A notícia

Ganhei a vida escrevendo notícias. Por 30 anos, esse foi meu ganha pão e meu maior prazer. Há sete dias, aguardo uma notícia. Hoje, ela chegou. Por telefone. Com jeito e com carinho. Diferente da semana passada, quando ainda não havia empatia, simpatia, conhecimento, relacionamento e, porque não, afeto. O mesmo doutor que acreditava sem jeito e sem vocação me ligou para contar o que eu já sabia mas de modo algum queria saber.

A notícia com todas as letras pesa no estômago. Fico assim meio sem saber o que fazer. Levanto e lavo a louça. Lavar os pratos sujos da pia sempre foi um jeito honesto de procrastinar. A louça acaba e ataco a roupa suja. Coloco tudo na máquina e fico lá feito naja hipnotizada pelo movimento das peças no meio da água azulada. O barulho vira meu mantra e tento não pensar em nada. Branco, feito Omo, o sabão em pó que tenta limpar as roupas e a minha alma. Rodo, rodo e rodo.

Não quero pensar no amanhã. Não sei direito ainda como darei a notícia. Não sei direito ainda como lidar com a notícia e as suas consequências. Justo eu que sempre fui craque em planejamento e passo a passo. Justo eu que adoro fazer listas. Justo eu que resumo as coisas em tópicos: 1, 2, 3… Justo eu que vivo recomendando plano B para tudo.

O estômago segue dolorido. Não tenho vontade de comer nem de beber. Não tenho sono também. Estou boiando. Estou flutuando. Estou sem pé nem cabeça. A notícia é fato. Com prova e documentação. A notícia é verbo. E no início sempre é o verbo. Por isso é tão difícil calar essa voz, que fica sussurrando dentro da minha cabeça. Essa voz que não cala nunca e que fica propondo hipóteses e possibilidades. Voz que dá asas a medos, encrencas e factoides. Voz que não fala o que eu quero, nem silencia quando eu preciso falar.

Estou em silêncio e escrevo para não ouvir a voz.

A notícia ficará para amanhã. Com o sol e a esperança. No escuro, é proibido dar notícia ruim. Aprendi com minha mãe.

 

 

 

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Referência

paineto

Meu pai sempre foi o mais alto. De todos. Se eu me perdia dele no supermercado, bastava olhar para cima que eu encontrava os cabelos loiros e os olhos azuis. Ele também era o mais forte. O mais sabido. O que resolvia tudo — menos as bobagens que ele fazia e as confusões nas quais ele se metia.

Ele sempre foi meu super herói, até aquele dia em que dormiu na pista. Eu bobeei, me perdi pela curiosidade e falta de medo. Fui, dancei, me ferrei e, automaticamente,  cresci rápido demais. Rápido. Muito rápido.  Tinha cara e jeito de criança, mas a alma, pobre alma, envelheceu no tapa. Não teve jeito. Perdi a inocência. Descobri a dor e a sinceridade da honesta mentira. Meu pai deixou de ser super herói não por falta de mérito mas porque adultos não gostam de delegar superpoderes.

Meu pai seguia sendo o mais alto. Isso, confesso aqui, me dava uma enorme tranquilidade. Acontecesse a merda que fosse, eu podia chama-lo. Podia pedir socorro. Podia pedir resgate. Perdão. Ajuda. Uma mão. Ele era maior do que eu. Ele sabia tudo e eu ainda estava aprendendo, apesar da minha permanente soberba. Mesmo quando discordava das ideias e opiniões dele, achava que ele podia me salvar se eu fizesse mesmo tudo errado.

Meu pai deixou de ser o mais alto já faz algum tempo. Primeiro, foi meu companheiro que ficou maior do que ele. Depois foi meu irmão, que apesar do prognóstico de ser baixinho para sempre, teve um estirão e passou ele fácil, fácil. Ai, ele começou a encolher. Diminuir os ombros. Reduzir a força do tórax. Encolher as pernas. Ele foi ficando pequeno, pequeno. Um dia, choquei, quando vi meu filho, Chico, do tamanho dele. Quem cresceu? Quem encolheu? E eu? Que tamanho tenho?

Neste domingo, quando nos juntamos, todos, para abraçar minha mãe e dar-lhe força, olhei para o meu pai. Ele estava do jeito dele, preocupado e com medo. Ele estava pequeno. Bem pequeno. Ainda bem que tinha João, o menor. O nosso mínimo. O Jojo, querido, que nos seus quatro anos, pimpão, ainda não alcançou um metro. Na foto acima, ele faz com que meu pai seja e continue sendo o mais alto, o maior, o grande, o PAI que todos temos de ter. Vou guardar essa imagem e essa referência no coração e na memória.

 

Doutor sem vocação

Boa noite.

Boa noite, doutor.

Cadê sua filha?

Saiu. Foi até a casa dela descansar.

É muito sério.

O que?, pergunta a interlocutora, com a testa franzida e o olho arregalado por trás dos óculos de lente anti-reflexo varilux. Ela tem 75 anos. Conheceu médicos para parir e tirar um Diu perdido no corpo. Olha no relógio. 23 horas. Será que é sonho?

O que é?

O que você tem?

O que eu tenho?

Intestino.

Todo mundo tem intestino.

Intestino. Vi algo no intestino.

Mas estou sangrando pela vagina.

Eu vi no intestino.

Pólipo?

Mais grave. Mais urgente.

O que?

silêncio

silêncio

Fiquei surda? Será que fiquei surda? Será que é pesadelo?

O doutor sai do quarto. É quase meia noite. A noite é escura. A noite é longa. O medo é gigante.

/Esse blog nasceu porque precisava narrar as minhas emoções. Esse blog segue sendo escrito porque preciso e gosto de contar minhas histórias. O momento é de forte emoção. Envolve mãe. Todo homem precisa de uma mãe, diz a canção. Toda mulher também. Depois conto o que há.  Por enquanto, só posso vomitar o que aconteceu.

 

Yèyé Omo Ejá retou comigo. Gostei

CAMERA

Véspera de São João. Véspera do inverno. O dia azul, azulzinho. A água do mar quente, quentinha. Eu com um novo sistema para preencher de fotos lindas. Na mochila trouxe, quase sem, querer a GoPro comprada em 2015 em um dos últimos impulsos consumistas. Por que não uma foto subaquática? Mostrar para os hóspedes que aqui na frente, bem debaixo dos nossos pés, tem um mundão colorido, divertido, animado e em constante movimento?

Faz tempo que não mergulhava. Faz tempo que não voltava às origens. Com a máscara nova, supermegapower, fui. A maré alta, forte, puxando. Fui. A água translúcida, melhor que na véspera, mostrando todos os peixes. Segui na onda. Deixei o corpo e a vida me levar. Clique, clique, clique. A peixarada parecia até os antigos personagens da CARAS, toda se mostrando. Fui clicando, clicando, clicando. Uma loucura. Uma festa. Uma alegria.

Nadando cheguei numa colônia de corais azuis. Êxtase. Peixes azuis na colônia de corais azuis. Desbunde. Fiquei tão excitada! Feliz feito a criança que sou. A onda veio por baixo. Sacudiu meu corpo. Bambeei. Bobeei. A câmera com a qual eu estava metralhando a peixarada pulou da minha mão, subiu, desceu, rodopiou e sumiu. Melhor, desapareceu. Desapareceu ali, na frente os meus olhos.

Yemanjá!!!! Devolve, por favor, minha câmera?

Yèyé Omo Ejá, por favor, cadê ela? Brinca, não…tem fotos lindas. Preciso delas. Tem a viagem com Chico por Minas. Tem o mergulho. Tem o peixe azul na colônia de corais azul…

Rodei, afundei, vasculhei. Uma, duas, dez, vinte vezes. Nada. Agulha no palheiro. Titanic no mar do Norte. GoPro nas piscinas do Pirui. Desolada, pedi ajuda aos amigos que comigo estavam no São João. Em caravana, fomos para Dandalunda implorar. Devolve a câmera. Troca por outra coisa. Por favor… Cantamos todos cânticos.

Iemanjá – só se vê mar
Iemanjá – só se vê mar

Mulher tá na praia, homem tá no mar
Mulher tá rezando pro homem voltar
Mané foi pra pesca pescar pra viver
Peixe bom pra comida
Peixe bom pra vender

Iemanjá – só se vê mar
Iemanjá – só se vê mar

Nada. Voltamos. Ficamos lá caminhando e cantando sobre os corais na maré seca. Tipo passeio na lua molhada.

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Canta, pede, olha, foca, procura, vasculha. Canta de novo. No final da busca, percebi que havia experimentado um jeito diferente de rezar e meditar. Foi tão bom que quase parei de pedir a câmera de volta…

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Dandalunda, Janaína
Marabô, Princesa de Aiocá
Inaê, Sereia, Mucunã
Maria, Dona Iemanjá

Onde ela vive?
Onde ela mora?
Nas águas
Na loca de pedra
Num palácio encantado
No fundo do mar

Mas não vou fazer isso, não. Juro que não é egoísmo, nem falta de desprendimento. A busca da câmera virou um motivo, um pretexto bom para, nos próximos 30 dias, descer todos os dias à praia para olhar, procurar, pensar, cantar, sorrir, caminhar, agradecer, pedir, rezar, meditar e sonhar.

Vale também como aprendizado do dia. O significado de perder e ganhar. Quando é bom e quando é ruim. Lembrar que é preciso sempre cuidar. Das coisas. De si. Do que queremos e do que gostamos. Lembrar que não dá para deixar as coisas à mercê da sorte ou do azar. Não amarrou a câmera? Perdeu, maré, mané. Não cuidou do que era precioso? Corre atrás para recuperar e aprende a não perder de novo. É assim. Todo dia, uma lição. Por isso, é tão bom. Yèyé Omo Ejá retou comigo. Ainda bem. Significa que gosta de mim. Obrigada, rainha. Odôiyá.

 

 

 

 

 

 

 

Veruska e a duna

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A mensagem era curta e sincera.

“Fui lá antes de 1970. Era namorada do pai dos meus filhos. Dei uma guinada em minha mãe e escapamos para a Aldeia Hippie. Fizemos amor nas dunas, sob o luar.

Depois, já na década de 1970, livre do jugo materno e da prisão do marido, voltava lá, de vez em quando, com um parceiro. Íamos namorar e ficávamos naquela pousada das barracas. Esqueci o nome do dono. Era muito gente fina.”

O teor explícito e honesto da mensagem mexeu comigo. Poucos expõe com tanta simplicidade e transparência momentos tão intensos e íntimos. Confesso, fiquei curiosa e fui fuçar no FB quem era a Veruska. Não encontrei muita informação disponível, apenas o retrato de uma senhora de cabelos curtos e óculos escuros. Admirei dona Veruska. Invejei-a também. Noites de amor nas dunas não são para qualquer um.

Fiquei imaginando como ela se sentiu, 40 anos depois, revivendo aquelas memórias. Será que um arrepio de prazer acendeu a espinha dela? Será que sentiu saudades do pai do filho dela? Será que teve algum arrependimento? Desejou voltar lá com alguém?

Fiquei imaginando dona Veruska fuçando o álbum de fotografia em busca do namorado que a levou às dunas. Será que ela perdoou ou entendeu a caretice da mãe, que a impedia de ser feliz? E o parceiro? Quem seria? Um namorado? Um amante? Era casado? Era colega de trabalho? Será que fugiam da firma ao meio dia, inventando uma visita a um cliente em Feira de Santana e tomavam o rumo de Arembepe?

Pensei em mandar uma mensagem para dona Veruska. Propor uma entrevista. Ou apenas uma conversa franca. Desisti. Alimentar a dúvida, às vezes, é mais gostoso do que procurar saber. Vou imaginar muitas ousadias para dona Veruska. Ela e eu seremos mais felizes assim.

 

 

Não se afobe, não

chico

 

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

Futuros amantes é uma das músicas que mais gosto dele. Adoro a imagem do amor, entidade concreta, esperando em silêncio, no fundo do armário, no correio, milênios e milênios, até a hora de unir, juntar, apaixonar, novamente ou pela primeira vez, tanto faz. Melhor ainda é a ideia deste amor perdido aqui, que pode, quiçá, servir ali, para outrem. Eles, os futuros amantes, que, amavelmente, irão reciclar o sentimento que, um dia, tive, ganhei, perdi e deixei para você.

Nada é para já. Eu sei. Mas sou afobada, acelerada, alucinada. Sempre que o peito aperta, cantarolo o refrão baixinho, só para mim, para me acalmar, me convencer que vai dar tudo certo, que sempre dá.

Ontem deu. Mais que deu. Ontem eu voltei lá. Feito a sabiá. A convite de um amigo único, ímpar, gentil, generoso, que jamais será suficientemente agradecido e retribuído. Obrigada MFC, outra vez, outra vez e outra vez. Nós, ali, bem na frente dele. Tão perto, que, no começo, fiquei nervosa, tensa. Não podia dar vexame. Não podia exagerar. Sem fotos. Sem arroubos. Olhos nos olhos. Olhos de ardósia. Olhos luminosos e molhados.

Ontem eu voltei as horas para trás. Não teve caravanas, não teve atropelo, não teve gota d’água. Ontem foi só música, lirismo e poesia. Mentira. Estou me contendo com vergonha de parecer uma daquelas loucas que berram no escuro: “lindo, eu te amo Chico.” Ontem foi único. Foi mágico. Foi feliz. Foi arrebatador. Ontem foi todo sentimento. Ontem ainda não acabou. Por isso, não se afobe, não.

 

 

 

 

A culpa deve ser do sol

chicoescada

Os primeiros 30 minutos foram lindos. Você lá, todo de preto, mais grisalho que no último encontro, cantando com seu fio de voz os versos e as melodias que mais amo em qualquer idioma, a qualquer hora, em qualquer tempo. Nem ouvi as vozes esganiçadas ao meu redor. Nem dei nota aos gritos histéricos. Não me toquei com o coro fora de hora exigindo o despacho tardio do presidente.  Tudo o que importava era o nosso encontro amoroso, que se repete, religioso, a cada nova caravana. Dessa vez, era para ser ainda mais especial, porque trazia comigo outro Chico, meu curumim, de pai e avô paulistanos, e minha baiana querida, vinha de longe, para compartilhar desse encontro.

Você ainda não tinha cantado:

“É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga”… 

O momento ainda era romântico, doce, lírico, tempo de delicadeza, quando o homem de calça social bege e camisa branca, com listas finas azuis, desferiu o soco. Soco seco, de intensidade média, com punho cerrado. Foi um soco raivoso, irritado, impaciente. Soco de quem não aprendeu a dizer “por favor, será que você pode abaixar o celular que está me atrapalhando”. Soco de quem não gosta de caravana. Soco de quem não pode ser contrariado.

O soco não me atingiu. Estava no meio. Estava com o celular na bolsa, exceção na casa de espetáculos, onde mais de mil mãos tentavam registrar e guardar um pouco de você em seus modernos smartphone. O soco atingiu as costas da minha amiga, que viajou dois mil quilômetros para lhe ver. O soco a deixou irritada e transtornada. O soco me deixou transtornada e enfraquecida. Desliguei de você. Lhe disse adeus e mergulhei na fossa imunda ao meu redor. Depois do soco, à flor da pele, os gritos de “cala a boca-seu idiota, sai da frente-senta seu cretino-cala a boca sua vaca-dá licença-não dou” ficaram mais altos que sua voz.

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará
Não há, não há

Sol
A culpa deve ser do sol que bate na moleira
O sol que estoura as veias

A culpa deve ser do sol. A culpa de ser do Lula, da Marielle, a culpa deve ser sua… Pensei em quebrar uma garrafa e partir para cima do cara. Pensei em fugir correndo da sala. Pensei em pedir socorro. Pedir para você mandar o homem de camisa branca com listas azuis pedir desculpas e prometer nunca mais socar ninguém. Mas depois de outra gritaria coletiva, você disse que, graças aos fones de ouvido, não ouve a balbúrdia. Logo, não ia me ouvir. Sorte sua. Dessa vez, pode cantar Sábia sem ligar para os apupos. Eu não. Ouvi mais um “cala boca seu idiota” e chorei como se tivesse voltado à aquela noite de setembro de 1968. A culpa deve ser do sol.