Um ano depois, um dia pra vadiar, refletir e agradecer

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27 de abril. Preciso anotar na minha agenda esta data. Tornou-se uma efeméride tão importante quanto 16 de setembro, data do nascimento do meu filho, 20 de dezembro, dia oficial da inauguração da Pousada A Capela, e 25 de agosto, data do lançamento do meu livro, A Vida Sem Crachá. Preciso anotar na agenda porque só descobri a força desse dia hoje, 28, o day after.

Vou explicar. Ontem 27 de abril de 2016, tirei o dia para vadiar. Não fui para Itapuã, mas para a ilha de Loreto, na Bahia de Todos os Santos, pertinho de Salvador, em uma lancha bala de um casal de amigos. O dia estava azul anil. O mar liso, quase espelho. O sol quentinho. A brisa perfeita. O mar tépido. Tão extraordinário que não resisti. Fiz bullying com os amigos queridos de um grupo de Whatsapp. Postei várias fotos. Recebi de volta xingos, brincadeiras e, no final do dia, carinho. A certa altura da provocação, vários deles postaram fotos de copos, para mostrar que também podiam estar, como eu, perto da água.

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A minha defesa foi honesta e justa. Escrevi:

“A receita para um dia como este é a seguinte: trabalha 30 anos como um mouro. Monte um negócio próprio. Rala para burro na firma e no negócio. Toma um pé na bunda e vai para a rua. Rala mais no negócio próprio. Conserva bons amigos (os donos da lancha) e combina uma farra na quarta-feira.”

Fui perdoada pela turma e por meu filho, Chico, que também faz parte do grupo e estava em São Paulo estudando.

Vadiei. Farreei. Comi bem. Bebi bem. No final do dia, com o sol dando show no horizonte, pensei que era hora de agradecer ao chefe que me demitiu. Se não fosse ele, minha vida talvez estive presa em uma escada rolante do sem fim, como aqueles quadros do Escher. Ou fosse uma infinita montanha russa do Huck, que abomino. Cantarolei tarde de Itapuã e perguntei para os amigos: “Quem tem o telefone do ex-presidente?” Sim, porque ele também perdeu o cargo faz alguns meses.

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Hoje, graças à memória de uma amiga, descobri que ontem foi mesmo um dia histórico. Não apenas pela deliciosa farra, nem pela felicidade de me saber muito melhor e mais feliz, mas pelo fato de fazer exatamente um ano que o projeto Draf publicou o texto do “Ao arrancarem o meu crachá, senti como se estivessem arrancando a minha pele”. Para quem não sabe ou não lembra, este post foi um marco na trajetória da minha vida sem crachá. O danado viralizou. Mais de 440 mil pessoas leram e fiquei conhecida como “aquela moça que foi mandada embora e confessou em praça pública que doeu”.

Um ano depois, apenas me lembro que doeu. É apenas um fragmento da minha memória. O sentimento de perda desapareceu. A dor sumiu. A tristeza evaporou. Hoje não tenho nem saudades. Só boas recordações. Conto isso não para me gabar. Conto porque sei que tem gente vivendo hoje o que vivi há 365 dias. O tal do Efeito Orloff.

Acredite, você pode começar de novo. Pode mudar. Pode despejar as mágoas e tristezas no lixão da alma e iniciar uma nova etapa, rica e muito feliz, da vida. Não acho que exista uma fórmula, nem uma receita para cumprir qualquer ciclo de reinvenção. É um processo muito pessoal. Também muito solitário de descobrimento e reconhecimento. É possível. É necessário. É recompensador.

O que mais me ajudou nesta escalada do fundo do poço ao Everest? Gente. As pessoas fizeram toda a diferença. Minha família. Meus amigos. Os amigos dos amigos. E os novos amigos. Nestes 365, sem exagero, conheci milhares de pessoas que me escreveram, me adicionaram, me cutucaram, vieram me ver na Pousada, foram me ouvir nas palestras e, graças a Deus, leram meu livro. Ganhei muitos presentes em forma de gente. Recebi e compartilhei emoções, histórias e carinho. Descobri que a vida sem crachá não só é possível, como pode ser espetacular, libertária, produtiva, estimulante, educativa e prazerosa. Um ano depois, agradeço ao destino (e a escolha dos meus ex-chefes) pela chance de inaugurar, experimentar e viver uma nova forma de existência mais leve, mais livre, com menos pressão, com mais tempo, com menos dinheiro, com mais pé no chão e pulso na realidade, abundada de sol, calor, mar e muitos, muitos amigos.

Por isso, se hoje você for eu ontem, acredite: vai passar.

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36 comentários sobre “Um ano depois, um dia pra vadiar, refletir e agradecer

  1. Claudia, como sempre, amei seu texto. Envolvente e, acima de tudo, verdadeiro. Dá pra’ sentir a felicidade e a leveza de seus dias nele. Parabéns! E viva a vida sem crachá! Bjs

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  2. Cláudia, a Egle tem razão. Seu texto é verdade e leveza. Eu, ex crachá da mesma empresa, me envolvi e fiquei feliz com suas palavras.. um abraço e sucesso sempre..

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  3. Claudia, eu sai da empresa 10 dias depois de você. Fiquei 4 anos sonhava em permanecer por lá pelo resto da vida… Sofri demais quando sai e isso ainda dói um pouco até hoje.
    Não consegui mais me reencontrar no trabalho depois disso, nao consegui entrar na minha área que é treinamento e mesmo empregada não sinto as emoções positivas básicas relacionadas a trabalho, mas ao ler cada texto do seu blog vejo que é real e possível voltar a ser feliz e realizada nessa área da vida.
    Parabéns e obrigada por seus textos!!

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  4. Faço das suas as minhas palavras. Algumas vezes comentei seus textos aqui por que desde o início me identifiquei com eles. Hoje também me sinto livre e nem um pouco saudosa da vida que tinha e da empresa na qual trabalhei. Hoje trabalho como consultora, ainda não alcancei minha tranquilidade financeira, mas me dou ao direito de recusar trabalhos que me fazem mal, e sei que na hora certa as coisas vão se ajustar.

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  5. O seu ontem é o meu hoje. Espero, em breve, voltar a essa leveza e alegria que li no seu texto. Muito, muito obrigada por compartilhar. Você sempre me inspira a “insistir um pouco mais, pois vai dar tudo certo”.

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  6. Sabias palavras!! Tudo na vida passa!! Basta acreditar que dias melhores virão.
    Para alguns essa leveza demora a chegar, pois aquela sensação de “pássaro preso que fica sem saber voar quando ganha a liberdade nos incomoda demais.
    Mas isso não impede que novos vôos aconteçam. Cláudia, você hoje serve de exemplo e estímulo para muitos, como eu, que vive sem crachá aguardando que novos desafios surjam e uma nova pagina começe a ser escrita. Guardo na cabeceira seu livro autografado para reler e lembrar do belo exemplo que você é. Um grande beijo!!

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  7. Claudia,

    Amanhã será o meu dia de viver essa experiência …. Lembrei de ter postado a seu respeito no face e busquei na minha linha do tempo. Comecei a ler seu blog hj, espero que ajude!

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  8. Claudia
    Vou completar 2 anos sem crachá,depois de 35 anos na mesma e única empresa de trabalho.
    Sua mensagem é tocante e inspiradora e como você descobri outros mundos.
    Parabéns
    Abs Ruy

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  9. Muito inspirador. Adoro seus textos. Mostra que todos podem realizar seus sonhos e nos apresenta meios de planejar uma vida sem crachá. Ter os pés no chão e enxergar pontos positivos em meio as turbulências.

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  10. Cláudia, em dezembro/15 fui demitida depois de 29 anos trabalhando em um mesma empresa. Confesso que ainda estou perdida e não encontrei meu novo caminho, mas seus textos me inspiram em acreditar que conseguirei dar a volta por cima. Muito obrigada.

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    1. Siomara, obrigada por sua mensagem. Eu tenho certeza que sim. Faz muito pouco tempo que você saiu. Eu só completei o meu ciclo de dor e luto nove meses depois. Uma gestação e um parto. E eu já tinha a minha pousada funcionando muito bem. É um processo. Mas vai dar tudo certo. Se você encarou 29 anos de mundo corporativo, certamente encontrará um novo e ótimo caminho. grande abraço e muita força e fé.

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  11. Olá Claudia, zapeando por aqui vi sua postagem e comecei a te seguir. Você é um exemplo de que é possível se reinventar! Estou nessa mesma situação de desemprego, mas acreditando na possibilidade de novos rumos na vida, e já estava elaborando o meu plano B antes da demissão…, esse é o meu recente bolg. Acho que grande parte do país também se encontra nesta situação meio sem rumo, e, nessas horas, é preciso ter coragem como vc teve. Feliz em poder ler tudo isto

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  12. Simplesmente lindo, como tantos outros textos seus que me inspiram! Obrigada por partilhar tão delicada e verdadeiramente a sua coragem. Não te conheço pessoalmente, mas gostaria que soubesse que influenciou minha decisão de deixar o crachá para cuidar do que é mais valioso pra mim e simplificar a vida! Um forte abraço e continue nos alegrando com suas palavras encantadas!

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