A vida sem vergonha

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Beatriz Franco, 28 anos, nasceu e mora em Santos, litoral sul de São Paulo. É jornalista e tradutora. Fala e escreve com fluência português, espanhol e inglês. Como milhares de profissionais da comunicação, foi apanhada pelo passaralho, o monstro de asas que está desertificando as redações de jornais, revistas, sites, assessorias, televisões mundo a fora. Para quem não é do ramo vale explicar: não se trata de uma crise. Não é um drama, exclusivamente, brasileiro. Trata-se de uma transformação no modelo de negócio. É global. O formato anterior que financiava os veículos impressos por meio da receita vinda do leitor que comprava na banca ou assinava e pela receita dos anúncios faliu. Os meios digitais, em sua maioria gratuitos, mudaram essa equação. O mesmo vale para a televisão, que sofre com a queda de audiência e, consequentemente, de receita publicitária. As novas plataformas digitais como Google, Youtube, Facebook fazem parte dessa mudança. Um novo modelo ainda vai nascer. Neste meio tempo, os jornalistas estão na lona, sem emprego, sem trabalho e sem ganhar dinheiro. Estão virando suco.

No domingo, ao publicar um texto sincero no Facebook, Beatriz virou um exemplo. Exemplo de transparência, de honestidade e de redenção. Depois de ficar quatro meses sem trabalho, agoniada, sofrendo no sofá de casa, decidiu enfrentar seus medos, suas vergonhas e preconceitos. Criou um plano B ao aceitar o convite de uma amiga para trabalhar de quarta a sábado como atendente em uma doceira de bairro em Santos.

Ao assumir a nova função, descobriu novos talentos. Ao ir à luta, decidiu contar o seu processo. Compartilhou suas descobertas e, consequentemente, encarou de frente os seus fantasmas. Não sabia, mas havia criado um viral (https://www.facebook.com/beatriz.franco.792197?fref=nf&pnref=story). Virou exemplo e modelo de superação. Ajudou um bocado de gente a sair do modo “pausa”. “Nunca imaginei que o meu texto teria essa repercussão. Escrevi para exorcizar a minha vergonha”, diz Beatriz, que agora exibe com orgulho a touquinha de vendedora que tanto a desestabilizou nos primeiros dias.

Você escreveu em seu texto que o pior foi vestir a touquinha. Por que?

“Eu tinha vergonha. Era preconceito. A touca era o símbolo de que eu estava, supostamente, fazendo uma atividade “menor”, inferior. Afinal eu era jornalista, falava três idiomas. É um absurdo a forma como vemos certos trabalhos. É um absurdo sentir vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas.”

Quando a sua vergonha passou?

“Comecei a trabalhar em uma quarta-feira. É uma loja de bairro. Existe uma rotina. As pessoas chegam na mesma hora, todos os dias. Vem tomar um café, comer um pedaço de bolo. Fui sentindo prazer em atender, conversar, trocar com os clientes. Além disso, descobri que nos finais de semana, o trabalho é uma loucura. Tenho que me desdobrar para atender a todos com rapidez e eficiência. Não é um trabalho tão fácil e simples quanto parecia. Percebi que eu tinha muitos preconceitos. Acho que ao entender isso, a vergonha foi passando. Hoje estou aprendendo sobre gestão. Quero estudar, fazer cursos, posso me tornar uma empreendedora.”

E os amigos?

“Eu sentia vergonha deles também. Ficava pensando sobre o que eles iriam pensar me vendo ali servindo mesas. Outra bobagem. Acho que escrevi o texto para colocar um ponto final neste sentimento. Funcionou.”

– Como está a sua vida agora?

“Estou feliz. Faz três semanas que estou trabalhando. Gosto de atender as pessoas. Gosto de ouvir histórias. Estou interessada em aprender mais sobre a gestão do negócio. Acho que levo jeito para a coisa. Adoro o jornalismo. É a profissão que eu escolhi. Estudei muito, mas neste momento não dá para viver disso. Estou aprendendo uma atividade nova. Estou ouvindo muitas histórias, conhecendo muita gente. E agora, estou escrevendo a minha história de um jeito diferente. No fundo, também foi para isso que fiz jornalismo. Curioso, não é?”

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários sobre “A vida sem vergonha

  1. que fantástico e inspirador esse depoimento. Humildade, disposição interna, coração aberto é o que vai fazer com que todos nós superemos esses momentos de crise, indefinição e instabilidade. O importante é a gente estar em movimento constante e trocando com as pessoas. Isso é o que enriquece a alma. Parabéns para a Beatriz!!!!

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