Da presidência à sala de aula, em busca da legitimidade perdida

 

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Conheci a Juliana Acquarone no Facebook. Trocamos mensagens. Trocamos histórias. Fiquei fascinada pela trajetória dela, porque escapa à trilha comum e exemplifica de modo original e inspirador as diversas maneiras de se criar um Plano B para dar conta de uma mudança de vida. Juliana é jovem, batalhadora e verdadeira – com ela e, por conseguinte, com os outros. Entrou cedo no time dos talentos e chegou aonde quis e planejou. Nossos caminhos se cruzaram porque ela foi demitida. Os demitidos, assim como os jogadores de biriba, os torcedores do América do Rio de Janeiro e os colecionadores de selo, procuram seus pares para trocar impressões.

Ela foi dispensada após ser nomeada presidente interina da maior empresa de pesquisa do planeta, na qual trabalhou por 8 anos. Não se surpreendeu com o bilhete azul. Sem pedir, pediu para sair exatamente quando havia chegado ao topo. Havia conquistado aquilo que todos querem: cargo, prestígio, salário e poder. Não encontrou a felicidade que sempre a manteve tão excelente e produtiva. Não teve jeito. Para reencontrá-la, começou a desenhar um plano de fuga.

“Após minha última promoção, para o cargo de vice presidente, algo estranho aconteceu. Diferentemente das outras vezes, além da alegria e orgulho pela conquista e do sentimento de responsabilidade com a nova função, comecei a conviver com um nuvem cinzenta quando olhava para meu futuro profissional. Pela primeira vez, não tinha claro o meu próximo passo. Essa incerteza me incomodava, mas a rotina diária, o volume brutal de trabalho, a responsabilidade por estar à frente de um time de profissionais excelente, tomavam toda minha energia. Fui tocando a vida”, lembra Juliana, que nasceu no interior de São Paulo e mudou-se aos 16 anos para a capital, onde morou com a avó para se formar em Propaganda e Marketing na ESPM. “Num dado momento, comecei a sentir um cansaço inédito, que não era o cansaço físico de uma semana inteira de horas extras, nem dos jet-legs das viagens internacionais, nem da tensão de um longo processo de negociação. Era um cansaço diferente, que não passava com um fim de semana relaxado, uma festa animada ou uma corrida no parque. Era um cansaço emocional, uma ausência de energia criativa. Estava podre. Estava desmotivada.”

Juliana conta que levou mais de um ano para perceber que havia perdido a energia que a fazia trabalhar e produzir com alegria, prazer e criatividade. “Não era simples aceitar um questionamento sobre algo que nos últimos vinte anos havia se tornado o eixo principal da minha existência. Em torno do meu trabalho, estabeleci minha vida. Construí minhas amizades, minha rede profissional, minha segurança financeira, minha realização intelectual, enfim, uma identidade. Não era simples imaginar que de repente aquela cara, aquele perfil, aquela roupa já não serviam mais. A nomeação como presidente interina iluminou as coisas: eu não queria ser presidente!”, descreve.

O corpo da executiva começou a berrar. Dores musculares e problemas na pele se tornaram recorrentes. Ela montou um “time de guerra” para combater os sintomas e a origem deles. Aconselhamento profissional, psicoterapia, massagem, acupuntura. Amigos, marido e família também foram recrutados e apoiaram a mudança de perto. “Recebi muito amor”, relata Juliana. “Tive a sorte de encontrar profissionais excelentes, que me ajudaram muito. Eu precisava me “re-conhecer”, buscar muito lá no fundo, em uma parte de mim que era anterior a essa experiência bem sucedida, o que havia por trás dessa desconexão. Porque essa identidade não me representava mais, e afinal, que outras roupas eu poderia vestir dali para a frente.” A demissão veio sem surpresas, como resultado desse processo de distanciamento que foi discutido algumas vezes com os chefes. “Foi um fim de jogo honesto e respeitoso, nem por isso indolor”, relata Juliana.

Pela primeira vez sem crachá, Juliana desenhou seu plano B com lápis. Decidiu que queria ser professora universitária e consultora. Não queria mais trabalhar como executiva. A razão da mudança não foi a falta de oportunidades no mercado, mas a certeza de que o modelo corporativo não mais a representava. As identidades de pessoas física e jurídica estavam apartadas, em guerra. Juliana sentia-se refém de um modelo de atuação pré-definido, aceito e esperado no ambiente corporativo. “Eu precisava fazer, fazer, fazer, sem espaço para pensar. Minhas crenças, paixões, interesses, desejos pessoais não eram o que ocupava meu dia. Minha “vida” e meu trabalho se tornaram coisas distintas. Meu perfil no Facebook estava muito diferente do meu perfil no LinkedIn!,” conta ela, que desenhou um plano B no qual pode guiar escolhas e decisões compartilhados com os da vida privada. “Me sinto legítima. Existe uma conexão entre o que eu realizo e o que defini como propósito. Está tudo junto e misturado.”

Juliana escolheu a longevidade como assunto central do seu plano B. Desenvolveu um curso de forma autodidata, que foi ministrado ao longo de 2015 para cinco diferentes turmas de MBA e extensão universitária, que recebeu excelente avaliação. Foi aprovada e já está cursando um mestrado acadêmico, no qual pretende se especializar sobre o tema para poder trabalhar como consultora de empresas. “Também estou escrevendo para um blog que vou lançar, logo, logo, com textos sobre o mercado da longevidade. Estou me especializando nesse tema. Vou montar um curso, que servirá de base para o lançamento da minha consultoria no segundo semestre. Enfim, o meu plano “B” se re“A”lizando…”. Vida longa e prazer é o mínimo a se desejar a Ju e a seus planos A, B e C.

 

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8 comentários sobre “Da presidência à sala de aula, em busca da legitimidade perdida

  1. Oi Claudia, li seu livro e fiquei apaixonada. Percebi q realmente existe vida sem cracha. Esto passando por momento de transicao, seu livro caiu como uma luva, afim d passar por esse processo menos dolorido, para que la na frente se acontecer esteja preparada p os planos da vida q seja A, B, C, ou ate mesmo um outro cracha, porem mais feliz. Bjkas .

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  2. tenho vez ou outra passado por aqui para buscar um oxigênio extra na minha fase de transição, são pausas que faço e que me deixam motivados pelas histórias de vida que leio e vejo que não estou tão louco assim em querer rasgar de uma vez por todas meu crachá, confesso que ainda tenho receio, mas não medo de recomeçar, muito bom ter a chance de ler tudo o que voce escreve

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  3. Parabéns pela demissão libertadora e transformadora!! Não conhecia sua história, chamou minha atenção porque tb estou a um ano sem crachá, a caminho do plano B, mas na certeza do que não quero mais :crachá no pescoço vivendo sonhos dos outros. Vou firme rumo a minha missão d vida,!!!!

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