O prazer de uma volta no Guetto

 

Captura de Tela 2016-01-25 às 17.19.06Imagine três mil pessoas bem apertadas, com mais ou menos meio metro quadrado de espaço per capita, suando, suando, suando por todos os poros graças ao calor de 38 graus à noite. Imagine três mil pessoas absolutamente enlouquecidas dançando de modo ritmado e não linear que, juntas, obedecem ao comando de “vamos correr para direita”. Quando todas estão espremidas na ala leste do Museu do Ritmo, na Cidade Baixa, em Salvador, a segunda ordem propõe: “agora, todos para a esquerda”. A ordem se repete, alternadamente, até o fim da canção. Ao final, todos estão enxaguados e com um estranho sorriso no rosto. Sim, a multidão espremida e esbaforida está radiante, enlevada, feliz, felicíssima – claro, que devem haver exceções mas não é o caso de prestarmos atenção nelas. Todos esperam pelo grande final, a apoteose, a assunção.

O mestre de cerimônias vestido de fogo mistura-se à multidão. Caminha em passos largos oferecendo abraços. Ganha beijos. Até que chega ao centro, onde sobe em um pedestal ambulante. A turba, no melhor sentido do termo, entra em êxtase. É chegada a hora de rodar no gueto. Feito crianças, feito erês, feito anjos, feito dervixes rodopiantes rodamos, rodamos, rodamos.

 

Rodamos dançando. Rodamos pulando. Rodamos em um movimento de comunhão com a música e a liberdade. Não tem certo. Não tem errado. Não tem branco. Não tem preto. Não tem homem, nem mulher. Não tem pobre, nem rico. O tempo para ou acelera. Você escolhe. Na roda que roda no gueto, tem gente, tem alma, tem afeto, tem humanidade. Tem alegria, tem calor, tem som e magia. Nas bocas, sorrisos. Nos olhos, brilho. No coração, amor. No corpo, prazer. Na festa, tem Brown, Carlinhos Brown, o artista multimídia mais brilhante e genial em atividade no Brasil.

Não foi diferente ontem. Foi melhor ontem. Era o último sarau do verão. Ney Matogrosso estava entre os artistas convidados. Ana Carolina, outra atração, acendeu a plateia e o roteiro criado por Carlinhos e por meu amigo, Paulo Borges, diretor criativo do Sarau, mudou. Não houve tempo para água. Do ar, pulamos para o fogo. Um fogaréu apaixonante.

Quando deixei o museu do Ritmo, estava feliz. Muito feliz. Nenhum motivo concreto. Nenhuma notícia impressionante. Apenas uma sensação de prazer profundo percorrendo a pele, a derme e a epiderme. Era um sentimento particular e intransferível. Meus amigos, por exemplo, não sentem a mesma emoção. Gostam do espetáculo mas não gostam de rodar. Não descem. Não vivem nem viram multidão.

Não quero dinheiro. Só que amar

Durante o show, uma segunda experiência mobilizou meu sentidos. Brown cantou Tim Maia. Uma canção adoro que diz “eu não quero dinheiro, eu só quero amar”. Lembrei de quando fui mais feliz cantando essa música. Era uma festa da firma. Final de ano. Eu havia feito o melhor resultado da minha história profissional. Seria promovida. Ontem, revivi a felicidade daquela canção comparando estados: líquido, sólido, gasoso. Por que? Acho que a explicação é o tempo e o acúmulo de experiências. À medida que o tempo passa, amores e prazeres ficam mais seletivos. Escassos. Sem lamúrias, é assim. Os anos aumentam a exigência, preenchem o rol de referências e reduzem a lista de “primeira vez”. Qualquer experiência, por mais incrível que seja, é passível de comparação. Tipo assim: “esse peixe está delicioso, mas aquele que comi no verão de 1987 era melhor”. Vale para todos os sentidos. Vale para diferentes modos de emoção. Graças a Deus, não vale para a experiência de rodar no gueto.

Ajayô!!!!

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8 comentários sobre “O prazer de uma volta no Guetto

  1. sangue e suor na dança da vida. um sem saber de tudo certo. uma gratidão do mais humano e bonito. a simples emoção do agora feito a ciência da infância . viver é,então ,reverência.

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  2. Claudia, assisti a um show do Brown, quase sem querer, lá no Candeal (abafa! Não vou contar em que ano foi). Desde então sou fã, alucinada. É isso: uma experiência extra sensorial. Precisa viver para crer.
    Beijos e saudades. Quando estiver em SP, vamos marcar um café.

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