O mundo é grande e cabe numa janela sobre o mar

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Amo este poema do Carlos Drummond de Andrade. Não sabia que era dele. Conhecia os versos na voz da Maria Bethânia como introdução de uma série de cantigas de roda que ela canta no disco Pirata, lindo, lindo.

O poema, o disco, o texto, a foto pertencem a uma seqüência de histórias que se entrelaçam. É um novelo tão lindo, que decidi desfia-lo aqui.

Tirei a foto no Museu do Frevo em Recife. Fui para lá participar da Fenearte e garimpar arte popular, minha atual paixão. Estava em Olinda, na pousada, uma pérola barroca no meio do caos, quando li o artigo da Adriana Setti sobre a mudança dos pais dela para Barcelona para um sabático de um ano. No texto, ela conta como eles mudaram de vida no sentido de simplificar, baratear, reduzir, desfrutar e com menos, viver mais.

O pai de Adriana é Ricardo Setti. Ele é meu amigo. Foi meu colega e chefe na Abril. Foi generoso ao ponto de revisar e comentar toda a minha tese de mestrado. Em 2001, conheci, em primeira mão, o projeto atual de vida dele. Foi insólito. Tanto que vou contar. Sem romancear, mas com detalhes.

Ele era meu chefe e me apoiava em um projeto de revista, a Tudo, que era todo torto e por isso não dava certo. Em paralelo, eu estava tentando engravidar do Chico. Tinha operado de endometriose. Estava frágil e maluca, tomando injeções de hormônio na barriga. Um dia Setti me chama na sala dele e diz: “Claudinha, estou partindo. Fiz 55 anos, vou viver da minha previdência privada e das minhas economias. Vou viver a vida. Gastar menos e aproveitar mais. Meus filhos moram na Espanha. Em breve, terei neto…”

A proposta dele era sensacional . Eu mesma, naquela época ainda nos trinta, me preparava para isso desde os 15… Mas não consegui sorrir nem vibrar. Comecei a chorar feito um bezerro. “Setti, por favor, não faça isso. Preciso da sua ajuda. Como vou sobreviver a tudo isso sem você me apoiando?”. Setti, para quem não o conhece, é um lord. Tem fairplay e aplomb no DNA, é gentil, generoso e elegante. Mas ele nunca, jamais, esperou que a funcionária mais casca-dura, mais trator, mais obreira que ele tinha, fosse cair em prantos na frente dele. Constrangido, tentou me consolar. Foi empático.

Enxuguei as lágrimas, toquei para frente e um dia, nove anos depois, fui promovida para o cargo que ele tinha. Quando a notícia foi divulgada, ele me mandou um email lindo de parabéns.

Lendo o artigo da Adriana na mesa do café, com o perfil de Recife ao longe, lembrei de tudo isso e me dei conta das voltas que a vida dá. Naquele remoto 2001, eu tinha muitos planos futuros. Mudar e simplificar estavam no horizonte, longe, longe. Na mira, estavam engravidar, ter filho, trabalhar, ganhar dinheiro, ser promovida, ser diretora do diretor, ser fodona, ser mandona, ser a todo-poderosa. Setti era todo-poderoso e eu não entendia porque ele queria abrir mão daquilo tudo tão cedo. Ele só tinha 55anos.

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

Depois de ler o artigo e me derreter com tantas memórias, fui para a rua, visitar o Recife antigo. Quem vive de passado é museu e eu sou um museu ambulante. Péssima companhia de viagem, aliás, porque quero entrar em todas as igrejas, visitar todos os museus, por mais mambembes que sejam. Distribuo exclamações de encanto frente a cacos de azulejos portugueses que não arrebatam nem piolho de cobra. Paciência. Por enquanto sou assim. Por enquanto, disto não estou disposta a me livrar, a abrir mão.

Visitamos a primeira sinagoga das Américas. Depois o museu dos bonecos gigantes. Na seqüência, o museu do Frevo. Pirei. Dá-lhe história da música e da dança que nasceu do povo para o povo. Quando subi para o último andar, dou de cara com a janela que enfeita esse texto.

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

Poucas obras conseguem sintetizar a essência da vida, do amor e do que é simplesmente relevante. Uma dúzia de palavras, um mundo de significado. Em questão de horas, o assunto – menos é muito, muito mais – voltava a iluminar meus olhos.

Esse poema-canção se tornou predileto quando meu filho tinha dois anos. Ele aprendeu a cantá-lo depois de ouvir um milhão de vezes o disco Pirata da Maria Bethânia. Ele, meu anjo, em 2004, me ensinava o que era importante. Eu, boba, achei lindo mas não compreendi, de verdade, a mensagem. Só fiquei coruja com a perspicácia do meu bebê.

Na semana passada, estava com Chico quando visitei o museu e vi o poema. É com ele que, agora, aprendo e experimento uma vida que cabe na cama e no colchão de amar. Um mundo numa janela sobre o mar. E as peças do quebra-cabeça foram se juntando, juntando e acho que um novo projeto está nascendo. Menos é muito, muito mais.

Coloca um ponto final.

Menos, Claudia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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16 comentários sobre “O mundo é grande e cabe numa janela sobre o mar

  1. “que sempre exista um livro, um sorriso, uma folha levada pelo vento, um pedaço de mar e uma janela que sejam a sua recompensa”
    (você me fez pensar em outras vidas e outras poesias, cada um tem a sua, e como sempre fico grato pela paisagem que vai se criando quando se deixa o coração falar, mais uma vez, grato)

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  2. Claudia, você é um exemplo…me deleito nos seus textos… Hoje tenho a minha empresa, vivo a vida sem crachá, mas não plenamente sem crachá…no auge dos meus 35 anos, assim como você na mesma época, me preparo para viver a plenitude do menos ser mais… Enquanto isso, sigo criando meus filhos, para que em breve eles voem e eu possa voar ainda mais alto.
    Parabéns!

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  3. Lindo, Claudia! E, inspirador, como sempre. Relembrar a figura querida do Setti foi um deleite. A expressão “gaiola de ouro” ouvi pela primeira vez numa conversa com ele. E assim entendi sua decisão. A contribuição que você dá com seus textos é enorme para compreendê-la mais ainda. Obrigada!

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