A linha, o linho e ideias revestidas de tecido

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A história da microempresária paulistana, Alessandra Pallis, 51 anos, casada e mãe de dois filhos é parecida com a minha. Ela é uma lovemonday. Sempre amou seu trabalho e viveu por 23 anos uma relação de paixão com a empresa na qual trabalhava. Atuava em uma área muito especializada – um canal de vendas por meio de assinaturas – que era o mais eficiente do Brasil no setor. Sentia-se plena, realizada e nunca sentiu vontade de procurar a melhora dela em outro lugar. “Eu não estava acomodada. Estava feliz, por isso nunca procurei outro emprego”, diz Alê, com quem trabalhei por muitos anos e que, como eu, teve o seu dia D (de demissão) em 2013.

Alessandra não tinha plano B. Nunca tinha pensado nisso. Nunca tinha atinado que isso poderia vir a ser uma questão a lidar. No começo, ela confessa, não foi fácil. A mudança de vida pesou. Não tinha plano. Não queria buscar uma recolocação. Não sabia o que fazer. Não se animou com um projeto de blog e consultoria na área de marketing e vendas. “Não senti paixão e parei”. Com o passar dos meses, percebeu que estava “meio deprimida”. “As coisas ficaram cinzas. Não estava bem e decidi procurar ajuda. Fui fazer terapia, consultei médicos e as nuvens foram se dissipando”, lembra. Nesse momento, Alê lembrou de um desejo/gosto antigo, sempre adiado por causa dos compromissos com o trabalho e com a família. Ela adorava costurar e precisava fazer um curso para dominar a arte de criar em pano. “Minha mãe foi contra mestre de alta costura. Convivi com isso e sempre gostei, mas nunca aprendi”.

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Cursos do Sebrae e um curso online artesanato.com deram início à fase de aprendizado e treinamento. A experiência como executiva, claro, facilitou os passos seguintes. Ela começou uma pesquisa de diferentes tipos de artesanato para decidir qual seria o foco do trabalho. Estudou tecidos. Buscou fornecedores. Montou uma página no Facebook. Desenvolveu com o apoio da irmã uma marca para a empresa. A Tutto Tessuto se define como uma empresa que faz roupas de mesa e ideias revestidas de tecido. A especialidade são jogos americanos, toalhas, passadeiras e tudo o mais que puder ser feito em pano. “Recebo muitas encomendas e adoro solucionar problemas. Outro dia, criei uma bolsinha em tecido náutico para transportar taças de acrílico que está fazendo muito sucesso com quem tem barco”, conta Alê.

Com um planejamento bem pé no chão, ela não tem pressa de crescer nem de contratar funcionários. O pré-lançamento da Tutto Tessuto aconteceu em dezembro do ano passado. Alê participou de bazares de final de ano entre amigas. Foi um sucesso. Vendeu um bocado, ampliou a clientela e neste mês vai participar do bazar do dia das Mães no Clube Paineiras, em São Paulo. Neste momento, está a toda na produção de 16 jogos americanos de cambraia de linho. “Optei por uma micro empresa individual porque quero dar um passo de cada vez. Meu faturamento mensal tem de ser de até R$ 6000, o que está ótimo por enquanto”, diz Alê, com os olhos brilhando de felicidade.

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Ela trabalha sozinha na varanda do próprio apartamento, na Vila Madalena, em São Paulo, tendo como companhia o Joca, um cão da raça West Highland. O bicho fofo passa o dia aos pés da dona, embalado pelo barulho da máquina de costura. Eles têm uma rotina e muita qualidade de vida. Depois da ginástica, trabalham das 9 ao meio dia, quando Alê busca a filha adolescente no colégio. A família almoça junto. Depois das duas, a artesã retoma o trabalho com Joca ao lado. Seguem na lida até o cair do dia. Uma vez por semana, o expediente é mais burocrático. Ela se dedica às contas, às compras e ao contato com fornecedores. À noite, antes de dormir, Alê se diverte pesquisando tecidos e novos formatos nas revistas especializadas. “Preciso me controlar, ter hora limite para parar de trabalhar. Senão, só faço isso. Sabe, me sinto leve, meio poética”, diz Alessandra. O que mais ela precisa na vida? Apenas encomendas, ora.

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36 comentários sobre “A linha, o linho e ideias revestidas de tecido

  1. Claudia, parabéns! Texto delicioso sobre a história de alguém, que como nós, aprendeu a se reinventar. Viva a vida sem crachá! Bjs e sucesso. Egle

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  2. O que pode ter mais valor nas nossas vidas do que essa leveza? Isto é fruto da certeza de respeitar-se acima de tudo. Reinventar-se não é tarefa simples mas é um arco-íris cujo final vale a pena encontrar.
    Lindo texto, Claudia. Linda e inspiradora história, Alessandra.

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  3. Olá Cláudia, também perdi meu emprego depois de 20 anos de empresa. Fui um pouco mais radical, mudei para o interior e investi na educação. Vida plena, alegre, leve. Vale a pena!

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  4. Oie Claudia, tudo bem? Eu me emocionei com sua história…Eu nao fiquei 23 anos numa empresa, até mesmo pq tenho 34. Fiquei apenas 10 meses num grupo hospitalar no RJ e eu AMAVA o que fazia… E olha que o meu salário era o menor… Infelizmente puxaram meu tapete e me afundei na tristeza de sair daquele emprego. Pois era ele que me sustentava na sd do pânico… Infelizmente, piorou com a saída. Hoje estou em tratamento e evoluindo para diminuição da medicação…
    Eu simplesmente AMEI sua recuperação ee me deu mais força… hj eu atuo no município do RJ e amo meu trabalho, apesar de algumas lideranças e outras.. Mas aprender a resiliência na terapia foi algo que o Senhor me agraciou e sou muito feliz… Nã tenho plano A, B ou C. Mas tenh Deus e força!

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  5. Claudia , não sei como você surgiu na linha do meu face …. Sou uma quase ET nesse universo de máquinas … , mas acredito em presentes divinos …. Adorei seu texto sobre a estória da Alê !!! Parabéns a vocês duas !!! Muito grata pela partilha ! Sucesso e Prosperidade !

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    1. Cynthia, muito obrigada por sua mensagem. Fico feliz em ter ido parar na linha do seu Face, se a reportagem fez bem à você. Esta é a intenção. Quando fui demitida do meu emprego, me contratei para escrever histórias de superação. Comecei com a minha, A Vida Sem Crachá, agora estou dando conta de mostrar a dos outros. grande abraço

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  6. Também sou Cláudia!
    Lendo sua história, tive uma sensação agradável! Estou a procura de um trabalho que me dê prazer, e esse é um deles, a costura
    Estou aposentada, fui morar na praia aqui do Paraná e preciso completar a renda. Pensei em várias coisas. Amo decoração! Os tecidos me encantam! Estou em Curitiba. Voltando vou agilizar e concretizar esse sonho! Obrigada ! Sua história venho de encontro ao um desejo!

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  7. Ai que lindo. Minha mãe costurava pra nós quando éramos criança. Nunca aprendi,mas tenho um enorme afeto pelas pessoas que trabalham com linhas,fios,bordados,panos…isso me lembra ela,me lembra amor. Parabéns Cláudia, seja feliz.

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