprada pelos jornalistas que a faziam. Gente bonita, elegante e sincera que acredita no bem que a marca faz aos leitores. Viva!! Desejo uma vida longa e feliz ao projeto, que sempre trouxe  ar fresco, calor e aconchego para almas com e sem relevo.

Quando já estava dando adeus ao jornaleiro, um homem heróico e resistente como a galera de Vida Simples, vi no cantinho da banca uma coleção de dvds da Folha. Grandes diretores no cinema, chama-se. Como hoje é sábado e eu estava com tempo, resolvi fuçar. Não é que eu encontro ali o clássico dos clássicos do neo-realismo italiano, Ladrões de Bicicleta? Quando eu era jovem – e isso faz muito tempo – assistir Ladrões de Bicicleta era uma das senhas para ganhar respeito e ouvidos no mundo dos adultos. Por isso, quando consegui ver o filme para poder entrar na conversa, senti uma felicidade imensa. Hoje à noite, vou rever a fita (sim, minha mãe até hoje chama filme de fita) sozinha em casa e depois conto quais memórias revistei.

Porque hoje é sábado e dia do poeta, a alegria entrou na minha casa por meio da página C6 do Caderno 2 do Estadão. Não gosto do Estadão. Prefiro a Folha, que assino no digital. Comprei o Estadão porque raramente o leio, mas hoje é sábado e pelo jeito meu dia de cura. O nó que estava amarrando a minha garganta, me fazendo tossir e ficar sem voz (sim, estou sendo literal) foi se soltando graças ao texto do Marcelo Rubens Paiva. Foi ele quem me lembrou que dia 20 de outubro é dia do poeta. Foi ele quem me disse que hoje é dia de poesia e samba. Foi ele quem me lembrou, por meio de seu texto lindo, que apesar de você amanhã será sempre um novo dia. E quando tudo ficar muito ruim e eu deveras desenxabida, posso abrir Manuel e com ele partir para Passárgada. Ou, se não for a hora de sair de fininho, posso recorrer  ao fone de ouvido para escutar o que Chico e sua galera têm a me dizer.

 

 

Corre vem ver o céu

Relógio, celular e sorvete de chocolate

Captura de Tela 2018-09-27 às 09.30.01.pngMeu relógio quebrou. Relógio de pulso, para o qual olho o dia todo, como um vício . É pesadão e caro. H Stern. Ganhei de presente de aniversário faz anos. Sem ele piro. Almocei e fui procurar um médico. Brincadeira. Fui atrás de um relojoeiro, daqueles antigos, que usam pinça e outras ferramentas exóticas.
Evitei o shopping Iguatemi, porque a grana está curta. Caminhando na avenida Faria Lima entrei em todas as galerias procurando uma lojinha de consertadores de Cuco. Nada. Onde eles habitavam, agora vivem reparadores de celular . Os jovens não usam relógio. Quando precisam ver a hora, consultam o smartphone, me explicou o moço que conserta Sansung, Apple, Motorola e Ching-lingue.
Sai da galeria. Tipo desolada. Tipo saudosa. Considerando o que fazer com minha crescente obsolescência. Atravessei a rua e cheguei à uma banca de revistas que um dia, há quatro anos, cogitei comprar. Mais saudosa ainda, a surpresa. Na lateral da banca brilhava uma plaquinha discreta onde estava escrito: conserta-se relógios. Revista, relógio, obsolescência, saudade. Tudo pertence ao mesmo conjunto.

Eba. Vou consertar, enfim, meu relógio. Seu Jorge foi rápido. Com habilidade de mestre, abriu meu patacão, que apesar de old fashion também funciona a pilha. Olhou, limpou, disse que o material dele era original. Em menos de três minutos, meu relógio contava segundos novamente. Paguei e não resisti à pergunta: “o senhor ainda vende revista ?”.
“Pouco”, ele respondeu. “Elas estão acabando, feito os relógios. Os jovens preferem o celular”. Confirmei com a cabeça e parti. Fui tomar sorvete para aplacar a saudade  e aceitar minha inexorável obsolescência com lambidas de chocolate.

Mágoa sem acento prosódico

Captura de Tela 2018-08-28 às 16.42.17

 

Ontem fui dormir e a mágoa veio falar comigo. Veio no formato de mácula. Uma nódoa escura, tipo graxa com areia e sangue pisado. Tava magoadinha, coitada. Cheia de razão.

Mas não dei muita bola para ela era não.

Mágoa é uma desgrama para o coração, para o fígado, para o pâncreas e para o pulmão.

Amargura, amargura, amargura. Amargura tanto, que tudo fica com gosto de fel misturado com angustura, aquele bitter que antigamente usava-se para fazer coquetel.

A mágoa com cara de nódoa escura, contrariada, partiu. Voltou de madrugada. Pegou carona em uma crise de falta de ar.

O ar era tão pouco que nem ouvi o que ela sibilava

Provavelmente era: “tá vendo a sua tristeza”.

Dei de ombros e encontrei a bombinha salvadora.

Puf, puf, puf, puf, puf

O ar voltou e a mágoa correu. A asma dormiu.

Não demorou muito e o despertador tocou. Lembrei do encontro com a danada na madrugada. Tomei café pensando na mágoa. Caminhei pensando na mágoa. Pedalei pensando na mágoa. Qual é o plano B para mágoa? Não achei. Na dúvida, decidi escrever sobre ela. Fazê-la de sentimento palavra. Funcionou.

A mágoa amarrada na frase, sílaba fica.

Sílaba tônica. Sílaba átona. Sem acento prosódico.

Só sílaba. Bem fraquinha. Tadinha.

A longa viagem de volta

fullsizeoutput_40d3

Fica entre Trento e Trieste. Com o mapa da Itália na mãos, a única informação preservada pela memória da minha família tinha o tom de uma piada. (Fale lembrar que  na época que essa viagem começou a ser viajada, 1996, computador era 386, celular era um tijolaço e o inventor do waze nem nascido era).

Piada porque nos 300 e poucos quilômetros que separam Trento (nobre e antiga cidade dos Alpes italianos) de Trieste (importante por do Mar Adriático) havia centenas de minúsculos povoados e um catálogo telefônico de possibilidades. Para os nativos digitais, outra explicação: catálogo telefônico ou lista telefônica era onde nós procurávamos os telefones  das pessoas. Vinha por nome e sobrenome, em ordem alfabética. Por isso, era preciso ter sorte e fé.

Em setembro de 1997, sete anos depois do início da minha busca — encontrar a cidade que Francesco Tomas, meu bisavô paterno, havia deixado um século antes para começar vida nova no Brasil — foi impossível não frear no meio da estrada, cantando os pneus, quando a primeira placa indicando a localidade de Fiera de Primiero brilhou no para-brisa.

Eu estava a caminho da cidade de meus antepassados, o bisnonno Francesco, o bigodudo da foto acima, pai da minha avó Gina, mãe do meu pai, a linda garota de chapéu e laço branco do lado esquerdo da foto. Voltava para casa, finalmente.

Como eu cheguei lá? Fazendo reportagem, meu caro leitor. Procurei no consulado da Itália e nas listas telefônicas do norte do país, as cidades que possuíam moradores com o sobrenome Tomas, Thomaz, Thomas, Tomaz. Com os nomes delas e os CEPs em mãos, enviei dezenas de cartas para as prefeituras perguntando se lá constava a certidão de nascimento do meu bisavô.

Comunidade autônoma da região do Trentino Alto Adige, Fiera tem apenas 517 moradores fixos e meia dúzia de hotéis. Ela é a mais simpática entre as sete cidades do Vale di Primiero (xxxxx habitantes fixos, xx hotéis, xx pistas de esqui e dezenas de trilhas para caminhadas e escaladas num dos muitos recortes dos Montes Dolomitas, as belas montanhas que definem a porção italiana dos Alpes. Quase na fronteira com a Áustria, essa região até a primeira guerra mundial ora pertencia à Itália, ora era dominada pelo império Austro-Húngaro. Culturalmente ligada à região do Tirol, ainda tem placas na estrada e menus de restaurantes bilingues, em italiano e alemão.

Dirigindo pela estrada, me lembrei do dia em que a certidão de nascimento do meu bisavô, expedida pela Comune de Siror (uma espécie de cartório central), chegou à minha casa. O documento, obtido depois de escrever 60 cartas a prefeituras de cidades em cuja lista telefônica havia pelo menos um sobrenome Tinas, refazia um elo da História que parecia ter sido quebrado um século antes, no porto de Santos, em São Paulo, depois de um longa viagem de navio.

Francesco Tomas, um simpático grito de cabelos negros e olhos azuis, era o filho mais velho de Francesco Tomas e Anna Bancher. Nascido em 1878, não entendeu muito bem quando os pais lhe falaram sobre o projeto de deixar os animais, a horta, o cachorro e os brinquedos para seguirem na manhã seguinte, a pé, até a cidade de Feltre. Ele numa tinha ido tão longe até então. Mas sabia que eram 32 km por uma estrada de carro de boi. De lá, junto com os cinco irmãos – Simão, Antonio, Batista, Adriana e Ida – e os pais, tomariam um trem até o mar (que a família ainda não conhecia), depois um navio e finalmente desceriam num tal de Brasil. Daquela conversa curta, o menino compreendeu que o patriarca estava cansado de trabalhar duro, produzir pouco e que a inundação de 1885 havia arrasado com as economias da família.

Não seriam os últimos.  Muito menos seriam os primeiros a engrossar as estatísticas de um dos maiores fluxos imigratórios do planeta. Os primeiros 180 italianos chegaram ao nosso país em 1836 e a última leva aportou mais de um século depois, em 1947. Ao todo, mais de 1,5 milhão de filhos da Itália imigraram para cá. Todos queriam vir para a América – fosse ela qual fosse – mas os habitantes de Primiero acreditavam que eram convidados especiais do próprio Imperador Pedro II.

Essa informação – só viajaram porque alguém os convidou – era esclarecedora. Antes de seguir com essa história, preciso dizer que o imperador Dom Pedro II é meu pai duas vezes. Garantiu meus genes do lado de pai e de mãe. Depois conto como foi do lado materno.

O convite de Pedro II talvez explicasse o fato de Francesco Tomas (o filho) ter tentado apagar de sua história os anos vividos na margem do rio Cismone (de águas frias e esverdeadas), as missas em latim na igreja de estilo gótico (construída no início de 1400 graças ao enriquecimento de alguns fiéis com a extração de minérios) ou ainda as caminhadas até a base do Pico Sass Maior, de 2534 metros, cujas três pontas são o cartão postal do vale.

Captura de Tela 2018-08-14 às 22.45.55

Captura de Tela 2018-08-14 às 22.49.10

Captura de Tela 2018-08-14 às 22.52.36

Com lábia de mercador e gentileza de diplomata, um enviado do Império brasileiro esteve em 1870 na região de Primeiro. Dizia que no Brasil uma única família podia ser dona de 100 acres de terra, um verdadeiro latifúndio em comparação com o pouco espaço disponível no local, razão principal da falta de comida à mesa de famílias numerosas. De cara, convenceu oito pessoas a companha-lo. Prometeu que no Novo Mundo havia fartura e que o imperador, filho de uma princesa austríaca, dona Maria Leopoldina Josefa Carolina, iria tratá-los quase que como irmãos de sangue. Era um exagero, mas borrifado de alguma verdade. A exemplo de seu pai, D. Pedro II via com bons olhos a chegada de imigrantes da Alemanha, Áustria e norte da Itália. Como ele, os europeus eram homens fortes, trabalhadores e de olhos azuis, que poderiam ajudar a aprimorar a raça brasileira (sim, eles eram eugênicos. :-().

Captura de Tela 2018-08-14 às 23.01.46

Os viajantes que toparam o desafio proposto pelo enviado imperial pouco sabiam sobre o país para onde partiam. Menos ainda imaginavam que aquele sujeito iria desaparecer assim que a embarcação chegasse a Santos e ele prestasse contas (e recebesse) por sua bem-sucedida empreitada.

“Num período de sete anos, entre 1870 e 1877, houve um êxodo de 1088 habitantes do distrito de Primiero para a América. Destes, 960 foram para a América do Sul e 128 para a do Norte”, descreveu Cesare Battisti, médico e autor do livreto Guida di Primiero, editado em 1912. Apesar das promessas exageradas de Pedro II, os imigrantes gostaram da nova terra e convocaram os parentes. “O vale ficou quase vazio entre 1877 e 1890. Os pais de família não tinham escolha.

“Quem ficava, passava fome. Quem partia, tinha, ao menos, a chance de dar de comer aos filhos.”, conta o montanhista e escritor Floriano Nicolao. Pesquisador, ele sabe quem partiu, quando, como e porquê, e contabiliza que, durante esse período de pico, 30% da população local tomou o rumo do Brasil.

Os destinos eram vários – do interior de São Paulo ao Nordeste. Numa de suas viagens ao país, Nicolao descobriu no arquivo público do Paraná a informação de compra, em agosto de 1878, da Fazenda Maria de Piraquara, onde se instalaram colonos vindos de Primeiro. A terra foi batizada de Santa Maria do Novo Tirol e reunia 59 famílias com 251 italianos. “Estive lá em 1978, numa festa para 100 anos da colônia”, relembra o pesquisador. Ele ficou especialmente impressionado com a importância da família Bettega.  “Há mais de 400 Bettega no Paraná. Mais do que todos os que restaram no Vale do Primiero”, diz. A febre da imigração era tão contagiante, que em várias cidades do norte da Itália, surgiram agências, algumas até ilegais, para tratar dos papéis e da viagem  dos imigrantes. Igualzinho ao que existe em Governador Valadares, Minas Gerais, para os mineiros que querem mudar para os Estados Unidos.

Cada família adotou uma postura ao decidir como seria sua relação com o velho e o novo país. Enviar um retrato da mulher e dos seis filhos foi a maneira encontrada por Giam Battista Loss, da cidade de Imerjo, também do Vale di Primiero em 1877, para exibir à parentada italiana como estava sua prole no Brasil. Houve quem voltou para visitar os primos, vender as terras ou assistir à mãe doente, em seus últimos dias. Mas outros, como Francesco Tomas, cortaram todos os laços ao cruzar o oceano.

Minha primeira parada, no Albergo Pavione, um hotelzinho de beira de estrada, em Imerjo di Primiero, foi uma surpresa. Temia pela reação do dono, Paolo Pavione, quando pronunciasse o sobrenome Tomas e contasse que estava ali procurando a origem de minha família. São comuns as histórias de rejeição sofridas por brasileiros que buscam as raízes na Itália – os parentes temem que o estrangeiro busque heranças dos ancestrais. Ao fita-lo, no entanto, fiquei tranquila. Ele tinha os mesmos olhos azuis de meu pai. Gentil, ficou feliz em escutar meu resumo e, antes que pudesse colocar um ponto final, já estava sendo apresentada a vários pretensos tios e primos. “Você é Tomas por parte de mãe ou pai? Sabe, meu irmão casou-se com uma Bancher, será que somos duas vezes parentes?, indagava-me uma tia de Ímer. Fiquei na dúvida se ela era mais parecida com a tia Vera ou com a tia Nena (ambas verdadeiras e então vivas). Ou se estava enxergando tudo embaralhado por causa da sensação inédita de ter encontrado o rumo de casa.

Ao seguir rastros do passado, descobri que aqueles que quiseram fazer a “Mérica” acabaram sendo todos um pouco parentes. Sobrenomes como Mott, Loss, Bettega e Piazza tornaram-se tão familiares quanto os Tomas que nunca vi. Na visita ao cemitério, passagem obrigatória para quem quer entender um pouco a genealogia da vida, esses personagens do século passado compartilham metros quadrados enfeitados por flores e têm seus caminhos cruzados por casamentos, sociedades e separações.

Nos últimos 100 anos, o Vale di Primiero mudou. A proximidade com as montanhas atraiu visitantes, que transformaram algumas localidades em estações de inverno. Transacqua, Tonadico e Fiera são as principais portas de entrada para o Parque Natural Paneveggio-Pale di San Martino di Castrozza. Por conta dessa nova vocação, fica ainda mais difícil voltar no tempo para recompor a imagem de Francesco caminhando pelas ruas de terra para seguir à escola. Depois de visitar igrejas, cruzar a antiga ponte do rio Cismone, posar para fotos e respirar fundo o ar seco e frio, que faz arder as narinas, achei que era o momento de ir embora.  Centro e trinta anos depois, refiz, de carro e avião, o caminho inverso do garoto Tomas. Não tinha um convite do imperador nem a promessa de fazer a América, mas podia dizer, finalmente, que sabia quem eu era.

 

 

,

 

 

 

todo dia qualquer

foto9

Todo dia é qualquer. Qualquer dia. Como hoje, ontem e amanhã. Todo dia é sempre igual. E tem um monte de gente que morre de medo dessa rotina, mesmo quando a rotina é ser nada igual. Medo bobo. Medo besta. É tão bom todo dia ser dia qualquer. Como hoje.

Fiz uma vida sem rotina mas com muitos dias todo dia qualquer. Hoje não sei se tenho rotina ou não. Mas adoro meus todos dias quaisquer. Hoje, por exemplo, foi um dia qualquer maravilhoso.

Fiquei e cuidei de quem amo. Fiquei e cuidei do que gosto. Trabalhei. Andei. Pedalei. Li. Escrevi. Comi. Andei. Lavei. Bebi. Comi. Limpei. Pendurei. Me vesti. Me despi. Ri. Chorei. Falei. Me abri. Meditei. Acordei. Escrevi. Sempre hoje.

Fui muito feliz, como sou em todos os dias quaisquer. Vida boa é assim. Bem qualquer. Bem todo dia. Bem hoje.