Palavra certa. Palavra errada

 

Este texto não é romântico. Nem falará sobre o Chico Buarque. Abro com ele e com essa canção linda, porque a adoro e porque não consigo imaginar ilustração melhor para a delicadeza do uso da palavra. Uma palavra bem dita na hora exata pode mudar o mundo. Virar o destino. Uma palavra a mais ou a menos. Uma palavra torta. Uma palavra engasgada ou escondida pode destruir tudo. Terra arrasada.

Aconteceu isso comigo nesta semana e ainda estou perplexa. Afinal, sou jornalista. Vivi a minha vida toda. Paguei conta. Comprei casa. Alimentei filho por força e meio do uso insistente e, às vezes, impertinente das palavras. Até hoje a regra vale. Faço palestras. Escrevo. Vendo. Negocio diárias. Foi fazendo isso que me atolei na verborragia. Que naufraguei na gastança de vocábulos. Sim, vou explicar.

Atendi uma cliente, que queria fazer um minievento no próximo feriado, coincidentemente dia do meu aniversário. Achei ótimo. Sempre é bom ter lotação máxima no meio da semana. Começamos a negociar em 29 de setembro. Trocamos mais de 20 emails de lá até anteontem, quando coloquei tudo a perder. Sim, fui eu. Errei sim. Manchei o meu nome, como diz a outra canção. Por que? Porque escrevi demais. Porque tentei explicar demais. Porque quis ser explicitamente gentil.

Em comunicação, existe uma regra terrível. A saber: quem comunica é responsável pela compreensão e entendimento do outro. Se falo ou escrevo algo que não é entendido pelo meu interlocutor, a falha é minha, o erro é meu. A burra sou eu. Fui.

Quis dizer não a um pedido com toda a gentileza que imaginei possível e acabei irritando, ofendendo, destratando (segundo o ponto de vista do outro) a cliente. Tomei uma porretada. Perdi a cliente. Perdi as reservas.

Estou perplexa até agora. Não pelo dinheiro. Não pelo negócio. Apenas pela complicada equação que é trocar, comunicar, interagir com o outro. Por escrito, às vezes, é pior que ao vivo e a cores. As palavras na tela branca não têm tom, volume, suavidade. Ao ser excessiva, volumosa e, talvez, prolixa, fui grossa. Lição dada, lição aprendida. Pois como ensina meu amigo, Claudio Ferreira, a dor de não se fazer compreender fica com a gente.

Menos Claudia, menos. É a segunda vez neste ano que termino um texto com essa recomendação.

 

 

Palavra minha

Matéria, minha criatura, palavra

Que me conduz

Mudo

E que me escreve desatento, palavra

 

 

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15 comentários sobre “Palavra certa. Palavra errada

  1. Sim. Sim. E sim. Menos é mais. Vc disse tudo. Vc é um ser humano especial. Voltar atrás, reconhecer o erro, repensar… São poucos. Aprendo c vc a cada texto compartilhado. Obrigada.

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  2. Menos é mais. Vc disse tudo. Vc é um ser humano especial. Voltar atrás, reconhecer o erro, repensar… São poucos. Aprendo c vc a cada texto compartilhado. Obrigada.

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  3. Ah… como te entendo!! Mesmo sem ter todas as tuas qualidades para a escrita, procuro ser cuidadoso, mas já dei varias mancadas parecidas… que acabam sendo mais com a gente mesmo do que com o outro. Não se fazer entender doi sempre mais na gente. O outro nem tem ideia… fica com a raiva ou decepção pelo que leu, mas a dor fica com a gente…
    Bem, ao menos você transforma a “experiência” em um texto.
    Obrigado por dividir. E bola pra frente…
    Grande beijo!

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  4. Sem palavras, seu texto maravilhoso e mostrando que você errou com um cliente tentando acertar. O melhor ainda foi usar como a linda canção do meu e nosso ídolo “Chico Buarque”.

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  5. Claudia, se você me permitir dar uma sugestão para evitar o prejuízo financeiro, na remota hipótese de acontecer algo parecido novamente, e-mail nem sempre transmite o tom certo da conversa, razão pela qual, quando o número de e-mails chega a 6 (esse é o meu número, mas cada um tem o seu), eu pego o telefone e ligo para a pessoa, e daí estabelecemos todas as condições do negócio. Após essa ligação eu faço um e-mail com todas as condições estabelecidas, e o faço para formalizar. Simples assim. Há casos que eu já ligo após o segundo e-mail, pois percebo que a conversa está completamente torta!! Enfim, cada um avalia o seu limite.
    De qualquer forma, não se sinta 100% culpada. Certamente a outra parte tem 50% de responsabilidade.
    Ah!! E a sugestão acima, eu aplico para tudo!!
    Abraço.

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  6. Eu sinto isso muitas vezes! Tenho mania de repassar os diálogos após terminarem e sempre acho que falei o que não deveria. Dou muita importância às palavras, e quando não as uso bem (ao vivo, a timidez afasta todas elas de mim), fico me penalizando por dias até esquecer. Mas passa. E sempre temos novas oportunidades de fazer (falar, escrever, se expressar) melhor que antes.
    Difícil é imaginar você sendo grossa…
    Beijos!

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  7. Olá Cláudia sempre leio seus posts e adoro.

    Estava aqui agora exatamente lendo um poema de Cecilia Meireles, e vi suas Palavras certas e erradas…..

    Resolvi lhe escrever, pois achei que esse poema sintetiza essa sua ” lição”, se assim podemos dizer.

    Cântico 3

    ” Não digas onde acaba o dia.

    Onde começa a noite.

    Não fale palavras vãs.

    As palavras do mundo.

    Não digas onde começa a terra,

    Onde começa o céu.

    Não digas até onde és tú.

    Não digas desde onde é Deus.

    Não fale palavras vãs.

    Desfaze-te da vaidade triste- de falar

    Pensa, completamente silencioso.

    Até a gloria de ficar silencioso,

    Sem pensar”

    Um grande abraço

    Patrícia de Fátima Pereira Goulart

    ________________________________

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