Um abraço e um saco de frutas

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Sempre me perguntam se um dia eu voltarei a ter crachá. Sempre respondo que não sei. Jamais e nunca são palavras que deixei de dizer, porque aprendi que podem virar mentira. Gosto da minha vida sem crachá com plano B, mas se tivesse que escolher uma atividade “carteira assinada”, adoraria ser professora. Gosto de falar. Gosto de falar em público. Gosto de gente. Acho que sei me comunicar. Acima de tudo, gosto da relação de afeto que se estabelece (na maioria das vezes) entre professores e alunos. Troca-se conhecimento. Dá-se amor. Recebe-se em dobro.

Ouvi uma história linda nesta semana. Quem contou foi meu amigo virtual, Joaquin Perez, companheiro de compartilhamentos na rede social. Joaquin é cubano. Já teve muitos crachás na vida e inúmeras profissões. Foi educador, gerente de projetos, relações públicas, marqueteiro, diretor de atendimento. Morou no mundo. Nasceu em Cuba, viveu na Espanha, em Portugal, na Suíça e agora no Brasil. O pedaço da história dele que me encantou está lá no princípio.

 

Joaquin estudou pedagogia e psicologia em Havana. Caxias, formou-se aos 20 anos. Com o diploma fresco nas mãos, tornou-se professor de professores de um centro tecnológico, que acolhia adolescentes com problemas sociais, muitos vítimas de abandono familiar. Os professores, com formação técnica, careciam de ferramentas didáticas e pedagógicas para transmitir seus conhecimentos aos “alunos-encrencas”. Joaquin, então com seu primeiro crachá de professor de pedagogia, descobriu que ali teria uma segunda função que rapidamente se converteria na paixão da vida dele. “Eu precisava acompanhar e guiar não apenas a evolução pedagógica daqueles professores, como também deveria dar apoio integral para aqueles adolescentes”, conta.

 

Naquela época, não existia o mentoring nem o coaching. Para poder se integrar e ser aceito pelo grupo, o mestre precisava mostrar que tinha domínio sobre o universo do grupo, além de conhecimento técnico e teórico. Cosmopolita e cabeção, Joaquin foi desafiado a aprender a andar de cavalo, laçar gado, derrubar touro e conhecer todos os tipos de gramíneas de um pasto. “Era um menino da cidade, metido a intelectual, e fiquei fascinado pelo desafio. Ralei e consegui a plena integração. Tantos que aos 21 anos, fui eleito como o melhor professor jovem do país”, relembra. Os resultados, os méritos e as conquistas chegaram junto com uma série de conflitos profissionais.

 

– “Tive o primeiro contato com a inveja e o ciúmes. Foi muito violento. Quase abandonei a minha carreira de professor.”

 

Por acaso, num desses dias cinzas, quando pensava seriamente em mudar de vida, abandonar tudo, Joaquin foi abordado na escola por um senhor de idade indefinida. Ele tinha a pele curtida que nem couro. Olhar baixo e jeito simples de quem sempre trabalhou no campo. Carregava um saco pesado nas costas.

 

Ele olhou pra mim e disparou: “Você é o professor Joaquin?” Respondi afirmativamente, mexendo a cabeça. Ele olhou fundo nos meus olhos e me entregou aquele saco pesado, cheio de Mamey, uma fruta típica do interior de Cuba. E começou a contar a história dele, que também era minha.

 

– “Eu sou o pai do Andrés. Ele foi o seu aluno e vai se formar hoje. Durante quatro anos, a gente não conseguiu vê-lo. Moramos muito longe e não tínhamos dinheiro para pagar a viagem. Nosso coração sofria de pensar que nosso menino tão pequeno estava sozinho na cidade grande. Cuidamos dele de longe e nunca o abandonamos. Sempre recebíamos cartas dele e nelas ele falava de você. Então, descobrimos que nosso menino estava crescendo e que não estava sozinho. Você estava com ele. Agora ele vai se formar como técnico veterinário e também será aceito pela universidade para estudar medicina veterinária!”.

 

Joaquin conta que a essa altura da fala, o homem chorava baixinho. Não tentava mais conter a emoção. “Ninguém da nossa família teve estudos. Andrés mal conseguia escrever o nome quando chegou nesta escola e, em breve, será o primeiro médico da nossa vila. Aos 60 anos, fiz a primeira viagem da minha vida para assistir a formatura do meu filho e para vir aqui lhe conhecer. Não sabia como agradecer ao senhor (o senhor era eu com 22 anos!). Andrés sempre diz que o senhor gosta de Mamey, por isso trouxe algumas para lhe oferecer. O senhor aceita?”

 

A história termina em um abraço. Joaquin, repleto de amor e orgulho, chorou abraçado ao pai de Andrés e ao saco de fruta.

 

 

 

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15 comentários sobre “Um abraço e um saco de frutas

  1. Que lindo, que emoção, sensação eterna de dever cumprido!!!! Este é um texto que ficamos literalmente sem palavras!!!! Imagino a cena, o sentimento, a gratidão deste momento….. Ser professor é saber a capacidade de poder mudar vidas!

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  2. Chorei Claudia. Lindo essa historia.

    Temos mesmo uma missão , de cuidar , de levar esperança !

    Eu estou em busca de uma inspiração dentro desta visão.

    Abraços

    *Olívia Hansen* *(19) 99669 2888* *(92) 98207 8888*

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  3. Amei essa história do Joaquin ! Eu, agora aposentada depois de 36 anos em trabalho corporativo, desejo colocar minha profissão acadêmica em prática e desejo iniciar com auxiliando alunos da rede publica que tem dificuldades. Pensei: será que haverá adesões ? Mas nessa nova jornada fixei um pensamento. Se conseguir auxiliar um aluno para que ele venha a obter progressos futuros, já está de bom tamanho !

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  4. Claudia, Essa historia é muito bonita, fiquei emocionado vendo o amor do pai, sabendo de tudo que acontecia com seu filho e tão longe, jamais o Joaquim poderiam imaginar a importância do seu trabalho, neste caso receber esse reconhecimento não existe preço para isso, as vezes damos tanto valor a coisas que não tem tanto valor assim, mas isso é apenas uma mostra do que a vida nos proporciona.. Abraços

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  5. Claudia, que história linda! E como as pessoas se sentem agradecidas quando você as ajuda de uma forma que elas crescem de fato!
    Acabou me fazendo lembrar de uma situação parecida (com relação ao agradecimento) ocorrida comigo quanto trabalhava em um banco. Fazíamos vários atendimentos para troca de cheques de aposentadoria em marco alemão. Em dado momento, o banco subiu fortemente o valor das taxas e os velhinhos que recebiam as aposentadorias foram totalmente impactados. Lembro de uma delas chorando na minha frente ao assinar o contrato com o valor irrisório que iria receber…aquilo me deixou destruída.
    Descobri como migrá-los para outra forma de recebimento (muito mais em conta) e pedi à gerência para isentá-los (eram 3 clientes!!) até que fossem migrados definitivamente, o que levaria no máximo 2 meses. Após fortes protestos da gerência, consegui a isenção.
    Quando a senhorinha que havia chorado veio receber sua última aposentadoria pelo banco, ela me deu um chocolate e disse: “Infelizmente só posso te dar isso. Obrigada por tudo.”
    Aquelas palavras fizeram todo o esforço e discussão valerem a pena e confesso que levei um tempão até criar coragem e finalmente comer o chocolate.
    Abração e obrigada por compartilhar esta história!!

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  6. Muito obrigado, Claudia por relatar esse fragmento da minha vida com tanto carinho. Você já sabe como valorizo o seu universo tão enriquecedor e diverso. Um abraço para todos. Grato

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