Hora de relógio

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A Bahia tem sotaque, gírias e expressões idiomáticas próprias. A que eu mais gosto é “hora de relógio”. Quando alguém diz ” vamos nos encontrar às 19, hora de relógio”, ela quer dizer que o compromisso é às 19 h, sem falta nem atraso. Óbvio para um britânico, suíço, alemão. Óbvio para mim que estou sempre adiantada. Estava. Até essa semana, quando decidi brincar com o tempo. Com o trânsito paulistano. Com a bondade da atendente da companhia aérea. Com a hora de relógio do embarque do avião.
A história é patética. Meu vexame absoluto é inesquecível. Me exponho porque o aprendizado é utilíssimo e porque para o leitor será engraçado, bizarro.
Na quinta-feira, 25, depois de uma reunião na editora Harper Collins, eu tinha todo o tempo do mundo até a hora do meu avião às 17h55, no aeroporto de Congonhas em São Paulo. O compromisso do era uma palestra na sexta-feira, em Curitiba. Meus anfitriões tiveram a gentileza de comprar o bilhete para um aeroporto perto de casa, para facilitar minha vida. Não mereci.
Fiquei em casa trabalhando. Estava tudo certo até ouvir o barulho da chave na porta. Era meu filho, Chico, que buscava suas tralhas. Fiquei feliz em vê-lo. Me animei. Festejei. Me perdi. Quando dei por mim já estava na hora de partir. “Bora filho vamos. Perá, mãe. Preciso ir ao banheiro.” Mãe perou. “Te dou carona filho.” Na ponta do lápis da hora de relógio, 20 minutos se escoaram na pia da felicidade do amor materno. Vale. Vale.
Descemos para pegar o Uber. Mala grande com 50 livros. Mala pequena com equipamentos. Mochila com objetos pessoais. Chico com mala, mochila e violão. Na hora de fechar a porta do carro da Sueli, nossa Uber de Zafira, chega Thiago, meu revendedor de Nespresso, trazendo as cápsulas que pedi para levar à Bahia. Mais um volume no porta-mala.
Bora, Bora.
Tudo lindo se São Paulo não fosse a cidade susto da hora de relógio. Os cinco minutos que gastaria para a carona se multiplicaram por 3. Quando meu filho desceu, o waze avisava que eu chegaria no aeroporto as 17h30. Estava morta antes de partir.

Achei que era exagero do algoritmo e errei em não despachar com meu filho minha mala cheia de livros para vender na palestra. Fui brigando com a tecnologia, inventando caminhos que deixaram a motorista, de origem japonesa, desconcertada e de olhos arregalados.
“Dona Sueli, por favor, vire à direita. Pronto, agora à esquerda.  A 100 metros, vire à direita novamente. Ziguezagueando fomos em direção a CGH fazendo loucuras que prometi nunca mais fazer desde que troquei o tempo do crachá pelo tempo do relógio.
Pelo WhatsApp comecei a implorar ajuda ao meu filho.
– Busca os voos para Curitiba
– Procura o telefone da Gol em CGH
– Descobre se meu voo está na hora
Nada funcionava. Nada dava certo. O trânsito piorava a cada segundo. Os faróis pareciam triplicar o tempo no vermelho. Quase chegando, um enorme caminhão decidiu bloquear a rua para fazer uma complexa manobra. A esta altura eu já fazia as contas de quantas horas levaria dirigindo e pesquisava como alugar um carro.
Dona Sueli, condoída com meu drama, teve uma atitude disruptiva: furou o primeiro farol da carreira Uber dela. Com lágrimas nos olhos agradeço baixinho. “Obrigada dona Sueli. É muito importante para mim.” Ela sorri, contente.
17h30, hora de relógio, adentrei feito uma louca em Congonhas. Correndo, fui para o guichê prioridade da Gol. A mocinha de laranja me viu e antes de eu balbuciar “Cu..”, disparou: já fechou o despacho. Com essa mala você não embarca.” Me jogaria nos joelhos dela se percebesse algum tipo de emoção em seu sorriso cínico.
– Mas eu já fiz o check in…
– Então embarque sem a mala, ela devolveu, fria.
A platéia ao redor assistindo meu desespero, sugeriu: coloca no guarda bagagem do subsolo.
17h35 de relógio, rumei para a escada rolante. A essa altura, minha mala grande dava sinais de fadiga. Não corria mais pelos corredores. Se arrastava barulhenta porque uma das rodinhas havia desistido da sua função. A outra pequena de mão, rebelde, batia em quem se atrevesse andar ao meu redor.
Quando entrei na escada, um movimento mal feito deu cabo da sacola Nespresso que eu carregava. Cápsulas de café Leggero e Ristretto voaram em direção piso térreo do aeroporto, aquele que conduz ao estacionamento. Até os executivos esbaforidos pararam para assistir a cena pastelão da ex-companheira de viagem.
Com o rabo do olho, vi um segurança vindo em minha direção. Fui imediatamente injusta com ele.
– Moço não briga comigo, por favor, apelei.
Nada disso. Ele apenas queria, solicito, me ajudar. Assim o fez. Ajudou a juntar as cápsulas e carregar as malas. O homem do departamento de bagagem pegou tudo, depois que catei a roupa de palestrante. Solidário, me liberou do pagamento antecipado. Claro que eu não tinha dinheiro, só cartão. Meu filho tinha levado os 50 mangos da minha carteira.
Com mochila, malinha é um tanto de tralhas na mão disparei para o embarque às 17h44.
– por favor, meu voo vai decolar
– por favor, meu voo vai decolar
Repeti tantas vezes, com tanta convicção e súplica, que todas as barreiras foram se abrindo. No raio X passei de relógio e cinto. Se fosse terrorista…No alto falante, ouvi pela primeira vez o meu nome. Claudia Giudice dirija-se imediatamente ao portão número 8. O voo para Curitiba está encerrado. Ah, terror. Terror.
17h51, alcancei o finger. Estava suada, vermelha, desmilinguida, transfigurada. Enfim, era um vexame. Quando viro a curva, alívio. Faltavam 8 pessoas para embarcar. Minha falta de hora de relógio não estava atrapalhando uma multidão. Quando entrei no avião senti uma enorme vontade de chorar. De raiva. De dó. De pena. De gratidão. De arrependimento.
O comissário leu meu transtorno e ofereceu água, que aceitei humilde.
O tempo é de Deus, portanto coisa séria. Hora de relógio é igreja. Não dá para esticar nem puxar. Ou respeita-se ou purga-se. Juro nunca mais passar por isso. Especialmente agora que o tempo é meu e, na medida do possível, faço dele o que eu quiser.
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9 comentários sobre “Hora de relógio

  1. Fantástico! Você é única… perdi a respiração lendo… mas que paulistano, por mais cumpridor de horários que seja, nunca passou por um aperto desse? Obrigado por dividir a “aventura”. bjs

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  2. Não posso dizer que a história é ótima, pois descreve um sofrimento, mas a sua narrativa deixou-me ansiosa para saber se você tinha conseguido… Que bom que apesar dos “trancos e dos barrancos ” você conseguiu! Continuo apreciando muito seus textos e sempre aprendo alguma coisa… Grata!

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  3. Uma pequena correção sobre hora de relógio. Essa expressão não é usada pelos baianos nem na forma nem no significado mencionados. É usada apenas no sentido de intervalo de tempo. “A viagem demorou duas horas de relógio”.

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