A primeira noite de um homem 2 ou a noite em que meu filho ficou grande

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– Mãe, eu vou tocar violão. Quer ouvir?

O convite era um prenúncio, mas eu não sabia. Respondi sim, claro. Sempre quero ouvir qualquer violão. Sempre quero ouvir o violão dele. Não, não tem letra maiúscula. Me controlo.

O convite, é preciso dizer, era inusitado. Nestes quatro nos, sempre implorei por apresentações e serenatas. Sugeri cachês, propinas e subornos. Lava jato não me pegou, porque nunca logrei sucesso. Ele só tocou quando e porque quis.

Ontem ele queria. Seria um dia especial. Foi um dia especial.

Com o violão malhado de Bela nos braços, ele cresceu. Cinco anos em duas horas de espetáculo. A voz solta e potente em nada lembrava o menino com quem eu cantava “numa folha qualquer eu desenho o sol amarelo”. Confiante, exibia força, peso e estatura. Sem vergonha. Sem timidez. Meu menino era homem.

Cresceu. Emocionada, lembrei do exato dia em que descobri que ele não era mais um bebê. Era verão como ontem. Estávamos na praia sozinhos. Tive uma intoxicação alimentar e me tranquei no banheiro para vomitar os demônios que invadiram minha barriga. A certa altura do meu tormento, ouço um toctoc na porta.

— Mãe, você precisa de ajuda?

Meu bebê, então com cinco anos, crescera. Já era capaz de ficar só e de me oferecer ajuda. Faz tempo que ele bate na porta e pergunta se eu preciso de ajuda. Faz tempo que é jaqueira e, frondoso, me faz e me oferece sombra. Me deleito e descanso tranquila sob a copa dele. É tão extraordinário ser a mãe do Chico.

Ontem foi assim. No início da serenata, eu ainda era a Claudia. Atenta, preocupada, junto, olhando em volta, conferindo a audiência, sugerindo roteiro e trilha. À medida em que soltou a voz, eu o vi crescendo. Sedutoramente, ocupou todos os espaços com a música dele, a presença dele, a força dele. Deixei de olhar ao largo. Abandonei os cuidados com o entorno. Relaxei. Me fiz plateia. Me deixei ser tiete. Me espantei com o tamanho e a senhoridade. Me enchi de orgulho. Me embriaguei de vinho branco, verde e de prazer.

Você escolheu a saideira e encerrou a noite lá no alto. Muitos beijos, muitos parabéns, muitos comprimentos e um pedido de foto. “Vem Chico, tirar um retrato comigo. Quando você virar artista vou mostrar a todos que assisti a um dos seus primeiros shows”, pediu Augusta.

Não sei se serás artista, mas desejo que continue sendo Chico na vida. Prometo estar ao seu lado apoiando suas escolhas, especialmente aquelas que não forem do meu agrado. Isso é prova de amor. Amor temos muito. De mim para você. De você para mim.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

 

 

 

 

 

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