Descobertas da meia idade

Sou perfeitamente imperfeita. Sob emoção, me torno um espetacular e perfeito desastre. Faz muito, muito pouco tempo que aprendi a achar graça e a trolar a mim mesma. Grande avanço. Não era assim. Ao contrário, sofri com perfeição pelas fraquezas do meu caráter.

Lembrei hoje do dia em que queimei a primeira papinha que preparei para o meu Chico. Fiquei arrasada com minha incompetência e distração. Não me perdoei. Não me dei trégua. Culpada, sentei no chão da cozinha e chorei. Foi tão ridículo que senti vergonha de mim. As pessoas perfeitamente imperfeitas com mania de perfeição sobre de vergonha absoluta porque a imperfeição lhes parece vergonhosa.

Olhando para trás pelo retrovisor da memória, senti uma dó danada daquela Claudia com complexo de perfeitinha. Pobre dela, que tinha que trabalhar feito burro de carga e ao mesmo tempo ser a mãe mater dolorosa do início dos anos 20. Sim, porque nem sempre as mães foram assim. Em outras eras, criança nascia a rodo e se criava só, feito criação.

Papinha, lição, trabalho, meta, programa, viagem, plano, namoro, amizade, relação, evento, apresentação, resultado… A lista de itens sob a obrigação de cumprir a risca da perfeição dão uma Bíblia. Nem vou correr o risco de ampliar o rol. Parecia normal. Parecia o mínimo. Quantas lágrimas perdidas.

Elza Soares a única trilha sonora possível para essa prosaica descoberta.

 

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Sabático feito de amigos

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Adoro festa. Todo mundo sabe disso. Porque nasci no dia 2 de novembro, nunca tive festa de aniversário. O recalque virou paixão. Adoro festejar tudo. Por força do gosto e do hábito, faz uns 12 anos que comecei a viver de festa. Não, não é isso que você está pensado. Não frequento festas diárias. Faço, organizo, vendo festas de aniversário, casamento, Réveillon, carnaval, batizado, confirmação de bodas. São todas essas e quaisquer outras modalidades de celebração que garantem 50% do meu ganha pão. Primeiro, no mundo editorial. Depois e agora, no mundo do “destination wedding” e do “destination party”, o nome besta que inventaram para as celebrações que acontecem na minha, na nossa Pousada A Capela. Neste ano, trabalharei em mais de 20, se Deus quiser.

Vale dizer: cansa trabalhar em festa. Você perde noite. Lida com bêbado. Carrega peso. Rala e, claro, não se diverte. A festa não é sua. É dos outros. Do cliente. O legal de trabalhar em festa é poder ficar invisível. Você coloca uma roupa adequada e encosta num canto. Faço isso a pretexto de ver se está tudo bem. Fico lá feito mosca, vendo se não falta comida. Se o chão está limpo. Se os garçons estão rápidos e eficientes. Se os copos estão cheios. Se o DJ pegou o clima. São detalhes invisíveis que fazem uma festa ser boa ou não.

Ontem, encostada no vidro blindex da piscina, tive um insight, que prefiro chamar de “puta ideia”.

Fazer festas é bom. Mas o festejante, em geral, tem pouco tempo para desfrutar dos amigos. A missão dele é rodar pela festa. Sorrir, abraçar e agradecer todo mundo. Não é fácil contar com a presença de todos e os que comparecem merecem muito amor.

Observando a atividade frenética dos anfitriões de ontem à noite, cogitei. E se no lugar de fazer festas, fizéssemos uma espécie de sabático amigável. O que significa? Eleger uns 100 dias por ano para marcar e curtir com 100 amigos queridos que você guarda no lado esquerdo do peito.

Não vale um encontro fortuito ou casual tipo sinal fechado-olá-como-vai-eu-vou-indo-você-tudo-bem. Tem de ser demorado, gostoso, relaxado. Tem que render boas histórias, que costurem muitas lembranças e deixem muitas outras memórias e conversas soltas no ar para amarrar, no futuro, um novo encontro.

Ontem, eu tive uma noite assim. Amigável. Sabática. No meio da tarde, recebi um zap do meu amigo Serginho. Nos conhecemos há 20 anos.

– Está onde? São Paulo ou Bahia?

Bahia, respondi, crente que ia perder uma boa. Errei. Ele também estava aqui para um compromisso profissional. Com a sexta à noite livre, pegou um Uber e veio até Arembepe ser meu amigo.

Fazia quase três anos que não nos víamos. Isso acontece. Sabíamos um do outro por amigos comuns, por post nas redes sociais, por textos e reportagens. Curiosamente, falei dele nesta semana com a Helena, em outro jantar sabático amicíssimo. Acho que o chamei.

Tivemos uma noite linda em meio a balbúrdia dos amigos do Diego e da Gabriela, noivos do final de semana, uma dupla campeã no item amigabilidade. Comemos, bebemos, falamos, rimos, celebramos o passado, o presente e o futuro. Já temos um próximo encontro marcado para falar do que não deu tempo ontem. Antes da meia-noite, Serginho chamou outro Uber e partiu. Tinha trabalho hoje. Eu também. As quatro horas que passamos juntos valeram a amizade, a vida.

Desde então, tenho dois projetos essenciais: o sabático das viagens pelos lugares que não conheço e sinto saudade e o sabático das amizades que preciso encontrar para ser feliz. Tudo junto e misturado. Colocarei em prática ambos os projetos. Prometo afinco, afeto e dedicação, como devem ser as boas coisas da vida feitas com amor e prazer.

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De onde vem o amor?

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De onde vem o amor? Como nasce esse sentimento tão indefinido e tão concreto por alguém, lugar, coisa, bicho?

Penso nas duas respostas enquanto sinto um calor gostoso, quase sufocante, passeando no peito. Levo minha mão esquerda ao colo para sentir se há palpitação. O sentimento que me arrebata nesta manhã de quinta-feira e me faz sorrir aquele riso disfarçado de Monalisa não combina com a paisagem cinza do dia molhado. Desde ontem já choveu mais que nos últimos 60 dias, diz a moça da previsão do tempo.

Estou em Arembepe. Arembepe não combina com chuva. Arembepe combina com amor. Por isso, escrevo. Por isso, sorrio. Por isso, sinto esse calor de amor enchendo o peito. Estou feliz por um motivo besta, mas felicidade é assim. Combina com besteira. Hoje Arembepe é tema da capa do jornal Folha de São Paulo!!!!

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Podia fazer a blase e fingir que tanto faz. Não tenho mais idade para isso. Faz muito, importa muito, ajuda muito. Estamos há mais de um ano lutando para tornar Arembepe um destino turístico. Nos reunimos na associação dos comerciantes (ASCARB) semanalmente. Fizemos um trabalho lindo de planejamento estratégico com a ajuda do Sebrae.  Realizamos campanhas de mobilização pela preservação ambiental e contra as invasões em Arembepe. Organizamos eventos para celebrar os 50 anos do movimento hippie, assunto que foi pauta e gancho para a matéria. Batalhamos. Falamos. Sonhamos. Investimos. Lutamos. Ser capa de jornal é um puta motivo para ficar MUITO feliz.

Ser capa de jornal também foi motivo dessa reflexão. Por que sinto tanta alegria e tanto amor? Não nasci em Arembepe. Não tenho parentes aqui. Fiz alguns queridos amigos. Mas os tenho em tantos outros lugares e nenhum me arrebatou tanto. De onde vem o amor? Como ele nasceu? Por que nasceu? Lembro do dia que senti que não conseguiria mais ficar longe daqui. Em prantos, tive certeza de que Arembepe era o meu lugar. O motivo até hoje não sei. Apenas aceitei o destino. Apenas acatei a ordem. E sempre que vou, parto louca de vontade de voltar. De novo, de novo, de novo.

De onde vem o amor?

Ainda não achei a resposta. Mas meu amigo Nestor Amazonas respondeu a resposta dele em versos, por meio de uma “co-criação” linda de Gilberto Gil. Roubo as palavras deles para deixar minha reflexão mais bonita.

De onde vem a paixão?
Vem debaixo do barro do chão.
De onde vêm a esperança, a sustança,
espalhando o verde dos teus olhos pela pelo marzão?
Vêm debaixo do barro do chão.
Que sobe pelo chão
E se transforma em ondas de baião, xaxado e xote
Que balança o cabelo da menina, e quanta alegria!
(Nestor Amazonas plagiando Gil)

 

Aprendendo a viver (com gerúndio)

 

Não quero dar nem fazer  inveja. Menos ainda provocar raiva ou ciúme. A proposta do post é apenas contar uma ideia. Nova. Simples. E por isso, passível de cópia, adaptação e prática.

Somos um pequeno coletivo de pessoas de lugares diversos, interesses diversos, formações diversas que se encontraram e se conheceram em Arembepe, Bahia. Há pouco mais de um ano, nos encontramos quase que semanalmente para resolver questões relacionadas ao vilarejo, à aldeia hippie e à nossa diminuta associação de comerciantes e prestadores de serviço. Somos poucos, somos ativos.

O pequeno coletivo gerou uma pequena célula de meia dúzia de almas, que têm uma identidade mais íntima e profunda para além da geografia e da paixão por Arembepe. Temos idade, gostos, comportamentos, hábitos e sonhos semelhantes. Somos uma galera.  Nos falamos com mais intensidade por WhatsApp. Nos ajudamos com maior  empatia e carinho. Nos reunimos. Nos divertimos. Vamos aos mesmos shows e restaurantes. Falamos a mesma língua.

Ficamos amigos. Somos amigos.

QUARTA FELIZ

Nesta semana, por força do nosso trabalho, ficamos ainda mais juntos e unidos. A convivência é boa porque produz ideias novas. Na terça, na volta de uma reunião do  Conselho de Turismo, criamos a Quarta Feliz. A ideia é um combo de gente que se junta para nada. Isso mesmo. Não temos pauta. A reunião é somente para  juntar e depois de junto,  jogar conversa fora, beber, comer e viver. Nem luxo, nem lixo. A motivação é ter vontade e amor.

Enfatizo, não é farra nem putaria. Não tem bebedeira nem comilança.Não tem interesses outros. É um encontro singelo e gostoso, na justa medida. São pessoas interessantes e trabalhadoras, que no dia seguinte acordam cedo — e no grupo ninguém mais é menino para aguentar a rebordosa.

Foi lindo ir para cama, leve e feliz. Em paz com a vida, com os dramas e com os problemas que, claro, todos temos. Não somos ricos. Nem lindos. Nem poderosos. Nem vivemos acima da prateleira.

Quinta de gazeta

Essa mesma turma de bons viventes em fração ainda mais diminuta, instituiu hoje novo episódio/experiência. Roubamos do amigo João a boa prática de ficar de folga na quinta, já que ele tem restaurante e trabalha todos os sábados e domingos. Nasceu então a quinta de gazeta. Sim, um dia para vestir aquele velho calção de banho e fazer de conta que as 24 horas serão apenas para vadiar. Mentira as 24 horas, mas juro que os 60 minutos que passei no rio tomando banho e os 60 minutos que gastei para almoçar na barraca do Roque, com meus amigos, valeram muitos meses de vida.

É bom aprender a viver aos 20, 30, 40 e 52 anos. É bom fazer novos amigos sempre. É bom gostar de gente e de todas as estranhas e esquisitas diferenças que o homo sapiens sapiens tem. Não paga conta. Não acaba com os problemas. Não extingue as dores nem as mágoas, mas deixa a gente feliz, feliz. E isso é bom, muito, muito bom.

 

A vergonha é o mal do mundo

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Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse não inúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

Sempre rezo por B.C

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Uma das mais lindas histórias de Plano B que já li foi publicada no livro Achei que meu pai fosse Deus, organizado pelo escritor Paul Auster. Uma mulher com as iniciais B.C conta que decidiu mudar de vida na última primavera. Ela tinha 57 anos e chegou à conclusão que não podia esperar mais 8 anos para se aposentar e que não podia mais ser secretaria de advogado por mais oito anos. “Deixei meu emprego, vendi minha casa, a mobília, o carro, dei meu gato para a vizinha e mudei-me para Prescott, Arizona, uma comunidade de 30 mil pessoas, aninhada nas montanhas Bradshaw, com uma boa biblioteca, uma instituição de ensino superior comunitária e uma bela praça central”, conta.

Para viver, ela investiu tudo o que tinha e recebe 315 dólares de juros por mês. É com eles que se propôs a viver. Não depende de ninguém. Se vira com o que a cidade oferece. A biblioteca está conectada à internet. Tem um armário depósito pelo qual pagava 27 dólares/mês e guardava todas as suas coisas. Por 25 dólares, alugava um canto em um jardim de uma casa para colocar sua barraca, sua moradia. Na escola Yavapai College fazia cursos e usava o vestiário e a piscina olímpica. Diariamente, era lá que fazia sua toalete. “Ter uma aparência apresentável é o aspecto mais importante do meu novo estilo de vida”, diz B.C. “Quando vou a biblioteca, minha sala de estar, ninguém pode adivinhar que não tenho um lar.”

Comer barato e de modo nutritivo é o principal desafio de B.C. Ela tem 200 dólares mês para gastar com comida. Fazia muitas refeições no parque, o quintal dela. Comia também no Jack in the box, que à época do texto tinha quatro coisas que custavam 1 dólar. Frequentava galerias em noites de vernissages para ter uma experiência comestível diferente e apreciar arte.

Deixou o cabelo crescer e parou de pintá-lo. Gosta do grisalho. Parou de usar batom e maquiagem. O look natural não custa nada.

“Adoro ir à escola”, diz. Estudou cerâmica, coral e antropologia cultural. “Adoro ler todos os livros que sempre quis e nunca tive tempo suficiente.

Também tenho tempo para não fazer absolutamente nada.”

O texto de B.C, impactante como a liberdade, termina curto. Fala da saudades dos amigos e do gato Simon. E do medo. “Espero sobreviver ao inverno. Disseram-me que Prescott pode ter muita neve e longos períodos de temperaturas glaciais. Não sei o que fazer se ficar doente. Em geral, sou otimista, mas me preocupo. Rezem por mim.”

Este texto foi publicado pela primeira vez em 2001 nos Estados Unidos. Comprei o livro e li no Brasil em 2005. Fui profundamente tocada pelo desejo e pelo plano dela. Procurei-a e não a encontrei. Faz 12 anos que rezo sempre por ela.

LIVRE. VIVE

Tenho mais sapatos do que pés

Tenho mais camisas do que troncos

Tenho mais compromissos do que neurônios

Tenho mais músicas e programas de músicas do que sou capaz de ouvir até morrer

Tenho mais livros do que tempo para lê-los

Tenho mais dispersão do que foco

Tenho menos paciência do que antes

Tenho mais preguiça do que vontade, porque perdi a vergonha de dizer não

Tem um monte de coisa que eu não entendo, não encontro e não mais me importo.

Basta. Me basta. Na boa, tá tudo certo, combinado.

Desencana,  meu amor. Vive. Deixe o tempo resolver. O que tem que acontecer. Livre.

Foi Bethania, quem mandou.

beijo