O prazer do menos no dia em que a conta fechou

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A  vida sem crachá transforma a gente. No começo fiz um esforço danado para virar a chave. Mudei à força uma série de hábitos. O primeiro foi vender o carro. Xiita, adotei a bicicleta como transporte. Xiita, adotei o transporte coletivo como meio de transporte. Xiita, adotei as caminhadas como meio de transporte. Depois, parei de fazer terapia. Faz falta, muita falta, mas definitivamente não dava. Também parei de fazer compras de mês no mercado. Só comprava o que ia comer no dia. Dois pães franceses. 100 gramas de presunto. Três bifes. Um litro de leite. Sigo assim. Tem dia que vou três vezes ao mercado no mesmo dia. Queimo calorias. Gasto menos. Nem tenho mais carrinho de feira para carregar as compras. Vem tudo na mão, na sacolinha reciclável.

Abandonei a planilha excel. Adotei o caderno. Tipo a caderneta que minha avó tinha na mercearia da dona Dirce, que ficava na esquina da Simão Alvares com a Inácio Pereira da Rocha. Cada página, um mês. No canto direito, a lista das contas. No canto esquerdo, a lista das receitas. Fui implicando com certas despesas. Primeiro foi a conta da Net. Cara de doer. Diminui o pacote. Depois cortei o pacote e comprei uma antena digital. Depois encerrei a assinatura toda porque a internet e o telefone fixo já não me serviam e eram caros e falhos. Hoje não pago para ver tv. Só pago pelo Netflix porque o povo usa na minha pousada e porque meu filho, às vezes, assiste. Um dia me livro também destes R$ 29,99. Pago pelo wifi e pelo celular, porque não tem jeito. Sem eles, por enquanto, não dá para trabalhar.

Menos itens, menos luz. Menos gás. Menos dinheiro eu preciso para ser feliz. Mas a vida seguia cara por causa do tal condomínio da casa bacanuda que um dia sonhei para mim. Vista para a piscina. Elevador privativo. Sala para grandes festas. Foi lindo enquanto fazia sentido. Mudei para um apê menor. Menos da metade. Menos da metade o condomínio. Três vezes menos o IPTU. Soma, divide e multiplica. Menos itens na coluna de despesas. Mais um item na coluna de receitas. Aluguei o apezão. Deixei de gastar, comecei a ganhar. Luxo maior do que viver na rua Artur Ramos é dormir em paz. E, privilegiada que sou, durmo em paz no Itaim.

Casa menor, obrigação espacial de ter coisas de menos. Desapega. Não pega. Não compro nada que não precise profundamente. É um exercício chato, difícil, no início, quando ainda estamos acostumados à auto-indulgência do consumo. Tipo o dia foi difícil vou à Zara, vejo uma blusinha, experimento, gosto e levo, assim, só para relaxar. Hoje, se estou no shopping, posso até ir na Zara. Olho, mexo, vejo, até provo, mas só de olhar o tamanho da fila, desisto. Para que? Nem preciso. Tenho roupas para três encarnações. Recentemente, engordei. Ganhei oito quilos. As calças começaram a n

Quando preciso — comprei roupa de banho, meu uniforme de trabalho, nesta semana — vou com meta e foco. Decido antes quanto vou pagar, quantos vou comprar. Segue sendo divertido fazer compras. Tem método, foco e prazer. Mas é pouco, muito pouco.

Por que estou abrindo o meu livro caixa aqui no blog? Porque é possível fechar a conta. É possível ganhar menos e viver com menos. É possível, é necessário, é urgente. Decidi compartilhar essa possibilidade com aqueles que ainda estão no processo da travessia. Hoje, sábado, meu dia de trabalho mais intenso, estava lançando contas no sistema da minha loja – http://www.coisasdaninoca.com é meu segundo plano B – quando recebi uma mensagem do linkedin que há meses não visito mais. Era o post de um coach que marcava o meu texto do Draft sobre perder a pele e o emprego. Sou nostálgica por natureza. Não resisti e cliquei no link para lê-lo novamente — nunca lembro o que escrevi ontem, o que dizer há mais de um ano. Relendo o texto, para mim tão emblemático, vi como a questão financeira ainda era uma preocupação, um sofrimento, em abril de 2015.

Ainda trabalho duro. Hoje tenho duas empresas e dois CNPJs para chamar de meus. Quatorze funcionários. Muitos impostos para pagar. Vou fechar o terceiro CNPJ da minha ME como escritora, palestrante e consultora. Sigo escrevendo, mas sem remuneração. Frila free. Sigo palestrando, mas na faixa. É meu jeito de devolver aquilo de bom que mereci do destino.

Falta um mês para 2016 acabar. Em outubro gastei mais do que ganhei, mas porque investi o que ganharia em meu novo negócio. O buraco foi de 4 mil. Nos outros meses, sobrou. Tapei o buraco. Sobrou. Fica no colchão do Fundo DI Excelence porque o futuro, você sabe, a Deus pertence. Presentes de Natal só para as crianças da minha família e da aldeia hippie (vou fazer sacolinhas e quem quiser participar é muito bem-vindo).

O que eu quero da vida? Aproveita-la e viajar. Como diz a canção: “Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus”. E melhor do que não precisar de muito dinheiro, é não ter metas malucas que sabemos impossíveis de bater. É poder dormir em paz, sem peso nos ombros e pescoço duro. Menos é menos e melhor.

 

 

 

 

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14 comentários sobre “O prazer do menos no dia em que a conta fechou

  1. Caudia, bom dia. Continuo adorando ler seus textos da “vida sem cracha”. Passando por esssas coisas ja há 2 anos, apesar de ter conseguindo um freela nos prox. 2 meses. O carro, coloquei a venda somente este mes. A tv a cabo, já não tenho há tempos. Eu ainda comentaria o cancelamento dos cartoes de credito, pq agora cobram anuidades e o guarda roupa cheio de coisas que já não preciso mais usar tanto. Isso incomoda bastante, mas ainda reluto em desapegar.
    Acho que diariamente estou me adaptando.

    Grande abraço Rosely

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  2. Oi Claudia, conheci sua história hoje, pelo mesmo texto que citou do Linkedin. Não me contive e vim correndo ler seu blog. Engraçado que eu não passei pelo mesmo que você, eu quem pedi demissão após 7 anos numa empresa, com um salário razoável para ficar mais próxima ao meu filho e trabalhar com educação. Impressionante como a gente não percebe o quanto nos tornamos consumistas.
    Minha “nova” vida, sem crachá, patrão, décimo terceiro ou férias, tem sido de altos e baixos ao longo de três anos, mas parece ser um caminho sem volta (assim espero).
    Muito sucesso para nós!

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    1. Pat, obrigada por sua mensagem. Que legal a sua história. Obrigada por compartilhar. Muitas mulheres jovens como você têm feito esse caminho. Eu acho que é difícil voltar atrás, especialmente no item consumo. Eu perdi o desejo. Literalmente, broxei no melhor sentido. Muito sucesso para nós. grande beijo

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  3. Claudia seu texto me inspirou… nessa sexta na qual volto chorando pra casa por estar tão infeliz com a situação atual…coisas para ajustar num Coaching! Certeza que muitas pessoas estão buscando a felicidade e o desapego assim como você o fez. PARABÉNS!

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  4. Cláudia, amei o seu relato no LinkedIn é vim p seu blog. Fez 3 meses que recebi a “notícia”, foram +30 anos de dedicação indústria automotiva. Também tive essa intuição, mas estou tranquila entreguei o meu melhor esses anos todos e superei os desafios. Agora pretendo me recolocar no mercado. Nesse tempo fiz uma viagem, foi ótima, e agora é tempo de planejar, desapegar e rever o que eu realmente preciso. Obrigada. Bj

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