Sempre rezo por B.C

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Uma das mais lindas histórias de Plano B que já li foi publicada no livro Achei que meu pai fosse Deus, organizado pelo escritor Paul Auster. Uma mulher com as iniciais B.C conta que decidiu mudar de vida na última primavera. Ela tinha 57 anos e chegou à conclusão que não podia esperar mais 8 anos para se aposentar e que não podia mais ser secretaria de advogado por mais oito anos. “Deixei meu emprego, vendi minha casa, a mobília, o carro, dei meu gato para a vizinha e mudei-me para Prescott, Arizona, uma comunidade de 30 mil pessoas, aninhada nas montanhas Bradshaw, com uma boa biblioteca, uma instituição de ensino superior comunitária e uma bela praça central”, conta.

Para viver, ela investiu tudo o que tinha e recebe 315 dólares de juros por mês. É com eles que se propôs a viver. Não depende de ninguém. Se vira com o que a cidade oferece. A biblioteca está conectada à internet. Tem um armário depósito pelo qual pagava 27 dólares/mês e guardava todas as suas coisas. Por 25 dólares, alugava um canto em um jardim de uma casa para colocar sua barraca, sua moradia. Na escola Yavapai College fazia cursos e usava o vestiário e a piscina olímpica. Diariamente, era lá que fazia sua toalete. “Ter uma aparência apresentável é o aspecto mais importante do meu novo estilo de vida”, diz B.C. “Quando vou a biblioteca, minha sala de estar, ninguém pode adivinhar que não tenho um lar.”

Comer barato e de modo nutritivo é o principal desafio de B.C. Ela tem 200 dólares mês para gastar com comida. Fazia muitas refeições no parque, o quintal dela. Comia também no Jack in the box, que à época do texto tinha quatro coisas que custavam 1 dólar. Frequentava galerias em noites de vernissages para ter uma experiência comestível diferente e apreciar arte.

Deixou o cabelo crescer e parou de pintá-lo. Gosta do grisalho. Parou de usar batom e maquiagem. O look natural não custa nada.

“Adoro ir à escola”, diz. Estudou cerâmica, coral e antropologia cultural. “Adoro ler todos os livros que sempre quis e nunca tive tempo suficiente.

Também tenho tempo para não fazer absolutamente nada.”

O texto de B.C, impactante como a liberdade, termina curto. Fala da saudades dos amigos e do gato Simon. E do medo. “Espero sobreviver ao inverno. Disseram-me que Prescott pode ter muita neve e longos períodos de temperaturas glaciais. Não sei o que fazer se ficar doente. Em geral, sou otimista, mas me preocupo. Rezem por mim.”

Este texto foi publicado pela primeira vez em 2001 nos Estados Unidos. Comprei o livro e li no Brasil em 2005. Fui profundamente tocada pelo desejo e pelo plano dela. Procurei-a e não a encontrei. Faz 12 anos que rezo sempre por ela.

LIVRE. VIVE

Tenho mais sapatos do que pés

Tenho mais camisas do que troncos

Tenho mais compromissos do que neurônios

Tenho mais músicas e programas de músicas do que sou capaz de ouvir até morrer

Tenho mais livros do que tempo para lê-los

Tenho mais dispersão do que foco

Tenho menos paciência do que antes

Tenho mais preguiça do que vontade, porque perdi a vergonha de dizer não

Tem um monte de coisa que eu não entendo, não encontro e não mais me importo.

Basta. Me basta. Na boa, tá tudo certo, combinado.

Desencana,  meu amor. Vive. Deixe o tempo resolver. O que tem que acontecer. Livre.

Foi Bethania, quem mandou.

beijo

 

Ex-trangeira

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Sou daqui, mas tenho cara de lá. Moro aqui e lá. Acabei sendo de lugar nenhum e de todos os lugares. Quando não publico fotos, meus amigos escrevem ou ligam perguntando: onde você está? Às vezes, nem eu sei direito. Estou aqui e lá. Gosto de ambos. Hoje, no entanto, me tornei menos estrangeira. O motivo é tolo, quase torpe, mas para mim significou uma daquelas barreiras invisíveis que demoramos tanto, tanto tempo para derrubar porque alguém diz que é ruim, outro avisa que é perigoso, mais um fala que não fica bem.

Hoje desobedeci. Hoje decidi que abandonaria o castelo da princesa e seria aqui como sou lá, comum. Na prática, significou acordar cedo, botar uma roupa comum, esvaziar a carteira, guardar no fundo da mochila o dinheiro, os cartões e o celular. No bolso da calça, o trocado para o ônibus.

Eu sei que é ridículo contar isso. Especialmente porque faz três anos que ando com meu passe único pendurado no pescoço quando estou lá, em São Paulo. Mas aqui na Bahia, eu havia incorporado o arquétipo “princesinha”. Nunca havia encarado o “buzu” para voltar de Salvador para meu quarto em Arembepe. Não havia cumprido o trajeto de todos os dias de quem desce no ponto final e caminha a pé até o serviço. Foi carregando minha mochila nas costas pela rua dos pescadores, que me dei conta de ter ficado menos estrangeira e mais local. Foi arrastando as chinelas pela rua de paralelepípedo paralela ao mar, que senti o quanto gosto daqui e dessa vida de ciclos de natureza e de gente. Gente que chega e gente que vai, como a nuvem, a chuva e eu.

Pronto, falei.

Quem vive de passado é museu

A primeira vez que ouvi a frase do título, senti vontade de ser surda. Me ofendi. Protestei. Adoro museu. Não vivo do passado. Será?

Hoje caminhando pelas ruas de Higienópolis, em São Paulo, onde vivi alguns dos melhores anos da minha vida tive um ataque agudo de nostalgia. Parecia filme francês. As cenas, com efeito blur, que combinavam com o dia azul de outono, foram fazendo cineminha na minha memória. O dia em que a gata Nuit apareceu… O dia em que recebi o telegrama avisando que eu tinha sido escolhida para o curso Abril… O dia que tomei o maior porre do mundo… O dia em que fui pedida em casamento… O dia em que trouxe meu filho bebê para casa…

 Descendo a avenida Angélica, surtei quando não vi o edifício Brasília, de honrada memória, onde morei de 1984 a 1992. Cocei os olhos. Cadê a janela de onde o gato Zanzibar pulou para o telhado? Cadê o terraço, onde Carolina, por tantas vezes sonhei com o futuro? Um prédio novo subiu e escondeu a fachada lateral da minha primeira casa da vida adulta. Contei os andares e fiz contas. 

Meu passado, 52 anos bem vividos anos, já é maior do que provavelmente será o meu futuro. E agora, José? Frente à inexorável realidade, decidi optar pelo modo museu a céu aberto, igual ao da minha querida aldeia hippie. O que isso significa? Significa que pretendo colecionar obras que podem ficar no tempo, que são passíveis de interação e abertas a variadas formas de fruição.

 Posso ser também um museu intinerante e, como tal, carregar meu acervo para outros lugares e outros públicos. Parece bom. Parece desespero de alguém buscando uma desculpa para a dor do envelhecimento. Ambas alternativas valem. Não é fácil descobrir-se “vivido”. O tempo corre e as boas memórias permanecem vividas, como se tivessem acontecido ontem. Fecho os olhos e me vejo jovem. Abro os olhos e procuro os óculos para ler o cardápio da padaria. Meu amigo chega e deixo o devaneio para depois. Preciso decidir se meu Museu abrirá todos os dias ou se ficará fechado às segundas.

Plano P, de procrastinar

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Procrastinar: verbo transitivo direto e intransitivo. Transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair.”p. o início das obras”

Esse verbo é a maldição de quem está a procura de uma saída, uma alternativa e, especialmente uma inspiração para a mudança. Não o conhecia até tirar as minhas primeiras férias de verdade da vida. O bichinho hamham da preguiça grudou “ni mim” feito carrapato em lombo de jumento. Não queria sair. Todos os dias, escrevia na agenda. Escrever o livro. Todos os dias encontrava um zilhão de motivos e razões extremamente justificáveis para mudar de planos e deixar para amanhã. E o amanhã, você sabe, é infinito até o dia em que ele encontra o ponto final.

Você está me imaginando deitada na rede da fotografia que ilustra este post, olhando para o mar da Bahia?Nada disso. Não sou dessas. Procrastino trabalhando, loucamente. Tipo levantar da frente do computador para lavar a louça acumulada na pia. Tipo checar se meu filho havia pendurado a toalha do banho. Tipo iniciar uma pesquisa desnecessária sobre um assunto irrelevante. Tipo abrir para rede social para ver o que está rolando e sempre está rolando algo nessa nossa quinquagésima fase da operação caça político safado na Operação Lava Jato.

Hoje, amém, passou. Comecei cedo a cuidar do filho, do cachorro, da casa, dos emails. Abri o computador e a mão obedeceu. Iniciei o batuque. Até a invasão de um suposto vírus, o tal tranjan, tentou me levou ao mal caminho. Fui salva pelo moço da Apple, rápido e eficiente, que instalou um negocinho e ordenou: “senta-te e trabalha, mulher, tem quem queira ler seus textos.”

Obedeci. E fiquei pensando por que cai em tentação? Procrastinar é bom e vicia. Tipo assim comer chocolate em tarde de frio. Atire a primeira pedra, quem não? Não era apenas sexo, drogas e rock and roll. Acho que tinha medo e insegurança na parada. Perguntas silenciosas como: será que vai dar certo? Será que no final a Roberta vai querer editar o livro? Será que com essa crise o livro vai vender? Será que ele vai fazer a diferença?

A parte mimada, vaidosa e diabólica do meu cérebro foi tecendo um crochê de idiotas justificativas para eu não trabalhar e seguir em frente com o meu projeto. Mimada e amolecida pelos doze dias de dolce far niente, fui encontrando motivos razoáveis para seguir  enrolando. Resgatei até uma frase famosa dos meus tempos de redação impressa: “não faça hoje o que pode cair amanhã”. Isso fazia muito sentido na época do papel, quando as páginas eram distribuídas conforme o números de anúncios e a receita da publicação. Hoje em dia, é falsa justificativa para preguiça mesmo. Acelera. Em frente, marche.

Férias, agora entendi

Tenho 51 anos e vivo aprendendo coisas novas. Nestes últimos doze dias, aprendi o significado real da palavra férias. Aproveito para pedir desculpas àqueles que tiraram férias em minha companhia antes dessa descoberta.

Férias é um período de pausa, mas principalmente de mudança. Hora de trocar de ares, no caso de quem pode viajar. Hora de trocar de hábitos, em geral. Troquei muito de “ares”. Essa foi a primeira vez que mudei os hábitos. Simples e óbvio, mas eu era incapaz de fazê-lo. Achava que tinha que desbravar, percorrer e conquistar: milhas, lugares, restaurantes, estrelas, atrações. Tirava férias como eu trabalhava: sofregamente.

Dormir? Apenas as seis horas regulamentais. Sentar e ficar de boa? Só para recuperar o fôlego. Enquanto conhecia, tinhas ideias, criava pautas, negociava, vendia, planejava, respondia mensagens, telefones e E-mails. Sim, nestes doze dias respondi e-mails. Tinha hora para fazê-lo. Só à noite. Com calma. Perdi reservas ? Talvez. Paciência. Não vou morrer de fome por isso.

Nessas férias, aprendi inclusive a dosar o uso das redes sociais. Olhei poucos as timelines. Postei pouco também porque não ganho para isso e estava pagando (caro) para descansar. Nossa como os dias renderam. Nossa como vi, aprendi e conheci lugares.

Em meu último destino, Firenze, cidade dos meus antepassados, vi uma cena que me impactou. Uma casal chinês jantava no restaurante I Latini, no anos 80, o preferido da classe média fiorentina. No meio do jantar, com vinho e bisteca, o jovem chinês, cansado da maratona e meio embriagado de vinho Chianti, literalmente desabou sobre o prato. A mulher impassível seguir olhando a tela do iPhone 7 dela. O garçon, assustado, foi saber se estava tudo bem. O rapaz se recompôs um pouco, se encostou na parede, mas cinco minutos depois tombou novamente. A noiva seguiu no celular. Quando pedi a conta, comentei com o garçon a cena. Ele foi definitivo:

“- Não foi a primeira vez, nem será a última. Eles não tiram férias. Eles viajam como se estivessem em uma maratona. Não é prazer. É trabalho. Chega a noite, estão mortos. Eles têm dinheiro e eu tenho pena deles. ”

Ponto final. Que garçon danado de inteligente. Bravo!

Fazer a mala

mala

Abro a mala sobre o sofá e uma luz se acende. Paro tudo e reparo nela. Perdoem-me se parece estúpido ou ridículo, para mim é muito, muito relevante. Estou em estado de quase férias. Viajo segunda-feira, 8, depois de cinco meses de trabalho muito intenso. 7 por 24, sem qualquer exagero. Pela primeira vez desde 1987, faço uma mala com quatro dias de antecedência. Isso significa que pela primeira vez em 30 anos, tenho controle sobre o meu tempo e o meu desejo. Pude decidir e escolher deixar os textos que estou escrevendo para depois e focar nas roupas, nos sapatos, nos remédios e objetos que quero levar para o meu passeio.

É uma bobagem, eu sei. Tem gente que, inclusive, paga para outrem fazer esse serviço. Mas para mim está sendo importante. Parei para escrever porque queria deixar registrado na minha história, esse momento de enorme alegria e felicidade. De liberdade. De privilégio. De poder. De vitória.

Até já. Minha mala me espera.