Um café para consolar o Alex

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Hoje uma amiga me ligou afobada. Queria que eu a ajudasse a consolar um cunhado dela que havia perdido o emprego na véspera. O homem estava desolado. Havia sido sondado para um novo emprego em uma gigante do mundo digital. A ex-empresa dele, ferida nos brios, cobriu a proposta da concorrente apesar de estar mal das pernas. Ele, apaixonado pelo trabalho, ouviu o canto da sereia. Não aceitou o emprego novo e dois meses depois, bomba. Estava na rua. Encontrei com ele em um café. Se fosse um bar, estaria tocando “Garçom” do Reginaldo Rossi tamanho o pé na bunda que ele levou.

 

Inconformado e cheio de ódio pela própria burrice, Alex parecia uma bomba relógio, Tic-tac, tic-tac, prestes a explodir.

“Eles me enganaram, me prejudicaram e ainda por cima me deram 72 horas para resolver todas as burocracias relacionadas a minha pessoa jurídica digital. Meu email vai morrer na quarta-feira”, anunciou com lágrimas nos olhos.

Minha empatia foi imediata. Sim, ele não lera o meu livro e não sabia que eu havia passado por situação semelhante só que com prazo estendido. Pulei essa parte e também não comentei que fiquei com a linha, o celular e o labtop da minha ex-empresa. Meu novo amigo, coitado, ficou completamente a pé.

Como sou uma anta digital de tênis, não me atrevi a ajuda-lo a fazer a migração dos dados. Apenas o consolei e indiquei o mesmo passo a passo que fiz, recomendando que ele pedisse ajuda a um amigo safo ou mesmo contratasse um jovem talento digital para ajuda-lo.

Passo 1: fazer um novo email tipo gmail, que é grátis e quase eterno. A partir de agora, associe tudo o que é seu a ele.

Passo 2: fazer uma lista com todas as contas atreladas ao antigo email. Tipo: Facebook, Instagram, Linkedlin, Googleplus, twitter, e-mails, companhias aéreas, cartões de crédito, plano de saúde, banco, clube, escola dos filhos, previdência privada, Imposto de Renda, Nota fiscal Paulista, Booking.com, compras digitais, livrarias digitais, seguro, previdência… e claro todos os contatos do icloud.

Passo 3: pedir ajuda e a companhia de alguém calmo e com cabeça fresca para fazer a transição. Quanto maior a agonia, maior o risco de erro e perda. Não aperte botões sem saber do que se trata, especialmente se nasceu antes da década de 1990.

Contei para ele que passei pelo mesmo perrengue. Que entrei em pânico. Desespero. Não sabia por onde começar. Fiz um tanto de besteira e, graças a Deus, contei com a ajuda de amigos na salvação do meu computador e na reabilitação do meu Linkedln. Me esqueci do Twitter, que descobri estar preso para sempre na minha outra encarnação porque não consigo mais acessá-lo. Contas que unem email e CPF são irrecuperáveis. Percebi nessa tarefa o quão forte era a minha relação com a firma. O quanto pessoa física e jurídica eram misturadas, apesar de eu sempre ter enfatizado essa distinção. Caí em uma armadilha. Foi uma agonia escapar dela.

Durante a conversa, lembrei que demorei um bocado de tempo para apagar dos meus dedos a escrita do meu velho email. Nos primeiros meses, me pegava digitando cgiudice@a… Ficava furiosa com o ato falho e apagava correndo, com vergonha. Pensava: “Um dia, vou esquecer, tenho certeza.” Esqueci.

Criar uma nova identidade pessoal e profissional é parte de um processo comum a todos os executivos e funcionários que perdem seu crachá. Não tem jeito. É preciso desvestir a camisa e escolher um novo figurino, se você quiser se desapegar do passado. O apego inibe a criatividade de pensar um novo ponto de partida. Este é o único jeito de começar seu plano B. A perda da identidade de um dirigente de uma empresa tradicional é penosa e difícil.

Alex estava mesmo muito triste e abatido. Decidi que a melhor abordagem era o método tragicômico à moda do Péricles Maranhão, criador do Amigo da Onça. Apliquei logo a minha história com o Lindln para ele entender que a vida é dura mesmo.

LinkedIn, decifra-me ou te devoro

Viver sem crachá é possível. Viver sem ganhar dinheiro, sem ter ganhado na Mega-Sena antes, não é. Dentre as muitas atividades de um “descrachado”, procurar uma atividade remunerada é a principal. Outra noite, decidi procurar oportunidades no lugar mais óbvio e “moderno”: o LinkedIn, a rede mundial dos empregos. Tenho lá meu perfil desde que a língua oficial era apenas o inglês. Usava pouco, confesso. E, por burrice crônica, também tinha atrelado o meu perfil ao meu ex-e-mail corporativo. Deu um trabalho danado consertar minha estupidez. Desfeita a união entre pessoa física e jurídica, cometi outra sandice. Apertei um botão incauto e autorizei que a plataforma acionasse todos os contatos do meu iPhone. Saíram da minha máquina mensagens-convites para presidentes de empresa, artistas, amigos e também para o Toninho do Abará, meu fornecedor de abará, um quitute baiano, lá da pousada. Enfim, um desastre, considerando-se que agora é o meu momento crucial de fazer networking, o tal relacionamento entre executivos e empresários.

Noite passada, navegando no site para melhorar meu repertório, cliquei na aba “empregos”. Tinha um monte de ofertas. Animada, comecei a clicar nos logos das empresas mais admiradas e desejadas para se trabalhar. Travei. O português virou mandarim e por muitas vezes não entendi qual skill o empregador queria. A quantidade de siglas e termos técnicos é absurda, tanto que precisei de um tradutor intérprete para chegar ao fim dos atributos necessários para ser manager de PR e branding em uma empresa digital. Salário: R$ 3.500,00.

A boa-nova é que hoje, graças às plataformas em rede, abertas e coletivas, os profissionais da área de comunicação, como eu, não dependem exclusivamente do emprego em grandes grupos para produzir conteúdo de qualidade e ter relevância. Os meios de produção, antigamente caros e inacessíveis, estão à disposição de todos. Confesso, no entanto, que fiquei mordida com meu analfabetismo funcional de Linkedln e perguntei para meu amigo Tiago, jovem, brilhante e ultraconectado, se ele entendia tudo o que lia. Honesto, disse que não. “Tem alguns termos que são muito novos e eu também não sei. Copio e dou um google. Em geral é algo muito simples, que eles escrevem de modo difícil para tentar fazer um filtro”, explicou meu amigo. Faz sentido. Outro dia, 357 candidatos brigavam por uma vaga mediana em um portal. Como a esfinge, o Linkedln o devora.

 Funcionou. Alex riu das minhas palhaçadas. Felizmente, ele é engenheiro, tem menos de 40 e muitas áreas para procurar uma recolocação. Não pertence ao grupo de profissionais que começou a trabalhar na década de 1980 e têm enorme dificuldade de encarar empregos e funções na indústria digital. Sim, é duro aceitar isso. Mas ter clareza sobre as suas próprias limitações, economiza esforço e falsas esperanças. Antes de partir, Alex me pediu um autógrafo no livro que havia ganho da cunhada, a minha amiga dublê de agente e empresária. A dedicatória foi honesta. Desejei que ele superasse logo a dor e tivesse muito sucesso na busca de um plano B para sair desse momento difícil.

 

 

 

 

 

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5 comentários sobre “Um café para consolar o Alex

  1. Bom dia. li sua matéria e gostei, sempre achei q é mesmo preciso ter o tal “plano B”. Sou formada em letras e odontologia, mas confesso q sempre tenho a sensação de que falta aquele “algo a mais”, não sei dizer o que é, como se eu estivesse em um lugar que não me pertence, não sei se me entende. Agora, aos 54 penso que não dá mais tempo de recomeçar. Pode me dizer alguma palavra que me motive? Obrigada, Josana Machado

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    1. Josana, obrigada por sua mensagem. Não sei se tenho alguma palavra que te motivo, mas posso lhe dizer que tenho 50 e sigo inventando planos B. O motivo principal é que se tudo der certo, devo viver bem por mais uns 20 e não quero desperdiçar todo esse tempo me sentindo incompleta ou infeliz. um forte abraço

      claudia

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