A história da gata Nuit

Era uma noite de verão e fazia muito calor. Coca voltava para casa triste como um cão. Ela tinha brigado com o seu namorado.

Na calçada da avenida larga, Coca viu um rabo comprido. Depois, quarto patas, mais um punhado de bigodes e um par de olhos brilhantes. Eram tão verdes que pareciam dois faróis no escuro.

  • — Que gatinho lindo, pensou Coca.

Ela gostava de gatos. Há cinco anos dividia o apartamento com Zanzibar, um gato loiro e forte.

Coca seguiu caminhando para casa. Curiosa, deu uma olhada para trás para ver de novo o gato.

  • — Ele está me seguindo, pensou.

Estava mesmo. O gatinho preto caminhava par e passo com ela. Então, Coca chegou à porta de seu prédio. Antes de abrir o portão, olhou para o bichano e perguntou, meio séria, meio brincando:

  • — Gatinho, quer ir para casa comigo?

O gatinho não teve dúvidas. Olhou bem nos olhos de Coca, deu um miado gentil e seguiu par e passo atrás dela. Os dois cruzaram a porta de vidro do hall de entrada e foram em direção ao elevador. Antes de entrar no cubículo, Coca olhou de novo para o gatinho e falou:

  • — Se você quiser vir, venha.

O bicho peludo não pensou duas vezes. Deu seis passinhos miúdos e embarcou. Os dois seguiram em silêncio até o décimo quarto andar, onde morava Coca. Calmamente, ela abriu a porta do elevador, virou à direita em direção ao seu apartamento e enfiou, de primeira, a chave na porta. A fechadura abriu seca. Antes de entrar, ela falou novamente ao felino:

  • — Se você quiser mesmo vir, venha. Prometo te amar muito.

O bichano, de novo, não teve dúvida. Empinou o rabo e voou para dentro de casa. Nem bem entrou, deu de cara com o Zanzibar.

  • — Gatinho, este é o Zanzi, apresentou Coca.
  • — Zanzi, este é o gatinho que me encontrou na rua. Ele pode viver aqui conosco?, perguntou ela ao rei dos móveis.

Zanzi, claro, não respondeu de cara. Roçou na perna de Coca e foi cheirar o gatinho. A simpatia imediata fez Coca achar que o gatinho era fêmea. Bingo, era mesmo.

  • — Gatinha, você é muito linda e o Zanzi gostou de você. Se quiser ficar conosco, agora precisa ter um nome. Que tal Nuit, que significa noite em francês?

A bichinha, meiga como só os vira-latas sabem ser, soltou um miado gostoso, concordando com o convite e o batismo. Desde então, os três viveram felizes para um sempre que durou 10 anos. Mas o tempo, convenhamos, não tem nada a ver com esta história.

Sem vergonha de ser aprendiz

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

A operação plano B, mesmo quando ele for simples, prosaico e barato, envolve muita criatividade, inovação e mudança. Criatividade: para encontrar soluções e respostas com pouco dinheiro.  Inovação: na hora de buscar o assunto, mercado e negócio em meio a crises, dificuldades, falta de grana. Mudança: de vida, de comportamento, de padrão de consumo e de modo de fazer. Uma grande parte daquilo que aprendemos em encarnações passadas, serve como conteúdo, repertório e rede de apoio. Não pense, no entanto, que as facilidades e mordomias farão parte do seu dia a dia. Na maioria dos planos B, esquecer os velhos hábitos do passado e mudar de padrão de comportamento, consumo e vida é o que viabiliza o resultado positivo.

A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação. 

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço. Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Comigo aconteceu várias vezes. Em uma delas, estava na mesa do comitê executivo. Era a távola oblonga do nosso rei Artur. Tinha admiração por ele e, por isso, tentava parecer imbatível. Era tolinha. Muito bem, o assunto era a substituição da leitura de revistas em papel pela leitura das mesmas nos tablets e sobre o porque tínhamos de investir (pesado) em uma nova plataforma de distribuição de conteúdo para essa nova mídia. Eu, francamente, achava uma estupidez. Revista, como a conhecemos e amamos, é boa de ler no papel, bem macio, perto do fogo, na beira do mar ou na piscina. Digital é outra coisa bem diferente e a ideia era uma transposição do São Francisco. Furada. Timidamente manifestei a minha opinião e critiquei a estratégia, que considerava errada. Na segunda frase, calei sob sapatadas. Fui crucificada. Apedrejada. Cuspida. Escarrada. Morri de vergonha e nunca mais toquei no assunto. 

Resultado: os tabletes morreram na praia um ano depois dessa conversa na mesa oblonga.  As poucas revistas que sobreviveram seguem no papel. A empresa que eu trabalhava afundou, pediu recuperação judicial e depois de um imenso calote foi vendida. Se eu tivesse sapateado, gritado, brigado, a história seria diferente? Não sei. Duvido. Não importa. O que é relevante é o fato de que por causa da vergonha fui incompetente. Não fiz corretamente meu trabalho. Não influenciei, não ajudei a decidir. Apenas me calei para não apanhar mais. Me calei para não parecer insolente. Me calei por vergonha e sobrevivência. 

No livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora Brené Brown, encontrei uma extraordinária definição e explicação daparaa vergonha. 

“A vergonha extrai seu poder do fato de não ser explanada. Essa é a razão pela qual ela não deixa os perfeccionistas em paz – é tão fácil nos manter calados! Se porém desenvolvermos uma consciência da vergonha a ponto de lhe dar nome e falar sobre ela, nós a colocamos de joelhos. A vergonha detesta ser o centro das atenções. Se falarmos abertamente sobre o assunto, ela começará a murchar.”

É perfeito. Hoje tenho vergonha dos meus silêncios e de todas as vezes em que não consegui falar o que precisava ser dito. Ainda acontece. Ainda tenho vergonha de falar a verdade e ferir alguém muito querido. É comum eu sentir vergonha de cobrar de um amigo ou conhecido. Tenho vergonha de negociar com quem admiro. Ela, a vergonha, é danada. Por isso, hoje, quando cuido dos meus planos B, C e D, não perco a vergonha de vista. Olho-a nos olhos. Se acho que serei derrotada por ela, peço ajuda à minha sócia, mais desavergonhada do que eu, para tomar frente nas situações com as quais tenho dificuldade ou não consigo lidar. Acho que deixei de ser refém da danada. Posso ir até o fim do mundo quando discordo de alguém. Posso também mudar de ideia no meio do caminho sem achar um vexame. Estou aprendendo.

Morrer pode ser bom de viver

  1. Antes de começar a ler, não estou deprimida, apesar da quarentena.
  2. O título acima é uma metáfora/homenagem inspirada no espetacular livro A Morte é um dia que vale a pena viver, da geriatra e médica paliativa Ana Claudia Arantes, de quem eu gosto muito e a quem agradeço todos os dias.
  3. A metáfora tem tudo a ver com o sentido dessa série. Mudar, sair da caixa e encontrar um plano B para chamar de seu. Trata-se de uma narrativa, um ponto de vista, no modo textão.

Quando faço palestras, começo minha fala falando da minha morte. Nasci no dia 2 de novembro de 1965 e morri no dia 25 de agosto de 2014. Não é exagero. É, de novo, uma metáfora forte para explicar o que senti depois que subi ao 20 andar do prédio onde trabalhava e o presidente executivo me deu bom dia com a seguinte frase:

“Você está sempre rindo, feliz, não é Claudia? Pena que a notícia não é boa. Você está sendo demitida”.

Sim, eu morri. De modo metafórico e psiquiátrico. Naquela segunda-feira, eu ainda não sabia, morria para sempre a Claudia funcionária, que tinha feito do trabalho o seu modo de vida, sua identidade, seu sobrenome, seu endereço e sua alma. Por inspiração e conselho, fiz do trabalho a chave da minha independência. Quando dizia que queria ser livre, mandar no meu nariz, minha mãe repetia: trabalha, filha, trabalha, filha. Foi o que fiz para escapar da sina de ser obediente e submissa.

Porque tive o privilégio e a sorte de encontrar a melhor profissão e o melhor trabalho do mundo, tomar o pé na bunda foi igual a levar um tiro no peito. Demorei alguns anos para entender que a dor que senti naqueles primeiros meses de limbo, era um tipo de morte.

Foi um processo que durou cinco meses e que teve final feliz porque soube ouvir vozes, ver o invisível e viver duas epifanias transformadoras. Escrever minha história para reencarnar em outra vida, agora sem crachá, e entender que havia chegado o momento de viver o aqui e o agora, trabalhando 100% do meu tempo no meu plano B metamorfoseado em A.

Por que demorei tanto tempo para ver o óbvio? Porque morrer dói, porque aceitar a vulnerabilidade é um parto, no sentido de nascer de novo, e porque meu DNA sempre foi o de funcionária. Eu era a colaboradora padrão. Curiosamente, me tornei muito conhecida depois que assumi a persona da mulher sem crachá.

Esta história que talvez você conheça (ou não) me trouxe até essa página. Pode servir de inspiração ou explicação para alguns comportamentos inexplicáveis que todos temos, por isso vou contá-la. 

Patrimônio particular x DNA

Na minha família, quase não existem empreendedores. Existe médico, bancário, estilista, comerciário, arquiteto paisagista, publicitário e donas de casa. A maioria profissional liberal ou funcionário com carteira assinada. Meu pai era arquiteto e exceção. Sempre foi PJ, com vida livre e muito incerta. Um dia ganhava uma bolada, a família ficava cheia da grana, as contas em dia e a garagem lotada de carros do ano, conversível e até motorista para pilotar a frota. No outro dia, a fonte minguava. As obras rareavam. As economias acabavam. O cheque especial emborrachava. A mensalidade da escola ficava atrasada. Idem o condomínio. Pai na cabeceira, a briga ocupava a mesa da sala de jantar. 

Por isso, também, quando entendi o poder do dinheiro, decidi que queria viver na paz. Sem altos e baixos. De novo, trabalhar era o jeito. Com 16 anos, arrumei o primeiro emprego. Bibliotecária. Assinei pela primeira vez minha carteira de trabalho, que foi utilíssima 30 anos depois quando lutei por uma indenização e depois pela minha aposentadoria.

Com esse DNA e esse patrimônio pessoal de “medo de perder” acumulados, não tive dificuldade em me tornar uma funcionária padrão. Trabalhei sem dó, nem piedade, feliz como pinto no lixo. Adorava receber o salário, garantido e seguro, nos dias 5 e 20 de cada mês. (Agora, regiamente, pago meus funcionários.).

Adorava mostrar serviço, agradar o chefe, ganhar tapinhas nas costas e ouvir o clássico “good, girl”, o modo carinhoso e machista que meu saudoso patrão usava para elogiar suas melhores colaboradoras. Era, sim, muito ambiciosa e sonhei com os píncaros da glória. Queria ser importante, brilhante, relevante e poderosa, tudo junto e misturado. Mas nunca desejei nem luxo nem riqueza, talvez por isso nunca me vi como uma empresária empreendedora. Eu gostava de agradar, entregar o resultado e ser medianamente recompensada no final.

Empreender era o meu plano B. Era a minha alternativa para quando a vida com crachá tivesse fim. O medo, já falei dele, era de perder o emprego e não ter um ganha pão para chamar de meu. Era de me aposentar e não ter para onde ir. Por medo, comecei a planejar. Já a escolha do que fazer foi motivada por paixão. Há anos, sonhava com uma vida diferente, na frente do mar, recebendo pessoas, conhecendo gente e servindo de maneira honesta e simples. Por paixão, tornei o plano B realidade. Ele nasceu B e como B cresceu por dois anos. A minha pousada foi inaugurada em 2012, quando ainda era alta de executiva de uma grande editora. Acumulei funções e equívocos. Por dois anos, acreditei que era invencível, mulher maravilha, mulher de aço, que podia trabalhar 18 horas por dia, 7 dias por semana e que seria imbatível sempre. 

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Fui abatida em pleno voo na famosa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Arrancaram o crachá e levaram minha pele junto. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico e essa exposição, sempre falo dela, foi o beijo do príncipe que despertou a Bela Adormecida.

Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri antes da quarentena e do coronavírus muitas coisas.

Primeiro, que a solidão é o mal do mundo. Segundo, que ter vergonha é uma absoluta estupidez. Que é uma luta diuturna aceitar a derrota e a vulnerabilidade.

Dito isso, acrescento que os amigos podem nos ajudar incondicionalmente. Que as coisas feitas com prazer são melhores. Que fazer planos é fundamental, porque eles são esperança. Que ter plano B é um jeito saudável de viver e morrer, sempre que for preciso.

E finalmente, que o melhor lugar do mundo é o aqui e agora porque, mesmo quando é ruim, e juro que sei do que estou falando, viver o presente é a melhor escolha .

Seja imperfeito

O imperativo, acima, é estranho. Desde o berço, mães tentam ensinar os filhos sobre como ser perfeitos. Começa como o comer direito e vai até como tornar os netos perfeitos também. Elas cumprem um papel. Descobri, não faz muito, que não é sempre que devemos obedecê-las à risca. Está com tempo na quarentena? Leia o livro A arte da imperfeição da pesquisadora e psicóloga norte-americana Brené Brown. Se não gostar de ler, veja o vídeo A Coragem de ser imperfeito (https://www.youtube.com/watch?v=MTY2JLy4HLU), que é uma conversa dela com a apresentadora Opray Winfrey sobre outro livro da autora que trata do mesmo tema.

Passei a vida buscando a perfeição. Tonta. Estúpida. Cretina. Escreveria uma Bíblia se narrasse todas angústias, dramas e sofrimentos produzidos por essa tola obsessão. Era ainda mais terrível quando tinha crachá. Felizmente, despertei do transe ao me tornar empreendedora. Parece contraditório deixar de buscar a perfeição justo no momento em que o negócio é meu, certo? Errado. O motivo desse post é exatamente esse. Lendo o livro da Brown, descobri que ao aceitar imperfeições, manias, falhas e defeitos, abraçava também minha vulnerabilidade, me tornando mais plena, feliz e pronta para realizar melhor meu plano B.

Vou explicar. Ter crachá significava, simbolicamente, ter estabilidade, segurança e garantias. Ter crachá significava, inconscientemente, ser invulnerável à perda, a falta, à insuficiência e à vergonha de não ter status e dinheiro para me sustentar. Com o crachá no pescoço e todos os atributos tangíveis e intangíveis associados a ele, difícil seria cultivar a vulnerabilidade. Já o empreendedor é, entre tantas qualidades, mestre, na arte da imperfeição. E por isso, segundo Brown, está mais perto do céu. A pessoa plena (portanto, um bom fazedor de planos B) adota uma série de comportamentos que fazem a diferença na vida. São incrivelmente simples. São incrivelmente difíceis de cumprir.

Segundo Brown, quem busca ser uma pessoa plena:

  1. Cultiva a autenticidade e se liberta do que os outros pensam.
  2. Cultiva a autocompaixão e se liberta do perfeccionismo.
  3. Cultiva um espírito flexível e se liberta da monotonia e da impotência.
  4. Cultiva gratidão e alegria e se liberta do sentimento de escassez e do medo do desconhecido.
  5. Cultiva a intuição e a fé e se liberta da necessidade de certezas.
  6. Cultiva a criatividade e se liberta da comparação.
  7. Cultiva o lazer e o descanso e se liberta da exaustão como símbolo de status e da produtividade como fator de autoestima. 
  8. Cultiva a calma e a tranquilidade e se liberta da ansiedade como estilo de vida.
  9. Cultiva tarefas relevantes e se liberta de dúvidas e suposições.
  10. 10.Cultiva risadas, música e dança e se liberta da indiferença e de estar sempre no controle.

Em tempos de pandemia do Covid 19, com meu negócio fechado desde 17 de março, ainda sem data para reabrir, a lista mais se parece com os 10 mais difíceis trabalhos de Hércules, o filho de Zeus, que cumpriu 12 tarefas impossíveis. Quando li no ano passado, no entanto, com felicidade, confirmei algumas melhoras. Na base do beijo, do abraço, da intuição percorri a minha trilha e agarrei, bem forte, a minha vida. Aceitar, diariamente, minha vulnerabilidade é meu plano B para escapar da prisão da vaidade, da autocomiseração e da vergonha por minhas falhas. Tem dias que o anjo mal Lúcifer sopra coisas ruins no meu ouvido. Sinto ainda uma pequena dor de estômago. Respiro. Respiro. Logo passa. Um dia, quem sabe, chego lá.

Plano B, de procrastinar

Procrastinar: verbo transitivo direto e intransitivo. Transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.”p. o início das obras”

         Hoje é segunda-feira. Que diferença faz depois de mais um mês de quarentena? Quem pergunta é o verbo acima, maldição de quem está a procura de uma inspiração para a mudança. Não o conhecia até tirar as minhas primeiras férias de verdade da vida. O bichinho hamham da preguiça grudou “ni mim” feito carrapato em lombo de jumento. Não queria sair. Todos os dias, escrevia na agenda. Escrever o livro. Todos os dias encontrava um zilhão de motivos e razões extremamente justificáveis para mudar de planos e deixar para amanhã. E o amanhã, tipo quando a quarentena acabar, você sabe, é infinito até o dia em que ele encontra o ponto final. 

         Você está me imaginando deitada na rede, olhando para o mar da Bahia? Nada disso. Não sou dessas. Procrastino trabalhando, loucamente. Tipo levantar da frente do computador para lavar a louça acumulada na pia. Tipo checar se meu filho havia pendurado a toalha do banho. Tipo iniciar uma pesquisa desnecessária sobre um assunto irrelevante. Tipo abrir a rede social para ver o que está rolando e sempre encontrar algo ou alguém para falar.

    A parte mimada, vaidosa e diabólica do meu cérebro foi tecendo um crochê de idiotas justificativas para eu não trabalhar e não seguir em frente com o meu projeto. Mimada e amolecida pelos doze dias de dolce far niente, fui encontrando motivos razoáveis para seguir  enrolando. Resgatei até uma frase famosa dos meus tempos de redação: “não faça hoje o que pode cair amanhã”. O dito fazia sentido na época do papel, quando as páginas eram distribuídas conforme o números de anúncios e a receita da publicação. Se acontecesse algo mais importante, a matéria mais fria caia para ceder espaço ao assunto quente. Hoje em dia, quando o digital é um poço sem fundo, a fala é apenas uma falsa justificativa para preguiça. Acelera. Em frente, marche.

Em certo dia aleatório, amém, passou. Acordei cedo, com fúria de resolver a vida. Pão, café, arrumação, vassoura, banho. Findo o obrigatório, abri o computador e a mão obedeceu. Iniciei o batuque. Até a invasão de um suposto vírus, o tal tranjan, que tentou me levar ao mal caminho. Fui salva pelo moço da Apple, rápido e eficiente, que instalou um negocinho e ordenou: “senta-te e trabalha, mulher, tem quem queira ler seus textos. Obedeci. E fiquei pensando por que cai em tentação? Procrastinar é bom e vicia. Tipo assim comer chocolate em tarde de frio. Atire a primeira pedra, quem não? Ele também ampara sentimentos, como o medo e a insegurança. Enquanto escrevia, perguntas silenciosas como: será que vai dar certo? Será que, no final, alguém vai querer ler? Será que vai fazer a diferença? Talvez não, mas como sabê-lo antes de fazê-lo?

Anda logo!

     

Quem fica parado é poste. Dance

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Nunca soube dançar e acho que nunca conseguirei aprender, apesar de adorar dançar. Tenho a cintura dura. Tipo um poste. Igual a um monólito. A falta de jogo da cintura para bailar era semelhante ao meu comportamento em priscas eras da juventude. Comigo as coisas eram binárias. Sim ou não. Branco ou preto. Zero ou um. Ai, meu Deus, como eu sofria.

Não aprendi a dançar mas, na porrada, dobrei a espinha, quebrei a cintura e comecei minha mu(dança). Aceito sim, não, mais ou menos, quem sabe ou talvez. Aceito até o sim que é não e o não que é sim, muito comum entre os adultos. As cores agora são do arco-íris. E o zero ou um foram substituídos pelo pi (π), o mais belo e irracional dos números.

O que cazto essa lenga-lenga toda tem a ver com plano B? Tudo, absolutamente tudo. Quem me lembrou disso foi minha amiga e jornalista Claudia Maximino, depois de ler o texto que anunciava essa série. A mensagem era a seguinte:

— Clau, estava pensando aqui em planos B, C, D e no que você falou da sua mãe se arrepender de ser tão ciumenta. Parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas talvez o plano B tenha menos a ver com fazer tantos planos certinhos e mais a ver com ser maleável, adaptável às circunstâncias. Por exemplo, você fez seu plano B com sucesso, mas depois de anos, já está revendo as opções. E não é só por causa do novo corona vírus, mas porque as expectativas e as necessidades mudam. E a gente precisa se adaptar. Porque se a gente ficar muito fixado em um objetivo, ou em um moinho de vento, como sua mãe, pode chegar lá na frente e ver que não era tão importante, que aquele plano estava só preenchendo um tempo de maneira desnecessária, um tempo que poderia ser preenchido com mais prazer. Talvez a ideia seja essa.

Minha amiga está correta. Fazer plano exige planejamento, porque caso contrário não seria plano. Mas os planos e os planejamentos são bons só quando são feitos a lápis. Lápis, porque podem e devem ser apagados um zilhão de vezes. O que é ótimo hoje pode ser um desastre amanhã. Erro, falha, mudança, acidente ou apenas a realidade. Quer melhor exemplo do que os efeitos do Covid 19 sobre as pessoas, os negócios e os investimentos ao redor do planeta? Aceitar a mudança, ter jogo de cintura para enfrentá-la e mudar rápido ou devagar conforme o ritmo da lambada é o élan vital de quem vive de planos B. Assim, tipo eu.

Dois dias depois à primeira conversa remota com minha amiga, o assunto veio à tona. Claudia trouxe mais uma contribuição à reflexão.

— Oi, Clau. Tudo bom? Estava pensando em mais uma coisa dessa história de plano B e rigidez e tals. Na yoga, a gente aprende que o equilíbrio não pode ser estático. Se você faz uma posição que exige equilíbrio e fica tentando se manter totalmente parada, vai cair. Há um movimento natural mínimo do corpo, muito sutil, e a gente precisa entrar em uma certa harmonia com ele para se manter na posição. Mais uma analogia com a história de ser monolito ou ser mais flexível. Gênia.

Quando li, lembrei do bambuzal na chegada ou saída do aeroporto de Salvador. Nada tão belo e tão flexível. Quando puder voltar para lá, passarei bem devagarinho para observá-los. Tenho um nova dança pela frente.

Por que precisamos agora e parecia não precisarmos antes?

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Tenho 54 anos. Nunca ouvi meus pais, menos ainda meus avós falando de plano B. Ninguém pensava nisso, muito menos parecia precisar disso. A razão é banal. A vida era plana, linear e retilínea. Os desejos e inquietações básicos e limitados: estudar ou trabalhar, casar e ter filhos. Emprego bom era aquele que durava para a vida toda. Os filhos, em geral, seguiam as trajetórias paternas para definir com quem casar, onde trabalhar, o que ser e fazer. A família definia nossos destinos, com extraordinárias exceções.

Ninguém pensava em plano B, porque não era certo ter uma alternativa. A vida seguia bem mais curta do que hoje e os atropelos estavam relacionados a grandes catástrofes. Tipo a Guerra dos 100 anos. A empresas, vamos lembrar, eram feitas para durar. Eram familiares e não globais. Se você fosse bom, honesto e trabalhador, começava aprendiz e aposentava diretor. Mudar de carreira? Procurar uma alternativa? Só os malucos pensavam nisso.

Meu avô paterno, por exemplo, era o primogênito de uma família de treze irmãos, filhos de fazendeiro de café no interior de São Paulo. Ele precisou de um plano B em 1929, quando a quebra da Bolsa de Nova York destruiu, como um meteoro, boa parte da economia. Não foi uma escolha. Foi uma necessidade. Ele se mudou para São Paulo, trocou o uniforme de herdeiro pelo de trabalhador. Foi funcionário do banco Comind a vida inteira dele. Tinha hora para entrar e para sair. Almoçava em casa, o mesmo cardápio, todos os dias. Felizmente morreu antes de o banco falir em 1985. Acreditem, a instituição pagou regiamente o salário dele, que no final da carreira era de diretor financeiro, até morrer aos 74 de idade. Bom tempos aqueles.