A vergonha é o mal do mundo

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Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse não inúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

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Sempre rezo por B.C

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Uma das mais lindas histórias de Plano B que já li foi publicada no livro Achei que meu pai fosse Deus, organizado pelo escritor Paul Auster. Uma mulher com as iniciais B.C conta que decidiu mudar de vida na última primavera. Ela tinha 57 anos e chegou à conclusão que não podia esperar mais 8 anos para se aposentar e que não podia mais ser secretaria de advogado por mais oito anos. “Deixei meu emprego, vendi minha casa, a mobília, o carro, dei meu gato para a vizinha e mudei-me para Prescott, Arizona, uma comunidade de 30 mil pessoas, aninhada nas montanhas Bradshaw, com uma boa biblioteca, uma instituição de ensino superior comunitária e uma bela praça central”, conta.

Para viver, ela investiu tudo o que tinha e recebe 315 dólares de juros por mês. É com eles que se propôs a viver. Não depende de ninguém. Se vira com o que a cidade oferece. A biblioteca está conectada à internet. Tem um armário depósito pelo qual pagava 27 dólares/mês e guardava todas as suas coisas. Por 25 dólares, alugava um canto em um jardim de uma casa para colocar sua barraca, sua moradia. Na escola Yavapai College fazia cursos e usava o vestiário e a piscina olímpica. Diariamente, era lá que fazia sua toalete. “Ter uma aparência apresentável é o aspecto mais importante do meu novo estilo de vida”, diz B.C. “Quando vou a biblioteca, minha sala de estar, ninguém pode adivinhar que não tenho um lar.”

Comer barato e de modo nutritivo é o principal desafio de B.C. Ela tem 200 dólares mês para gastar com comida. Fazia muitas refeições no parque, o quintal dela. Comia também no Jack in the box, que à época do texto tinha quatro coisas que custavam 1 dólar. Frequentava galerias em noites de vernissages para ter uma experiência comestível diferente e apreciar arte.

Deixou o cabelo crescer e parou de pintá-lo. Gosta do grisalho. Parou de usar batom e maquiagem. O look natural não custa nada.

“Adoro ir à escola”, diz. Estudou cerâmica, coral e antropologia cultural. “Adoro ler todos os livros que sempre quis e nunca tive tempo suficiente.

Também tenho tempo para não fazer absolutamente nada.”

O texto de B.C, impactante como a liberdade, termina curto. Fala da saudades dos amigos e do gato Simon. E do medo. “Espero sobreviver ao inverno. Disseram-me que Prescott pode ter muita neve e longos períodos de temperaturas glaciais. Não sei o que fazer se ficar doente. Em geral, sou otimista, mas me preocupo. Rezem por mim.”

Este texto foi publicado pela primeira vez em 2001 nos Estados Unidos. Comprei o livro e li no Brasil em 2005. Fui profundamente tocada pelo desejo e pelo plano dela. Procurei-a e não a encontrei. Faz 12 anos que rezo sempre por ela.

LIVRE. VIVE

Tenho mais sapatos do que pés

Tenho mais camisas do que troncos

Tenho mais compromissos do que neurônios

Tenho mais músicas e programas de músicas do que sou capaz de ouvir até morrer

Tenho mais livros do que tempo para lê-los

Tenho mais dispersão do que foco

Tenho menos paciência do que antes

Tenho mais preguiça do que vontade, porque perdi a vergonha de dizer não

Tem um monte de coisa que eu não entendo, não encontro e não mais me importo.

Basta. Me basta. Na boa, tá tudo certo, combinado.

Desencana,  meu amor. Vive. Deixe o tempo resolver. O que tem que acontecer. Livre.

Foi Bethania, quem mandou.

beijo

 

Ex-trangeira

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Sou daqui, mas tenho cara de lá. Moro aqui e lá. Acabei sendo de lugar nenhum e de todos os lugares. Quando não publico fotos, meus amigos escrevem ou ligam perguntando: onde você está? Às vezes, nem eu sei direito. Estou aqui e lá. Gosto de ambos. Hoje, no entanto, me tornei menos estrangeira. O motivo é tolo, quase torpe, mas para mim significou uma daquelas barreiras invisíveis que demoramos tanto, tanto tempo para derrubar porque alguém diz que é ruim, outro avisa que é perigoso, mais um fala que não fica bem.

Hoje desobedeci. Hoje decidi que abandonaria o castelo da princesa e seria aqui como sou lá, comum. Na prática, significou acordar cedo, botar uma roupa comum, esvaziar a carteira, guardar no fundo da mochila o dinheiro, os cartões e o celular. No bolso da calça, o trocado para o ônibus.

Eu sei que é ridículo contar isso. Especialmente porque faz três anos que ando com meu passe único pendurado no pescoço quando estou lá, em São Paulo. Mas aqui na Bahia, eu havia incorporado o arquétipo “princesinha”. Nunca havia encarado o “buzu” para voltar de Salvador para meu quarto em Arembepe. Não havia cumprido o trajeto de todos os dias de quem desce no ponto final e caminha a pé até o serviço. Foi carregando minha mochila nas costas pela rua dos pescadores, que me dei conta de ter ficado menos estrangeira e mais local. Foi arrastando as chinelas pela rua de paralelepípedo paralela ao mar, que senti o quanto gosto daqui e dessa vida de ciclos de natureza e de gente. Gente que chega e gente que vai, como a nuvem, a chuva e eu.

Pronto, falei.

Fazer a mala

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Abro a mala sobre o sofá e uma luz se acende. Paro tudo e reparo nela. Perdoem-me se parece estúpido ou ridículo, para mim é muito, muito relevante. Estou em estado de quase férias. Viajo segunda-feira, 8, depois de cinco meses de trabalho muito intenso. 7 por 24, sem qualquer exagero. Pela primeira vez desde 1987, faço uma mala com quatro dias de antecedência. Isso significa que pela primeira vez em 30 anos, tenho controle sobre o meu tempo e o meu desejo. Pude decidir e escolher deixar os textos que estou escrevendo para depois e focar nas roupas, nos sapatos, nos remédios e objetos que quero levar para o meu passeio.

É uma bobagem, eu sei. Tem gente que, inclusive, paga para outrem fazer esse serviço. Mas para mim está sendo importante. Parei para escrever porque queria deixar registrado na minha história, esse momento de enorme alegria e felicidade. De liberdade. De privilégio. De poder. De vitória.

Até já. Minha mala me espera.

A alegria de ser o Inocente

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Hoje acabou oficialmente o meu verão. Voltei à minha casa de São Paulo e retorno à ponte-aérea Sampa-Aremba, a vida que escolhi para mim e para os meus. Hoje é dia de pagar as contas atrasadas. Arrumar os papéis. Planejar os próximos meses. Estabelecer as metas. Se inscrever nos cursos. Fazer as contas de 2016. Fazer a avaliação do melhor verão de nossas vidas. Hora de voltar a estudar e a escrever.

Estou empacada. Só vou conseguir seguir em frente depois de cuspir este post. Faz dois dias que eu o escrevo e rescrevo mentalmente. Só vou sossegar depois de apertar o botão “publicar”.

Trata-se da minha homenagem tardia ao arquétipo do Inocente. Trata-se da minha assunção, da minha redenção a este modelo que define minha alma, que traduz meu jeito de ser e que por anos à fio mantive guardado, escondido dentro do armário, como se fosse um desvio, uma fraqueza, uma veleidade.

Vamos explicar.

Na vida, em geral, e no mundo corporativo, em particular, assumimos comportamentos e posturas. Alguns são absolutamente legítimos e naturais. Outros são forjados à ferro e fogo, porque são necessários segundo os padrões de comportamento vigentes nas companhias. Assim, segundo algumas cartilhas, quem é líder tem de ser corajoso, ousado, crítico, inteligente, poderoso. Certo? Eu achava que sim e me esforçava para sê-lo. Me esforcei tanto que achei que enganava todo mundo. Nos testes, dinâmicas e coaches aparecia como “trator”, “fodástica”, “pitbull”, “touro indomável”. Sentia certo orgulho. Sentia desconforto. Na hora H, não era eu. Na hora H, tinha que fazer um esforço hercúleo para produzir a maldade e a pressão que esperavam de mim. Amigos queridos dizem que não era boa intérprete. Duplamente tola.

Os anos passaram. Não fiz mais coach. Deixei a análise, mas continuei refletindo e pensando em mim e no meu lugar nesta estrada sem porteira. E não é que neste final de semana, o último do melhor verão da minha nova vida, tive um insight-revelação após uma conversa, literalmente, ao pé do bar e depois de fazer um teste comportamental que circula no Facebook.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

Na conversa ao pé do bar, descobri que sou crédula até a medula. Que tenho fé. Que apesar dos fatos, sempre acho que a má conduta poderia ter uma justificativa nobre.

Na conversa ao pé do bar, me espantei ao descobrir características e comportamentos repulsivos em pessoas que julgava justas, leais, honestas e amigas. A conversa, curiosamente, foi elucidativa, surpreendente e sem sofrimento. Entendi, intuitivamente, porque fazia tanto tempo que não cruzava com aqueles personagens pelo caminho. Porque eu sempre adiava o telefonema para marcar um café. Santa procrastinação.

Mudando de cenário e continuando no assunto, no FB, tive a felicidade de clicar em um post da minha amiga Vera Lígia. Ela compartilhou um teste  bacana baseado no livro “O herói e o fora-da-lei. Como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos” das autoras Margaret Mark e Carol Pearson. O exercício de múltipla escolha veio à tona, suponho, por conta da declaração do Marcelo Odebrecht, que se definiu como o “bobo da corte” na miséria do Petrolão. Fiz o teste como quem se confessa com Deus. Não fiz finta. Dei adeus aos fingimentos. Não coloquei banca. Fui honesta como quem faz uma delação premiada consigo mesmo.

Eureka. Bingo. Porra, por que demorei tanto tempo?

O resultado do teste vocês já sabem. Apareceu ali, em letras garrafais, que faço parte do time dos Inocentes. Eu? Eu? Eu? Sim. Com um indescritível e absoluto orgulho, agora que posso ser quem sou, porque sou livre, livre.

Quem é o Inocente?

Segundo Margaret e Carol quando o “Inocente”está ativo em uma pessoa, ela é atraída para a certeza, para ideias positivas e esperançosas, para imagens simples e nostálgicas, para  a promessa de resgate e redenção. O inocente é um otimista, que busca o paraíso, que deseja a Pasárgada. Este arquétipo gosta de coisas previsíveis e não gosta muito do baile da mudança. Por isso, ele é leal às marcas, organizações e pessoas que cumprem suas promessas e se baseiam em valores perenes e duradouros. O inocente luta pelo bem. Não sabe viver sem uma causa. Adora carregar bandeiras. Participar de grandes marchas. É o tipo que sobe feliz ao Everest para buscar algo importante que foi lá esquecido pelo líder que ele tanto admira.

O Inocente, vejam que legal, é capaz de abandonar uma cultura de alta pressão, focada no sucesso, para perseguir a alegria de uma vida simples. Sim, sim, sim!!!! Como Narciso, fui me apaixonando pelo cara e lendo, lendo, lendo…

O lema do Inocente é básico: “somos livres para ser você e eu”. Objetivo: ser feliz, seja lá o que isso seja. Maior medo? Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado. Caramba! Como elas sabem tudo isso sobre mim? Estratégia? Fazer as coisas certas para não tomar bronca porque deu ruim. Tão óbvio…Franqueza do inocente? Ficar chato por toda a sua inocência ingênua neste mundo cheio de maldosos, maldades e sacanices e safadices. Quando li isso, confesso, corei. Odeio chatice. Prometo ser mázinha, de vez em quando.

Qual é o maior talento do Inocente? Fé e otimismo. Por tudo isso, o Inocente também é conhecido como utópico, tradicionalista, ingênuo, místico, santo, romântico e sonhador. Segura, que é tua. E para a confissão ser completa, vou contar que o Inocente, na literatura, segundo a análise dos arquétipos, é identificado com o personagem do Pequeno Príncipe, aquele das misses, que afirma que somos responsáveis pelo que cativamos. Quer saber? Dou fé e subscrevo.

Feliz 2017 para mim e para todos nós. E vamos cuidar de estudar novos planos B para os próximos 30 anos. Sou Inocente, mas não sou boba.

 

 

 

 

Bem-vindo a era do pós-emprego. Sem crachá, sem salário e com propósito

Na era do pós-emprego, o trabalho formal se precariza, muda de natureza e adquire novo sentido associado a causas, ao prazer e ao empreendedorismo social

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Há exatos 20 anos, o economista Jeremy Rifkin e o consultor William Brigdes, ambos norte-americanos, lançaram dois livros gêmeos: O Fim dos Empregos e Um mundo sem empregos. O assunto era moda nos Estados Unidos, porque uma crise econômica lambia o mundo. À época, a crítica considerou Rifkin excessivamente pessimista e apocalíptico. Bridges foi chamado de marqueteiro porque oferecia um guia de auto-ajuda para executivos fadados a sobreviver sem crachá. No Brasil de FHC, com o início da estabilidade econômica e o fim da inflação, a conversa era outra. Renato Russo, do Legião Urbana, cantava Música de Trabalho, sucesso do disco A Tempestade, para protestar contra os empregos (abundantes) com salários miseráveis e o trabalho como falsa identidade do indivíduo.

Sem trabalho eu não sou nada

Não tenho dignidade

Não sinto o meu valor

Não tenho identidade

Mas o que eu tenho

É só um emprego

E um salário miserável

O tempo correu e todos tinham razão. O trabalho na forma de emprego e crachá corporativo se tornou identidade das gerações Coca-Cola, yuppie e geração X. Hoje, o mundo sombrio desenhado pelos autores norte-americanos é um pouco mais cinza. O último Fórum Econômico Mundial (WEF), realizado em janeiro de 2016 em Davos, na Suíça, teve como tema  “A Quarta Revolução Industrial”. A partir dela, a expansão das tecnologias emergentes no setor produtivo fará com que 5 milhões de empregos sejam extintos em 2020, em quinze economias, que correspondem a 67% da força de trabalho global.

A escala é massiva. Quase metade (47%) de todos os trabalhos nos EUA e 35% na Grã-Bretanha estarão suscetíveis à automatização pela tecnologia nas próximas duas décadas, de acordo com a a revista The Economist e os pesquisadores da Universidade de Oxford. A Consultoria McKinsey relatou em estudo recente que 140 milhões de trabalhos poderão ser automatizados até 2025. Vivemos a Era do Gelo do emprego. Ele está em extinção como os dinossauros e derrete como picolé no deserto. Na opinião de Klaus Schwab, presidente e fundador do Fórum de Davos, é um caminho sem volta. “Só com uma atuação urgente e focada, a partir de agora, será possível gerir ests transição a médio prazo e criar uma mão de obra com competências para o futuro. Sem isso, os governos enfrentarão desemprego crescente e constante e muita desigualdade”, alerta Schawb.

O processo está em curso e é mais intenso em algumas áreas do conhecimento. Se você é amigo de jornalistas, administradores, prestadores de serviço, deve estar acompanhando o desespero da turma. Dessa vez, é diferente do que ocorreu nas revoluções anteriores. Antes, quando uma inovação tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo segmento surgia para absorver a mão-de-obra excedente. Hoje a conta não fecha. O menos é maior que o mais. Estima-se que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. E o que existe, não existirá mais. As áreas administrativas e de escritório serão os mais afetados. Vão sofrer também segmentos da medicina impactados pelo avanço da telemedicina, seguidos pelos de energia e indústria, construção e extração, entretenimento e comunicação, e ainda, o setor jurídico. Já os setores de negócios e operações financeiras, gestão, computação, arquitetura e engenharia, vendas, educação e treinamentos juntos terão um crescimento de 2 milhões de empregos. Apesar da expansão do setor do conhecimento, 2 menos 5 é igual a 3. Serão três milhões de empregos a menos. Duro.

A Arca de Noé dos que sobreviverão com crachá tem uma lógica própria, segundo o especialista em futuro e tecnologia, Bruno Macedo, autor do texto O fim do emprego e a ascensão do trabalho com propósito na era das máquinas inteligentes. “Haverá uma maior demanda por especialistas em big data, desenvolvedores de Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias emergentes e, também, por vendedores especializados. As mulheres poderão ser as mais afetadas com o declínio dos setores administrativos, escritórios e vendas. A matemática segundo o relatório de Davos será: a mulher perderá cinco empregos para ganhar um, enquanto os homens ganham um emprego perdendo três.” Sem exagerar, quase todos perderão, com exceção dos gênios.

Não sou gênio. Tenho mais de 50 anos. Sou mulher. Me tornei estatística em 2014. Perdi meu emprego de 23 anos. Ainda não conhecia a matemática de Davos, mas rápido percebi que não havia outro crachá para pendurar no meu pescoço àquela altura do campeonato. Intuitivamente, embarquei na nau dos descobridores do trabalho com propósito na era do pós-emprego. Mulheres e crianças primeiro. Não há motivo para festa. Não há motivo para pânico. A mudança é inexorável. A existência será precária, mais simples e possível. Menos será mais. Vou explicar.

Antes de falar do propósito, a parte legal, incrível, dessa história, vamos pingar alguns is. O sistema segue sendo capitalista e a lógica do lucro mantém-se acima de todas as coisas. O que mudou? Na época do trabalho clássico, dos tempos do capitalismo fordista, as relações eram opressoras e muito claras. Patrão x empregado. Lucro e mais valia. Quem trabalhava recebia salário e contava com seus direitos trabalhistas, defendidos pelo sindicato da categoria. Havia hora para entrar e hora para sair. O que passasse disso, virava hora extra, remunerada com um valor superior ao da hora normal. As regras eram claras. Uma vez por ano, campanha salarial por aumento. Podia ser ruim como na música do Legião Urbana, mas era certo, seguro e combinado.

Hoje tudo mudou. A fábrica está na metrópole. A fábrica está em nossa casa. Os bancários ficaram em greve por mais de um mês e ninguém ligou. A grita foi dos velhinhos que não sabem mexer no computador e de quem precisava fazer uma transação presencial. No mais, tudo está na nuvem. O sistema financeiro funciona 24 por 7 e alguns correntistas são atendidos por “gerentes digitais”. O Fábio que me atende, por exemplo, trabalha na casa dele. Se for à agência não vou encontrá-lo, mas posso receber a resposta de um whatsapp às 22 horas. “A metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro em um trabalho precário, mal-remunerado e, às vezes, sequer reconhecido como trabalho”, descreve Giuseppe Cocco, cientista político italiano radicado no Brasil e professor Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele abordou o tema em uma palestra ministrada no ciclo Metrópoles: Territórios, governamento da vida e o comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (link para a palestra http://uninomade.net/tenda/da-fabrica-a-metropole/). “Não é a toa que se discute o PL 4330, da terceirização, e que se multiplicam os estagiários onde antes haviam trabalhadores formais. Os jovens do setor da criação (publicitários, cineastas, atores, artistas, etc.) entram no mercado com contratos temporários ou informais, sem direitos trabalhistas e a mão de obra não qualificada é terceirizadas, às vezes quarterizada. Na metrópole, trabalha-se para poder trabalhar’, diz Cocco.

Enquanto escrevo este texto, sinto na pele – ou melhor, nos dedos, nos ombros pesados e na cabeça cheia de assunto – essa urgência. Preciso produzir conteúdo para tentar vender projetos. Procuro, sem certeza de sucesso, personagens dispostos a falar sobre contracultura por causa de um museu que pretendo montar. Troco de página no Facebook e faço um post para divulgar meu site e uma palestra que farei na próxima semana. Feito isso, abro o site do Booking.com para checar reservas e melhorar a oferta de preços da minha pousada. Trabalhar para poder trabalhar é a condição da precariedade. A quarta revolução industrial impôs o precário como modo de vida para a maioria. A precariedade é um modo de subjetivação, afirma o professor Cocco. Se antes educação e saúde eram direitos universais, que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que, constantemente, invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. “Isso nos torna precários, e o precário é um sujeito endividado”, afirma Cocco.

Ele tem razão. Para não perder o passo e o espaço para a máquina tecnológica, somos forçados a trabalhar sobre nós mesmos o tempo todo. Não basta faculdade, é preciso ter master, pós, mestrado e doutorado. Para garantir empregabilidade, não basta mais ter a força-de-trabalho para vender. É preciso ter ideias inovadoras, geniais e disruptivas. O capitalismo cognitivo explora também a criatividade e a produção de subjetividade, parasitando todos os fluxos criativos. Somos cobrados para existir (saúde como mercadoria), para aprender (educação como mercadoria), para nos mover (transporte como mercadoria), para nos comunicar (conectividade é condição de sobrevivência) e para nos divertir. Na ponta mais sofisticada do parasitismo capitalista dos fluxos estão, veja só, as redes sociais. O amigo Facebook é de graça, mas ele não nos paga pelo conteúdo bacana que produzimos. E sem conteúdo legal, o algoritmo nos deixa invisíveis.

Tem saída? Mesmo precária, conceitualmente endividada e vítima do capitalismo cognitivo — que se baseia na exploração da criatividade e da produção da subjetividade –, acho que tem. A minha crença não é fruto apenas do meu otimismo. Existe um novo processo de subjetivação em curso. O termo, para o filósofo Alain Touraine, define “a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito”. Essa é uma das marcas da sociedade contemporânea. Quando o “estabelecido”, os sistemas e as instituições começam a ruir surge um espaço para o novo, para o diverso e para o diferente. Jeremy Rifkin estava certo quando previu que nada seria como antes na hora em que o “emprego”, enquanto forma de normatização do trabalho, estivesse se decompondo.

É nesse ponto que surge a ideia do trabalho com propósito. É nessa curva de rio que a esfera cultural ganha proeminência. É nesse instante de absoluta precariedade e conflito, que a subjetivação procura uma forma de escapar da pressão por meio da construção de laços de forma reflexiva e criativa. Preciso citar novamente Alain Touraine. Para ele, a subjetivação se dá sob a forma de conflito, de luta contra poderes que limitam a autoconstrução, resistindo ao mundo impessoal e de consumo, à lógica de mercado, e à violência da guerra. Esse processo é indissociável da luta pela afirmação de direitos universais (igualdade política, jurídica, etc.) e específicos (pela liberdade, pela particularidade). Essa “causa” seria um conteúdo fundamental da subjetivação. Como ele afirma: “sente-se sujeito apenas aquele ou aquela que se sente responsável pela humanidade de um outro ser humano”.

O trabalho com propósito é repleto dessa força. Deve proporcionar sustento para quem o realiza, mas essa não é a sua razão primordial. Prazer e felicidade superam em relevância o modelo tradicional do “bom emprego” das pessoas “bem-sucedidas”. Os jovens milennials, nascidos entre 1980 e 2000, foram os primeiros a reivindicar atividades produtivas que proporcionassem diversão, bem estar e realização pessoal. Ao grupo, a cada dia, se juntam ex-yuppies, ex-executivos e ex-bambambãs filhos das gerações X e Coca Cola, nascidos entre (1960 e 1980), que foram cuspidos de suas companhias. Gente como eu, que desfrutou de todas as mordomias e de todos as pressões do mundo corporativo, e percebeu que era hora de mudar.

Mudar pra onde? Mudar como?

Se fosse possível, o ideal seria mudar para Marte para facilitar a transformação. O trabalho com propósito precisa ser completamente diferente do tradicional. Uma das chaves do sucesso dos empreendedores com causa é deixar tudo da outra encarnação para trás. A saber:

  • estamos falando de uma nova filosofia de trabalho que aposta na transição do “work to” (trabalhar para) para o “work with” (trabalhar com);
  • o crescimento deve ser orgânico e sustentável;
  • o risco, a perda e a falha devem fazer parte da natureza do negócio. É preciso haver liberdade para criar e arriscar. É fundamental saber perder;
  • doar parte do lucro pode ser uma das chaves do sucesso;
  • produzir impacto social é condição;
  • ter uma estrutura horizontal, franciscana e enxuta;
  • operar em rede com colaboradores, fornecedores e consumidores, numa equação de ganha-ganha e múltiplas parcerias;
  • aprender a operar com pouco custo, zero desperdício e muito compartilhamento;
  • aprender a viver com menos para poder ganhar menos e viver com menos pressão, menos angústia, menos sofrimento e menos ansiedade. O paradoxo/equação do – = +.

 

Propósito.

 

Menos.

 

Anote essas duas palavras em seu smartphone. Você irá ouvi-las muitas vezes nos próximos anos. O mundo precisará de pessoas sensíveis, lógicas e com capacidade de se moldar às mudanças no presente e futuro.

A adaptação ao “desconhecido” (o que está por vir) será a única de superar as incertezas do mercado. “O amanhã será governado por ambientes caórdicos (caos + ordem), subversivos, divertidos, fluídos, flexíveis em que prevalece a inteligência coletiva, as lideranças rotativas, conduzido por algoritmos e plataformas e que têm como base a ampla conectividade e o propósito. O mundo amanhã vai ser completamente diferente do que é hoje”, avisa Bruno Macedo. Quem olhar para o lado verá que a quarta revolução industrial está desmontando os modelos tradicionais, um a um, substituindo-os por negócios disruptivos. Exemplos? A TV aberta sendo substituída pelo consumo de imagens on demand no You Tube ou no Netflix rodando no smartphone. Jornais e revistas minguando pela força do consumo de informação digital. O compartilhamento de ativos pessoais, como carros, vagas de garagem e carros, reduzindo o tamanho do mercado automobilístico e ao mesmo tempo diversificando as fontes de receita das pessoas.

 

A vida com plano B

 

No século passado, plano B era um recurso utilizado para quando tudo dava errado. Ninguém queria ter um plano B. Ele era sinal, símbolo e signo de fracasso. Hoje, plano B é condição. Deveríamos aprender a construí-los ainda no ensino fundamental, junto com as operações aritméticas. A razão é singela. Todo mundo vai precisar de um plano B em algum momento da vida, especialmente se der tudo certo e ela for longa e saudável. A novidade da vida sem crachá e com propósito é a possibilidade, bem-vinda, de todos termos múltiplas carreiras. O que isso quer dizer? Que deixou de ser vexame mudar de carreira e atividade ao longo da vida. A jornalista norte-americana Jessica Stillman, do site Inc.com, defende que este é o momento de assumirmos “carreiras slashes”. Slash é o termo em inglês que define a barra de separação. “Por muito tempo eu tinha vergonha de usar a “/” , porque ela fazia a minha carreira parecer híbrida. Eu era atriz/autora teatral/ escritora free-lancer/colunista/jornalista. Eu me sentia pouco séria, indefinida e inconsistente”, escreve Jessica. Ela mudou de ideia quando olhou ao redor e percebeu que a carreira “monocromática” é que era a exceção. “A economia mudou e o trabalho tornou-se fluído. Explorar diferentes possibilidades de atuação profissional e pessoal é o que nos fará crescer”.

A história da publicitária/jornalista/designer e agora artesã paulistana Beth Klock é exemplar. Depois de perder o último emprego em uma grande editora, ela percebeu que não teria nenhuma chance de recolocação. Também não tinha mais idade nem saco de trabalhar com publicidade, assessoria de comunicação ou estratégia. Partiu então para o design. Começou a desenhar com os dedos na tela do iPad. Definiu um estilo próprio e lindo. Usou a rede social para divulgar seus talentos. Graças ao grupo Dots, uma rede fechada de empreendedores individuais, micro e pequenos, encontrou parceiros e clientes. “Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida”, diz Beth, que recomenda aos que estão à procura de um rumo experimentar fazer coisas que nunca fez antes. “Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento?”.

O cientista norte-americano Ray Kurzweil, um especialista em tendências e futurologia, é otimista quando o assunto é trabalho + propósito. Ele acredita que no futuro próximo vamos trabalhar menos e com prazer. Que precisaremos de menos e que tudo custará menos dinheiro também. Ele justifica sua tese a partir do desenvolvimento da tecnologia, que barateia os bens de consumo e faz o trabalho chato pelos humanos. Para sustentar esse modelo, ele defende uma política efetiva de bem-estar, que batizou de “renda básica universal”. Parece muito com o projeto do “Renda Mínima” do vereador eleito por São Paulo e ex-senador Eduardo Suplicy. A equação, segundo Ray, é simples. A renda universal básica é uma forma de seguro social, onde cidadãos e residentes de um país recebem, de forma regular e incondicional, uma quantia de dinheiro do governo ou de alguma instituição pública, independente de qualquer outra renda que por acaso recebam. “Realmente temos de repensar o que devemos fazer de nossas vidas. Temos um modelo econômico onde as pessoas trabalham, ganham seu dinheiro, e então podem comprar as coisas que precisam. Mas, nós vamos chegar a um ponto em que não vamos precisar de muito dinheiro. Teremos impressoras 3D que por centavos podem imprimir todas as coisas físicas de que você precisa. Não vamos precisar trabalhar para produzir estes produtos…”, defende Kurzweil. A ideia dele é um imposto de renda ao contrário. O governo paga para o cidadão sobreviver em um modelo open source. “No futuro, manteremos o trabalho, mas num conceito movido para o modelo onde você faz algo por paixão e de que você gosta e que lhe permita mover-se na hierarquia de Maslow e ter satisfação. É possível que a gente trabalhe menos mesmo.”

A chef de cozinha paulista Bel Coelho, 37 anos, bate panela pelo “menos”. Depois de estudar em grandes escolas de gastronomia, como o americano Culinary Institute of America (CIA) e o espanhol El Celler de Can Roca, brilhar à frente de várias casas badaladas da capital paulistana, ficar famosa na TV e ganhar muitos prêmios, ela disse: chega, basta, fim. Decidiu lutar por menos. Viver com menos. Simples assim. “Quem quer ser muito rico não pode se espelhar, nem se inspirar, num negócio como o meu”, escreveu Bel Coelho para o projeto Draft (http://projetodraft.com/no-clandestino-bel-coelho-desconstroi-o-restaurante-tradicional-abre-so-uma-semana-por-mes-e-vive-bem/), site que diariamente traz histórias de pessoas buscando trabalhar e viver com propósito.

Bel é dona do restaurante Clandestino, aberto em 2014, na Vila Madalena. O negócio começou com um propósito simples. Ela queria, apenas, ser feliz, se sustentar, e ter uma vida boa, razoável, de classe média, normal. Na prática, significava não trabalhar insanamente, não ter metas extraordinárias de faturamento e fugir da badalação. Por isso, o lugar funciona apenas uma semana por mês, de segunda a sábado, e oferece um cardápio pré-montado, o menu degustação, para apenas 24 pessoas por noite. Para ser uma delas, é preciso fazer reserva, momento no qual se determinam quantos lugares haverá em cada mesa e em que se esclarecem possíveis restrições alimentares. O pagamento também é feito antecipadamente. Custa 260 por pessoa, ou 380 se o jantar for harmonizado com bebidas alcoólicas.

Nesse modelo existem vários drives de inovação, que funcionam porque a Bel é a Bel e porque existe um conhecimento por trás da regra. Ao subverter a lógica e criar um serviço em data móvel (a semana em que ele será aberto só é definida um mês antes), ela evita  desperdício de comida, porque a quantidade de pessoas por noite é fixa e ela compra exatamente o que vai preparar. A equipe de trabalho pode ser enxuta, excelente e formada por frilas, reduzindo os custos fixos. “A grande diferença é que estou crescendo organicamente. Não é como quando você abre um restaurante para 100 pessoas e, de cara, tem que bancar os custos para receber 100 pessoas”, diz. “Eu resolvi, por aprendizado, fazer o contrário. Fiz um investimento inicial na cozinha e depois ir evoluindo e melhorando coisas no salão e na cozinha, conforme o tamanho vai aumentando. Busquei autonomia, Dinheiro não é o mais importante. Não me arrependo de nada. Sou muito mais feliz hoje”, garante. Ela acha que ganha menos, provavelmente, do que ganharia se estivesse num esquema tradicional. “Acho que vou ganhar mais, em algum momento. Mas quando você busca autonomia e é de fato autônomo, demora para se estabelecer como estava no mercado tradicional”, diz.

 Eu vivo sem crachá, às custas do meu plano B que virou A, há dois anos e alguns meses. No começo foi sofrido. Não pelo trabalho, nem pela redução de custos, menos ainda pela mudança de rotina. Doeu o pé na bunda. A rejeição. A mudança feita a ferro e fogo. Feridas curadas, juro que não sinto nada. Nem saudades. Descobri que posso criar sem parar para mim mesma. Minha inspiração para incontáveis planos B brotam do meu patrimônio pessoal. O que é isso? Tudo o que fiz, vivi e aprendi em meus 51 anos de vida. É fascinante. Tem meu DNA, minha história, meu conhecimento e minha experiência na parada. Tem todos os meus fracassos e sucessos. Dali nasceu a vontade de ter uma pousada. Depois o projeto de abrir uma loja de arte popular. E agora, mais recente, o sonho de fazer um museu a céu aberto na Aldeia Hippie de Arembepe, na Bahia.

Meus ingredientes secretos? Vou contar. Anota ai:

  1. Fazer o que gosto
  2. Sentir prazer
  3. Inventar moda
  4. Ousar
  5. Aprender
  6. Não sossegar o facho
  7. Ouvir a intuição
  8. Ouvir a opinião alheia
  9. Usar tudo o que sabe
  10. Colocar a mão na massa.

Anotou?

Simples, não é?