15 anos de amor e música

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Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…

Sai piaba, saia da lagoa. Sai piaba, saia da lagoa.

A dona aranha subiu pela parede. Caiu do aranha.

Rebola a cintura, dá uma umbigada.

O que tem na sopa do neném? O que tem na sopa do neném?

Samba lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Samba lelê precisava de umas boas lambadas

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O mar é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe neste colchão de amar

O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem quando a gente dorme?

Todo mundo tem um irmão meio zarolho, só a bailarina que não tem…

Estou morrendo de saudade. Rio de sol, praia sem fim. Rio você foi feito pra mim. Cristo Redentor, Braços abertos, sobre a Guanabara…

Eu quis dizer você não quis escutar, agora não peça não me faça promessas

Meu coração, não sei porque. Bate feliz quando te vê. E os meus olhos ficam sorrindo

Quand il me prend dans ses bras, Il me parle tout bas. Je vois la vie en rose.

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Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos 

Com amor no coração, preparamos a invasão. Cheios de felicidade, entramos na cidade amada

Foi assim com versos, acordes e sons que quinze anos se passaram. Passou rápido como um segundo. Parece ontem. Mas foi tanto. Tão intenso. Tão grande. Tão, tão, tão absoluto. 

Foi amor. É amor. Foi música. É música. 15 anos de amor e música. Essa pode ser a síntese tão difícil de fazer e escrever. Detalhes, episódios, instantes. É tudo tão relevante para mim e para todos aqueles que fizeram parte dessa história, desse amor, dessa canção.

Música, amor e poema. Descoberta. Aprendizado. É permanente. Contínuo. É felicidade. A maior que já senti. A maior que sentirei. Insuperável. Inacreditável.

 

Amor e música que embalam a nossa história. Amor e música que alimentam a vida do meu filho, Chico, 15 anos, uma alma excepcional feita de som e sentimento.

 

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A princesa do povo

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Onde você estava quando a princesa Diana morreu? Muita gente se perguntou isso hoje, quando o calendário marcou a data redonda dos 20 anos da morte da princesa do coração dos ingleses e do mundo.

Eu estava em Brissac, uma pequena cidade no vale do Loire, na França. Eu era editora da equipe de São Paulo da Revista CARAS e participava da cobertura dos eventos do Castelo  da revista naquele verão europeu. Dias antes, havíamos organizado o casamento da atriz Carolina Dieckmann com o ator e artista circense Marcos Frota. Por isso, em 31 de agosto de 1997, um domingo, estávamos tranquilos. O material da boda já tinha seguido para São Paulo e tínhamos uma linda capa para a semana. Naquela época, a tiragem da revista superava 400 mil exemplares. Naquela época, a revista “fechava” às 19 horas de todas as segundas-feiras. O telefone que tocou às 6 da matina mudou tudo.

Os jornalistas em São Paulo, horas atrás no fuso, ficaram sabendo da tragédia na madrugada e nos despertaram para avisar. A ordem era urgente. Levanta da cama e viaja para Londres. Londres? Eu não conhecia Londres. Se vira. Levantei da cama, catei umas roupas e corri para a estação de trem. Desci em Paris e lá encontrei nosso correspondente, Alvaro de Almeida, que já havia providenciado a passagem para Londres. No meio do caminho, falávamos com a agência para reservar hotel. Um corre corre danado. Uma adrenalina absurda. Pelo celular, um tijolo de plástico da Motorola, combinávamos com São Paulo como seria a cobertura. Tínhamos pouco mais de 24 horas para fazer a tradução da morte da nossa princesa!

Hoje, em tempos digitais, é difícil avaliar a relevância da morte da Diana e a relevância da cobertura feita pelas publicações impressas sobre qualquer assunto relacionado a uma celebridade mundial como ela. Acompanhávamos, semanalmente, a vida dela. Semanas antes, pagamos uma fortuna por uma série de fotos dela passeando de iate com Dodi, seu namorado de então, em uma praia européia. Era um flagra armado por ela com os fotógrafos (ela era mestre na manipulação da mídia), no qual aparecia diáfana e feliz, de maio branco, olhando o horizonte com cara de apaixonada. Especulava-se que ela poderia estar grávida do milionário anglo-egípcio.  Diana era tão próxima dos nossos leitores quanto qualquer estrela da TV. Diana era princesa. Diana era linda. Diana tinha causas humanitárias. Diana tinha carisma. Quem não torcia para que, enfim, ela tivesse um final feliz nos braços de Dodi?

A bordo do Eurotrem, que cruzava veloz o Canal da Mancha, senti o peso da responsabilidade. Não conhecia Londres. Não conhecia ninguém em Londres e tinha poucas horas para me virar nos 30 e produzir material de qualidade para a edição que fechava no dia seguinte. Da estação corri para o hotel (chiquérrimo, porque naqueles anos as revistas eram ricas e os jornalistas tinham boa vida), com o mapinha da cidade nas mãos.

Vamos lembrar: em 1997, celular era algo raro, caro e precário. Servia apenas para falar ou para atirar na cabeça de alguém. O que era muito em um tempo em que as pessoas se comunicavam por carta, telegrama, pombo correio e telefone fixo com telefonista para fazer ligações internacionais. A internet ainda era movida à lenha. Google ainda não era nada. Quando pesquisávamos, usávamos um tal de alta vista. Rede social? Ahh? Não, esse termo ainda não existia.

Larguei as coisas no hotel e fui para a rua. Como eu faço agora?, pensei já quase em pânico.

O amor dos ingleses por Diana me salvou de perder o emprego 17 anos antes do prazo. Bastou colocar o pé na rua para perceber que a cobertura seria simples. Bastava olhar e sentir. Bastava me emocionar e escolher personagens tocados por aquela indescritível dor. Os caminhos à seguir também se mostraram fáceis. Era só seguir mulheres, homens, jovens e famílias que caminhavam constritas, com flores e bonecos de pelúcia na mão. Rapidamente percebi que seguiam todos em direção ao palácio de Kensington, última residência da princesa.

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Quando lá cheguei, me surpreendi com o silêncio. Era um silêncio pesado de dor e saudade. E flores, muitas flores, com mensagens escritas à mão, que traduziam o carinho e a sensação brutal de perda dos súditos da “rainha do coração dos ingleses”. Poucas vezes, vi tanta gente sofrendo a mesma orfandade. Despidos de pudor, os ingleses choravam sem disfarçar lágrimas e soluços. Haviam perdido a “princesa do povo”, a princesa amiga, parceira, que sofriam com e como eles. Entrevistei uma senhora que chorava muito. Não lembro o nome dela. Mas lembro, perfeitamente, que no final de nossa conversa, lhe dei um abraço que ela aceitou sem cerimônia. Juntas choramos aquela morte besta, de uma mulher jovem, linda e bacana que podia ser nossa amiga e que parecia, como nós, ter um futuro incrível pela frente.

 

 

 

 

 

 

 

Conselhos

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Abro uma pasta onde uma etiqueta branca traz a legenda em letra cursiva:

Poemas, matérias, check ups, desenhos e memórias.

Abro. Surgem emails dos século passado. Brota um conselho de um importante diretor de redação, que comentava, generoso, o meu primeiro texto na revista que ele comandava. Aparece uma carta inventário de outro manda-chuva recém chegado de um sabático esculhambando o trabalho que fazíamos sob nova gestão. Relembro quantas dores de estômago essas mensagens provocaram um dia. Sorrio. Tempo, tempo, tempo. Senhor da razão e do fígado. Nada faz sentido.

Apenas o poema que diz: “seus olhos estavam cerrados. Com aquela expressão de abismo para mergulhar no sonho.”

Apenas o outro poema que aconselha:

“No resplendor das criaturas, busca o esplendor do Criador

na simetria das formas puras,

busca o Sem-Forma, o Sem-Cor.

Nos nomes de todas as Escrituras,

Busca o inominável Autor.”

Foi escrito em agosto de 1991 por um amigo que sumiu da minha vida. À época não fui capaz de compreender a mensagem. Perdi. Pena. Paciência. Tudo faz sentido.fullsizeoutput_10c4

 

Memórias

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BigBrother chamado WordPress me avisa que, em breve, comemoro três anos de blog. Faz tempo que não escrevo. Estava de férias? Não. Estava escrevendo no computador para imprimir no papel. Mas, pelo jeito, o momento impressão vai demorar um pouco mais. Por isso, para não perder o hábito nem os leitores, decidi voltar a batucar por aqui. Os assuntos são os de sempre, perdoem-me.

Vida. Viagem. Descobertas. Sentimentos (todo e todos). Obsolescência. Patrimônio pessoal. Vergonha e a perda dela. Vulnerabilidade assumida. Lembranças. Aniversários. Coisa de 50+. A minha turma. E sim, muitos, muitos planos B. É meu mantra. É minha vida. É o jeito que entendo poder colaborar com alguém.

Ontem ganhei um presente. Um amigo amado, jovem companheiro de muitas pautas, viagens, fechamentos e histórias, Eduardo Lopes, fez fotos minhas para a nova capa do Vida Sem Crachá. Foi um momento especial. Pelo honra de ser fotografada por ele, meu garoto, que se tornou um grande fotógrafo. Pela felicidade de vê-lo tão bem e tão realizado. Pelo prazer de me ver, três anos depois, tão feliz com minha vida.

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Viajamos no tempo e nos números. Nostálgicos, lembramos que há 20 anos viajamos pela Itália, depois de uma temporada de trabalho no Castelo de CARAS, onde então trabalhávamos. Edu foi comigo e com meu irmão, Pedro, até a cidade de Fiera de Primiero, onde meu bisavô nasceu e de onde ele partiu, menino, no século XIX, para começar vida nova no Brasil. Naqueles dias, passeamos pelas terras dos meus antepassados e revivemos, de carro, o trajeto que eles teriam feito para vir para cá. Quando voltei, escrevi uma reportagem na qual contava a experiência. As fotos, claro, eram do Edu.

Larguei o batuque e fui procurar a memória. Tentar achar a reportagem para poder transcrevê-la aqui. A bagunça não deixou. Mesmo assim, abri o meu baú de couro com tachinhas douradas. Há 40 anos, guardo nele o que me importa. Abri e me perdi. Me encontrei. Me lembrei. Fotos. Bilhetes. Cartas. Poemas. Jornais antigos. Revistas. Recortes. Saudades. Amores. Dores. Alegrias. Muitas. Tristezas. Intensas. Mexendo nos papéis, revivi situações esquecidas e confirmei como sempre fui privilegiada, amada, querida. Li um texto de uma amiga querida que me fez chorar de tanto carinho: “espero que você seja tão feliz quanto faz aos outros. Que tenha a melhor das vidas – é merecida, pedaço, por pedaço. Fique bem. E conte comigo sempre.”  Conto, conto mesmo, com todos vocês.

 

 

 

 

De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

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A vida pode ser uma estrada, para quem gosta de viajar. Hoje, enquanto dirigia o ducentésimo quilômetro do dia, contava ao meu filho, Chico, que escolhi ser jornalista por três motivos: sonhava mudar o mundo, queria viajar muito e desejava, um dia, ser escritora.

“E o menino com o brilho do sol

Na menina dos olhos

Sorri e estende a mão

Entregando o seu coração

E eu entrego o meu coração”

De volta ao Começo,  Gonzaguinha

A história de hoje é longa. Bem textão. Tem a ver com estrada, viagem e jornalismo. Não terá lead. Será em partes.

Parte 1_agosto de 2014

Há mais ou menos três anos, deixei a grande imprensa. História velha. Todo mundo já sabe que fui demitida do emprego da minha vida. Tinha uma viagem de férias marcada. Fui porque, mesmo desempregada, não perderia a chance de fazer um tour que estava pago. Destino San Francisco, costa Leste, dos Estados Unidos. Foi lá que começa essa nova história.

Parte 2_setembro de 2014

No primeiro dia, eu e Nil, minha companheira de viagem, saímos para passear. Não andamos nem dois quilômetros e demos de cara com uma galeria de arte mexicana. Na vitrine, dois objetos de cerâmica começaram a piscar para nós. Eram uma árvore da vida e uma pilha de cinco cachorros com um galo no alto. Entramos para pedir o preço. Não era barato, mas também não era um absurdo. Agradecemos e resistimos ao impulso inicial de sair com as duas obras nos braços.

No dia seguinte, sem querer querendo, fizemos o mesmo caminho. De novo, árvore e cachorro abanaram e piscaram para nós. Nil, mais audaciosa e ousada do que eu, entrou na galeria e anunciou: são meus. Pagamos e combinamos de buscá-los dali dois dias, quando estaríamos de carro. Feito. Os dois embrulhos gigantes (mal embrulhados) foram para o fundo do carro, onde sofreram os primeiros e únicos danos.

Viajamos mais de 2000 quilômetros chacoalhando pela costa Oeste, Vegas e Gran Canyon. Quando chegamos em Los Angeles, a última escala, percebemos que tínhamos dois trambolhos que não podiam ser despachados na mala. Viramos a cidade atrás de sacolas, que os abrigassem. Ironia. Destino. Foi na loja do Exército da Salvação que encontrei uma sacola usada para entregar antigos layouts de revista que vestia como uma Luca a minha árvore cabia. Os cachorros divididos em dois blocos foram para duas malas de rodinhas, que embarcaram conosco.

Check in e, por milagre de nossa Senhora de Guadalupe, a turma do aeroporto não implicou com o tronco da árvore, pesado e duro o suficiente para atentar contra toda a tripulação da Delta Airlines. Resumo: chegamos em São Paulo vivos e quase inteiros. Na pousada A Capela, em Arembepe, descobri que a orelha do cachorro rosa tinha se quebrado. Antes que conseguisse restaurar, o pedaço se perdeu. Mesmo sem uma orelha, família de cães e árvore da vida trouxeram uma imensa e profunda novidade em nossas vidas.

Parte 3_novembro de 2014

Primeiro, escrevi um texto usando a árvore como ilustração para falar de amizade. Segundo: por serem tão lindos e chamarem tanta atenção, percebemos que deveríamos enfeitar nossa Capela apenas com legítimo artesanato, com obras de arte popular. Começava com aquelas duas obras de um desconhecido senhor Ortega S, que assim assinava as peças, uma paixão, um novo trabalho, uma missão e o prazer pelo pé na estrada.

Parte 4_março de 2015

Sim, porque mesmo sem perceber, mudamos, mudamos e voltamos aos começos que deixamos pela estrada.

Lá estava eu, pesquisando e entrevistando pessoas para descobrir os encantos da arte popular brasileira. Com caminhonete e waze, viajamos pelo interior de Alagoas, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Fomos à feiras, fizemos inúmeras amizades e descobrimos a linda ética de artistas e dos caminhoneiros de carga fracionada. Encomenda-se, paga-se e tudo chega certinho no endereço combinado. Fio de bigode, admiração e confiança. Esta é a lei. Sim, pode demorar seis meses, às vezes o tempo do artista, mas chega.

 

Parte 5_junho de 2016

Com a pousada enfeitada de obras lindas, que nos davam orgulho e distinção, começamos a ouvir de alguns hóspedes a pergunta: “está a venda?”. Sim, estava.

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Sim, assim nasceu a Coisas da Ninoca, a loja conceito que criamos, digo de brincadeira, por dois motivos: entreter os hóspedes nos raros dias de chuva e ter um motivo nobre para sair viajando por aí.  Em novembro, ela faz uma ano. Rende um dinheirinho, um emprego, do eficiente Almir, e um imenso prazer. De volta ao começo, nos permite viajar, ouvir histórias, que depois escrevo ou conto, e mudar o mundo. Sim, mudar o mundo porque ajudamos a girar uma economia criativa, genial e generosa. Pessoas de todas as idades, origens e gêneros, que vivem do seu fazer e do seu incrível talento imaginário. Artistas. Artistas populares. Artistas geniais.

Desde os primeiros pedidos de “está à venda”, combinei com Nil que venderíamos quase tudo porque a ordem era desapego. As exceções seriam o começo de tudo: nossa árvore e nossa pilha de cachorros. Invendáveis. Claro que ambas eram as campeãs de audiência dos pedidos.

 

Parte 6_novembro de 2016

Que tal ir ao México procurar mais árvores da vida e cachorros empilhados?

Parte 7_junho de 2017

Foi o que fizemos no final de junho e aí começa o pedaço mais lindo dessa história. Chegamos achando que íamos aterrisar e dar de cara com dezenas de peças de Ortega S. Afinal, ele era mexicano…. Estupidez picante como o chili do café da manhã. Rodamos, rodamos e nada se parecia com a arte de Ortega S.

Sacudi a poeira do tempo e lembrei dos tempos de repórter missão impossível. Naquela época pré-google, as ordens chegavam assim: “acha fulano” e a gente, muito jovem, não conseguia nem entender direito o nome do fulano. Mas se queria seguir sendo repórter da maior revista do país, dava um jeito o achava. Com uma foto da assinatura do Ortega S comecei a pesquisa no dia 1 de julho. O google México ajudou, foi generoso. Mandou opções que não aparecia em São Paulo. Fui mergulhando, fuçando e achei uma página simples, tosca, com peças – que eram iguais as minhas – um endereço em Jalisco, um email e dois telefones. Tentei tudo. Consegui resposta por email e WhatsApp.

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Gerardo Ortega Lopez, um dos irmãos Ortega, na foto acima com seu filho cadete, me respondeu de início ressabiado. Fomos trocando mensagens e resumi bastante a história. Disse que estava na Cidade do México e que tinha vindo do Brasil comprar peças dele, que queria conhecê-lo e faria qualquer coisa que fosse necessário para viabilizar meu plano. Primeiro ele sugeriu que eu fosse até San Miguel Allende, onde existem peças da família à venda em lojas. Depois, Gerardo percebeu que a minha paixão era verdadeira e sugeriu que eu fosse até Tonalá, direto do atelier deles. O preço seria melhor. A emoção foi maior.

Parte 8_4 de julho de 2017

Acordamos cedo e partimos. Mais de 550 quilômetros. Muitos dólares de pedágio. Poucos dólares de gasolina, comparado com a nossa. Algumas voltas por culpa nossa e do waze. Chegamos à Colônia Santa Cruz de Las Huertas. As ruas eram simples, decoradas com bandeirolas de São João. Na internet, havia visto a foto da casa, pintada de roxo com um galo ao lado da porta. De longe identifiquei e o coração bateu acelerado. Estacionei e na porta me esperava Oscar Ortega López, irmão de Gerardo, que tinha saído para um compromisso.

 

Entramos. O ateliê era igual a dezenas de ateliês que conheci nos últimos dois anos, correndo atrás de arte popular. Zero de luxo. Zero de charme. Zero de glamour. Beleza pura apenas nas peças, em geral, expostas de modo tosco.

Nos fundos da casa, outros membros da família pintavam peças que seriam vendidas em breve. Eu já havia feito uma encomenda a Gerardo, que participará no final de semana de um concurso mexicano de arte popular.

O saber fazer peças lindas está na família há quatro gerações. “Aprendemos criança, de pai para filho”, conta Oscar. “Quem gosta faz, quem não gosta, busca outra profissão.” Eles trabalham em grupo. Olhando ao redor, bairro incluso, é difícil entender de onde vem a inspiração para tanta riqueza e beleza. Sentada no chão com eles, embalando peça a peça, percebi que a inspiração vem da alma deles, colorida, intensa e naif como as cerâmicas que modelam.

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Compramos tudo o que podia ser comprado e que cabia dentro das malas que trouxemos do Brasil. Para fora, de novo, uma árvore da vida e uma pilha de três cachorros e um galo, que ainda vamos decidir como viajam.

Na porta, uma aperto forte de mão e a foto que ilustra esse textão. Oscar também estava orgulhoso e emocionado. Demos então meia volta em direção a Oaxaca, destino das nossas férias.

Na estrada, no papel de copiloto, escrevo uma mensagem para agradecer Gerardo pela recepção e pelas belíssimas obras. A resposta dele foi encantadora, um abraço quente.

“Muchissimas GRACIAS a ti. Nos haces sentir muy muy orgulhosos de que tu vengas de tan lejos, Brasil, a comprar nuestra arte. No se como agradecerte. Suerte siempre para ti y tu negocio.”

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Agradecer.

Como explicar a ele a mudança que o trabalho dele provocou em minha vida?

Como agradecer a altura tudo o que ele e a família dele fizeram por mim?

Como traduzir, no meu espanhol de esquina, o impacto da descoberta desta nova beleza e deste novo trabalho, a pesquisa e o garimpo de arte popular, justo naquele momento em que eu tinha uma janela aberta à minha frente e ainda não sabia que sabia voar?

Como exprimir a minha satisfação de repórter aposentada, apenas pelo fato de ter conseguido encontrá-lo em uma colônia mexicana depois de três anos de buscas fracassadas?

Acho que só tem um jeito. Voltar correndo para o Brasil, fazer uma linda exposição na Ninoca para poder em breve fazer novas encomendas e outras, e outras e outras. De volta ao começo. É assim que deve ser.

E eu entro na roda

E canto as antigas cantigas

De amigo irmão

As canções de amanhecer

Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho

Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito

Com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse que a força

Esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente eu chegasse

Ao fundo do fim

De volta ao começo

Ao fundo do fim

De volta ao começo

 

 

 

 

A alegria de ser o Inocente

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Hoje acabou oficialmente o meu verão. Voltei à minha casa de São Paulo e retorno à ponte-aérea Sampa-Aremba, a vida que escolhi para mim e para os meus. Hoje é dia de pagar as contas atrasadas. Arrumar os papéis. Planejar os próximos meses. Estabelecer as metas. Se inscrever nos cursos. Fazer as contas de 2016. Fazer a avaliação do melhor verão de nossas vidas. Hora de voltar a estudar e a escrever.

Estou empacada. Só vou conseguir seguir em frente depois de cuspir este post. Faz dois dias que eu o escrevo e rescrevo mentalmente. Só vou sossegar depois de apertar o botão “publicar”.

Trata-se da minha homenagem tardia ao arquétipo do Inocente. Trata-se da minha assunção, da minha redenção a este modelo que define minha alma, que traduz meu jeito de ser e que por anos à fio mantive guardado, escondido dentro do armário, como se fosse um desvio, uma fraqueza, uma veleidade.

Vamos explicar.

Na vida, em geral, e no mundo corporativo, em particular, assumimos comportamentos e posturas. Alguns são absolutamente legítimos e naturais. Outros são forjados à ferro e fogo, porque são necessários segundo os padrões de comportamento vigentes nas companhias. Assim, segundo algumas cartilhas, quem é líder tem de ser corajoso, ousado, crítico, inteligente, poderoso. Certo? Eu achava que sim e me esforçava para sê-lo. Me esforcei tanto que achei que enganava todo mundo. Nos testes, dinâmicas e coaches aparecia como “trator”, “fodástica”, “pitbull”, “touro indomável”. Sentia certo orgulho. Sentia desconforto. Na hora H, não era eu. Na hora H, tinha que fazer um esforço hercúleo para produzir a maldade e a pressão que esperavam de mim. Amigos queridos dizem que não era boa intérprete. Duplamente tola.

Os anos passaram. Não fiz mais coach. Deixei a análise, mas continuei refletindo e pensando em mim e no meu lugar nesta estrada sem porteira. E não é que neste final de semana, o último do melhor verão da minha nova vida, tive um insight-revelação após uma conversa, literalmente, ao pé do bar e depois de fazer um teste comportamental que circula no Facebook.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

Na conversa ao pé do bar, descobri que sou crédula até a medula. Que tenho fé. Que apesar dos fatos, sempre acho que a má conduta poderia ter uma justificativa nobre.

Na conversa ao pé do bar, me espantei ao descobrir características e comportamentos repulsivos em pessoas que julgava justas, leais, honestas e amigas. A conversa, curiosamente, foi elucidativa, surpreendente e sem sofrimento. Entendi, intuitivamente, porque fazia tanto tempo que não cruzava com aqueles personagens pelo caminho. Porque eu sempre adiava o telefonema para marcar um café. Santa procrastinação.

Mudando de cenário e continuando no assunto, no FB, tive a felicidade de clicar em um post da minha amiga Vera Lígia. Ela compartilhou um teste  bacana baseado no livro “O herói e o fora-da-lei. Como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos” das autoras Margaret Mark e Carol Pearson. O exercício de múltipla escolha veio à tona, suponho, por conta da declaração do Marcelo Odebrecht, que se definiu como o “bobo da corte” na miséria do Petrolão. Fiz o teste como quem se confessa com Deus. Não fiz finta. Dei adeus aos fingimentos. Não coloquei banca. Fui honesta como quem faz uma delação premiada consigo mesmo.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

O resultado do teste vocês já sabem. Apareceu ali, em letras garrafais, que faço parte do time dos Inocentes. Eu? Eu? Eu? Sim. Com um indescritível e absoluto orgulho, agora que posso ser quem sou, porque sou livre, livre.

Quem é o Inocente?

Segundo Margaret e Carol quando o “Inocente”está ativo em uma pessoa, ela é atraída para a certeza, para ideias positivas e esperançosas, para imagens simples e nostálgicas, para  a promessa de resgate e redenção. O inocente é um otimista, que busca o paraíso, que deseja a Pasárgada. Este arquétipo gosta de coisas previsíveis e não gosta muito do baile da mudança. Por isso, ele é leal às marcas, organizações e pessoas que cumprem suas promessas e se baseiam em valores perenes e duradouros. O inocente luta pelo bem. Não sabe viver sem uma causa. Adora carregar bandeiras. Participar de grandes marchas. É o tipo que sobe feliz ao Everest para buscar algo importante que foi lá esquecido pelo líder que ele tanto admira.

O Inocente, vejam que legal, é capaz de abandonar uma cultura de alta pressão, focada no sucesso, para perseguir a alegria de uma vida simples. Sim, sim, sim!!!! Como Narciso, fui me apaixonando pelo cara e lendo, lendo, lendo…

O lema do Inocente é básico: “somos livres para ser você e eu”. Objetivo: ser feliz, seja lá o que isso seja. Maior medo? Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado. Caramba! Como elas sabem tudo isso sobre mim? Estratégia? Fazer as coisas certas para não tomar bronca porque deu ruim. Tão óbvio…Franqueza do inocente? Ficar chato por toda a sua inocência ingênua neste mundo cheio de maldosos, maldades e sacanices e safadices. Quando li isso, confesso, corei. Odeio chatice. Prometo ser mázinha, de vez em quando.

Qual é o maior talento do Inocente? Fé e otimismo. Por tudo isso, o Inocente também é conhecido como utópico, tradicionalista, ingênuo, místico, santo, romântico e sonhador. Segura, que é tua. E para a confissão ser completa, vou contar que o Inocente, na literatura, segundo a análise dos arquétipos, é identificado com o personagem do Pequeno Príncipe, aquele das misses, que afirma que somos responsáveis pelo que cativamos. Quer saber? Dou fé e subscrevo.

Feliz 2017 para mim e para todos nós. E vamos cuidar de estudar novos planos B para os próximos 30 anos. Sou Inocente, mas não sou boba.

 

 

 

 

A primeira noite de um homem 2 ou a noite em que meu filho ficou grande

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– Mãe, eu vou tocar violão. Quer ouvir?

O convite era um prenúncio, mas eu não sabia. Respondi sim, claro. Sempre quero ouvir qualquer violão. Sempre quero ouvir o violão dele. Não, não tem letra maiúscula. Me controlo.

O convite, é preciso dizer, era inusitado. Nestes quatro nos, sempre implorei por apresentações e serenatas. Sugeri cachês, propinas e subornos. Lava jato não me pegou, porque nunca logrei sucesso. Ele só tocou quando e porque quis.

Ontem ele queria. Seria um dia especial. Foi um dia especial.

Com o violão malhado de Bela nos braços, ele cresceu. Cinco anos em duas horas de espetáculo. A voz solta e potente em nada lembrava o menino com quem eu cantava “numa folha qualquer eu desenho o sol amarelo”. Confiante, exibia força, peso e estatura. Sem vergonha. Sem timidez. Meu menino era homem.

Cresceu. Emocionada, lembrei do exato dia em que descobri que ele não era mais um bebê. Era verão como ontem. Estávamos na praia sozinhos. Tive uma intoxicação alimentar e me tranquei no banheiro para vomitar os demônios que invadiram minha barriga. A certa altura do meu tormento, ouço um toctoc na porta.

— Mãe, você precisa de ajuda?

Meu bebê, então com cinco anos, crescera. Já era capaz de ficar só e de me oferecer ajuda. Faz tempo que ele bate na porta e pergunta se eu preciso de ajuda. Faz tempo que é jaqueira e, frondoso, me faz e me oferece sombra. Me deleito e descanso tranquila sob a copa dele. É tão extraordinário ser a mãe do Chico.

Ontem foi assim. No início da serenata, eu ainda era a Claudia. Atenta, preocupada, junto, olhando em volta, conferindo a audiência, sugerindo roteiro e trilha. À medida em que soltou a voz, eu o vi crescendo. Sedutoramente, ocupou todos os espaços com a música dele, a presença dele, a força dele. Deixei de olhar ao largo. Abandonei os cuidados com o entorno. Relaxei. Me fiz plateia. Me deixei ser tiete. Me espantei com o tamanho e a senhoridade. Me enchi de orgulho. Me embriaguei de vinho branco, verde e de prazer.

Você escolheu a saideira e encerrou a noite lá no alto. Muitos beijos, muitos parabéns, muitos comprimentos e um pedido de foto. “Vem Chico, tirar um retrato comigo. Quando você virar artista vou mostrar a todos que assisti a um dos seus primeiros shows”, pediu Augusta.

Não sei se serás artista, mas desejo que continue sendo Chico na vida. Prometo estar ao seu lado apoiando suas escolhas, especialmente aquelas que não forem do meu agrado. Isso é prova de amor. Amor temos muito. De mim para você. De você para mim.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.