Eu adoro receber críticas

santos

Mentira. Eu detesto receber críticas. Mas, às vezes, eu preciso ser criticada. Tirar nota baixa. Tomar puxão de orelha. Ouvir reclamação.

A crítica me deixa louca. Ela é o combustível da minha inquietude e do meu perfeccionismo. Sempre que alguém reclama, fico tomada por uma energia que me faz perder o sono, a fome e a preguiça. Me torno insana. Alucinada para consertar e agradar.

Sempre fui assim. Desde criança, bastava me desafiar. Provocar. Dizer que eu não ia conseguir. Ficava com sangue nos olhos, tipo touro louco e ia buscar o resultado.

Meus melhores professores, meus treinadores excepcionais e meus chefes inteligentes descobriam logo este meu defeito (ou qualidade) de fábrica:

“Claudia, você não está estudando nada. Duvido que passará de ano. Pronto, bastava essa conversa para eu, obsessivamente, estudar a matéria. Meu cérebro, tarado, produzia sinapses com o simples estímulo “ele vai ver quem não vai passar. Vou tirar dez. Saberei tudo desse assunto.”

Idem na partida de tênis ou no jogo de handebol. O técnico vinha e provocava. “Jogando desse jeito, voltará de bicicleta para casa. Vai perder de 6 / 0, 6/0. Bingo. O monstro da competitividade se apoderava de mim. Fúria. E tome ace no adversário.

Quando cresci, tentei moderar e equilibrar essas forças. Melhorei. Mas não fiquei curada. Tive um chefe que eu adorava. Ele descobriu nos meus olhos azuisesverdeados a minha doença. Bastava eu ficar longe do objetivo para ele aplicar o xeque-mate:

“Que pena que o projeto não acontecerá mais no ano que vem. O resultado desse ano está tão ruim… Estou triste sabe. Você lutou tanto por isso.”

Pronto. Ele sabia que bastava fingir tristeza, empatia, solidariedade, como se ele fosse doce, para eu virar na giraia e devolver:

“Nada disso, presidente. Apesar do seu time não estar fazendo o trabalho que deveria fazer, porque já fez o número dele com a outra marca, vou conseguir vender. Ou não me chamo Claudia Giudice”. E lá ia eu para o mercado, para a rua, para o raio que o parta, bater a meta. Sempre funcionou e, por isso, sigo atendendo, orgulhosamente, pelo nome.

Recentemente, graças a Deus, aconteceu de novo. Uma cliente chamada Elizabeth se hospedou em minha pousada. Gostou de tudo. Foi gentil. Educada. Fez uma ótima avaliação, mas…mas fez críticas duras e corretas sobre a minha capela. Reclamou que tudo era lindo e arrumado e a capela, que dá o nome à pousada, estava suja, tinha santos feios, estragados. Dizia que achava um erro, um absurdo.

A crítica, corretíssima, fez eu sentir dor de estômago imediata. Fiquei remoendo. Remoendo. Por que eu deixei a capela naquele estado? Por que não tive coragem de tirar aqueles santos que sempre achei horríveis? Por que? A resposta infundada era uma recomendação/ameaça da antiga decoradora da casa. “Não mexa na capela. Deixe tudo como está”. Eu, com minhas idiossincrasias e pequenas superstições, acatei. Tonta. Burra.

Cinco anos e uma Elizabeth depois da quase praga, criei coragem. Mudei tudo. Limpei. Enfeitei. Hoje acontece o primeiro evento – uma boda de 25 anos – com as novas imagens. Estou feliz e orgulhosa. A capela está linda.

altar

Eu detesto receber críticas. Elizabeth, obrigada pela crítica.

 

 

 

 

 

 

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6 comentários sobre “Eu adoro receber críticas

  1. “Criticize the act, not the person” – Mary Kay Ash. Você refletiu, digeriu a crítica feita pela Elizabeth sobre a sua capela (ela criticou o ato e não você) e entendeu que a cliente estava correta. Sempre muito orgulhosa de você. Beijos!!!

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  2. Primeiramente parabens pelo maravilhoso texto!! Eu ja li quase todos os seus textos! Simplesmente os amo!!
    Um dia (tomara que chegue logo!!) gostaria de compartilhar a minha historia, vida sem cracha com voce.

    Me identiquei muitissimo (quase que totalmente) com o seu texto!! Sou assim tambem. Mas fico me questionando se nao ha um outro meio, menos sofrido, menos doloroso, menos solitario de fazer com que as coisas sejam realizadas sem tanto sofrimento, raiva, dores no estomago ou no figado, sem sentimentos negativos…
    Fiquei pensando que se voce escreveu esse texto, e ainda seja assim, entao que provavelmente, nao tenha uma resposta, ou talvez, esteja satisfeita com a sua maneira de agir ou reagir aas provovacoes externas. Beijos!

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    1. Ana, obrigada por sua mensagem. Fico feliz que goste dos meus textos. Não ainda não encontrei uma anestesia para os meus humores e sentimentos. Estou melhorando. Já foi muito mais doido e sofrido. Ficava dias me martirizando. Repetindo mentalmente o erro. Hoje reajo rápido e procuro logo um reparo. Errei, péssimo. Vamos consertar. Enfim, as vantagens de envelhecer são aprender um pouco. beijos

      Curtido por 1 pessoa

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