Oportunismo é o lado negro da força da oportunidade

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Sempre ouvi que a crise é o momento perfeito para aqueles craques em encontrar oportunidades onde os pernas-de-pau só acham buracos na grama. É verdade. Mas é uma verdade perigosa, mentirosa, escorregadia, viscosa, nojenta e repugnante quando alguns malandros confundem oportunidade com oportunismo.

A primeira semana de fevereiro parece que abriu os bueiros e ralos para cobras, escorpiões e lacraias, em geral, saírem do bueiro à procura de otários. Topei com um ontem. Tropiquei com outro hoje. Vou contar minha saga, porque quem não tem crachá carece de departamento jurídico e quem não tem diploma de direito toma cada susto.

A Pousada A Capela não é uma Coca-Cola. É uma pousada simples, bonitinha, honesta, com serviço decente, prestado por uma equipe dedicada, gentil e feliz. Labutamos muito. Não ganhamos milhões, mas estamos, satisfeitos, vivendo nosso quarto ano de casa cheia. Nossa marca não é trend top. Nossa marca não vale milhões. Nossa marca não havia sido registrada no INPI, porque o que importa, na prática, é o registro do CNPJ, o alvará de funcionamento, a URL do site (esta, sim, registrada), o endereço físico, a plaquinha na porta e o serviço nosso de cada dia. Acontece que a nossa pousadinha ganhou alguns prêmios e volta e meia aparece na mídia. Outro dia mesmo, a capelinha foi cenário de uma entrevista sobre contracultura (que heresia) e sobre o museu a céu aberto na aldeia hippie de Arembepe. Essas coisas, que na prática valem pouco, muito pouco, no mundo dos larápios, são pretexto para um golpe(zinho). Foi o que rolou hoje.

Estava eu labutando bem cedo, quando tocou o telefone. Número de São Paulo. Um escritório de sei-lá-o-que, porque não entendi direito o que a mulher-máquina-marketing-telemarketing falava. Falou, falou, falou e com esforço entendi que ela questionava o fato de a marca Pousada A Capela não ter sido registrada. Dizia haver alguém,  cliente dela, interessado na mesma para abrir uma pousadinha em Ilhabela, São Paulo. Respondi que não sabia e ia averiguar. Desliguei. Segundos depois, recebo um email de outra empresa oferecendo serviços caríssimos para registrar a minha marca no INPI. Pediam 2 contos pela assessoria jurídica mais um monte de outros contos pelo trabalho de registro.

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Black light. Acendeu a lâmpadinha eureka do mal. Tinha bububu no bobobó ou Donald Trump, o novo rei do Universo Paralelo, havia assinado um decreto celestial fazendo todas as marquinhas serem tão desejadas e valiosas quanto “a maçã”, “o buscador”, “o carro”, “o refrigerante”. Olhei a timeline do portal. Nada de novo além do Alexandre Careca. Novo sinal de alerta para a picaretice oportunista dos malandrinhos de plantão.

Me fiz de idiota, porque no fundo sou mesmo. Respondi agradecendo os serviços e fui à luta. Na minha antiga encarnação, registrei um milhão de marcas, que de tempos em tempos ficavam ameaçadas de caducar. Uma vez por ano, fazia uma revisão. Matava algumas. Sustentava outras. O jurídico era quem fazia a burocracia para mim, mas felizmente sempre soube o caminho das pedras.

Hoje fui lá, tipo João e Maria, catando as pedrinhas no site do governo. Pesquisei se algum gaiato havia registrado minha marquinha. Petição negada. Rumei para o botão de pagamento e imprimi um GRU para chamar de meu. Paguei R$ 142 no Banco do Brasil e parti para o registro. Qualquer ser alfabetizado faz. Escolhe a categoria. Preferi a mista para proteger meu logo. Apliquei o nome. Mandei a marca digitalizada. Selecionei o setor, no meu caso serviço + hotel. Dei enter. Cento e quarenta reais e cinco cliques depois, o registro estava em processo, com todos os documentos impressos, bonitinhos, na minha mão. Sim, pode até ser que os gaiatos tenham feito o mesmo que eu horas antes de me telefonar e teremos uma guerra de pulgas contra formigas nos próximos capítulos. Dane-se. Rebatizo a pousada de “Pousada A Capela com as deliciosas coxinhas da Nil”ou “Pousada A Capela da dona sem crachá.

O olho do furacão dessa história é o maldito oportunismo daqueles que preferem tentar ganhar dinheiro fácil às custas de quem trabalha duro e decentemente. Fiquei pensando no tipo de empreendedor que cria uma empresa para buscar oportunidades de extorquir dinheiro. Que fica vasculhando caminhos para ganhar dinheiro fácil de incautos e distraídos. Tipo Eduardo Cunha que fez todos os registros digitais possível com o nome/marca de Jesus. Quer abrir um site “jesusteama.com.br”? Tem que comprar o registro do presidiário mais inominável do país.

O outro caso que aconteceu comigo foi de natureza diferente. Um empresário estrangeiro me ofereceu serviços para instalação de um sistema de energia alternativo. Me interessei e comecei a pesquisar. O que ele dizia de fato fazia muito sentido. Valia a pena. Era um bom negócio. Me interessei mais. Fizemos outra reunião. Ele trouxe um orçamento. Fui à luta. Fiz aquilo que todo empresário, micro, pequeno, médio ou grande, deve fazer antes de fechar um contrato: pesquisa. Pesquisei o assunto. Pesquisei fornecedores. Pesquisei preços. O amigo gringo, simpático, inteligente e aparentemente eficiente, tinha um preço de uma centena e algumas dezenas de milhares de reais a mais por conta da “assessoria/mordomia”que ele prometia oferecer. Coisas do tipo: “abro sua conta no banco”, “aprovo seu financiamento”, “resolvo sua vida”. Perguntei algumas vezes como ele ganharia o dinheiro dele e o gajo nunca foi claro. Nem, ao menos, cravou: “ganho 20% sobre o valor total do serviço”.

Na segunda-feira, quando disse que faria com outro fornecedor com preço melhor e igual qualidade, o homem subiu nas tamancas. Ficou bravo, muito bravo e sugeriu que eu estava sendo desonesta. Que havia me aproveitado dos estudos feitos por ele para tomar minha decisão. Pensei um bocado antes de responder. Fiz e refiz o texto do whatsapp algumas dezenas de vezes. Respirei fundo. Abri mão da minha razão. Abdiquei da vontade de falar algumas verdades, de protestar contra o preço abusivo, de evocar meu estilo mão na massa. Apenas pedi desculpas, lamentei, disse que havia feitos pesquisas  e que decidira por uma soma de fatores. Agradeci a atenção. Agradeci os votos irônicos de sucesso. Desejei sinceros sucessos e deletei a mensagem.

Em tempos de crise, é melhor ficar longe de cobras e lagartos.

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3 comentários sobre “Oportunismo é o lado negro da força da oportunidade

  1. Cláudia, um dia ainda vou conhecer sua “Capela”… Aí poderemos conversar um pouco pessoalmente!! E parabéns pela perspicásia, esse tipo de sujeito têm em todos os lugares e negócios!! Grande Abraço.

    Felipe Farias

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  2. Reading this text again to see if it fits my situation, and fits perfectly. Opportunism is even the dark side of the force of opportunity, and it’s bad enough, worse still is when the blow comes from a “friend.”

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