O que vão pensar de você????

claudia_praia_vestidoamarelo

Outro dia vi uma propaganda de produtos cosméticos que discutia questões de gênero. Não lembro a marca. Não lembro o produto. A mensagem me devolveu à infância. Uma voz adulta dizia: “você não pode sentar de perna aberta”. Outra voz bronqueava: “está toda desarrumada. Parece um menino.” Uma terceira fala, agora em coro, bradava acompanhada de diferentes predicados: “o que vão pensar de você…vestida assim desse jeito, …falando desse jeito, …agindo desse jeito.”

O efeito dessas vozes, repetidas insistentemente durante a infância e a adolescência pelas avós, tias, mãe e amigas das mãe, tias e avós, sobrevive no meu corpo e na minha alma. Por mais que goste, não consigo sentar de perna aberta. Estou sempre com elas cruzadas, até mesmo agora, enquanto escrevo sentada à mesa. Sobre a desarrumação, a fala teve efeito reverso de trauma-maldição. Me tornei uma adulta desarrumada e bagunceira ao extremo. Até eu mesma me canso da minha zorra, às vezes.

A terceira ladainha, poderosa como um mantra do capeta, é o motivo deste texto. O que vão pensar de mim? Por causa dessa dúvida, preocupação estúpida, pessoal e intransferível, vivi a maior parte dos meus 50 anos pensando nos outros – ou melhor, naquilo que, eventualmente, os outros poderiam pensar sobre a minha insignificante pessoa. Será que alguém pensava? Será que alguém falava? Não sei. Bastou a ameaça. Bastou a potencialidade de um mau julgamento para eu me comportar, agir, escolher segundo os bons modos do senso comum.

Por causa do que poderiam pensar sobre mim, quantos momentos de prazer eu perdi? Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantos projetos equivocados abracei? Quantas horas de sono eu perdi? Quantos burradas cometi? Não sei dizer quantas, mas sei que foram muitas, inúmeras, incontáveis. Por que me submeti ao jugo alheio? Por que cedi à pressão do sequestro do olhar alheio? Vaidade, medo, vontade de criar um legado. A essa altura, bobagem fazer novos julgamentos. O feito está. E legado, definitivamente, é algo que não se preza em tempos de snapchat.

O fio da meada dessa reflexão foi puxado nesta semana. Estava andando pela rua e um amigo me viu. Buzinou. Gritou. Nada. Não conseguiu atrair minha atenção. Daí me escreveu: “chamou-me atenção seu ritmo: leve, fluido, sem pressa. Cabelos ao vento e perfil ereto. Pensei…tá de bem com a vida. Como dizia o Walter Franco: tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. .” Sim, estou de bem com a vida. Mas, o que faz mesmo a diferença é saber que nada faz diferença. Que digam, que pensem e que falem.

Só posso dizer que, felizmente, não devo nada para ninguém. Nenhuma obrigação. A partir de agora, só gratidão.

 

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6 comentários sobre “O que vão pensar de você????

  1. A viagem é importante, o caminho, a regra, a sua orografia comportamental, tudo isso trouxe você até aqui. Tudo isso foi na verdade escolha consciente e muito própria. Essa escolha faz você livre porque você conhece as suas necessidades e compactua com elas, conhece suas limitações e negocia com elas.
    Essa liberdade é feroz e apaixonada só que conhece o jeito de não ser evidente. Alguém que saiba entender o seu jeito de jogar a cabeça para atrás ou passar a ponta dos dedos levemente pelos cabelos. O quando seu tronco fica ereto como se estivesse dançando, ou os seus pés aprecem ganhar vida própria procurando a areia que tanto lutaram para ganhar. Quando alguém percebe toda essa dança marítima e esse galope que conduz seus movimentos para longe da conversa fiada, a reunião interminável, o tópico redundante. Perceve também que os conselhos da família, a autoconsciência, o domínio adquirido são só contorno não conteúdo. Como o seu amigo falou é impactante ver o seu corpo dançar em quanto os demais ao seu redor só conseguem arrastrar os passos.
    Muito bom ter mais uma visão da sua vida sem crachá. Um Abraço

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  2. Oi Claudia, td bem, li seu livro, fiquei apaixonada. Estou encaminhando por uma vida sem cracha. Acredito e confio q consiga passar por essa fase com menos dor por causa da leitura d seu livro e do trabalho interno q estou fazendo comigo mesmo. Bjs e vamos q vamor. Aguardo o seu plano C.

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