“Nada é perfeito”

presepio
Domingo, véspera de férias. Fim de um evento importante e trabalhoso. As bodas de 25 anos de um casal querido de Sergipe, que preparou a festa com meses de antecedência e muito carinho. Cansada e feliz, desperto para o último serviço do final de semana. Ao servir o café da manha, a senhora Mary, hóspede do apartamento 3, anuncia:
– Claudia, não resisto. Vou levar o presépio nordestino para mim.
Meu coração vibra no peito. Ela também se encantou com a arte do menino Leonilso, um jovem alagoano que usa boné virado ao contrário e cria lindezas de barro. Discípulo de João das Alagoas, o rapaz, apelidado de Galego, é talentoso e dedicado. Gosto dele. Por isso, a minha felicidade irradia em três direções.
1. Vou encomendar outras peças para Galego, que ganhará o pão de cada dia com a arte dele.
2. Meus olhos acertaram na escolha. A peça, cobiçada dias atrás por outra cliente, vendeu em apenas uma semana de exposição. Bingo.
3. Vendi várias peças nos últimos dias. Minha neófita carreira de comerciante não está de todo ruim. Com as vendas, aprendo a comprar e a precificar.
Genuinamente satisfeita, corri para o escritório disposta a fazer o melhor embrulho da minha vida. Afinal, Dona Mary merece. Com cuidado, enrolo rolinhos de papel higiênico branco em torno das peças. Os personagens ficam parecendo múmias egípcias. Finalizo envolvendo o cacto que abraça toda a peça. Vou atrás de uma caixa, onde eu possa fazer uma “caminha” para deitar a obra. Assim, ela ficará protegida e firme e não sofrerá com os solavancos do carro. Encontro uma na medida. Forro o “chão” com papel bolha. No cantos mais papéis. Quando tudo fica pronto, pego a peça carinhosamente. Começo a deitá-la na caixa. Estou emocionada.
Por um lapso de segundo, me distraio com um movimento fora da sala. O dedo indicador que segura uma ponta do cacto com exata firmeza escapa. Afunda no papel. Ouço um crec seco.
Quebrei.
Sinto vontade de chorar.
Quebrei. Quebrei a peça que eu tanto amara. Meu excesso de zelo em protegê-la a destruiu. Agora, enquanto escrevo, lembro de inúmeros casos de amigos, conhecidos e parentes que cometeram essa besteira na vida amorosa, na criação dos filhos, na gestão empresarial. Na hora do desastre, fiquei tão transtornada que não consegui pensar em nada.
Agi por instinto. Procurei correndo uma cola para tentar, desesperadamente, consertar meu erro. Às vezes dá. A fratura fica imperceptível. Não é o caso dessa vez. O rei mago do sertão, que traz um pote de cachaça para celebrar o Menino Jesus, ficou lanhado. Claudicante, como eu.
Envergonhada e chorosa, volto ao salão para dar a triste notícia a Mary. Me aproximo, puxo-a pelo braço e lamento:
“Uma coisa horrível aconteceu. Cuidei tanto da peça que eu a quebrei”.
Ela me fita primeiro com horror. Depois, adivinha o exagero das minhas palavras, e pergunta com doçura: “Espatifou tudo?” Nego, primeiro, com a cabeça. “Não, soltou um homenzinho. Eu já colei, mas não ficou perfeito. Me perdoe.”
Mary deve ter mais de 70 anos. Fico sabendo depois que é psicanalista. Com a sabedoria que a ciência e a vida dão, ela me olha com dó e simpatia enquanto explico como o dedo escapou e o tamanho da besteira que fiz.
“Não tem problema, Claudia. Quero a peça do mesmo jeito. Achei-a linda. Não sou colecionadora e faz tempo que eu sei que nada é perfeito. Agora, ela até ficou melhor, mais bonita, porque ganhou uma história. Me preocupo apenas com o seu sofrimento. Não fique triste. Nada é perfeito.”
Segurei nas mãos de Mary e olhei-a com a maior gratidão que pude exprimir.
“Obrigada. Você tem razão. Nada é perfeito. Principalmente eu.”
Que a memória deste domingo extraordinariamente imperfeito dure para sempre.
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