Amor

16 de setembro de 2002.

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Eu me lembro de olhar para a parede e ver o relógio digital derrubando as plaquinhas com os números. 16h00. 16h02. 16h05. A essa altura, todos na sala repetiam, força, força, força. Mais uma vez, força, força.

Eu me lembro de suar. De sentir uma estranha ansiedade. Acho que era medo. Lembro de fazer uma força danada para expulsar, para colocar para fora, para tirar de dentro de mim, você.

Eu me lembro que consegui. Não lembro a hora exata. Parei de olhar para o relógio. Quando o vi novamente já era 16h16. Colocaram você todo sujo no meu peito. Quis chorar mas não consegui. Achava que tinha que estar emocionada. Não estava. Estava cansada e assustada. Você também tinha os olhos cansados e arregalados. Que luz forte. Que lugar frio. Quanta gente estranha!

Hoje, 14 anos depois, lembro do nosso primeiro encontro e fico feliz em acreditar que não foi naquele momento estranho que você nasceu. Foi antes. Bem antes.

Você nasceu para mim no dia que senti um amor profundo, que entendi que precisava se reproduzir na forma de alguém que poderia ser ou não minha, nossa, imagem e semelhança. Eu me lembro que escrevi um poema chamado Théo. Era o nome que queria que você tivesse. Dizia assim:

théo nasceu antes de ser concebido

théo gestou-se no verbo

théo encarnou na palavra e ganhou forma

transformou-se em metáfora

metalinguagem

metonímia

théo pode até parecer pleonasmo vicioso

diante do ventre ainda vazio

do seio seco

do coração pleno

théo ainda virá a luz, ele feito de magia, e lerá

estas linhas, contente e assustado, com o poder

de uma profecia, de um verbo intransitivo.

de um ato falho mais que perfeito

théo, meu filho, seja bem vindo!

théo, meu querido, seja feliz.

théo, meu companheiro, seja breve

nesta sua viagem de mil anos luz.

Théo virou nome da moda e seu pai preferiu mudar. Francisco. Vai chamar-se Francisco, ele disse no instante em que revelei a sua chegada. Francisco porque é nome de santo. Francisco porque foi para ele, o Santo, que pedi, rezei, fiz promessa, peregrinação para que você chegasse logo. Ainda não paguei minha promessa. Temos que ir lá, mas essa é outra história.

Quatorze anos depois, escrevo para falar de amor. O amor que nasceu com o desejo da sua vinda e que cresceu, segundo a segundo, após o nosso encontro.

Não, não foi um amor instantâneo. Quando expeli você de dentro de mim, éramos estranhos. Quando nos vimos pela primeira vez, nos desconhecíamos. O amor incondicional era uma ficção, uma imagem poética. Eu não o sentia ainda. Eu amava teoricamente aquilo que desejava que você fosse. Mas ainda não amava você. Não tínhamos intimidade. Eu não entendia o que você queria. E você me olhava com olhos de espanto. Que espaço era aquele? Que gente era aquela? Por que tinham te tirado daquele lugar quente, escuro e gostoso? Quem fizera tão perversa maldade? Eu filho, fui eu. Te expulsei de dentro de mim para te dar a vida. Meu maior legado. Minha obra.

Nesta semana, quando voltei de viagem para estar contigo em seu aniversário, sua avó me disse que você achava que eu não desejava que você voltasse para minha barriga. Você tem razão, filho. Não tenho essa fantasia de te guardar para mim. Não é falta de amor. Talvez seja excesso. Com certeza, é amor.

Te ver crescer é o que mais me empolga, me entusiasma, me motiva e me inspira. Te ouvir falar, questionar e discutir me encanta. Vejo um homem crescendo com princípios, convicções, qualidades e defeitos. Vejo um rapaz surgindo no corpo do menino. O tênis 42 em nada lembra o pezinho 18 dos primeiros dias. Sua voz, que engrossa a cada dia, dá o tom da mudança. Você está crescendo, Chico.

Viajo no tempo do mundo quando ouço você tocar no seu violão as músicas que eu mais amo. Você cresceu, Chico. Na Roda Viva, no Canto de Ossanha, traidor, na Rosa dos Ventos,  no Retrato em Branco e Preto… E ontem, quando você cantou Canção da América para mim, tive certeza que o amor é tudo o que eu tenho para te dar e a única coisa que espero receber.

Ame muito, Chico.

Seja feliz. Se livre. Seja o que vier. O que importa é ouvir a voz que vem do coração.

Te amo, Chico.

 

 

 

 

 

 

 

 

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5 comentários sobre “Amor

  1. Quanto amor cabe em um coração?? ♥
    Estou na mesma situação que vc passou (e provavelmente pode parecer para vc que foi duas vidas atrás), arrancaram meu crachá… Uma pessoa me passou seu texto, do texto entrei no blog e a primeira coisa que leio é essa declaração de amor. Minha maior preocupação é com meu filho, mas sem saber vc acabou de me dar dois pontos de esperança. Muito Obrigada. ♥ e parabéns para Chico.

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