Reinvenção ou apenas o essencial

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Quando os editores da revista Let’s Go, com a qual eu colaboro, me avisaram que a edição seria dedicada à reinvenção e ao recomeço, confesso que travei. “Vou escrever o que?”, pensei com meus botões. Desde que morri executiva em agosto de 2014 e reencarnei meses depois na versão sem crachá, tenho escrito exageradamente sobre esse assunto. Será que ainda tenho algo a dizer?

Enrolei, enrolei e enrolei até chegar aqui. Cheguei à conclusão de que nunca é demais repetir sobre a inexorável urgência de todos os imigrantes digitais (gente como eu, que nasceu antes da década de 1980) terem um plano B e beberem a mudança no café da manhã. Por que tanta urgência? Simples, porque queiramos ou não, o mundo no qual respiramos está passando pela maior e mais acelerada revolução, desde que viramos os reis entre os animais. Não dá para dizer que é ruim. A tecnologia promete vida longa a todos nós.

Por isso mesmo, todos os dias, sem qualquer exagero, temos que acordar dispostos a fazer diferente e a recomeçar. Pode ser uma guinada geral na vida. Pode ser uma simples mudança de hábito, como, por exemplo, trocar o carro pela bicicleta, deixar de chupar suco e caipirosca com canudinho ou, iniciar pela enésima vez a corrida contra a morte na esteira da academia.

A revolução digital, a inteligência artificial e a era da informação esfarelaram, sorrateiramente, boa parte do mundo que conhecíamos e navegávamos com relativa confiança. O futuro é hoje. Conforme a lente, pode ser fascinante e também assustador. É tudo junto e misturado. É tudo rápido e silencioso.

Enfrentar a obsolescência é o desafio diário de quem não é nativo digital. As novas tecnologias, presentes nas menores atividades do dia a dia, exigem aprendizado constante. Perdeu um capítulo, corre o risco de, em breve, não saber mais ligar a TV da sala.

Encontrar um modo de sobrevivência para a vida que se alonga em um mercado de trabalho em transformação é outro desafio. A era do pós-emprego acabou com a estabilidade. A garantia de remuneração para toda a vida não é mais privilégio nem dos melhores profissionais. Os postos de trabalho estão sendo extintos porque o modo de produção está mudando. A inteligência artificial e os algoritmos estão povoando territórios antes reservados aos doutos, como, por exemplo, a medicina, o direito, a administração, a comunicação e até as artes. A “überização” do mercado de trabalho é o novo modelo de gestão das grandes e pequenas companhias.

Prepare-se, portanto, para recomeçar, reinventar e reaprender. Todos os dias. De novo, de novo e de novo. Seremos (somos) todos Sísifos de um eterno recomeço se quisermos estar em dia com a última atualização do sistema operacional global. Está sentindo preguiça? Estão apertando sua mente? Tem dias que eu me sinto como quem partiu ou morreu. Quer saber? É tão bom quanto quando acordo disposta a aprender tudo sobre Blockchain. Desligo o smartphone e vou olhar o mar. Respiro. Limpo a tela da mente. Sossego. Silencio. Respiro de novo. Deixo pra lá tudo o que é supérfluo e foco apenas no essencial. A vida.

Ps: se o futuro é um assunto que te interessa, recomendo a leitura do livro Homo Deus – Uma breve história do amanhã do historiador Yuval Noah Harari (Companhia das Letras), que é absolutamente sensacional.

 

 

 

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Corrente de carinho

Há quatro anos, quando inventei a vida sem crachá como um remédio para a minha dor, não tinha muito futuro, muito sonho, nem muita esperança. Eu fui indo, fui fazendo, fui mexendo, fui trabalhando, fui escrevendo. Foi meu jeito de sobreviver. Foi minha forma de não deprimir. Foi minha saída para continuar saudável para cuidar do meu filho, Chico, e dos meus pais. Juro por eles que jamais imaginei ou esperei colher tantos frutos, tanto carinho, tanto amparo, tanta solidariedade. Fiquei sabendo ontem à noite da indicação da Pousada A Capela na matéria da Revista da Folha. Foi a amiga Claudia Maximinoquem avisou, avisada pela amiga Vanessa Lucena Empinotti. Uma da a outra, numa corrente de carinho e felicidade. Ambas são amigas. Ambas são clientes, amigas, frequentadoras da Capela. Casaram aqui. Veranearam aqui. E por isso, fazem parte da nossa história. De mãos dadas numa gigantesca corrente de carinho e amor. Fiquei piegas depois dos 50? Nananina Não! Fiquei mais sábia, mais inteligente e menos modesta. Aos 53, sabemos o que realmente é importante na vida. Descobri que era a amizade o valor maior. Descobri que podia produzir isso na minha, na nossa pequena Capela. Por isso, estou feliz hoje. Por isso, o textão.
Aproveito para agradecer a @Debora Yuri, autora reportagem pela menção a nós. Ela também faz parte agora dessa Roda Vida de gente de paz e bem.

O exemplo extraordinário de Mário Gomes

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Hambúrguer com batata frita na beira da praia, com direito a violão, foto com 0 artista empreendedor e notícia no jornal. O ator carioca Mario Gomes, 64 anos, atualmente sem contrato com a Globo e à espera do retorno às gravações da terceira temporada de “Magnífica 70”, do canal HBO, deu um exemplo extraordinário de que sempre é tempo e hora de buscar um plano B. O dele é singelo. Com o filho de dez anos, montou uma carrocinha de madeira e roda de bicicleta para vender lanches em uma praia badalada na zona oeste do Rio de Janeiro. “Estou fazendo um teste para ver se vale a pena investir em um food truck”, declarou o ex-galã das novelas  das 8.

Sem vergonha de assumir que a vida está difícil para ele e para outros 12 milhões de brasileiros, foi à luta com dignidade e peito cheio. Mário Gomes ainda não consolidou a clientela. “Fico bebendo minha cachaça e vendo esse visual da praia”, declarou ao jornal. Para faturar mais um, decidiu alugar sua casa para festas e eventos. “Minha carreira de ator não acabou, muito ao contrário. Faço o seriado, darei aulas no polo de cinema e video sobre como ter o seu próprio canal no youtube e tenho um trabalho voluntário no Retiro dos Artistas”, contou. Como dinheiro não cai do céu e ainda tem filho pequeno para sustentar, está correndo atrás de alternativas de ganhar um dinheiro extra.

A história se espalhou feito raio nas redes sociais. Gente parabenizando. Gente esculhambando. Os colegas de profissão, ambulantes de praia, foram solidários. “A praia é como coração de mãe, sempre cabe mais um”, diz Livia Teixeira que vende quentinhas. O problema apenas é o final do verão, que derruba o movimento, alerta a moça.

Mario Gomes é guerreiro. Gomes sabe se reinventar. No auge na fama, quando fazia par romântico com Bety Faria em uma das novela de estrondoso sucesso, foi vítima de calúnia, difamação e armação montada por um chefão da Globo. O poderoso ficou com dor de corno porque a atriz estava enlevada pelo jovem bonitão. Com muitos casamentos na biografia e quatro filhos, está longe de se aposentar. Está distante de poder viver de papo pro ar. Corajoso e digno, foi à luta. Tomara que dê certo e a carrocinha vire um Food Truck.

Se estivesse em uma situação como a dele, precisando de dinheiro, o que você faria? Já pensou qual seria o seu plano B? Qual talento você tem? Qual patrimônio pessoal seu pode abrir portas em uma outra atividade? O carnaval acabou, pode ser uma boa hora de pensar nisso. Inspire-se no Mário.

Bravo e palmas para ele.

Oportunismo é o lado negro da força da oportunidade

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Sempre ouvi que a crise é o momento perfeito para aqueles craques em encontrar oportunidades onde os pernas-de-pau só acham buracos na grama. É verdade. Mas é uma verdade perigosa, mentirosa, escorregadia, viscosa, nojenta e repugnante quando alguns malandros confundem oportunidade com oportunismo.

A primeira semana de fevereiro parece que abriu os bueiros e ralos para cobras, escorpiões e lacraias, em geral, saírem do bueiro à procura de otários. Topei com um ontem. Tropiquei com outro hoje. Vou contar minha saga, porque quem não tem crachá carece de departamento jurídico e quem não tem diploma de direito toma cada susto.

A Pousada A Capela não é uma Coca-Cola. É uma pousada simples, bonitinha, honesta, com serviço decente, prestado por uma equipe dedicada, gentil e feliz. Labutamos muito. Não ganhamos milhões, mas estamos, satisfeitos, vivendo nosso quarto ano de casa cheia. Nossa marca não é trend top. Nossa marca não vale milhões. Nossa marca não havia sido registrada no INPI, porque o que importa, na prática, é o registro do CNPJ, o alvará de funcionamento, a URL do site (esta, sim, registrada), o endereço físico, a plaquinha na porta e o serviço nosso de cada dia. Acontece que a nossa pousadinha ganhou alguns prêmios e volta e meia aparece na mídia. Outro dia mesmo, a capelinha foi cenário de uma entrevista sobre contracultura (que heresia) e sobre o museu a céu aberto na aldeia hippie de Arembepe. Essas coisas, que na prática valem pouco, muito pouco, no mundo dos larápios, são pretexto para um golpe(zinho). Foi o que rolou hoje.

Estava eu labutando bem cedo, quando tocou o telefone. Número de São Paulo. Um escritório de sei-lá-o-que, porque não entendi direito o que a mulher-máquina-marketing-telemarketing falava. Falou, falou, falou e com esforço entendi que ela questionava o fato de a marca Pousada A Capela não ter sido registrada. Dizia haver alguém,  cliente dela, interessado na mesma para abrir uma pousadinha em Ilhabela, São Paulo. Respondi que não sabia e ia averiguar. Desliguei. Segundos depois, recebo um email de outra empresa oferecendo serviços caríssimos para registrar a minha marca no INPI. Pediam 2 contos pela assessoria jurídica mais um monte de outros contos pelo trabalho de registro.

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Black light. Acendeu a lâmpadinha eureka do mal. Tinha bububu no bobobó ou Donald Trump, o novo rei do Universo Paralelo, havia assinado um decreto celestial fazendo todas as marquinhas serem tão desejadas e valiosas quanto “a maçã”, “o buscador”, “o carro”, “o refrigerante”. Olhei a timeline do portal. Nada de novo além do Alexandre Careca. Novo sinal de alerta para a picaretice oportunista dos malandrinhos de plantão.

Me fiz de idiota, porque no fundo sou mesmo. Respondi agradecendo os serviços e fui à luta. Na minha antiga encarnação, registrei um milhão de marcas, que de tempos em tempos ficavam ameaçadas de caducar. Uma vez por ano, fazia uma revisão. Matava algumas. Sustentava outras. O jurídico era quem fazia a burocracia para mim, mas felizmente sempre soube o caminho das pedras.

Hoje fui lá, tipo João e Maria, catando as pedrinhas no site do governo. Pesquisei se algum gaiato havia registrado minha marquinha. Petição negada. Rumei para o botão de pagamento e imprimi um GRU para chamar de meu. Paguei R$ 142 no Banco do Brasil e parti para o registro. Qualquer ser alfabetizado faz. Escolhe a categoria. Preferi a mista para proteger meu logo. Apliquei o nome. Mandei a marca digitalizada. Selecionei o setor, no meu caso serviço + hotel. Dei enter. Cento e quarenta reais e cinco cliques depois, o registro estava em processo, com todos os documentos impressos, bonitinhos, na minha mão. Sim, pode até ser que os gaiatos tenham feito o mesmo que eu horas antes de me telefonar e teremos uma guerra de pulgas contra formigas nos próximos capítulos. Dane-se. Rebatizo a pousada de “Pousada A Capela com as deliciosas coxinhas da Nil”ou “Pousada A Capela da dona sem crachá.

O olho do furacão dessa história é o maldito oportunismo daqueles que preferem tentar ganhar dinheiro fácil às custas de quem trabalha duro e decentemente. Fiquei pensando no tipo de empreendedor que cria uma empresa para buscar oportunidades de extorquir dinheiro. Que fica vasculhando caminhos para ganhar dinheiro fácil de incautos e distraídos. Tipo Eduardo Cunha que fez todos os registros digitais possível com o nome/marca de Jesus. Quer abrir um site “jesusteama.com.br”? Tem que comprar o registro do presidiário mais inominável do país.

O outro caso que aconteceu comigo foi de natureza diferente. Um empresário estrangeiro me ofereceu serviços para instalação de um sistema de energia alternativo. Me interessei e comecei a pesquisar. O que ele dizia de fato fazia muito sentido. Valia a pena. Era um bom negócio. Me interessei mais. Fizemos outra reunião. Ele trouxe um orçamento. Fui à luta. Fiz aquilo que todo empresário, micro, pequeno, médio ou grande, deve fazer antes de fechar um contrato: pesquisa. Pesquisei o assunto. Pesquisei fornecedores. Pesquisei preços. O amigo gringo, simpático, inteligente e aparentemente eficiente, tinha um preço de uma centena e algumas dezenas de milhares de reais a mais por conta da “assessoria/mordomia”que ele prometia oferecer. Coisas do tipo: “abro sua conta no banco”, “aprovo seu financiamento”, “resolvo sua vida”. Perguntei algumas vezes como ele ganharia o dinheiro dele e o gajo nunca foi claro. Nem, ao menos, cravou: “ganho 20% sobre o valor total do serviço”.

Na segunda-feira, quando disse que faria com outro fornecedor com preço melhor e igual qualidade, o homem subiu nas tamancas. Ficou bravo, muito bravo e sugeriu que eu estava sendo desonesta. Que havia me aproveitado dos estudos feitos por ele para tomar minha decisão. Pensei um bocado antes de responder. Fiz e refiz o texto do whatsapp algumas dezenas de vezes. Respirei fundo. Abri mão da minha razão. Abdiquei da vontade de falar algumas verdades, de protestar contra o preço abusivo, de evocar meu estilo mão na massa. Apenas pedi desculpas, lamentei, disse que havia feitos pesquisas  e que decidira por uma soma de fatores. Agradeci a atenção. Agradeci os votos irônicos de sucesso. Desejei sinceros sucessos e deletei a mensagem.

Em tempos de crise, é melhor ficar longe de cobras e lagartos.

Plano C: sarna para se coçar e se divertir

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Faz um mês que Ninoca nasceu. Nasceu de parto normal depois de uma gestação muito tranquila e divertida. Primeiro escolhemos onde ela iria crescer. Encontramos o lugar. Negociamos. Compramos. Fizemos todos os processos burocráticos e partimos para a gestação. Projeto. Orçamento. Reforma. Simplificamos tudo. O que seria imenso, ficou normal. O que seria portentoso, ficou na medida do bolso.

Ninoca foi pensada, gestada e parida em ano de crise. Nasceu com plano de contingência debaixo do braço. Com prazo de validade para dar certo, senão… Ninoca é o meu terceiro empreendimento e meu segundo CNPJ da vida sem crachá. O primeiro CNPJ é de uma ME, Plano B, que nasceu para dar vazão à minha carreira de jornalista e palestrante solo. Flopou. Faço matérias e palestras a leite de pato. Ninguém tem dinheiro para pagar. Gosto de escrever e palestrar. Aceito fazer de graça. Não pago imposto. Não ganho, nem perco. Me divirto porque posso, mas sei que não é certo. Vou fechar a Plano B. Não preciso dela. Pago a conta do Hortifruti e da livraria Cultura com os rendimentos da Pousada A Capela, meu primeiro empreendimento parido em tempos de vacas-obesas-mórbidas. Escrevendo fracamente nascer em berço gordo fez toda a diferença no sucesso do negócio. Nos dois primeiros anos, não precisei vender o almoço para pagar o jantar. Investi tudo o que ganhei. A Capela ganhou força, músculo, experiência e qualidade – sem excesso nem falta de modéstia.

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A Ninoca também nasceu em berço farto. A maior parte do seu investimento veio da rentabilidade da Capela. Essa possibilidade deu segurança e conforto para a gente (eu e minha sócia, Nil Pereira). Não foi preciso arriscar patrimônio. Tornou o investimento mais seguro. O passo mais medido. Ninoca, para quem ainda não sabe, é uma loja que vende produtos novos e usados, presta serviços de reforma e manutenção e tem como objetivo valorizar o produto brasileiro, feito por artesãos e artistas. Famosos e desconhecidos.

Fazer compras para Ninoca é uma delícia. Viajo pelo Brasil. Conheço gente incrível. Pesquiso. Estudo. Peço opiniões dos amigos. É um desafio também. Se erro na escolha, baubau. A peça encalha. Por isso, decidi adotar um critério muito objetivo para fazer as escolhas. Só compro aquilo que eu gosto. É puro pragmatismo. Se encalhar, ficarei felicíssima em ter a peça para mim. Se encalhar tudo, terei uma incrível coleção e uma explicação lógica para o fracasso do meu negócio. Qual? Meu gosto é péssimo.

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Vinicius e Marcos de Nuca, de Tracunhaem, Pernambuco, herdeiros da arte de fazer leões de barro com juba encaracolada

Por mais exótico que pareça, sempre utilizei esse critério na minha vida profissional. Quando fazia revistas, escolhia a capa pensando naquilo que me chamaria a atenção. Definia a foto a partir da certeza de que ela me faria atravessar a rua em direção à banca ao ver o cartaz à distância. Me imaginava na fila do supermercado xeretando o check out, indo fuçar os exemplares mais bonitos, curiosos e instigantes. Funcionou por muito tempo. Acho que pode funcionar agora.

Faz um mês que a Ninoca nasceu e estou feliz. Feliz e surpresa. Muita gente tem ido visitá-la. Muita gente tem prestigiado minhas escolhas. Outro dia até fiquei triste. Uma peça que eu adorava – e secretamente desejava que ficasse para titia – vendeu feito raio. Custava caro. Acertei na escolha. Errei no preço. Devia ter pedido mais por ela para ela ficar lá mofando, para mim. Brincadeira. Ninoca é negócio e exercício de desapego. Ninoca é terceiro filho, aquele que a gente cria com leveza, sem traumas, nem neuras. Ninoca é plano C, porque depois do primeiro B a gente vicia e fica arrumando sarna para se coçar e se divertir.

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Ah, para dar o serviço completo: Coisas da Ninoca fica no KM 23 da Estrada do Coco, na entrada de Arembepe, Bahia. Pertinho a pousada A Capela.

A beleza (e um plano B) na ponta dos dedos

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Conheci a jornalista e publicitária paulistana Beth Klock, 62 anos, na minha antiga encarnação. Ela era uma especialista em coleções de fascículos e produtos colecionáveis. Não éramos amigas. Apenas nos conhecíamos e nos cumprimentávamos com respeito. Um dia, a área de colecionáveis da empresa acabou e ela foi mandada embora. Outro dia, eu fui mandada embora. Um belo dia, vejo um post da Beth no Facebook. Havia um desenho lindo, de flores. Dei um like. Dias depois, dei outros likes para outras coisas lindas que a Beth havia feito. Passou mais um tempo e no Dots (um grupo fechado no FB que reúne pessoas legais que trocam favores e serviços) vi outro trabalho da Beth, dessa vez com uma função decorativa. Acho que era uma bandeja.

Em vias de inaugurar uma loja de arte popular, decoração, objetos e serviços na Bahia, decidi entrar em contato com a Beth para saber se ela não poderia produzir objetos para eu vender. O encontro foi pura sincronicidade. Era o que ela estava precisando. Rápido como quem furta, Beth arrumou outros parceiros, fornecedores, prestadora de serviço e criou uma linha de produtos que inclui porta copos, bandeja, jogo americano, quebra-cabeça, descanso de talheres, quadrinhos para parede e o que mais vier. Acho que vão vender muito bem e novas encomendas virão.

A história de Beth é linda e ela escreve bem pra burro. Por isso, vou reproduzir — com a autorização dela, claro — um texto que ela publicou no site trintaeumas  (http://www.trintaeumas.com.br) . Ela e a história dela são um exemplo e tanto de plano B.

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Bom, primeiro preciso confessar uma coisa: não sou da turma dos “trinta e umas”. Sou da turma dos trinta e muitos – 30 e mais 32, para ser exata.

Tenho 62 anos (se estamos em 2016 é isso, se não, é só fazer a conta), mas ainda me sinto como se tivesse 30 e poucos. Apesar de uma dor ou outra, o corpo já não tão flexível, não tenho do que me queixar. Tanto que me foi permitido compartilhar este espaço com vocês, que são contemporâneos dos meus filhos.

Mas a verdade verdadeira é que nem mesmo com 30 e poucos eu me sinto. Porque há pouco mais de dois ou três anos, inaugurei uma vida nova.

Eu explico: desde criança alfabetizada eu escrevo. Tirava notas boas nas redações, acreditei nos meus professores e fiz disso a minha profissão. Comecei pelos textos curtos, os publicitários. Exercitei também o dom da síntese, ao passar a contar (e vender) uma ideia em parcos 30 ou 15 segundos de um comercial de TV. Depois me esparramei em textos longos, que preenchiam páginas de revistas. Sempre fui boa em cortar, em editar o texto até fazê-lo caber na medida que a tirania dos diretores de arte e diagramadores de então (hoje designers) nos impunham. (Li este texto e fui cortando várias palavrinhas das quais você não sentiu a menor falta).

Mas, num belo dia, antes de completar meus 60, perdi o meu emprego, minha mãe adoeceu, a vida deu uma bela capotada e, sem notar, comecei a pintar. Eu, que nunca tinha desenhado direito nem casinha com fumaça saindo pela chaminé. Sim, porque hoje pinto como criança, com o dedo na tela do tablet.

Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida.

Ainda estou engatinhando, longe de andar com desenvoltura. Achei que seria útil contar isso a vocês, porque um dia, se se cuidarem direitinho e tiverem uma certa dose de sorte, também chegarão aos 30 e tantos! E, quem sabe, também queiram, ou precisem, reaprender a andar.

Infelizmente não tenho receita para passar. Ou será que tenho?

Talvez algumas poucas reflexões.

A primeira é a de fazer tudo o que você tiver de fazer do melhor jeito que conseguir. Faça sempre como se fosse exclusivamente para você. Capriche, se empenhe, veja se não dá para melhorar. Não faça para o chefe ou em troca do dinheiro. Os chefes se vão, o dinheiro também, mas o que você aprender fazendo bem-feito, ah! Isso fica para você para o resto da sua vida. E ninguém te tira!

Outra coisa: experimente fazer coisas que nunca fez antes. Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento, não é mesmo? E, importantíssimo: tire um tempo para não fazer absolutamente nada. Isso! Para ficar bestando, ócio total. Parece que o cérebro precisa disso para “restartar”, eu acho.

Por último, uma coisa que acho beeeem difícil aos 30 e poucos – na verdade, é difícil desde os 12 ou 13: não tenha medo do ridículo, do erro. Não quero dizer com isso que você deva sair azarando por aí, cometendo as maiores barbaridades. Não é isso.

Falo de ousadia responsável. Sustentável (está na moda ainda?). Para falar o que pensa. Para vestir o que gosta. Para não concordar só para agradar o outro. Para experimentar de outro jeito. Para se calar quando todos parecem ter encontrado a verdade absoluta. Para se expor sem receio do juízo alheio. Para cair, engatinhar e voltar a andar.

Obrigada, Beth, por sua linda história. E pelas coisas lindas que você faz.

http://entretenimento.r7.com/hoje-em-dia/videos/internautas-unem-seus-talentos-em-rede-social-e-criam-oportunidades-de-renda-05092016

A carne louca da Villar é de enlouquecer

 

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Eliana e meu filho, Chico, em abril deste ano, no lançamento da Carne Louca da Villar

 

“Hoje tem carne louca da Villar.”

Essa frase era sussurrada como um segredo valioso nos corredores da empresa. Quem contava sorria. Quem ouvia, sorria também. Era a senha que garantia que o final de tarde seria saboroso e alegre. Foi no início do século XXI que eu ouvi o alerta pela primeira vez.

Foi no começo do século XXI que conheci Eliana Villar, a chef criadora da carne louca mais gostosa que já comi. À época Villar era produtora free-lancer de um evento batizado de “Tempo de Fazer” organizado por uma de publicações dedicada à artesanato, corte  e costura, bordado e outras “manualidades”. Competente, eficiente, dedicada e guerreira, não demorou para ser contratada e ostentar, com orgulho, um crachá. Os colegas, claro, aplaudiram. Eliana adorava agradar a turma trazendo sua carne louca nas festas de aniversário do departamento.

Há dez anos, começamos a trabalhar na mesma área e ficamos amigas. Portanto, deixo claro que este texto não é imparcial e está impregnado de carinho, respeito e muito querer bem. Garanto, no entanto, que a história é boa e deliciosa.

Enquanto comandava um time craque na produção de grandes eventos – camarotes, prêmios, festas de Réveillon, exposições etc – Villar começou a cozinhar para fora. Era um jeito prático de ganhar um a mais para ajudar nas contas, trocar de carro, financiar a tão sonhada casa própria. Sim, já disse que Villar é guerreira. Se o tempo está ruim, ela dá um jeito de fazer ficar bom. O sucesso das quentinhas com carne louca foi imediato. Vários colegas de empresa faziam encomendas gordas para o final de semana. Acendia ali uma luz. Eureka.

Sempre que a vida corporativa ficava dura, que o troca-troca de chefes tornava a rotina mais complicada, falávamos de ter um plano B. Eu já sonhava com minha pousada. Villar dizia que compraria uma kombi para vender sua carne louca na esquina. Sonhávamos acordadas, mas o prazer de trabalhar e o orgulho de carregar o crachá que tínhamos não nos deixava tirar o pé do chão.

Inaugurei minha pousada em 2012. Fui demitida em 2014 e comecei a viver minha vida sem crachá. Eliana Villar sobreviveu ao passaralho dos chefes. Seguiu na firma e no comércio paralelo da carne louca. Até que uma pedra cruzou o seu caminho. Pedra do tipo pedregulho, insignificante, mas que incomoda o pé. O pedregulho, apesar do tamanho mínimo, mandava na escalação do time. Villar dançou no final de 2015. A hora da guerreira virar empreendedora estava chegando.

Dona de um networking fabuloso, conhecera e acompanhara por causa do trabalho a chegada no Brasil da onda dos food trucks. No lugar de kombi, por que não um tuk tuk? Em sociedade com seu marido, o fotógrafo Fábio Duque, investiu em um charmoso equipamento para vender sua imbatível carne louca. Em 16 de abril deste ano, inaugurou o novo negócio cercada de amigos queridos. Sucesso absoluto. (Veja as fotos

Desde então, ela e Fábio estão em todos os lugares da capital paulistana. Shopping Center na zona leste, museu da Casa Brasileira, no Jardim Europa, porta de empresa, inclusive na ex-empresa, desfile do São Paulo Fashion Week, na pista do Design Weekend no Jockey Clube. Um luxo. Uma ralação absurda. Um resultado recompensador.

No último domingo Eliana me mandou uma mensagem de voz.

— “Clau, arrebentamos no DW neste final de semana. Decidi comprar quatro garrafas de prosecco, doze taças de acrílico e vender a bebida junto com a carne louca. Sabe o que aconteceu? Vendi tudo e tive que comprar mais quatro garrafas. Cobrei 15 reais a taça. Uma loucura.”

— “Que bacana, Villar.” Eu respondi também em mensagem de voz e não esperava ouvir o que ouvi.

–“Clau, tive a ideia de vender prosecco inspirada na história do menino João do seu livro, A Vida Sem Crachá. Lembra? Ele aproveitou um congestionamento para vender água? Aproveitei o público classe AAA para vender uma bebida quase tão cara quanto o meu lance. Estou muito feliz.”

Eu também estou feliz por você, Eliana Villar. E tenho certeza que o menino João ficaria muito orgulhoso por ter inspirado o seu sucesso. E para você que está com água na boca, louco para comer a carne louca da Villar, basta segui-la para descobrir onde você encontra a delícia.

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