Aconteceu assim

Aconteceu assim.

Ela subia a escada. Um, dois, três, quatro degraus. No quinto, a ficha caiu. É claro que todo mundo sabia. Só ela acreditou na bobagem do “todos fomos enganados”. Já com o pé no sexto degrau, ela entendeu que a vida dela havia sido virada do avesso por puro “rabo”. Milagres acontecem e o desastre anunciado ficou para depois.

— Será hoje?, pensou com o calcanhar no sétimo degrau.

“Não, tranquilize-se. O desastre já aconteceu e você nem tchuns”, esclareceu Lu, o anjo dela que mora no escuro mas adora iluminar tudo com sua boca escancarada de dentes brancos. “Relaxe, desfrute e seja bem-vinda.”

Meio tonta com tantas revelações, ela até tentou pensar positivo. Não deu. Com o pé fraco, comum aos claudicantes, pisou em falso no nono degrau, pequeno e curto. Tombou antes de fazer a passagem para o décimo.

Por cansaço ou preguiça, abdicou de buscar apoio no corrimão da escada caracol. Tipo Alice, se soltou. Foi descendo, descendo até ser acolhida no quinto. Afinal, o inferno são os outros.

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Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

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Acordei com essa dúvida hoje. Lá fora fazia sol. Logo, a questão não é filha de depressão pré-feriado de chuva. Também não passo por nenhuma crise. O assunto não é apenas meu, mas do mundo. Na verdade, ele brota da empatia. Estou envolvida com muitos amigos queridos que estão precisando urgentemente de um plano B. Agora há pouco, conversei com o amigo de uma amiga que estava pensando em fazer o dele depois de participar de um programa de demissão voluntária da Petrobras. Ele quer ser dono de pousada. Espero poder ajudá-lo.

Por que precisamos de um B agora e não precisávamos antes?

Tenho 52 anos, nunca ouvi meus pais, menos ainda meus avós falando de plano B. Ninguém pensava nisso, muito menos precisava disso. A razão é banal. O mundo e a vida eram planos e lineares. Os desejos e inquietações muito básicos. Os filhos, em geral, seguiam as escolhas dos pais para definir com quem casar, onde trabalhar, o que ser e fazer. A herança definia os nossos destinos, com extraordinárias exceções. Quase ninguém precisava de plano B, porque não era certo ter uma alternativa. A vida seguia bem mais curta do que hoje e os atropelos estavam relacionados a grandes catástrofes.

Meu avô paterno, por exemplo, era o primogênito de uma família de treze irmãos, filhos de fazendeiro rico de café do interior de São Paulo. Ele precisou de um plano B em 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York destruiu, como uma bola de neve, a economia mundial. Ele mudou-se para São Paulo, trocou o uniforme de herdeiro pelo de trabalhador. Foi funcionário do banco Comind a vida inteira dele. Tinha hora para entrar e para sair. Almoçava em casa, o mesmo cardápio, todos os dias. Felizmente morreu antes de o banco falir em 1985. Acreditem, a instituição pagou regiamente o salário dele, que no final da carreira era de diretor financeiro, até morrer aos 74 de idade. Bom tempos aqueles.

  1. O primeiro pingo no i

    Ter um plano B, na real, é ter uma saída, uma alternativa. Vale para momentos ótimos, bons, médios, ruins e péssimos. Ele é um facilitador. Com o tempo, ter plano B se torna um modo de vida. O cérebro se acostuma a pensar alternativas. Quase como um jogo. Pode se tornar tão automático quanto escovar os dentes antes de dormir ou trocar a marcha do carro no trânsito. Acredito que para tudo existe um plano B. Com exceção da morte. Ela, que ironia, só é plano B do suicida.

 

Via Láctea, Renato Russo

Por que plano B?

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Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.

 

15 anos de amor e música

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Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…

Sai piaba, saia da lagoa. Sai piaba, saia da lagoa.

A dona aranha subiu pela parede. Caiu do aranha.

Rebola a cintura, dá uma umbigada.

O que tem na sopa do neném? O que tem na sopa do neném?

Samba lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Samba lelê precisava de umas boas lambadas

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O mar é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe neste colchão de amar

O que significa impávido colosso? Por que os ossos doem quando a gente dorme?

Todo mundo tem um irmão meio zarolho, só a bailarina que não tem…

Estou morrendo de saudade. Rio de sol, praia sem fim. Rio você foi feito pra mim. Cristo Redentor, Braços abertos, sobre a Guanabara…

Eu quis dizer você não quis escutar, agora não peça não me faça promessas

Meu coração, não sei porque. Bate feliz quando te vê. E os meus olhos ficam sorrindo

Quand il me prend dans ses bras, Il me parle tout bas. Je vois la vie en rose.

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Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos 

Com amor no coração, preparamos a invasão. Cheios de felicidade, entramos na cidade amada

Foi assim com versos, acordes e sons que quinze anos se passaram. Passou rápido como um segundo. Parece ontem. Mas foi tanto. Tão intenso. Tão grande. Tão, tão, tão absoluto. 

Foi amor. É amor. Foi música. É música. 15 anos de amor e música. Essa pode ser a síntese tão difícil de fazer e escrever. Detalhes, episódios, instantes. É tudo tão relevante para mim e para todos aqueles que fizeram parte dessa história, desse amor, dessa canção.

Música, amor e poema. Descoberta. Aprendizado. É permanente. Contínuo. É felicidade. A maior que já senti. A maior que sentirei. Insuperável. Inacreditável.

 

Amor e música que embalam a nossa história. Amor e música que alimentam a vida do meu filho, Chico, 15 anos, uma alma excepcional feita de som e sentimento.

 

A vergonha é o mal do mundo

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Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse não inúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

A princesa do povo

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Onde você estava quando a princesa Diana morreu? Muita gente se perguntou isso hoje, quando o calendário marcou a data redonda dos 20 anos da morte da princesa do coração dos ingleses e do mundo.

Eu estava em Brissac, uma pequena cidade no vale do Loire, na França. Eu era editora da equipe de São Paulo da Revista CARAS e participava da cobertura dos eventos do Castelo  da revista naquele verão europeu. Dias antes, havíamos organizado o casamento da atriz Carolina Dieckmann com o ator e artista circense Marcos Frota. Por isso, em 31 de agosto de 1997, um domingo, estávamos tranquilos. O material da boda já tinha seguido para São Paulo e tínhamos uma linda capa para a semana. Naquela época, a tiragem da revista superava 400 mil exemplares. Naquela época, a revista “fechava” às 19 horas de todas as segundas-feiras. O telefone que tocou às 6 da matina mudou tudo.

Os jornalistas em São Paulo, horas atrás no fuso, ficaram sabendo da tragédia na madrugada e nos despertaram para avisar. A ordem era urgente. Levanta da cama e viaja para Londres. Londres? Eu não conhecia Londres. Se vira. Levantei da cama, catei umas roupas e corri para a estação de trem. Desci em Paris e lá encontrei nosso correspondente, Alvaro de Almeida, que já havia providenciado a passagem para Londres. No meio do caminho, falávamos com a agência para reservar hotel. Um corre corre danado. Uma adrenalina absurda. Pelo celular, um tijolo de plástico da Motorola, combinávamos com São Paulo como seria a cobertura. Tínhamos pouco mais de 24 horas para fazer a tradução da morte da nossa princesa!

Hoje, em tempos digitais, é difícil avaliar a relevância da morte da Diana e a relevância da cobertura feita pelas publicações impressas sobre qualquer assunto relacionado a uma celebridade mundial como ela. Acompanhávamos, semanalmente, a vida dela. Semanas antes, pagamos uma fortuna por uma série de fotos dela passeando de iate com Dodi, seu namorado de então, em uma praia européia. Era um flagra armado por ela com os fotógrafos (ela era mestre na manipulação da mídia), no qual aparecia diáfana e feliz, de maio branco, olhando o horizonte com cara de apaixonada. Especulava-se que ela poderia estar grávida do milionário anglo-egípcio.  Diana era tão próxima dos nossos leitores quanto qualquer estrela da TV. Diana era princesa. Diana era linda. Diana tinha causas humanitárias. Diana tinha carisma. Quem não torcia para que, enfim, ela tivesse um final feliz nos braços de Dodi?

A bordo do Eurotrem, que cruzava veloz o Canal da Mancha, senti o peso da responsabilidade. Não conhecia Londres. Não conhecia ninguém em Londres e tinha poucas horas para me virar nos 30 e produzir material de qualidade para a edição que fechava no dia seguinte. Da estação corri para o hotel (chiquérrimo, porque naqueles anos as revistas eram ricas e os jornalistas tinham boa vida), com o mapinha da cidade nas mãos.

Vamos lembrar: em 1997, celular era algo raro, caro e precário. Servia apenas para falar ou para atirar na cabeça de alguém. O que era muito em um tempo em que as pessoas se comunicavam por carta, telegrama, pombo correio e telefone fixo com telefonista para fazer ligações internacionais. A internet ainda era movida à lenha. Google ainda não era nada. Quando pesquisávamos, usávamos um tal de alta vista. Rede social? Ahh? Não, esse termo ainda não existia.

Larguei as coisas no hotel e fui para a rua. Como eu faço agora?, pensei já quase em pânico.

O amor dos ingleses por Diana me salvou de perder o emprego 17 anos antes do prazo. Bastou colocar o pé na rua para perceber que a cobertura seria simples. Bastava olhar e sentir. Bastava me emocionar e escolher personagens tocados por aquela indescritível dor. Os caminhos à seguir também se mostraram fáceis. Era só seguir mulheres, homens, jovens e famílias que caminhavam constritas, com flores e bonecos de pelúcia na mão. Rapidamente percebi que seguiam todos em direção ao palácio de Kensington, última residência da princesa.

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Quando lá cheguei, me surpreendi com o silêncio. Era um silêncio pesado de dor e saudade. E flores, muitas flores, com mensagens escritas à mão, que traduziam o carinho e a sensação brutal de perda dos súditos da “rainha do coração dos ingleses”. Poucas vezes, vi tanta gente sofrendo a mesma orfandade. Despidos de pudor, os ingleses choravam sem disfarçar lágrimas e soluços. Haviam perdido a “princesa do povo”, a princesa amiga, parceira, que sofriam com e como eles. Entrevistei uma senhora que chorava muito. Não lembro o nome dela. Mas lembro, perfeitamente, que no final de nossa conversa, lhe dei um abraço que ela aceitou sem cerimônia. Juntas choramos aquela morte besta, de uma mulher jovem, linda e bacana que podia ser nossa amiga e que parecia, como nós, ter um futuro incrível pela frente.

 

 

 

 

 

 

 

Conselhos

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Abro uma pasta onde uma etiqueta branca traz a legenda em letra cursiva:

Poemas, matérias, check ups, desenhos e memórias.

Abro. Surgem emails dos século passado. Brota um conselho de um importante diretor de redação, que comentava, generoso, o meu primeiro texto na revista que ele comandava. Aparece uma carta inventário de outro manda-chuva recém chegado de um sabático esculhambando o trabalho que fazíamos sob nova gestão. Relembro quantas dores de estômago essas mensagens provocaram um dia. Sorrio. Tempo, tempo, tempo. Senhor da razão e do fígado. Nada faz sentido.

Apenas o poema que diz: “seus olhos estavam cerrados. Com aquela expressão de abismo para mergulhar no sonho.”

Apenas o outro poema que aconselha:

“No resplendor das criaturas, busca o esplendor do Criador

na simetria das formas puras,

busca o Sem-Forma, o Sem-Cor.

Nos nomes de todas as Escrituras,

Busca o inominável Autor.”

Foi escrito em agosto de 1991 por um amigo que sumiu da minha vida. À época não fui capaz de compreender a mensagem. Perdi. Pena. Paciência. Tudo faz sentido.fullsizeoutput_10c4