Epifania de domingo: pequenos prazeres

canoaquebrada

Canoa Quebrada, verão de 1984.

20160527 SZ CG e Nil_pp

Retrato da semana por Sérgio Zális, um mestre

Todo mundo tem o seu retrato de Dorian Gray. O meu é esse acima. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Havia passado para o segundo ano da faculdade de Jornalismo. Me sentia livre, jovem, poderosa, inteligente e capaz. Estava muito apaixonada. Tinha certeza que cumpriria meus milhares de planos. Tinha a vaidade de achar que era dona da verdade e que poderia mudar o mundo sem precisar mudar de ideia. Tinha tantas vontades quanto as que cabiam dentro do meu peito.

No dia da foto, naquele distante janeiro de 1984, na ainda quase deserta praia de Canoa Quebrada, no litoral sul do Ceará, enxerguei, sem querer o futuro. Desisti de fazer uma tatuagem de lua e estrela no ombro direito, porque me vi ontem nua na frente do espelho, e pensei:

– Essa tatuagem não ficará bonita no corpo de uma mulher de 50 anos. E vou sentir uma dor, uma saudade, uma tristeza desse tempo que foi tão lindo, tão solar, tão sensacional. Vou cancelar o serviço.

Como disse nove linhas acima, eu era metida e pretensiosa. Burra. Vaidosa. E equivocada. Não tenho a tatuagem e lembro disso tudo como se a tivesse. Se a tivesse, seguramente, teria orgulho e carinho por ela em meu ombro ainda rijo ma non tropo. Sempre que a enxergasse, teria um arrepio de prazer na espinha. Perdi. Paciência.

O bom da vida é que sim, a gente dança. Baila e muda o tempo inteiro. No meu caso, além de mudar, acabo por engolir com farinha e gargalhadas tudo o que um dia disse “nunca, jamais faria”. Fiz tudo e mais um pouco do que já neguei e condenei na vida. Casei. Tive filho. Separei. Engordei. Emagreci. Cedi. Descasquei. Perdi. Apaixonei. Troquei. Principalmente falhei. E fundamentalmente, mudei. Mudei muito.

Sem arrependimentos, fi-lo porque qui-lo. Porque assim entendi ser melhor. Ontem aconteceu de novo. Depois de um feriado inesquecível, quando recebi meus hóspedes com carinho, estive reunida com meu filho e meus amigos mais queridos, quando tive o prazer de ser fotografada por um mestre e quando tive a honra de celebrar o amor de dois amados amigos, tive uma epifania na frente do espelho do meu banheiro.

Tirei a roupa para tomar banho e me vi nua. Despida das roupas e das ideias e preconceitos que carreguei por tantos anos. Reparei nos seios mais cheios e caídos do que no tempo do retrato e achei que eram lindos. Encarei minha barriga nada negativa e achei-a verdadeira e legítima. Representa os últimos anos de prazer. De festa com os amigos. De farra com a vida.

Não pretendo cultivá-la porque quero manter o meu guarda-roupa G, número 44. Mas definitivamente  não perseguirei mais o figurino 40 que me coube por tantos anos. Ele ficou para trás, como uma boa lembrança. Como a foto do topo desse texto. Como a força de vontade que me abandonou no café da manhã quando disse sim para um bolinho de estudante.

Ainda na frente do espelho ontem, lembrei de uma palavra que adoro e me inspirava a fazer dieta e exercício no ritmo 24×7. Sílfide. Sílfide para quem? Bonitinha e perfeitinha por quê? Um sorriso maroto apareceu no canto dos meus lábios, ligeiramente enrugadinhos. Pensei despudorada:

– “Ficou velhinha e espertinha. Abandonou o estoicismo e aderiu ao hedonismo. Boa escolha.”

Verdade, verdadeira. Ainda sou fibrosa, mas faz tempo que larguei mão de ser pétrea, incansável e inquebrantável. Estou ficando maneira, maleável e malemolente,  como as curvas da minha cintura, os excessos na minha coxa e a flacidez dos meus braços que agora só dão adeus no formato conchinha, tipo rainha da Inglaterra.

Entrei no chuveiro quente pensando nisso tudo e na felicidade que sentia. A pele bronzeada se arrepiou de prazer. Dane-se se ficou um pouco mais enrugadinha. De verdade, faz tão pouca diferença em comparação com a memória de um instante, assim, de prazer. O domingo, então, acabou assim em festa, com a súbita experiência da compreensão de algo assim tão essencial.

 

 

 

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20 comentários sobre “Epifania de domingo: pequenos prazeres

  1. Se partires um dia rumo à Ítaca
    Faz votos de que o caminho seja longo
    repleto de aventuras, repleto de saber.
    Nem lestrigões, nem ciclopes,
    nem o colérico Posidon te intimidem!
    Eles no teu caminho jamais encontrarás
    Se altivo for teu pensamento
    Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
    Nem lestrigões, nem ciclopes
    Nem o bravio Posidon hás de ver
    Se tu mesmo não os levares dentro da alma
    Se tua alma não os puser dentro de ti.
    Faz votos de que o caminho seja longo.
    Numerosas serão as manhãs de verão
    Nas quais com que prazer, com que alegria
    Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
    Para correr as lojas dos fenícios
    e belas mercancias adquirir.
    Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
    E perfumes sensuais de toda espécie
    Quanto houver de aromas deleitosos.
    A muitas cidades do Egito peregrinas
    Para aprender, para aprender dos doutos.
    Tem todo o tempo ítaca na mente.
    Estás predestinado a ali chegar.
    Mas, não apresses a viagem nunca.
    Melhor muitos anos levares de jornada
    E fundeares na ilha velho enfim.
    Rico de quanto ganhaste no caminho
    Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
    Uma bela viagem deu-te Ítaca.
    Sem ela não te ponhas a caminho.
    Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
    Ítaca não te iludiu
    Se a achas pobre.
    Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
    E, agora, sabes o que significam Ítacas.
    Constantino Kavafis

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  2. Cláudia, parabéns pela coragem diante da virada em sua vida e disposição em abrir-se ao mundo, contando sua história, seus momentos de transição e aprendizados. Acabei de ler seu livro ontem, gostei muito de tudo que escreveu. Também fiz o curso Empretec, há muitos anos, como treinamento gerencial, interesse próprio e foi muito importante na minha carreira de executivo. Agradeço pelas experiências compartilhadas. Desejo que você seja bem sucedida em sua nova jornada e fase da vida. Abç

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