Encontros e despedidas

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Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Quando esta canção do Milton Nascimento e Fernando Brant foi lançada, em 1985, encontrei meu hino. Meu lema. Meu mantra. Chegar e partir. Sem ter planos. Ir e voltar. Mochila nas costas. Dinheiro pouco. Vontade louca de conhecer tudo e todos. Engolir o mundo com os olhos e com a boca. Viajar até sentir saudade. Viajar até o dinheiro acabar.

Com a música tocando em meus ouvidos, lembro de dar adeus à minha mãe parada na calçada na frente do prédio que morávamos. Ela ia para o interior. Eu ia para o mundo. Ela chorava manso e eu sorria feliz. Confesso que aos 18 anos, não entenda aquele choro. Chorar por que? Eu estava bem, saudável, tinha meus planos, meus projetos e estava pronta para realizá-los. Ia lá e voltaria logo mais.

A ela, pensava a jovem tola, cabia apenas a tarefa simples de esperar. O resto eu faria. Paciência, mãe, volto já.

Ontem, 31 anos depois, a canção do Milton voltou a tocar, agora, no meu coração. Lá estava eu no aeroporto, descendo as malas dos meus pais e do meu filho do carro. Eles voltariam para São Paulo e eu ficaria trabalhando no São João da Bahia. Eles iam logo ali. Eu ficaria logo aqui. Eles estavam bem. Eu também, de novo saudável, com meus planos, projetos e muita vontade de fazer. Só que agora era diferente. Eu era a mãe e dava adeus aos meus “filhos”. Bateu aquele sentimento que só os pais e as mães conhecem. Aquele medo de “algo acontecer”, de perder de vista, de não estar por perto em uma emergência. Como minha mãe fez lá no século passado, respirei fundo, sorri e acenei.

Em minha linha direta com Ele, com Ela e com todos os meus protetores, pedi. Humildemente, pedi desculpas. Primeiro pela minha falta de empatia com meu pai e minha mãe por todos esses anos “andando por ai”. Depois, por ter escolhido um destino 2000 quilômetros longe deles, que faz do nosso cotidiano um permanente voltar e partir. Por último, pedi que eles chegassem bem e voltassem logo. Eles fazem muita falta e sinto muita saudade.

Mandem notícias do mundo de lá. Me dê um abraço. Venha me apertar.

 

 

 

 

 

 

 

Chegar e partir era o meu mantra, minha filosofia de de vida. Aceitava qualquer viagem, para qualquer lugar, desde que estivesse em movimento.

 

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12 comentários sobre “Encontros e despedidas

  1. Que lindo Claudia! Sinto o mesmo cada vez que a minha filha viaja. Com 16 anos ela morou por um ano em Vancouver. Tenho uma filha de espírito livre como você, além de tudo Ariana.

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  2. Claudia, muita gratidão a você por esse texto. Muito oportuno pra mim que recebi ontem um comunicado da minha filha que irá para Nicarágua surfar! Ainda bem que eu o li antes. um beijo

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