A queda

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Passei a vida toda caindo e tropeçando. Sem dramas. Me chamo Claudia. Sou predestinada. Claudia, claudicante. Quando era menina, minha avó dizia: “com esse joelho cheio de roxos não poderá ser miss Brasil”. Dizia e ria. Minha avó, Gina, era artista. Fazia chapéus. Minha avó era trabalhadeira, começou a labutar aos 14. Sempre foi independente, pró-aborto, feminista sem o saber. Minha tia avó, Vera, era trabalhadeira também. Fez carreira no finado Mappin. Não ligava para os concursos de beleza. Quando via meus joelhos dizia: “Quando casar sara”. Dizia e ria. Tia Vera nunca se casou. Eu casei, separei e o joelho nunca fica bom. Sempre manchado, marcado, lanhado.

Cai muito nessa vida. Literalmente. Metaforicamente. Das quedas concretas, contabilizo 16 gessos no tornozelo. Um ano e quatro meses impedida de caminhar normalmente. Nunca imobilizada. Cada queda, um aprendizado. Hoje, de tanto cair, aprendi a não lesionar os ligamentos. Andava gabola. Não cai mais. Tropeçava. Topicava. Esbarrava. Batia. Não estapava. Passado.

Estabaquei. Feio. Vergonhosamente feio e dolorido. Cai na frente de dois hóspedes, hoje pela manhã. Escapei por pouco de perder os dentes. Escapei por um triz de quebrar o braço. Obrigada meu anjo da guarda!

Quando levantei do solo, com muitos pedaços doendo e sangrando, lembrei da minha avó. Não serei miss Brasil nunca. Lembrei também da tia Vera e do seu sonho de casamento. Foi quando me dei conta que faz tempo, muito tempo, que não sou mais criança. Cair aos 51 é sério, dolorido e preocupante.

Como eu descobri isso? Sentindo. Sentido todos os gerúndios. O dia passou e a dor não. A danada aumentou, minuto a  minuto. Tomei analgésico e nada. Tomei anti-inflamatório, nada. Passei pomada, nada. Sei que estou viva, porque doi, lateja, incomoda.

Volver aos 17. Cair aos 51. Definitivamente, não é uma boa ideia.

Sobre os outras quedas. Elas valem, valem muito. Como dizia outro parente meu, meu primo de segundo grau, o homem de moral não fica no chão. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

No último feriado, completei a minha volta. Fiquei tão feliz por ter cumprido o percurso. Na reta de chegada, com a bandeirinha quadriculada tremulando, tremulando, espalhei as cinzas de qualquer espécie de sentimento ruim, daninho, danoso. Resgatei o amor. Intenso, forte, verdadeiro, como a minha história. Como a minha trajetória.

Agora chega de lelelé. Vou cuidar do meu joelho cinquentenário, que dói pra caramba.

 

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