Bandeira branca, amor, eu peço paz

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Estou em Arembepe, meu paraíso particular. Aqui o tempo anda com as marés. O dia nasce com os bichos, que cantam para o sol. Devia me entregar exclusivamente a essa dobra de tempo e espaço.

Nesta semana de notícias frenéticas não consegui. Fiquei trabalhando de celular na mão, de olho nos portais e na rede social. Postei um pouco de muito. Irresponsavelmente. Hoje depois de um compartilhamento, recebi um comentário: “Descobri que a sua bandeira é vermelha”. Antes que eu pudesse dar enter na resposta, fui bloqueada. Achei tão singelo que decidi resumir minha história assim:

“Meu time é o Santos. Branco e preto. A bandeira que eu mais gostava era a com a baleia.

Nasci em São Paulo há 50 anos. Logo, na Copa de 70, festejei com a bandeira verde e amarela na rua Augusta. Foi lindo. Meu pai tinha um jeep Vermelho e subíamos com uma bandeira gigante costurada pela minha avó, Gina.

Meu primeiro voto foi em 1985. No PT. Nunca tive uma bandeira vermelha, mas fui fiel até 2014 quando cansei das traições. Cansei de perdoar os injustificáveis desvios de caráter e de conduta do partido. Sinto uma tristeza enorme por isso. Acreditava, talvez ingenuamente, que podíamos mudar o Brasil e o jeito brasileiro de fazer política.

Sou a favor da Lava Jato. Sou a favor da prisão de todos criminosos. Inclusive do Lula, se for provada a culpa dele. E como não sou mais menina, acho que será.

Não sou a favor do impeachment pelo impeachment porque acredito na democracia e no legalismo. Se Dilma cair pelo rito normal e legal, não vou chorar. Ela está sendo uma péssima presidenta. Temo pelo Temer, uma sombria temeridade (perdão, não resisti ao trocadalho).

Sou coxinha. Pago meus impostos direitinho. Não passo no farol vermelho. Reciclo o lixo. Economizo água. Ando de bicicleta na cidade. Combato a dengue. Sou contra a violência. Era fã do Moro até ele decidir adotar a espetacularização da Justiça como modo de agir e legislar. Até ele fazer da investigação uma tocha incendiária. Tomara que não se repita. Tomara que não seja uma estratégia. Tomara que o Supremo seja supremo e legalista.

Por tudo isso, minha bandeira pode ser de qualquer cor. Vermelha, azul, amarela, rosa, roxa, verde. Não pode ser preta, porque era a bandeira fascista. Vou fechar com a branca. A minha bandeira é branca. De paz.

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17 comentários sobre “Bandeira branca, amor, eu peço paz

  1. Esse texto é tudo o que sinto, obrigada por ter escrito. Aproveitando o espaço, parabéns pelo livro que me foi de grande ajuda e por todos os outros textos. Grande abraço, Bia

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  2. Claudia, parabéns pela lucidez e equilíbrio em seu texto. Me identifiquei muito com sua história. Também fui PT, me emocionei com a ida do Lula para a disputa com o Collor, mas me decepcionei, com a bandidagem dele e do partido. Nunca votei na Dilma, e acho que eles perderam a chance de ficarem na história boa desse país. Parabéns pelo texto.

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  3. Baita texto !
    Parabéns !
    Diante dessa situação lamentável mas necessária, os ânimos se exaltam, eai não podemos entrar nessa vibração dos de bandeira preta !!!

    #vamostodoslevantarabandeirabrancaJuntocomasoutrasbandeiras

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  4. Nunca votei no PT porque sou portuguesa. Moro no Brasil há mais de 40 anos e estou muito triste com tudo o que está acontecendo. Assino embaixo do seu texto. Obrigada

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  5. Tudo o que eu queria dizer e não encontro palavras porque quando se fala algo, entende-se ou que você é direita ou esquerda. A impressão que me dá é que realmente estamos exaustos, perdidos e guiados por uma minoria que na verdade estão praticando a auto defesa, pisando na constituição e provavelmente a repercutirá negativamente para o resto de nossas vidas.
    Agradeço sua competência e cuidado em traduzir nosso sentimento!!
    Parabéns

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  6. Muito bom seu texto. Peguei sua bandeira branca emprestada pra fazer o meu. Cansei. Fico vendo o pessoal se matando por ai em nome do que mesmo ? nao entendo… bem enfim, boa sorte pra nós né ?

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  7. Estou lendo sem parar seus textos. Pode ser um reflexo da minha bolha, mas a travessia para uma vida sem crachá tem sido tema recorrente entre amigos, colegas de trabalho, parentes… será que a bolha está prestes a estourar? Eu ainda estou lutando com os meus demônios para aceitar que a vida de expatriado na Coca-Cola, aos 26 anos, na verdade não me traz mais felicidade. Nem identificação, nem esperança, nem nada. Compartilhar as suas ideias e experiências ajuda pessoas que estão atravessando a correnteza de si mesmo a ganhar um impulso e continuar nadando… Obrigado!

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