Rua

Estava atrás da porta esperando quando ela, repentinamente, se abriu. Não sei quem foi porque do outro lado não havia ninguém. Empurrei a porta lentamente para espreitar o corredor. Vazio. Coloquei a cabeça para fora. Ninguém. Nada. Dei um passo, eu pus o corpo inteiro do lado de lá.

Cruzei a soleira. Estava fora. Atrás de mim a porta aberta e o passado. Não senti qualquer nostalgia. Também não senti saudade. Acho que é a idade. Estou perdendo a memória. Olhei para frente e caminhei. A porta aberta ficou aberta e eu não liguei quando entrei no elevador.

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Não sei o motivo, mas deixei tudo para a trás. O relógio. O iPhone. O MacBook. Nem me preocupei em desligar a conta do FB e do Insta. Que seja o que Deus quiser. O cachorro, que está velhinho, não ouviu a chave chacoalhando na porta. Só a gata me viu, mas preferiu ficar parada dentro. Fez a egípcia. Não quis me seguir, nem se aventurar. Não tem saudades do seus tempos de rua. Cuidará da casa, do cachorro, do menino e das histórias.

O elevador desceu direto. Amém. Não precisei sorrir nem dizer boa noite para a velha do nono andar. Não gosto dela. Ela me denunciou à síndica porque um dia desci com o cão pelo elevador social. Solidão amarga. Solidão caduca.

O porteiro gosta de mim e abriu o portão grande para facilitar minha saída. Ele não sabe, mas é meu cúmplice. Porta aberta, cachorro sai para a rua. Rua. Estou na rua. Na rua da  rua. Na rua da cidade. Na rua da vida. Rua.

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