Bem-vindo a era do pós-emprego. Sem crachá, sem salário e com propósito

Na era do pós-emprego, o trabalho formal se precariza, muda de natureza e adquire novo sentido associado a causas, ao prazer e ao empreendedorismo social

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Há exatos 20 anos, o economista Jeremy Rifkin e o consultor William Brigdes, ambos norte-americanos, lançaram dois livros gêmeos: O Fim dos Empregos e Um mundo sem empregos. O assunto era moda nos Estados Unidos, porque uma crise econômica lambia o mundo. À época, a crítica considerou Rifkin excessivamente pessimista e apocalíptico. Bridges foi chamado de marqueteiro porque oferecia um guia de auto-ajuda para executivos fadados a sobreviver sem crachá. No Brasil de FHC, com o início da estabilidade econômica e o fim da inflação, a conversa era outra. Renato Russo, do Legião Urbana, cantava Música de Trabalho, sucesso do disco A Tempestade, para protestar contra os empregos (abundantes) com salários miseráveis e o trabalho como falsa identidade do indivíduo.

Sem trabalho eu não sou nada

Não tenho dignidade

Não sinto o meu valor

Não tenho identidade

Mas o que eu tenho

É só um emprego

E um salário miserável

O tempo correu e todos tinham razão. O trabalho na forma de emprego e crachá corporativo se tornou identidade das gerações Coca-Cola, yuppie e geração X. Hoje, o mundo sombrio desenhado pelos autores norte-americanos é um pouco mais cinza. O último Fórum Econômico Mundial (WEF), realizado em janeiro de 2016 em Davos, na Suíça, teve como tema  “A Quarta Revolução Industrial”. A partir dela, a expansão das tecnologias emergentes no setor produtivo fará com que 5 milhões de empregos sejam extintos em 2020, em quinze economias, que correspondem a 67% da força de trabalho global.

A escala é massiva. Quase metade (47%) de todos os trabalhos nos EUA e 35% na Grã-Bretanha estarão suscetíveis à automatização pela tecnologia nas próximas duas décadas, de acordo com a a revista The Economist e os pesquisadores da Universidade de Oxford. A Consultoria McKinsey relatou em estudo recente que 140 milhões de trabalhos poderão ser automatizados até 2025. Vivemos a Era do Gelo do emprego. Ele está em extinção como os dinossauros e derrete como picolé no deserto. Na opinião de Klaus Schwab, presidente e fundador do Fórum de Davos, é um caminho sem volta. “Só com uma atuação urgente e focada, a partir de agora, será possível gerir ests transição a médio prazo e criar uma mão de obra com competências para o futuro. Sem isso, os governos enfrentarão desemprego crescente e constante e muita desigualdade”, alerta Schawb.

O processo está em curso e é mais intenso em algumas áreas do conhecimento. Se você é amigo de jornalistas, administradores, prestadores de serviço, deve estar acompanhando o desespero da turma. Dessa vez, é diferente do que ocorreu nas revoluções anteriores. Antes, quando uma inovação tecnológica ameaçava a perda em massa dos empregos num setor, um novo segmento surgia para absorver a mão-de-obra excedente. Hoje a conta não fecha. O menos é maior que o mais. Estima-se que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. E o que existe, não existirá mais. As áreas administrativas e de escritório serão os mais afetados. Vão sofrer também segmentos da medicina impactados pelo avanço da telemedicina, seguidos pelos de energia e indústria, construção e extração, entretenimento e comunicação, e ainda, o setor jurídico. Já os setores de negócios e operações financeiras, gestão, computação, arquitetura e engenharia, vendas, educação e treinamentos juntos terão um crescimento de 2 milhões de empregos. Apesar da expansão do setor do conhecimento, 2 menos 5 é igual a 3. Serão três milhões de empregos a menos. Duro.

A Arca de Noé dos que sobreviverão com crachá tem uma lógica própria, segundo o especialista em futuro e tecnologia, Bruno Macedo, autor do texto O fim do emprego e a ascensão do trabalho com propósito na era das máquinas inteligentes. “Haverá uma maior demanda por especialistas em big data, desenvolvedores de Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias emergentes e, também, por vendedores especializados. As mulheres poderão ser as mais afetadas com o declínio dos setores administrativos, escritórios e vendas. A matemática segundo o relatório de Davos será: a mulher perderá cinco empregos para ganhar um, enquanto os homens ganham um emprego perdendo três.” Sem exagerar, quase todos perderão, com exceção dos gênios.

Não sou gênio. Tenho mais de 50 anos. Sou mulher. Me tornei estatística em 2014. Perdi meu emprego de 23 anos. Ainda não conhecia a matemática de Davos, mas rápido percebi que não havia outro crachá para pendurar no meu pescoço àquela altura do campeonato. Intuitivamente, embarquei na nau dos descobridores do trabalho com propósito na era do pós-emprego. Mulheres e crianças primeiro. Não há motivo para festa. Não há motivo para pânico. A mudança é inexorável. A existência será precária, mais simples e possível. Menos será mais. Vou explicar.

Antes de falar do propósito, a parte legal, incrível, dessa história, vamos pingar alguns is. O sistema segue sendo capitalista e a lógica do lucro mantém-se acima de todas as coisas. O que mudou? Na época do trabalho clássico, dos tempos do capitalismo fordista, as relações eram opressoras e muito claras. Patrão x empregado. Lucro e mais valia. Quem trabalhava recebia salário e contava com seus direitos trabalhistas, defendidos pelo sindicato da categoria. Havia hora para entrar e hora para sair. O que passasse disso, virava hora extra, remunerada com um valor superior ao da hora normal. As regras eram claras. Uma vez por ano, campanha salarial por aumento. Podia ser ruim como na música do Legião Urbana, mas era certo, seguro e combinado.

Hoje tudo mudou. A fábrica está na metrópole. A fábrica está em nossa casa. Os bancários ficaram em greve por mais de um mês e ninguém ligou. A grita foi dos velhinhos que não sabem mexer no computador e de quem precisava fazer uma transação presencial. No mais, tudo está na nuvem. O sistema financeiro funciona 24 por 7 e alguns correntistas são atendidos por “gerentes digitais”. O Fábio que me atende, por exemplo, trabalha na casa dele. Se for à agência não vou encontrá-lo, mas posso receber a resposta de um whatsapp às 22 horas. “A metrópole é o paradigma pós-industrial, onde se trabalha o tempo inteiro em um trabalho precário, mal-remunerado e, às vezes, sequer reconhecido como trabalho”, descreve Giuseppe Cocco, cientista político italiano radicado no Brasil e professor Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele abordou o tema em uma palestra ministrada no ciclo Metrópoles: Territórios, governamento da vida e o comum, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (link para a palestra http://uninomade.net/tenda/da-fabrica-a-metropole/). “Não é a toa que se discute o PL 4330, da terceirização, e que se multiplicam os estagiários onde antes haviam trabalhadores formais. Os jovens do setor da criação (publicitários, cineastas, atores, artistas, etc.) entram no mercado com contratos temporários ou informais, sem direitos trabalhistas e a mão de obra não qualificada é terceirizadas, às vezes quarterizada. Na metrópole, trabalha-se para poder trabalhar’, diz Cocco.

Enquanto escrevo este texto, sinto na pele – ou melhor, nos dedos, nos ombros pesados e na cabeça cheia de assunto – essa urgência. Preciso produzir conteúdo para tentar vender projetos. Procuro, sem certeza de sucesso, personagens dispostos a falar sobre contracultura por causa de um museu que pretendo montar. Troco de página no Facebook e faço um post para divulgar meu site e uma palestra que farei na próxima semana. Feito isso, abro o site do Booking.com para checar reservas e melhorar a oferta de preços da minha pousada. Trabalhar para poder trabalhar é a condição da precariedade. A quarta revolução industrial impôs o precário como modo de vida para a maioria. A precariedade é um modo de subjetivação, afirma o professor Cocco. Se antes educação e saúde eram direitos universais, que garantiam certa estabilidade na esfera da reprodução, hoje são bens privatizados que devem ser acessados por meio do crédito para que, constantemente, invistamos em nós mesmos, de modo que permaneçamos empregáveis. “Isso nos torna precários, e o precário é um sujeito endividado”, afirma Cocco.

Ele tem razão. Para não perder o passo e o espaço para a máquina tecnológica, somos forçados a trabalhar sobre nós mesmos o tempo todo. Não basta faculdade, é preciso ter master, pós, mestrado e doutorado. Para garantir empregabilidade, não basta mais ter a força-de-trabalho para vender. É preciso ter ideias inovadoras, geniais e disruptivas. O capitalismo cognitivo explora também a criatividade e a produção de subjetividade, parasitando todos os fluxos criativos. Somos cobrados para existir (saúde como mercadoria), para aprender (educação como mercadoria), para nos mover (transporte como mercadoria), para nos comunicar (conectividade é condição de sobrevivência) e para nos divertir. Na ponta mais sofisticada do parasitismo capitalista dos fluxos estão, veja só, as redes sociais. O amigo Facebook é de graça, mas ele não nos paga pelo conteúdo bacana que produzimos. E sem conteúdo legal, o algoritmo nos deixa invisíveis.

Tem saída? Mesmo precária, conceitualmente endividada e vítima do capitalismo cognitivo — que se baseia na exploração da criatividade e da produção da subjetividade –, acho que tem. A minha crença não é fruto apenas do meu otimismo. Existe um novo processo de subjetivação em curso. O termo, para o filósofo Alain Touraine, define “a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito”. Essa é uma das marcas da sociedade contemporânea. Quando o “estabelecido”, os sistemas e as instituições começam a ruir surge um espaço para o novo, para o diverso e para o diferente. Jeremy Rifkin estava certo quando previu que nada seria como antes na hora em que o “emprego”, enquanto forma de normatização do trabalho, estivesse se decompondo.

É nesse ponto que surge a ideia do trabalho com propósito. É nessa curva de rio que a esfera cultural ganha proeminência. É nesse instante de absoluta precariedade e conflito, que a subjetivação procura uma forma de escapar da pressão por meio da construção de laços de forma reflexiva e criativa. Preciso citar novamente Alain Touraine. Para ele, a subjetivação se dá sob a forma de conflito, de luta contra poderes que limitam a autoconstrução, resistindo ao mundo impessoal e de consumo, à lógica de mercado, e à violência da guerra. Esse processo é indissociável da luta pela afirmação de direitos universais (igualdade política, jurídica, etc.) e específicos (pela liberdade, pela particularidade). Essa “causa” seria um conteúdo fundamental da subjetivação. Como ele afirma: “sente-se sujeito apenas aquele ou aquela que se sente responsável pela humanidade de um outro ser humano”.

O trabalho com propósito é repleto dessa força. Deve proporcionar sustento para quem o realiza, mas essa não é a sua razão primordial. Prazer e felicidade superam em relevância o modelo tradicional do “bom emprego” das pessoas “bem-sucedidas”. Os jovens milennials, nascidos entre 1980 e 2000, foram os primeiros a reivindicar atividades produtivas que proporcionassem diversão, bem estar e realização pessoal. Ao grupo, a cada dia, se juntam ex-yuppies, ex-executivos e ex-bambambãs filhos das gerações X e Coca Cola, nascidos entre (1960 e 1980), que foram cuspidos de suas companhias. Gente como eu, que desfrutou de todas as mordomias e de todos as pressões do mundo corporativo, e percebeu que era hora de mudar.

Mudar pra onde? Mudar como?

Se fosse possível, o ideal seria mudar para Marte para facilitar a transformação. O trabalho com propósito precisa ser completamente diferente do tradicional. Uma das chaves do sucesso dos empreendedores com causa é deixar tudo da outra encarnação para trás. A saber:

  • estamos falando de uma nova filosofia de trabalho que aposta na transição do “work to” (trabalhar para) para o “work with” (trabalhar com);
  • o crescimento deve ser orgânico e sustentável;
  • o risco, a perda e a falha devem fazer parte da natureza do negócio. É preciso haver liberdade para criar e arriscar. É fundamental saber perder;
  • doar parte do lucro pode ser uma das chaves do sucesso;
  • produzir impacto social é condição;
  • ter uma estrutura horizontal, franciscana e enxuta;
  • operar em rede com colaboradores, fornecedores e consumidores, numa equação de ganha-ganha e múltiplas parcerias;
  • aprender a operar com pouco custo, zero desperdício e muito compartilhamento;
  • aprender a viver com menos para poder ganhar menos e viver com menos pressão, menos angústia, menos sofrimento e menos ansiedade. O paradoxo/equação do – = +.

 

Propósito.

 

Menos.

 

Anote essas duas palavras em seu smartphone. Você irá ouvi-las muitas vezes nos próximos anos. O mundo precisará de pessoas sensíveis, lógicas e com capacidade de se moldar às mudanças no presente e futuro.

A adaptação ao “desconhecido” (o que está por vir) será a única de superar as incertezas do mercado. “O amanhã será governado por ambientes caórdicos (caos + ordem), subversivos, divertidos, fluídos, flexíveis em que prevalece a inteligência coletiva, as lideranças rotativas, conduzido por algoritmos e plataformas e que têm como base a ampla conectividade e o propósito. O mundo amanhã vai ser completamente diferente do que é hoje”, avisa Bruno Macedo. Quem olhar para o lado verá que a quarta revolução industrial está desmontando os modelos tradicionais, um a um, substituindo-os por negócios disruptivos. Exemplos? A TV aberta sendo substituída pelo consumo de imagens on demand no You Tube ou no Netflix rodando no smartphone. Jornais e revistas minguando pela força do consumo de informação digital. O compartilhamento de ativos pessoais, como carros, vagas de garagem e carros, reduzindo o tamanho do mercado automobilístico e ao mesmo tempo diversificando as fontes de receita das pessoas.

 

A vida com plano B

 

No século passado, plano B era um recurso utilizado para quando tudo dava errado. Ninguém queria ter um plano B. Ele era sinal, símbolo e signo de fracasso. Hoje, plano B é condição. Deveríamos aprender a construí-los ainda no ensino fundamental, junto com as operações aritméticas. A razão é singela. Todo mundo vai precisar de um plano B em algum momento da vida, especialmente se der tudo certo e ela for longa e saudável. A novidade da vida sem crachá e com propósito é a possibilidade, bem-vinda, de todos termos múltiplas carreiras. O que isso quer dizer? Que deixou de ser vexame mudar de carreira e atividade ao longo da vida. A jornalista norte-americana Jessica Stillman, do site Inc.com, defende que este é o momento de assumirmos “carreiras slashes”. Slash é o termo em inglês que define a barra de separação. “Por muito tempo eu tinha vergonha de usar a “/” , porque ela fazia a minha carreira parecer híbrida. Eu era atriz/autora teatral/ escritora free-lancer/colunista/jornalista. Eu me sentia pouco séria, indefinida e inconsistente”, escreve Jessica. Ela mudou de ideia quando olhou ao redor e percebeu que a carreira “monocromática” é que era a exceção. “A economia mudou e o trabalho tornou-se fluído. Explorar diferentes possibilidades de atuação profissional e pessoal é o que nos fará crescer”.

A história da publicitária/jornalista/designer e agora artesã paulistana Beth Klock é exemplar. Depois de perder o último emprego em uma grande editora, ela percebeu que não teria nenhuma chance de recolocação. Também não tinha mais idade nem saco de trabalhar com publicidade, assessoria de comunicação ou estratégia. Partiu então para o design. Começou a desenhar com os dedos na tela do iPad. Definiu um estilo próprio e lindo. Usou a rede social para divulgar seus talentos. Graças ao grupo Dots, uma rede fechada de empreendedores individuais, micro e pequenos, encontrou parceiros e clientes. “Comecei como passatempo, como válvula de escape. Fui postando os resultados, as pessoas foram gostando e passei a levar isso a sério. Começava ali a minha nova vida”, diz Beth, que recomenda aos que estão à procura de um rumo experimentar fazer coisas que nunca fez antes. “Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento?”.

O cientista norte-americano Ray Kurzweil, um especialista em tendências e futurologia, é otimista quando o assunto é trabalho + propósito. Ele acredita que no futuro próximo vamos trabalhar menos e com prazer. Que precisaremos de menos e que tudo custará menos dinheiro também. Ele justifica sua tese a partir do desenvolvimento da tecnologia, que barateia os bens de consumo e faz o trabalho chato pelos humanos. Para sustentar esse modelo, ele defende uma política efetiva de bem-estar, que batizou de “renda básica universal”. Parece muito com o projeto do “Renda Mínima” do vereador eleito por São Paulo e ex-senador Eduardo Suplicy. A equação, segundo Ray, é simples. A renda universal básica é uma forma de seguro social, onde cidadãos e residentes de um país recebem, de forma regular e incondicional, uma quantia de dinheiro do governo ou de alguma instituição pública, independente de qualquer outra renda que por acaso recebam. “Realmente temos de repensar o que devemos fazer de nossas vidas. Temos um modelo econômico onde as pessoas trabalham, ganham seu dinheiro, e então podem comprar as coisas que precisam. Mas, nós vamos chegar a um ponto em que não vamos precisar de muito dinheiro. Teremos impressoras 3D que por centavos podem imprimir todas as coisas físicas de que você precisa. Não vamos precisar trabalhar para produzir estes produtos…”, defende Kurzweil. A ideia dele é um imposto de renda ao contrário. O governo paga para o cidadão sobreviver em um modelo open source. “No futuro, manteremos o trabalho, mas num conceito movido para o modelo onde você faz algo por paixão e de que você gosta e que lhe permita mover-se na hierarquia de Maslow e ter satisfação. É possível que a gente trabalhe menos mesmo.”

A chef de cozinha paulista Bel Coelho, 37 anos, bate panela pelo “menos”. Depois de estudar em grandes escolas de gastronomia, como o americano Culinary Institute of America (CIA) e o espanhol El Celler de Can Roca, brilhar à frente de várias casas badaladas da capital paulistana, ficar famosa na TV e ganhar muitos prêmios, ela disse: chega, basta, fim. Decidiu lutar por menos. Viver com menos. Simples assim. “Quem quer ser muito rico não pode se espelhar, nem se inspirar, num negócio como o meu”, escreveu Bel Coelho para o projeto Draft (http://projetodraft.com/no-clandestino-bel-coelho-desconstroi-o-restaurante-tradicional-abre-so-uma-semana-por-mes-e-vive-bem/), site que diariamente traz histórias de pessoas buscando trabalhar e viver com propósito.

Bel é dona do restaurante Clandestino, aberto em 2014, na Vila Madalena. O negócio começou com um propósito simples. Ela queria, apenas, ser feliz, se sustentar, e ter uma vida boa, razoável, de classe média, normal. Na prática, significava não trabalhar insanamente, não ter metas extraordinárias de faturamento e fugir da badalação. Por isso, o lugar funciona apenas uma semana por mês, de segunda a sábado, e oferece um cardápio pré-montado, o menu degustação, para apenas 24 pessoas por noite. Para ser uma delas, é preciso fazer reserva, momento no qual se determinam quantos lugares haverá em cada mesa e em que se esclarecem possíveis restrições alimentares. O pagamento também é feito antecipadamente. Custa 260 por pessoa, ou 380 se o jantar for harmonizado com bebidas alcoólicas.

Nesse modelo existem vários drives de inovação, que funcionam porque a Bel é a Bel e porque existe um conhecimento por trás da regra. Ao subverter a lógica e criar um serviço em data móvel (a semana em que ele será aberto só é definida um mês antes), ela evita  desperdício de comida, porque a quantidade de pessoas por noite é fixa e ela compra exatamente o que vai preparar. A equipe de trabalho pode ser enxuta, excelente e formada por frilas, reduzindo os custos fixos. “A grande diferença é que estou crescendo organicamente. Não é como quando você abre um restaurante para 100 pessoas e, de cara, tem que bancar os custos para receber 100 pessoas”, diz. “Eu resolvi, por aprendizado, fazer o contrário. Fiz um investimento inicial na cozinha e depois ir evoluindo e melhorando coisas no salão e na cozinha, conforme o tamanho vai aumentando. Busquei autonomia, Dinheiro não é o mais importante. Não me arrependo de nada. Sou muito mais feliz hoje”, garante. Ela acha que ganha menos, provavelmente, do que ganharia se estivesse num esquema tradicional. “Acho que vou ganhar mais, em algum momento. Mas quando você busca autonomia e é de fato autônomo, demora para se estabelecer como estava no mercado tradicional”, diz.

 Eu vivo sem crachá, às custas do meu plano B que virou A, há dois anos e alguns meses. No começo foi sofrido. Não pelo trabalho, nem pela redução de custos, menos ainda pela mudança de rotina. Doeu o pé na bunda. A rejeição. A mudança feita a ferro e fogo. Feridas curadas, juro que não sinto nada. Nem saudades. Descobri que posso criar sem parar para mim mesma. Minha inspiração para incontáveis planos B brotam do meu patrimônio pessoal. O que é isso? Tudo o que fiz, vivi e aprendi em meus 51 anos de vida. É fascinante. Tem meu DNA, minha história, meu conhecimento e minha experiência na parada. Tem todos os meus fracassos e sucessos. Dali nasceu a vontade de ter uma pousada. Depois o projeto de abrir uma loja de arte popular. E agora, mais recente, o sonho de fazer um museu a céu aberto na Aldeia Hippie de Arembepe, na Bahia.

Meus ingredientes secretos? Vou contar. Anota ai:

  1. Fazer o que gosto
  2. Sentir prazer
  3. Inventar moda
  4. Ousar
  5. Aprender
  6. Não sossegar o facho
  7. Ouvir a intuição
  8. Ouvir a opinião alheia
  9. Usar tudo o que sabe
  10. Colocar a mão na massa.

Anotou?

Simples, não é?

 

 

 

 

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22 comentários sobre “Bem-vindo a era do pós-emprego. Sem crachá, sem salário e com propósito

  1. Oi, parabéns pelo texto. Escrever é sempre um bom exercício e válido, porém eu pessoalmente discordo dessa nova forma de trabalho como sendo algo positivo. Não quer dizer que não será inevitável, mas não me parece que será de fato bom. Costumamos pensar na nossa questão pessoal, que alguma forma temos subsídios para nos manter e investir em nós mesmos. Uma realidade na qual vc se retroalimenta para poder trabalhar, como foi dito. Mas a maioria da população não tem a mesma possibilidade e já trabalha para estar vivo e poder ir trabalhar no outro dia. Uma grande massa de pessoas que, se perderem esses direitos (parece que já perderam), se tornarão cada vez mais pobres. Não dá para montar muitos restaurantes (ou seja o que for) de R$ 260,00 por pessoa que abre uma vez por mês, isso também não gera emprego nem imposto para o país, seria algo que a longo prazo se quebraria pela própria natureza do processo: não dá emprego com salário descente, não gera imposto, as pessoas não têm dinheiro para gastar com supérfluos e assim a coisa quebra. Há 15 anos eu estou nesta situação: trabalhadora autônoma, me retroalimentando para poder trabalhar. Gasta-se o que ganha, vive-se em constante insegurança e outras coisas nos sustenta de fato (pessoas, herança, família…). Trabalhamos para poder continuar trabalhando. Isso é triste, e depois de alguns anos, cansativo. Menos é mais, e com isso eu concordo, por isso tantos de nós estão resolvendo plantar e voltar para o campo. Temos que encontrar uma solução para a decadência do Capitalismo, uma outra forma de sociedade, mais harmônica, justa e igual, sem esquecer da natureza e do meio ambiente do qual fazemos parte. Isso sim é um grande desafio. Abraços.

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    1. Simone, obrigada por sua mensagem. Concordo com você e peço desculpas pela minha falta de clareza. Quando falo de propósito, estou falando de um caminho alternativo para a decadência do capitalismo. O exemplo da Bel é apenas um exemplo. Enfim, trata-se de uma reportagem e como tal é apenas um frágil recorte da realidade. abraços

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      1. Claudia, são sempre discussões válidas e que nos levam a refletir. É mesmo o momento de falarmos sobre essa nova mudança na sociedade, que irá acontecer, e tentarmos orientá-la para algo bom. Obrigada por fazer parte desse processo de discussão. Forte abraço.

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  2. Quando a Beth Klock diz : “Vai que você descobre um gosto novo, uma habilidade, um talento?”, faço menção ao que a estudiosa de Carreira Herminia Ibarra cita em seu livro: “As transições de carreira percorrem uma sequência “primeiro agir, depois pensar” porque quem somos e o que fazemos está fortemente conectado”. Se esta premissa é verdadeira, somos e fazemos, na qual acredito, as experiências anteriores da Beth, com maior ou menor intensidade, a ajudaram no novo caminho.
    Se há 20 anos, livros citados no início do artigo, se discute o fim do emprego como conhecemos e o livro escrito em 2013 ” Ambiente de trabalho de 2020″, cita que …” novos modelos de negócios e empresas que são inimagináveis hoje…” porque ainda pensamos e não agimos?
    Na minha reflexão é que esta mudança de perspectiva é vital para que possamos nos adaptar a este novo contexto de mundo.
    Marlene Costa – Consultora de Carreira

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  3. Maravilhosa reportagem ou texto!
    O mundo hoje encontra-se exatamente assim!
    As mudanças são necessárias e urgentes!
    Somos masacrados, mau remunerados e sem nenhum tipo de reconhecomento por parte dos empregadores que por sua vez estão afundando num mar de concorrências!
    Estou vivendo ha 17 dias essa realidade:
    Da vida sem crachá após 30 anos de trabalho!
    Ainda mergulhada no estado de rejeição e sem receber o que legalmente adiquiri ao longo dos anos!
    ” É certo para mim :
    Buscar um trabalho que me dê prazer e quero ganhar o suficiente para pagar as minhas contas ,sem pressão e ter mais qualidade de vida!
    Quero uma vida simples onde possa me sentir inteira comigo, família e amigos!
    Esse é meu propósito inicial!
    Muito bacana o que li aqui!
    Continuarei vendo o trabalho de vcs!
    Parabéns!

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  4. Claudia… depois que Te conheci, a minha vida nunca mais foi a mesma. Você é simplesmente FANTÁSTICA, tenho certeza que Você não é deste Orbe, apenas tiveram compaixão de nós, e enviaram Você para nos consolar e orientar com esses textos MARAVILHOSOS.

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  5. Oi Claudia! Venho acompanhando sua trajetória desde o livro e achei esse texto fantástico. Essa realidade é uma afirmação: ADAPTE-SE ÀS MUDANÇAS! Basta ver os transportes alternativos, TV’s a cabo dentre outros. Uma pergunta: caso estivesse ainda empregada ou quando ainda era(com crachá), essas angústias eram de seu domínio? Um forte abraço e um feliz ano anovo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Tadeu, obrigada por sua mensagem. Por causa de uma história familiar e pessoal, sempre fui muito preocupada com o futuro. A minha pousada nasceu porque eu pensava que em 2020, eu me aposentaria. Fui mandada embora 6 anos antes. O fim da empregabilidade sempre foi uma preocupação minha, mas confesso que não tinha tanta informação sobre o assunto e a velocidade de mudança do modelo tradicional para o próximo não era tão grande. Comecei a estudar esse assunto. Fico feliz que gostou do texto. Grande abraço e feliz 2017 para você tb.

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  6. Oi, Cláudia. Acompanho seu blog há um tempo e gosto muito dos textos. Este, em especial.
    Se você ainda não leu, recomendo o livro “A corrosão do caráter”, do Richard Sennett, que fala sobre essa mudança no trabalho, a partir dos Estados Unidos, analisando uma família.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Cláudia os teus textos são obras de arte. Tens o dom do resumo poético, da palavra bem dita. Me considero tua amiga, pois assim como tu tento a todo o coração viver com o meu Plano B. Tuas colocações são de grande importância para todos e todas que se arriscam em navegar por águas nada tranquilas, mas afinal, a vida é isso mesmo: um desafio a cada minuto. Te desejo vida longa !

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    1. Clara, bom dia. Muito, muito obrigada por sua linda mensagem de final de ano. Agradeço por suas palavras. Sim, navegar nas águas do empreender não é fácil, nem seguro, mas pode ser prazeiroso e até divertido, quando a gente encara os muitos desafios. Te desejo vida longa tb. grande abraço

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  8. Boa tarde Sra. Claudia, “te descobri”, essa semana enquanto lia uma matéria em um site falando sobre plano B e afins.
    Fiquei muito curiosa, pois no texto mencionava brevemente sobre seu livro.
    Posteriormente fui “a caça” para saber sobre o livro, e vossa autora, blogueira, a Claudia Giudice. Fiquei encantada, pois sua história é muito motivadora!
    Aos poucos estou lendo os posts do blog, em breve o livro, também.
    Já me considero fã e seguidora do trabalho!
    Desde já desejo-lhes sucesso e parabéns!
    Feliz 2017.

    Um abraço,

    Valéria Passos.

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    1. Obrigada Valeria por sua mensagem. Desculpe-me pela demora na resposta. Janeiro o blog fica de férias porque trabalho muito na pousada. Espero que siga gostando. Hoje não resisti e publiquei um textinho sobre meu filho. grande abraço e feliz 2017 para você também

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