De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

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A vida pode ser uma estrada, para quem gosta de viajar. Hoje, enquanto dirigia o ducentésimo quilômetro do dia, contava ao meu filho, Chico, que escolhi ser jornalista por três motivos: sonhava mudar o mundo, queria viajar muito e desejava, um dia, ser escritora.

“E o menino com o brilho do sol

Na menina dos olhos

Sorri e estende a mão

Entregando o seu coração

E eu entrego o meu coração”

De volta ao Começo,  Gonzaguinha

A história de hoje é longa. Bem textão. Tem a ver com estrada, viagem e jornalismo. Não terá lead. Será em partes.

Parte 1_agosto de 2014

Há mais ou menos três anos, deixei a grande imprensa. História velha. Todo mundo já sabe que fui demitida do emprego da minha vida. Tinha uma viagem de férias marcada. Fui porque, mesmo desempregada, não perderia a chance de fazer um tour que estava pago. Destino San Francisco, costa Leste, dos Estados Unidos. Foi lá que começa essa nova história.

Parte 2_setembro de 2014

No primeiro dia, eu e Nil, minha companheira de viagem, saímos para passear. Não andamos nem dois quilômetros e demos de cara com uma galeria de arte mexicana. Na vitrine, dois objetos de cerâmica começaram a piscar para nós. Eram uma árvore da vida e uma pilha de cinco cachorros com um galo no alto. Entramos para pedir o preço. Não era barato, mas também não era um absurdo. Agradecemos e resistimos ao impulso inicial de sair com as duas obras nos braços.

No dia seguinte, sem querer querendo, fizemos o mesmo caminho. De novo, árvore e cachorro abanaram e piscaram para nós. Nil, mais audaciosa e ousada do que eu, entrou na galeria e anunciou: são meus. Pagamos e combinamos de buscá-los dali dois dias, quando estaríamos de carro. Feito. Os dois embrulhos gigantes (mal embrulhados) foram para o fundo do carro, onde sofreram os primeiros e únicos danos.

Viajamos mais de 2000 quilômetros chacoalhando pela costa Oeste, Vegas e Gran Canyon. Quando chegamos em Los Angeles, a última escala, percebemos que tínhamos dois trambolhos que não podiam ser despachados na mala. Viramos a cidade atrás de sacolas, que os abrigassem. Ironia. Destino. Foi na loja do Exército da Salvação que encontrei uma sacola usada para entregar antigos layouts de revista que vestia como uma Luca a minha árvore cabia. Os cachorros divididos em dois blocos foram para duas malas de rodinhas, que embarcaram conosco.

Check in e, por milagre de nossa Senhora de Guadalupe, a turma do aeroporto não implicou com o tronco da árvore, pesado e duro o suficiente para atentar contra toda a tripulação da Delta Airlines. Resumo: chegamos em São Paulo vivos e quase inteiros. Na pousada A Capela, em Arembepe, descobri que a orelha do cachorro rosa tinha se quebrado. Antes que conseguisse restaurar, o pedaço se perdeu. Mesmo sem uma orelha, família de cães e árvore da vida trouxeram uma imensa e profunda novidade em nossas vidas.

Parte 3_novembro de 2014

Primeiro, escrevi um texto usando a árvore como ilustração para falar de amizade. Segundo: por serem tão lindos e chamarem tanta atenção, percebemos que deveríamos enfeitar nossa Capela apenas com legítimo artesanato, com obras de arte popular. Começava com aquelas duas obras de um desconhecido senhor Ortega S, que assim assinava as peças, uma paixão, um novo trabalho, uma missão e o prazer pelo pé na estrada.

Parte 4_março de 2015

Sim, porque mesmo sem perceber, mudamos, mudamos e voltamos aos começos que deixamos pela estrada.

Lá estava eu, pesquisando e entrevistando pessoas para descobrir os encantos da arte popular brasileira. Com caminhonete e waze, viajamos pelo interior de Alagoas, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Fomos à feiras, fizemos inúmeras amizades e descobrimos a linda ética de artistas e dos caminhoneiros de carga fracionada. Encomenda-se, paga-se e tudo chega certinho no endereço combinado. Fio de bigode, admiração e confiança. Esta é a lei. Sim, pode demorar seis meses, às vezes o tempo do artista, mas chega.

 

Parte 5_junho de 2016

Com a pousada enfeitada de obras lindas, que nos davam orgulho e distinção, começamos a ouvir de alguns hóspedes a pergunta: “está a venda?”. Sim, estava.

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Sim, assim nasceu a Coisas da Ninoca, a loja conceito que criamos, digo de brincadeira, por dois motivos: entreter os hóspedes nos raros dias de chuva e ter um motivo nobre para sair viajando por aí.  Em novembro, ela faz uma ano. Rende um dinheirinho, um emprego, do eficiente Almir, e um imenso prazer. De volta ao começo, nos permite viajar, ouvir histórias, que depois escrevo ou conto, e mudar o mundo. Sim, mudar o mundo porque ajudamos a girar uma economia criativa, genial e generosa. Pessoas de todas as idades, origens e gêneros, que vivem do seu fazer e do seu incrível talento imaginário. Artistas. Artistas populares. Artistas geniais.

Desde os primeiros pedidos de “está à venda”, combinei com Nil que venderíamos quase tudo porque a ordem era desapego. As exceções seriam o começo de tudo: nossa árvore e nossa pilha de cachorros. Invendáveis. Claro que ambas eram as campeãs de audiência dos pedidos.

 

Parte 6_novembro de 2016

Que tal ir ao México procurar mais árvores da vida e cachorros empilhados?

Parte 7_junho de 2017

Foi o que fizemos no final de junho e aí começa o pedaço mais lindo dessa história. Chegamos achando que íamos aterrisar e dar de cara com dezenas de peças de Ortega S. Afinal, ele era mexicano…. Estupidez picante como o chili do café da manhã. Rodamos, rodamos e nada se parecia com a arte de Ortega S.

Sacudi a poeira do tempo e lembrei dos tempos de repórter missão impossível. Naquela época pré-google, as ordens chegavam assim: “acha fulano” e a gente, muito jovem, não conseguia nem entender direito o nome do fulano. Mas se queria seguir sendo repórter da maior revista do país, dava um jeito o achava. Com uma foto da assinatura do Ortega S comecei a pesquisa no dia 1 de julho. O google México ajudou, foi generoso. Mandou opções que não aparecia em São Paulo. Fui mergulhando, fuçando e achei uma página simples, tosca, com peças – que eram iguais as minhas – um endereço em Jalisco, um email e dois telefones. Tentei tudo. Consegui resposta por email e WhatsApp.

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Gerardo Ortega Lopez, um dos irmãos Ortega, na foto acima com seu filho cadete, me respondeu de início ressabiado. Fomos trocando mensagens e resumi bastante a história. Disse que estava na Cidade do México e que tinha vindo do Brasil comprar peças dele, que queria conhecê-lo e faria qualquer coisa que fosse necessário para viabilizar meu plano. Primeiro ele sugeriu que eu fosse até San Miguel Allende, onde existem peças da família à venda em lojas. Depois, Gerardo percebeu que a minha paixão era verdadeira e sugeriu que eu fosse até Tonalá, direto do atelier deles. O preço seria melhor. A emoção foi maior.

Parte 8_4 de julho de 2017

Acordamos cedo e partimos. Mais de 550 quilômetros. Muitos dólares de pedágio. Poucos dólares de gasolina, comparado com a nossa. Algumas voltas por culpa nossa e do waze. Chegamos à Colônia Santa Cruz de Las Huertas. As ruas eram simples, decoradas com bandeirolas de São João. Na internet, havia visto a foto da casa, pintada de roxo com um galo ao lado da porta. De longe identifiquei e o coração bateu acelerado. Estacionei e na porta me esperava Oscar Ortega López, irmão de Gerardo, que tinha saído para um compromisso.

 

Entramos. O ateliê era igual a dezenas de ateliês que conheci nos últimos dois anos, correndo atrás de arte popular. Zero de luxo. Zero de charme. Zero de glamour. Beleza pura apenas nas peças, em geral, expostas de modo tosco.

Nos fundos da casa, outros membros da família pintavam peças que seriam vendidas em breve. Eu já havia feito uma encomenda a Gerardo, que participará no final de semana de um concurso mexicano de arte popular.

O saber fazer peças lindas está na família há quatro gerações. “Aprendemos criança, de pai para filho”, conta Oscar. “Quem gosta faz, quem não gosta, busca outra profissão.” Eles trabalham em grupo. Olhando ao redor, bairro incluso, é difícil entender de onde vem a inspiração para tanta riqueza e beleza. Sentada no chão com eles, embalando peça a peça, percebi que a inspiração vem da alma deles, colorida, intensa e naif como as cerâmicas que modelam.

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Compramos tudo o que podia ser comprado e que cabia dentro das malas que trouxemos do Brasil. Para fora, de novo, uma árvore da vida e uma pilha de três cachorros e um galo, que ainda vamos decidir como viajam.

Na porta, uma aperto forte de mão e a foto que ilustra esse textão. Oscar também estava orgulhoso e emocionado. Demos então meia volta em direção a Oaxaca, destino das nossas férias.

Na estrada, no papel de copiloto, escrevo uma mensagem para agradecer Gerardo pela recepção e pelas belíssimas obras. A resposta dele foi encantadora, um abraço quente.

“Muchissimas GRACIAS a ti. Nos haces sentir muy muy orgulhosos de que tu vengas de tan lejos, Brasil, a comprar nuestra arte. No se como agradecerte. Suerte siempre para ti y tu negocio.”

Parte 9_6 de julho de 2017

Agradecer.

Como explicar a ele a mudança que o trabalho dele provocou em minha vida?

Como agradecer a altura tudo o que ele e a família dele fizeram por mim?

Como traduzir, no meu espanhol de esquina, o impacto da descoberta desta nova beleza e deste novo trabalho, a pesquisa e o garimpo de arte popular, justo naquele momento em que eu tinha uma janela aberta à minha frente e ainda não sabia que sabia voar?

Como exprimir a minha satisfação de repórter aposentada, apenas pelo fato de ter conseguido encontrá-lo em uma colônia mexicana depois de três anos de buscas fracassadas?

Acho que só tem um jeito. Voltar correndo para o Brasil, fazer uma linda exposição na Ninoca para poder em breve fazer novas encomendas e outras, e outras e outras. De volta ao começo. É assim que deve ser.

E eu entro na roda

E canto as antigas cantigas

De amigo irmão

As canções de amanhecer

Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho

Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito

Com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse que a força

Esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente eu chegasse

Ao fundo do fim

De volta ao começo

Ao fundo do fim

De volta ao começo

 

 

 

 

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10 comentários sobre “De volta ao começo e, ou, como a família Ortega mudou minha vida

  1. Cláudia, te conhecendo, a Nil e A CAPELA onde vi o carinho com o qual as peças são tratadas, achei o máximo o texto e imagino a alegria ao arrumar tudo novo por lá na pousada! Bela história de vida! Sucesso mais e sempre! bjs,chica

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  2. Sempre leio e nunca comento. Hoje vou estrear dizendo o quanto sua história me tocou. Impossível não pensar um instante nessas situações da vida onde um acaso (ou não?!) muda os rumos de tudo e dá outro sentido ao incerto.
    Que bom que vocês encontraram alegrias pelo caminho! 🙂

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