Dia de festa de amor na terra e no mar

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Oxum era rainha e na mão direita tinha o espelho onde vivia a se mirar.

Quanto nome tem a rainha do mar? Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá.

O dia amanheceu cinza, garoento. Pensei com os botões: Ela deve estar mal-humorada, brava. Brigou com alguém ontem. Desci a ladeira de carona, acreditando que ia dar para seguir caminhando. Não deu. Começou a chover a cântaros. No taxi, pedi:

Moço, por favor, me leva para o Rio Vermelho.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Pela janela molhada fui olhando o mar cinza e pensando no meu pedido. Estava precisada. Dessa vez não poderia apenas agradecer. Lembrei da epifania de 14 de janeiro e tive esperança. Era a primeira vez que eu ia. Era a primeira vez que pedia. Tinha crédito. Tinha fé. E o pedido era singelo. Não queria dinheiro, poder, nem emprego. Queria de volta aquilo que havia perdido. Que Ela havia tomado de mim em um momento de distração.

Quando desci do carro a chuva apertou. Precisava urgente de uma capa ou de um guarda-chuva. Dobrei a esquina e numa biboca encontrei os dois. Comprei. 12 reais a sombrinha. Dez a capa. Andei 100 metros. A chuva, claro, parou. É sempre assim, o tempo e suas provações. Ficaria com a capa e a sombrinha pesando no corpo o dia todo. Paciência. Melhor sem chuva.

Perfume, flor, espelho e pente. Toda sorte de presente para ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?

Comecei a caminhar. No passeio, ambulantes ofereciam flores, água de cheiro, pentes. Recusei. Não sou militante, mas acho uma barbaridade sujar o mar com tranqueiras. Não ofereceria nenhum mimo, nenhum presente. Seria um papo reto. De mulher para mulher. Queria o que era meu de volta. Simples assim. Não tinha feito nada de errado. Por que a privação?

Na virada da curva do morro da Paciência quis descer para a areia. Ouvi um “não, não quero sujar os pés. Nos encontramos na escada da casa de Yemanjá”. Fiquei triste pela solidão. Fiquei feliz pela liberdade. Poderia me escarafunchar. Poderia parar, ouvir, falar sem precisar de acordos e negociações. Fui.

Alodê, Odofiaba, MInha-mãe, Mãe-d`água, Odoyá!

Qual é seu dia, Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro, quando na beira da praia eu vou me abençoar.

Mal cheguei à areia, fui atraída para uma tenda. Lá dentro um pai de santo com cara de índio e cabelos compridos fumava um charuto fedido e dançava. Os atabaques tocavam fortes, rápidos, animados. Era bonito e curioso ver. Ele começou a cantar uma ladainha e foi chamando os presentes para entrar na roda. Antes de deixar dançar, abraçava a pessoa primeiro do lado esquerdo, depois do direito. Dava uma baforada e sorria feliz. “Iemanjá merece. Iemanjá merece”, repetia para os filhos e filhas, que se curvavam a ele. Temi que minha hora de dançar chegasse e fui saindo de fininho. Iemanjá ficaria irritada com minha falta de jeito para o baile e não atenderia o meu pedido.

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O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita, se você chorar.

 A praia lotada ficava mais cheia a cada lambida de onda. Para seguir em frente, tive que ir para o mar. Bobeei e ensopei os pés com meia e tênis.

– Pronto, Minha Mãe, já me molhei. Já me melequei. Por favor, me ouve. Me ajuda. Como eu faço para ter de volta o que era meu e por distração perdi?

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia cantar.

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Na roda seguinte, agora sem tenda, um homem vestido de Yemanjá dançava como ela ao som de tambores, zabumba e de uma sanfona. Ele não era delicado, nem tinha trejeitos femininos, mas por ela parecia incorporado. O dono da sanfona, de óculos escuros, tocava compenetrado, ele também em um transe. Na areia, ajoelhado, um fotógrafo gringo metralhava a cena, enfeitiçado pela beleza diferente. Fiquei olhando os três, fascinada com a força Dela, capaz de unir três homens tão diferentes e, cada um a seu modo, seduzi-los.

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Três metros atrás, já dentro do mar, crianças brincavam de molhar o próximo. Riam, riam, riam. Estavam em festa com Oxum. A festa Dela, vale dizer, é uma grande farra. Com exceção de algumas fiéis, de olhar triste e distante e coração apertado, a maioria ali estava para celebrar. A vida, o mar, o amor. Ah, o amor.

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O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita se você chorar.

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia a cantar.

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Amor, não é preciso fazer pesquisa, é o que mais se pede à rainha do mar. Ela é mãe. Ela é generosa. Ela é amorosa. Se ficar comovida com a história de amor, acredite, vai ajudar. Gosta de atender aos pedidos masculinos em primeiro lugar. Das mulheres, com quem disputa a atenção masculina, exige mais afinco e devoção. Afinal, é sereia, dona de exclusivos feitiços.

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Andei viajando em meus pensamentos e demorei a chegar no lugar combinado. A multidão cresceu. Fiquei com um medo danado de me perder. De perder a minha companhia. De perder o meu desejo. De longe, fui escaneando a escada. Procurando, procurando, procurando. Achei. Neste momento, fogos espoucaram em festa. Mais um barco saia com oferendas. Mais um pedido seria entregue. Senti um calor no coração, uma ternura profunda. Sorri meu melhor sorriso. Será que ela já estava realizando o meu pedido?

 

Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar

 Resolvi encarar a fila enorme para visitar a casinha em homenagem a ela no Rio Vermelho. É um santuário, antigo, feito pelos pescadores dali que são seus primeiros devotos. Na porta um senhor negro monumental, dizia sorrindo, “vamos andando, minha gente. Ela vai atender a todos”. O lugar lindo, decorado com afrescos e mosaicos, fazia jus ao esplendor da rainha do mar. Lá dentro, oferendas em dinheiro e cheiro de lavanda. Estava na casa dela.

  • Então, rainha? Você vai me ajudar? Para cá eu vim por causa do mar e do amor. Aqui quero ficar mas sem mar e sem amor não dá.

Na saída do santuário de 30 metros quadrados, outro homem, também sorridente, me ofereceu um banho de alfazema. Tomei. Agradeci. Ele sorriu, como que dizendo “não tenha medo. Tudo vai dar certo.”

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É difícil explicar o que foi acontecendo. É difícil escrever e descrever. O céu ainda estava cinza, carregado, mas meus olhos começaram a ver azul. Desci na prainha atrás da casa. Lá, encontrei menos gente e mais fé. O mar já havia devolvido muitas das oferendas que Ela dispensou. Um rastro de flores e perfumes ocupou a praia. Um grupo de mulheres barrigudinhas atirava mais flores carregadas de pedidos. Amor, senhora. Amor. Logo ali, um grupo de umbanda destoava. O pai de santo era vaqueiro. De gibão, colete e chapéu, o homem entoava cantigas do interior. Falava de boi, vaqueiro, mato, montanha. Nada a ver com o cenário, nada a ver com a festa, nada ver com ela. Fiquei lá tentando entender, mas fé não tem mesmo explicação. Vez por outra, ele evocava a rainha e gritava: “Odoyá”. Se o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, estava tudo certo.

Olhei de novo para a murada, procurando. Achei. Fiquei feliz. Sorri, novamente, meu melhor sorriso. Estou aqui. Me espere.

Quando voltei meu olhar para a praia, quatro mulheres vestidas de Yemanjá chegaram. Parei para ver e ouvir. A mais velha puxava a cantoria. As mais novas acompanhavam. Um rapaz vestido de azul fazia a voz masculina nas cantigas em homenagens a Ela. Lindas, simples, pueris. Fiquei lá, enfeitiçada, ouvindo, ouvindo. Depois de vários cânticos, entendi. Era um batismo. Uma moça vestida de branco foi coberta por um manto e abençoada. Todo o grupo abraçou a garota, aquele abraço cruzando os ombros, para recebê-la na irmandade. Meia hora depois do início do ritual, ela fazia parte do grupo. Crianças terminaram por acolhê-la.

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Havia chegado a minha hora de tomar uma benção. Fomos para o outro lado da praia e escolhemos uma mãe de santo com uma bacia imensa de pipoca. Ela bateu com as folhas na minha cabeça, nos meus ombros, jogou pipoca, sementes, colocou um pouco de pó branco no meu peito e nas minhas costas, enquanto sussurava um monte de coisas boas. Saúde, paz, amor e fé. Foquei nestas quatro, que era só o que eu precisa. Era só o que eu pedia. Era só o que eu queria. Lembrei de uma tarde distante, quando conheci Mãe Menininha do Gantois. Éramos oito amigas, jovens, paulistanas, recém-entradas na Universidade. Fomos parar no terreiro por curiosidade e interesse. Manoel, nosso amigo e guia, estava louco de paixão por Fanny e queria seduzi-la. Nos levar lá fazia parte do plano. Acontece que Mãe Menininha gostou de mim ou errou de loira – Fanny era tão sueca como eu. Com a voz fraca pela velhice e doença, ela me chamou. Fui, emocionada. Em meu ouvido, soprou: “você é filha de Oxum, a rainha das águas, e de Oxóssi, o rei das matas, o grande caçador. Cuide bem deles e seja feliz.”

Parece mentira, parece clichê, mas as nuvens andaram e o céu foi ficando azul.

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Subimos para a rua. Outra festa acontecia lá. Nos bares, música. Muita música. Até o pet shop, fechado, virou boate, com os amigos da dona dançando alegres na vitrine. Cena surreal, cena baiana.

Passava das 13 horas, senti fome. Fomos comer o feijão da Marta. Ela virou vegana radical, mas no 2 de fevereiro faz uma feijoada para Ogum. A casa se enche de amigos que entram, saem, comem, bebem, confraternizam e celebram. Me ofereci para servir. Com o privilégio da disposição, ajudei a montar os pratos dos 12 homens presentes, representantes do orixá macho alfa. Não conheço o ritual, mas acho que fiz tudo direitinho. Carnes diferentes, que o santo gosta, misturadas com arroz, feijão, farinha e pimenta.

A cerveja acabou. Fomos buscar mais e o dia estava lindo. O sol doce. A rua cheia. Entregamos a bebida e descemos, novamente, a ladeira. Voltamos para o mangue encantador do Rio Vermelho para ver e ouvir Carlinhos Brown homenagear à Mãe. Fomos acolhidos e abraçados por amigos que trabalham com ele. Cantamos. Dançamos. Sentimos. Porque a música é coisa de Deus.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Meu peito estava aberto. Sentia uma vontade louca de abraçar e beijar as pessoas queridas. Não era álcool na cabeça, não. Era apenas amor. Era felicidade. Ela havia atendido o meu pedido. Havia me devolvido o sentimento. Precisava festejar e agradecer. Subi outra vez a ladeira. Para ver quem tinha chegado, para tomar um refresco e esperar a hora do próximo show. Escadaria acima, lembrei de uma canção que anos atrás eu havia interpretado semioticamente frase por frase. Coisa tola.

Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar nos palácios, nos castelos suntuosos do meu sonho.

Lembrei, então, do sonho estranho da véspera. Nunca sonho. Quando sonho e lembro, trata-se de algo estranho. Estranhezas são coisas de Deus. Como a música. Na varanda alpendre da casa de Marta e Nara, debruçada sobre o mar do Rio Vermelho, pisquei para a rainha. Obrigada Yemanjá. De longe, cumprimentei Gilberto Gil. Tive vergonha de chegar mais perto do gênio e contar para aquele homem tão bonito que as canções dele, nos últimos tempos, são a trilha sonora da minha vida.

Acabou a cerveja de novo. Hora de subir mais uma vez para a pracinha da rua Almirante Barroso. Mais amigos, mais encontros. Mais música. Silvia Patrícia, cantora baiana que estourou cantando música pop nos anos 90, faz todos os anos um show lá no alto para ela. Muitos amigos cantam e aplaudem. Quanto prazer, assim no meio da rua.

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A noite chega. Voltamos para perto do mar. Agora tenho certeza que ela atendeu o meu pedido. Tudo está comigo de novo. Recuperei o que perdi e é difícil não gritar para todo mundo ouvir. Na avenida do Rio Vermelho, mais gente e música. Mariella Santiago, com sua voz linda, divide o pequeno palco do bar Lálá com Moreno Veloso. Ele, agora com poucos cabelos, toca um prato branco. Ficamos por ali ouvindo até a vontade de partir ser maior. Vamos em direção à saída. A voz rouca e louca de Marcio Melo estreando o palco Toca Raul, ao lado da Igreja de Santana, nos faz parar.

Uma tonelada de amor. Uma tonelada de amor. Eu não sei viver sem você. E se ainda me quiser

Eu não vou te decepcionar. Imploro me arrasto aos seus pés. E se ainda me quiser. Eu não vou lhe decepcionar

 Se Iemanjá ouve, deve rir do acaso daquela canção. Canto a plenos pulmões. Adoro as canções daquele nobre vagabundo, que hoje se define como um punk solitário. Chego perto do palco e dou de cara com o senhor negro monumental que guardava a casa de Iemanjá de manhã. Agora ele guarda e protege o palco do querido Márcio. Continua rindo com seus raros dentes. Sempre que pode, ele tira uma casca das fãs mais ousadas que sobem no palco para fazer selfies.

Olho para ele com intimidade. Sei que ele não me reconhece, mas não importa. Ele e Ela fazem parte dessa história. Obrigada, senhor. Obrigada, Senhora. Odoyá.

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