Tem muro alto, tem cerca mas chamar de prisão dói, dói muito

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Na minha fase terapia em praça pública, usei esse espaço várias vezes para discutir a opinião alheia, a crítica, o elogio, a minha mania de perfeição, a minha auto-estima oscilante e a dificuldade que é ouvir, lidar e aceitar o outro. Depois de uma sexta e um sábados carga pesada, acordei com uma mensagem de avaliação do TripAdvisor (o programa de divulgação e avaliação de hotéis, restaurantes e bares, que se tornou o guia oficial da opinião popular sobre o segmento no planeta Terra) piscando no meu telefone. Para quem ainda não sabe, sou dona de Pousada. Sou a feliz e ciosa proprietária da Pousada A Capela. Corri ler, claro. Estava em inglês. Tinha só uma bolinha. Uma ferroada invisível, mas verdadeira, estocou meu estômago que, ato contínuo, começou a dor. O gosto amargo tomou minha boca, como se tivesse pecado com um vinho já avinagrado. Insegura, cliquei duas vezes para abrir a avaliação.

A autora do post é a Dianna. Uma senhora estrangeira, que esteve no apartamento 11 no final de semana passado. Não veio porque escolheu. Veio porque foi convidada por um adorável casal que celebrou a sua união em nosso espaço. Ela bateu feio na gente. Não gostou da comida. Reclamou do horário do café da manhã. Reclamou que não tinha café, o que era mentira. Reclamou que o wifi era uma bomba, justo no final de semana que o danado funcionou direitinho. Reclamou que os funcionários recomendaram que ela não caminhasse sozinha, com câmera fotográfica, no final do dia. Tudo certo. É a opinião dela. Gosto não se discute. Até se justifica ou se lamenta, mas discutir não. Gosto é direito adquirido.

O que doeu, no entanto, foi ela ter chamado a minha a nossa Capela de prisão. Ela escreveu que sentiu-se presa porque temos muros altos e cercas elétricas ao redor de toda a propriedade. Sim, é verdade. A mais pura verdade. Somos um lugar seguro. Temos proteção. É bom. É ruim.

Claro que eu preferia morar em um lugar sem muros, nem portas, nem portões. Claro que eu preferia me sentir segura sempre. Claro que eu desejaria que não existissem roubos, assaltos, sequestros, latrocínios e assassinatos na minha vila, na minha cidade, no meu estado e no meu país. A Dianna, que mora, acho, nos Estados Unidos, é pesquisadora, professora, vive em uma cidade bucólica. Deve se sentir segura sempre. Deve ser bem mais livre do que eu. Pode viver sem muro nem tranca na porta. Só teme a vitória do Donald Trump e os terroristas. Entendo. Mas, puxa vida, chamar a minha Capela de prisão é sacanagem. Pronto, falei.

 

 

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24 comentários sobre “Tem muro alto, tem cerca mas chamar de prisão dói, dói muito

  1. Claudia, sua pousada é maravilhosa. Comida excelente, funcionários adoráveis. Com relação ao muro e cercas, foi isso que me fez sentir seguro e sem preocupações. Existem pessoas a quem nunca podemos agradar. São só contra. Bola pra frente. Não vejo a hora de passar novamente uns dias com vocês na sua pousada.

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  2. Claudia, o Ogawa parafrasiava o Barão de Itararé com a máxima “De onde menos você espera, é que não sai nada mesmo!” (algo assim). Pois bem, a Dianna vive uma outra realidade. Perdoe e você ficará em paz com ela e consigo. Beijo!

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    1. querido Tiago, obrigada por sua mensagem. Você tem razão. Ela está certa em criticar o muro. Nós nos acostumamos com ele. Ele se naturalizou. Ele nos protege. Melhor seria sem ele. Como nas casas a beira mar de Cape Code. Mas aqui, infelizmente, não dá. Compensamos o muro com carinho e gentileza, acho que não consegui envolve-la. Falhei. beijo

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  3. Claudia, lamentável ler uma crítica como esta. Perdoe, esta pessoa desrespeitou o seu trabalho como profissional e ser humano, assim como demonstra total desconhecimento da realidade (triste!) que vivemos. Não vou entrar no mérito dos motivos para que ela se sentisse desta forma. Só digo que admiro seu trabalho, me divirto e aprendo com cada história que você conta! E mais, não sou religiosa, mas morro de vontade de conhecer a Capela. Você, como profissional da área hoteleira tem que dar atenção e talvez resposta a estes tipos de post. Só desejo que você não se abale e procure sempre força onde puder, inclusive aqui, entre seus leitores. Um beijo grande e espero que seu final de dia tenha sido perfeito 😉

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  4. Cláudia, o que me espantou neste caso foi a convidada escrever publicamente sobre o local onde se realizou o casamento de uma amiga. Talvez não fosse amiga ou talvez falte generosidade, para simplesmente estar feliz pela amiga, ou consigo mesma para apreciar a cultura de um outro país (mesmo não tendo escolhido essa viagem). Enfim, nada para se preocupar. É preciso se preparar para separar a crítica que pode melhorar o negócio, daquela que fala mais sobre quem escreve do que sobre o fato em si.

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    1. Elizabeth, obrigada por sua mensagem. Você tem razão. Acho que a expressão “trapped” me transtornou. Aqui significou tanta liberdade para mim, que os muros sempre foram apenas alguns limites para esse mundo de mar na minha frente. beijo carinhoso

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  5. Clau, tem pessoas que não gostam ou não sabem recebero o novo, não sabem aceitar qualquer outra coisa que não seja idêntico ao mundo delas. Mas o mundo é cheio de acertos e erros e a vida é gostosa e surpreendente exatamente por isso. Ela não soube ver o belo. Sua mente estava focada no erro, na frustração. É a vida que ela escolheu e não o reflexo de sua linda pousada, que amo! Bj

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  6. Claudia,
    Se a “crítica” de Mrs. Dianna me deu gastura, imagino em você!!!
    Ainda não conheço sua pousada, mas, como te falei outro dia, pretendo ir tão logo for possível, e tenho a certeza de que vou encontrar um lugar especial, o qual eu vou recomendar para TODO MUNDO!!
    Deixe Mrs. Dianna (deve ser eleitora de Mr. Trump!!!) pra lá!!!
    O importante, como dizem as avós, é ser feliz, e Mrs. Dianna não deve ser. Vamos lamentar por ela.
    Abraço.
    Andrea Theodoro

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  7. Claudia, o pior mesmo é o fato dela ter cuspido no prato em que comeu como convidada. Que ofensa maior – e pública! – ao casal que a convidou? Cruzes! Isso é que é presente de grego, hein!

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  8. Olá Claudia, tudo bem? Eu ainda não conheço seu paraiso, mas pelo que leio está longe de ser uma prisão, mesmo para quem mora nos Estados Unidos, que vivem ameaçados pro terrorismo interno e externo. Que são rígidos para a entrada de latinos por exemplo, e está sob ameaça de um lunático assumir o poder. Ela deve ter sido obrigada a se hospedar e ao invés de reclamar com quem a levou, resolveu descontar em vocês. Abstrai, mas foi boa a sua resposta, bola para frente.

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  9. Claudia,

    Tenha certeza que quem perde é Miss Dianna que não voltará a usufruir deste paraiso! Se você aceitar me candidato a voluntário para passar vários finais de semana trancafiado neste paraíso de águas mornas, comida boa, roscas incríveis e a simpatia ímpar sua e de Nil!!! Beijos

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  10. Claudia! Sigo suas histórias, sou testemunha de sua luta, comprometimento e capricho com sua pousada, te admiro por isso. Não se deixe abalar por críticas vazias e burras, só leve em consideração as que te fizerem melhorar. Tenho certeza que para cada critica injusta que você recebe, aparecem muitos elogios e mais pessoas que gostam de sua pousada e de você! Temos um ditado aqui no sul bem bom para pensar nestas horas: ” Carroças vazias são as que mais fazem barulho! “. Um beijo!

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  11. Cláudia, bom dia
    Cheguei aqui atrasado, quando lendo o texto do Ortega, aproveitei para balconear os textos antigos. Mas vamos lá.
    Questionar a qualidade da pousada, quando as avaliações ótimas traduzem a verdade, é chover no molhado. No entanto vale tirar um proveito da avaliação da Dianna, primeiro pelo ambiente que ela vive comparado com o nosso, e também não podemos ignorar a agressividade dos nossos sistemas de proteção, principalmente as hastes e fios de aço que envolvem o sistema de cerca elétrica, não tenha dúvida que potencializa a agressividade do muro, que pode ser humanizado de várias outras formas.
    Resumindo, extraia a parte de boa da avaliação e ignore as injustiças. Peça ao profissional que a atende na área de segurança alguma solução menos invasiva, como sensores ativos, mais discretos, que criam linhas invisíveis, que a notificam quando cruzadas indevidamente, podendo ser colocadas sobre o muro, ou até mesmo nas superfícies, normalmente são até mais econômicos.
    No mais vamos serpenteando a razão. Saúde e Sucesso.

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