Aprendendo a viver (com gerúndio)

 

Não quero dar nem fazer  inveja. Menos ainda provocar raiva ou ciúme. A proposta do post é apenas contar uma ideia. Nova. Simples. E por isso, passível de cópia, adaptação e prática.

Somos um pequeno coletivo de pessoas de lugares diversos, interesses diversos, formações diversas que se encontraram e se conheceram em Arembepe, Bahia. Há pouco mais de um ano, nos encontramos quase que semanalmente para resolver questões relacionadas ao vilarejo, à aldeia hippie e à nossa diminuta associação de comerciantes e prestadores de serviço. Somos poucos, somos ativos.

O pequeno coletivo gerou uma pequena célula de meia dúzia de almas, que têm uma identidade mais íntima e profunda para além da geografia e da paixão por Arembepe. Temos idade, gostos, comportamentos, hábitos e sonhos semelhantes. Somos uma galera.  Nos falamos com mais intensidade por WhatsApp. Nos ajudamos com maior  empatia e carinho. Nos reunimos. Nos divertimos. Vamos aos mesmos shows e restaurantes. Falamos a mesma língua.

Ficamos amigos. Somos amigos.

QUARTA FELIZ

Nesta semana, por força do nosso trabalho, ficamos ainda mais juntos e unidos. A convivência é boa porque produz ideias novas. Na terça, na volta de uma reunião do  Conselho de Turismo, criamos a Quarta Feliz. A ideia é um combo de gente que se junta para nada. Isso mesmo. Não temos pauta. A reunião é somente para  juntar e depois de junto,  jogar conversa fora, beber, comer e viver. Nem luxo, nem lixo. A motivação é ter vontade e amor.

Enfatizo, não é farra nem putaria. Não tem bebedeira nem comilança.Não tem interesses outros. É um encontro singelo e gostoso, na justa medida. São pessoas interessantes e trabalhadoras, que no dia seguinte acordam cedo — e no grupo ninguém mais é menino para aguentar a rebordosa.

Foi lindo ir para cama, leve e feliz. Em paz com a vida, com os dramas e com os problemas que, claro, todos temos. Não somos ricos. Nem lindos. Nem poderosos. Nem vivemos acima da prateleira.

Quinta de gazeta

Essa mesma turma de bons viventes em fração ainda mais diminuta, instituiu hoje novo episódio/experiência. Roubamos do amigo João a boa prática de ficar de folga na quinta, já que ele tem restaurante e trabalha todos os sábados e domingos. Nasceu então a quinta de gazeta. Sim, um dia para vestir aquele velho calção de banho e fazer de conta que as 24 horas serão apenas para vadiar. Mentira as 24 horas, mas juro que os 60 minutos que passei no rio tomando banho e os 60 minutos que gastei para almoçar na barraca do Roque, com meus amigos, valeram muitos meses de vida.

É bom aprender a viver aos 20, 30, 40 e 52 anos. É bom fazer novos amigos sempre. É bom gostar de gente e de todas as estranhas e esquisitas diferenças que o homo sapiens sapiens tem. Não paga conta. Não acaba com os problemas. Não extingue as dores nem as mágoas, mas deixa a gente feliz, feliz. E isso é bom, muito, muito bom.

 

Anúncios

Preguiça

Hoje acordei com uma coceirinha no dedão do pé. Leve. Gostosa. Daquelas que prendem a gente. Hoje acordei com uma vontade danada de dormir até acordar. Vontade de jogar o celular pela janela quando o alarme começou a apitar.

Hoje senti um desejo absurdo de ligar o foda-se e ficar. Ficar na cama abraçada no cachorro. Ficar em casa imaginando o cheiro do café fresquinho, porque nem deu vontade de levantar para fazê-lo.

Hoje eu só queria ficar pela casa, de camiseta, calcinhas e chinelos, ouvindo Chico tocar violão.

Hoje eu queria saber aplicar mentiras cabeludas. Queria saber dizer não. Queria ligar de novo o foda-se para perder o avião.

Hoje eu queria que fosse ontem e anteontem porque estava bom demais e ainda dava tempo de cancelar tudo e começar de novo sem pressa nem compromisso.

Só hoje. Só hoje queria poder me entregar ao amor da preguiça. Que delícia.

Não mata baratas mas ajuda a combater ataques de pânico

Ataque de pânico I

Viver do plano B é tão bom que pode acontecer o seguinte: está tudo andando bem, os clientes felizes, a casa cheia, os funcionários produzindo bem, satisfeitos, as contas em dia, os pagamentos feitos, o pró-labore pingando… Daí, você que sempre viveu na base do perrengue, da pressão, da meta, do sufoco, olha para um lado, outra para o outro, e pensa: “meu Deus, está tão bom. Está tão bem, que dá até medo. Será que estou errando em alguma coisa?”.

Vivia tendo pensamentos assim.

Quando eles chegavam, sentia frio na barriga. A espinha gelava. O coração começa a batucar. Tremia. Incomodava. Então, dava um tranco na minha cabeça e repetia em voz alta na frente do espelho: “deixa de ser idiota, mulher. Você trabalha para caralho, está tudo bem mesmo. Parabéns. Você merece. Seja feliz.”

Funcionava, mas non troppo. A sensação de que a qualquer momento eu teria de descer a ladeira rolando era permanente. Sempre a dúvida, vai dar certo?

Ataque de pânico II

Enquanto escrevo, leio vários livros ao mesmo tempo. Um deles é A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown, um dos quatro best-sellers que ela escreveu. Qual foi a minha surpresa em descobrir que a sensação de alegria precedida do mau presságio não é uma doideira minha, mas um comportamento coletivo utilizado como forma de escudo contra a vulnerabilidade.

Não entendeu nada? Calma, calma. É complexo mesmo.

Antes deixa eu apresentar a Brenè Brown.  Ela é professora e pesquisadora da Universidade de Houston, Texas, nos Estados Unidos e tem uma cadeira na Fundação Huffington de Trabalho Social. Nos últimos 16 anos, Brenè se aprofundou no estudo de temas como coragem, vulnerabilidade, vergonha e empatia. Ela se tornou uma das cinco figuras mais vistas no TED no mundo com a apresentação O poder da vulnerabilidade (segue o link The Power of Vulnerability ).

Brenè é craque. Brenè explica o seguinte: sentimos esses ataques de pânico porque vivemos em uma sociedade capitalista baseada na cultura da escassez. Parece que nunca temos o suficiente de comida, roupa, amor, sucesso, felicidade, tempo, viagem, amigos, likes… A intenção do sistema é essa mesmo. Nunca nos sentirmos seguros ou certos o bastante para trabalharmos e gastarmos mais e mais. O sentimento produzido por essa roda viva é a alegria sempre parecer uma farsa.

 

“Nós acordamos pela manhã e pensamos: “O trabalho vai bem, todos na família estão com saúde, nenhuma grande crise está acontecendo, a casa ainda está de pé, eu estou me sentindo bem. Que droga. Isso é ruim! Muito ruim. Algum desastre deve estar a espreita, só esperando para acontecer.” 

Ela, como eu, considerava a sua permanente preparação para um desastre como um segredo, um truque que a tornava (me tornava) superior e infalível. Estava convencida também de que era a única no mundo que contemplava os filhos enquanto dormiam e que, no momento seguinte da onda de amor, imaginava algo terrível acontecendo com eles. Por que fazemos isso?

Brown responde: “Sacrificamos a alegria para evitar a dor”.

Qual dor? “Uma vez que fazemos a ligação entre vulnerabilidade e alegria, a resposta é bastante direta: estamos tentando vencer a vulnerabilidade à força.

Não queremos ser surpreendidos pela dor, por isso, masoquistas, enxotamos a alegria e fazemos ensaios macabros de fundo do poço como uma defesa contra a decepção. Eu sempre fui craque nisso. Pensei tantos absurdos que tenho vergonha de reproduzir.

Como escapar? Brené Brown descobriu que existe um vínculo forte entre alegria e gratidão. O processo é o seguinte:

– Escassez e o medo levam a alegria como mau presságio.

– Tememos que a felicidade dure pouco, que não seja suficiente ou que a tristeza que vem depois seja muito intensa.

– Aprendemos que se entregar à alegria é igual a se preparar para a decepção e a tragédia. Afinal, não merecemos ser alegres se somos incapazes e imperfeitos.

– Quem somos nós para sermos dignos de alegria com tantas guerras e crianças famintas?

Como escapar desse looping de fundo do poço?

Ela garante que o antídoto é simples. Se o oposto da escassez é entender que temos o bastante, então, praticar a gratidão é a forma de reconhecer que há o bastante e que nós somos o bastante.

Praticar a gratidão é a saída para aceitar a alegria e o prazer.

Tipo assim: “obrigada Senhor. Trabalhei como cão no final de semana e merece essa folga hoje, segunda-feira”.

Praticar a gratidão é o caminho para se livrar da culpa.

Tipo assim também: “obrigada Senhor por esse jantar delicioso, no restaurante que adoro, na companhia do meu filho, que passou de ano e de escola e como eu merece comemorar. Amanhã voltamos à rotina.”

Praticar a gratidão é o jeito de eliminar o desejo de entorpecimento que anestesia a dor, que vem dos sentimentos de inadequação e inferioridade.

Tipo assim: enfrentar o medo da dor do fracasso, da vergonha, da vulnerabilidade e aceitar o prazer, fulgaz mas delicioso, do aqui e do agora.

Tenho praticado todos os dias e está funcionando. Como estou fazendo isso? É bem simples. Digo mais obrigada do que antes. Tenho tentado ser mais gentil do que antes. Tenho mostrado mais carinho e mais amor para quem convive comigo. Presto atenção em pequenos detalhes. Presto atenção e valorizo pequenos instantes de prazer. Agradeço em voz alta Deus (porque acredito Nele) esses momentos. Agradeço em volta alta o destino (porque acredito nele também) esses momentos. Parece papo de doido, eu sei, mas é sensacional olhar para o céu (fiz isso anteontem na Faria Lima, em São Paulo) e dizer “obrigada Senhor por essa tarde em que deu tudo certo.”

 

Passagem

IMG_6071

— Oi, bom dia, tudo bem?

— Bom dia. Está tudo bem. Tudo ótimo. Hoje é a formatura do meu filho.

Hoje, 16 de novembro, passei o dia repetindo essa frase. Contei para o porteiro, para o padeiro, para a minha inquilina, para todos os amigos, para a vendedora da loja de bíquinis.

Ontem, antes de embarcar para São Paulo para vir à formatura do meu Chico, contei para todos os hóspedes. Para os amigos de Arembepe. Para a vendedora do mercado. Para a dona do hortifruti. Para Almir, vendedor da Ninoca, para Rose agente da quilombola da Cordoaria, para os meus amigos dos grupos de WhatsApp. Agora, não me cabendo em mim de tanta emoção, catei o computador para escrever . Quem sabe se depois de colocar em palavras, eu me contenha. Eu me estabilize. Eu me aprume.

Por que tudo isso, afinal ele, Chico, só está se formando no nono ano? Por que tanto exagero se ainda faltam o ensino médio, a faculdade, o mestrado…?

Porque sim, é a primeira resposta.

Porque estou feliz e emocionada é a segunda resposta.

Porque hoje ele faz uma importante passagem é a terceira resposta, mas racional, objetiva e igualmente emocionada.

Estou fazendo essa onda toda porque  acho que a entrada no Ensino Médio, colegial do meu tempo, marca a entrada definitiva na adolescência e na juventude. A infância oficialmente acaba. É uma passagem. Um caminho sem volta para uma trilha que entendo linda, divertida, criativa e libertadora.

Meu pequeno Chico fica na memória e na fotografia acima. Hoje, ele deixa de ser menino grande para se tornar um jovem homem. Um adulto aprendiz. Alguém capaz de cuidar de si e dos outros. Alguém apto a criar e a produzir. Alguém que pode até procriar (não, não, por favor, ainda não, é muito cedo). Alguém apto para ser senhor de si e cidadão do mundo.

Hoje, na hora do almoço com os avós na cabeceira, lembramos do primeiro dia de aula. Da primeira escola que não deu certo. Da segunda, Grão de Chão, que o abrigou tão carinhosamente. Lembramos dos professores e professoras. Lembramos das festas. Lembramos dos passeios. Lembramos da rotina do início da vida escolar, quando para acostumá-lo à distância da casa, eu fazia um longo passeio antes de deixá-lo na escola. Íamos ao parque da Água Branca. Dávamos comida aos cavalos. Brincávamos com as tartarugas. Víamos o pavão e as abelhas. Feliz, percebi que ele se lembrava de tudo.  E sabia que era mentira quando diziam que eu ficava o tempo todo do lado de fora no café esperando a aula acabar. “Eu olhava pela fresta e via que você não estava lá, já tinha ido trabalhar”, comentou Chico, hoje, orgulhoso.

Comecei a escrever esse texto à tarde, antes da cerimônia da formatura. Parei para tomar banho e ir. Ainda bem. O ponto final não podia acontecer antes da emoção real, concreta, verdadeira.

Foi lindo ver Chico grande discursando em homenagem a uma professora que irá se aposentar. Foi bacana vê-lo e sabê-lo querido pelos professores e colegas. Foi quente vê-lo lindo e estiloso de terno azul tocando “eu fico assim sem você”.  O que valeu a vida, a minha e a dele, foi vê-lo descer do palco, com uma rosa nas mãos. Sem titubear entre a mãe e a avó, com um sorriso especial nos lábios, ele entregou a flor para Maria, a Mamá, que junto comigo o cuida e o cria. A Mamá que o nina e o alimenta desde o dia em que saímos da maternidade, há quinze anos. A Mamá que generosamente dividiu seu amor entre Luciano e Cristiano, filhos dela, e Chico, filho nosso.

Sim, a passagem está feita. Chico aprendeu matemática, português, desenho, inglês e literatura. Chico aprendeu a fazer amigos. Chico aprendeu a respeitar os mestres. Chico tem conhecimento. Chico tem sabedoria. Chico é amor.

DG3A6860

Chico, vovó e Mamá: muito amor

 

Amor intransitivo

Eu amo

Tu amas

Ele ama

Nós amamos

Vós amais

Eles amam

Amar. Tipo de verbo: regular. Transitividade: transitivo direto, intransitivo e pronominal. Gerúndio: amando. Particípio passado: amado. Infinitivo: amar.

Ah meu Deus, como ela odiava gramática. Na verdade, ela odiava o mundo cheio de regras, ordens e arrumações. A gramática era a regra, a ordem e a arrumação na forma mais chata. A gramática tentava conter a fala. Dominar a palavra. Restringir a conversa. Se meter no papo. Atrapalhar o fluxo. Reduzir o encanto. A gramática era um porre.

Ela odiava gramática na mesma proporção em que amava literatura. A literatura era, na verdade, sua cúmplice no desafio de aprender a ler e a escrever sem aprender as regras. Graças a literatura, ela aprendeu a escrever “de ouvido” para usar uma expressão dos virtuosos que tocam violão sem saber música. Regência? Concordância? Crase? Conjugação? Transitividade? Não, não sabia explicar, mas sabia o que era certo ou errado de tanto ler e repetir. Algumas coisas, é verdade, escaparam. Ela até hoje tem vergonha quando lembra do seguinte diálogo:

— Por que você escreve obrigado e não obrigada?

Silêncio

Silêncio

Silêncio

A resposta foi safa. “É brincadeira. Escrevo obrigado por causa do Fábio Júnior, que diz “obrigadu”. Mas às vezes o corretor corrige, o dedo escapa e sai obrigado.

— Ah, que engraçado.

Findo o dialógo, realizado na era pré-google, ela correu para os livros e descobriu que mulheres falavam “obrigada” e não “obrigado” como ela escrevia sempre no final das mensagens.

A história do amar verbo intransitivo segue sendo, portanto, um mistério, já que ela leu e amou o livro do Mário de Andrade mas ainda não conseguiu entender porque o verbo amar pode ser transitivo direto, intransitivo e pronominal. Quer dizer, ela até entendeu porque já amou muito e esse sentimento é mesmo dúbio, estranho, esquisito, incontrolável, indomável e avesso às regras. Por isso, talvez, a gramática tenha sido assim tão ampla e aberta com o verbo.

Afinal, dizem, que verbos transitivos são verbos que, tendo sentido incompleto, necessitam de um complemento verbal para completar o seu sentido. Amar, portanto, necessita de um objeto direto ou indireto. A gente, em geral, ama alguém ou alguma coisa.

É?

Amar a si mesmo é amar alguma coisa? A dúvida era recente. Sim, há poucos dias, depois de ler um livro — sempre eles — ela descobriu que amava profundamente a si mesma. Era uma paixão louco, que ao ser descoberta a fez e a faz andar de sorriso nos lábios, rídicula, como as cartas de amor. A descoberta do amor próprio foi recente e chegou junto com o aniversário de 52. Não houve nenhum fato especial, nenhuma situação externa, apenas um entendimento claro e sútil. Ela amava a vida que tinha. Amava a pessoa que se tornara. Amava o jeito. Amava as escolhas. Amava-se. Não era um amor narciso. Ao contrário. Ela amava especialmente os defeitos, as fraquezas e a capacidade recém-adquirida de aceitar a própria vulnerabilidade. Ela amava o fracasso e o caminho cheio de buracos que havia escolhido. Amava também a solidão. Amava o desprendimento. Amava o passado e as roupas velhas.

Epa, epa, epa.

Ela deu um google e leu: “verbos intransitivos são verbos com significado completo, não sendo necessária a junção de objeto direto e objeto indireto para complementar o seu sentido. Referem-se a ações que iniciam e terminam no próprio sujeito, não transitando para um objeto.”

Ela se amava. Ponto. Ela era o sujeito. O verbo era o verbo. Ela se amava. Ela não precisava mais do amor nem da aprovação de ninguém. Ser amado era bom, era gostoso, era agradável, mas não era mais necessário. Ela, enfim, não precisava fazer ginástica olímpica nem malabarismo do Cirque de Soleil para ganhar sua dose diária de amor. Bastava existir. Bastava ser. Bastava amar. A si mesmo como aos outros.  Amor próprio, sem ciúmes nem conflito. Apenas amor. Intransitivo.

 

Os olhos da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse a mais tempo
Não amava quem amei

Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou
Ele agora está mais firme
Do que quando começou

E se não tivesse o amor
E se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar (ah, o amor)
E se não tivesse o amor

No Abaeté tem uma lagoa escura
Arrodeada de areia branca

CAETANO VELOSO, IT S A LONG WAY

 

 

 

 

 

A conquista da vulnerabilidade

Captura de Tela 2017-11-07 às 23.21.46

Ela sempre se orgulhou de duas coisas. Ter uma alma sem relevo e raramente sonhar.

A alma sem relevo facilitava a vida. Privava de dores. Encurtava caminhos. Resumia os sentimentos. Encurtava os períodos de tristeza. Espantava a depressão.

A escassez de sonhos lhe dava orgulho. Um dia, ouviu dizer que os iogues também não sonhavam. Apenas dormiam um sono profundo e algumas horas depois acordavam prontos e revigorados para a vida. Ela era muito orgulhosa e tinha orgulho dessa semelhança. Apesar de jamais desejar ser iogue. Ela não gostava de meditar.

Um dia, no entanto, ela sonhou. O sonho era muito, muito estranho. Ela estava em um avião. O que sempre foi comum na vida dela. O avião começava a cair. Cair. Cair. Ela sentia medo. Muito medo. Mas não achava que ia morrer. Ela não morreu. O piloto deu um jeito. O avião se espatifou com jeito no chão e ela saiu ilesa.

Na sessão de terapia da quarta-feira pela manhã, ela contou o raro sonho para a analista. A versão que ela deu para o enredo foi espetacular. Ela, que se achava foda, entendeu a quimera como um sinal de poder, controle, domínio e invulnerabilidade.

Com muita certeza, ela falou: “Sabe Marta, eu sei que as coisas estão difíceis para o meu lado. A vida está dura. Não estou entregando o resultado. O trabalho está puxado. Mas esse sonho… acho que ele significa que eu vou sobreviver. O avião vai cair mas mesmo assim manterei o controle, seguirei viva. Invulnerável. Sempre foi assim. Essa é a minha grande qualidade”, ela afirmou. Marta era freudiana e nada falou. Ouviu. Anotou. Tentou saber mais detalhes. Não tinha. Ela havia contado tudo.

Na semana seguinte, ela sonhou de novo. Não estava mais em um avião. O veículo era um carro. Ela adorava carros. Esportivos. Conversíveis. Velozes. No sonho, ela estava numa estrada íngrime, com curvas estranhas, meio que disputando uma corrida com um funcionário da equipe dela. Ele era executivo também. Ambicioso também. Sem filtro e sem escrúpulo também. Era capaz de tudo para entregar o número. Missão dada, missão cumprida, especialmente se na ponta da linha tivesse um bônus gordinho.

No sonho, eles trombavam. Ninguém se machucava, mas o carro dela pifava e o dele seguia ileso. Que nem na Fórmula 1. Ele a deixava para trás, comendo poeira. Ela sabia que tinha perdido. Mas na hora de resumir o enredo onírico, deu um jeito de ficar bacana na fita. Dourou a história. Interpretou. Disfarçou. Ponderou. Marta ouviu tudo novamente em silêncio. Anotou. Perguntou detalhes. A sessão acabou.

Na sessão seguinte, a queda do avião e a trombada do carro se tornaram excelentes metáforas para o que estava acontecendo com a vida dela. A pessoa invencível, invulnerável, campeoníssima, todo-poderosa, tinha tomado um pé na bunda fenomenal, seguido de uma rasteira. Estava na lona. Ferida. Pelada. Escalpelada. Na hora, ela não lembrou dos sonhos. Nem mais falou sobre eles. Apenas tentou mostrar que estava bem e que podia caminhar sozinha.

Se despediu de Marta com uma desculpa esfarrapada. Disse que ficaria indo e vindo e não poderia mais manter a rotina de sessões. Verdade. Mentira. Queria mesmo era fazer economia. Eliminar o custo supérfluo.

O tempo passou. Ela se virou como pode, sem as sessões de análise e sem os sonhos. A alma até ganhou umas colinas, que ela subiu e desceu para ganhar músculos e curar a dor. Teve jeito. Teve conserto. Teve fé e, graças a Deus, ela encontrou a melhora dela.

Na semana passada, ela visitou uma livraria. Tinha que esperar uma amiga. Na prateleira do térreo, encontrou um livro escrito por uma conhecida. Ficou curiosa, folheou, leu a orelha e comprou. O dia em que morri em Nova York, da jornalista Milly Lacombe. A história era diferente da dela mas tinha muito a ver com ela.  Devorou o livro. Enquanto, o engolia lembrou. Lembrou dos dois sonhos esquecidos. Lembrou de outro livro lido e de um texto já escrito. Juntou as peças.

Sonhos  são como deuses. Quando não se acredita neles, deixam de existir. E a gente se ferra porque erra muito. Ela se ferrou, mas não durou. Não sonhava, mas acreditava nos deuses. Foram Eles que a colocaram no devido lugar.

Como assim? Assim, derrubada das nuvens e do Olimpo, ela entendeu que era vulnerável. Logo, humana. Logo, falha. Logo, sensível. Logo, verdadeira. Logo, fraca. Logo, forte. Logo, bacana. Logo, safa. Logo capaz e pronta para sacudir a poeira e levantar. Dar, a seu modo, um volta por cima. Se amar acima de todas as coisas, como Ele sugeriu. Ao fazê-lo, descobriu de verdade o que significava ser feliz.

 

 

 

Jesus seja louvado!

baba

Aconteceu assim.

Era feriado e a criança acordou cedo. A mãe não deu conta de fazê-la parar de chorar. Para não acordar o pai, cansado, decidiu sair com o menino de casa. Aproveitar para fazer mercado. Lá ele sossega, pensou.

Menino pequeno, viaja de cadeirinha. Colocou o pequeno lá, no banco de trás. Foram rodando pela cidade deserta. Todo mundo ainda em casa, dormindo até acordar, graças ao dia festivo. Na porta do mercado, um espécie de boutique de delícias, encontraram uma placa educada.

Hoje o Santa Luzia ficará fechado por motivo de feriado religioso.

O que fazer? Dar meia volta e buscar outro assunto. Mãe e filho seguiram no carrinho, um corsa azul, quatro portas, pequeno e discreto. Subiram a Augusta ainda vazia. Cruzaram a Paulista, àquela época ainda aberta ao tráfego, viraram na Luís Coelho. A mãe tinha lindas memórias daquela rua.

Virou-se para trás e falou ao filho bebê.

– Sabe que a mamãe nasceu ali?

Ela apontava a maternidade São Paulo, berço da maior parte dos bebês abastados dos anos 60/70 do século passado. Talvez o passado remoto tenha produzido a reação no pequeno curioso.

Do silêncio fez-se o pranto e a agitação. Como um boneco de posto de gasolina, ele começou a agitar os braços e o tronco para tentar escapar da prisão da cadeirinha de segurança. Na virada da Matias Aires, a tentativa de fuga virou rebelião armada. A mãe até tentou contê-lo com um braço, enquanto que segurava o volante com o outro. Não deu. Ciosa, parou o carro quase na esquina, do outro lado da banca de jornal.

Desceu e foi à guerra no banco traseiro. O bebê fofinho, tipo Johnson, havia se transformado. Era um pedúnculo. Um capeta de cachos loiros. Um exu mirim. Berrava e lutava contra a mãe, determinada a amarra-lo novamente na cadeirinha , da qual ele havia escapado.

A berraria é interrompida por um toc toc na janela. “Que hora para alguém pedir informação”, ela pensou. Gentil, baixou o vidro manual, enquanto tentava fechar o cinto de segurança em torno do corpo do filhote.

— Jesus seja louvado! Pare de bater em seu filho. Vamos chamar a polícia, disse a mulher do lado de fora do carro, acompanhada por um homem de terno.

— Jesus seja louvado, repetiu ele. Senhor, afaste o demônio do corpo dessa mulher.

— A mulher endemoniada sou eu, pensou ela enquanto segurava seu bebê fujão pelo tornozelo.

O mantra do Jesus seja louvado interessou o garoto que parou de berrar e passou a se divertir com a fala do casal do lado de fora. A mãe, desesperada para se livrar dos dois, teve uma ideia genial.

Com olhar esbugalhado e sorriso Monalisa nos lábios, começou a berrar também:

— Amém, Jesus. Que o senhor seja louvado. Adeus capeta que partiu do meu corpo. Amém Jesus. Que o senhor seja louvado.

Os gritos dela agradaram o casal, que foram baixando o tom, baixando, baixando, até se calarem.

— Vá com Deus, irmã, disseram antes de partir.

Suando, ela viu o casal subir a ladeira. O bebê estava quieto, sentado na cadeira. Tinha um sorriso maroto nos pequenos lábios.

— Você está rindo do mico que sua mãe pagou, né sua peste? Vamos para casa e agora sem dar um pio e sem se mover dessa cadeira.

A mãe, então, voltou para o banco do motorista, engatou primeira e partiu.

Com fé em Deus e a paz de Cristo.