Nós que nos amávamos tanto

 

 

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Ontem perdi um amigo.

Eu tinha doze anos quando o conheci. Nossa amizade mudou meu olhar e, também, a forma como passei a entender o mundo, a vida e a arte. A ele devo, também, a descoberta de um universo paralelo e extraordinário.

Nosso primeiro encontro aconteceu no Guarujá, litoral sul de São Paulo, em uma remota férias de julho. Naquela época, a TV pegava mal na praia e íamos ao cinema, praticamente, todas as noites. Cada dia, passava um filme diferente no cine Pitangueiras, gerenciado pelo Boi, o filho do seu Geraldo, zelador do edifício México, na rua de mesmo nome, onde ficava a casa da minha amiga Giselle.  Boi nos acobertava e também nos deixava entrar de graça, quando a grana da mesada acabava em sorvete. Íamos para nos divertir e bagunçar. Gritos, risadas e zoada eram o nosso forte.

Eu fazia parte da linha de frente da gangue. Até aquela noite. O filme tinha título de fita romântica. No meio da exibição, no entanto, alguma coisa aconteceu comigo. Não conseguia parar de prestar atenção. Não queria mais fazer bagunça. Não suportava o barulho que meus amigos, irmãos de farra, faziam dentro da sala.

De líder da zorra, me transformei em inspetora de colégio interno. Passei o longa todo dando psiu, com os olhos vidrados nas imagens que passavam em ritmo, às vezes, lento na tela gigante. Quando acabou, eu era outra pessoa. Acho que tinha virado adulta. Dentro do meu peito, havia uma nostalgia da infância perdida e uma paixão incontida pelo futuro que eu descobrira ali.

O filme chamava-se Nós que nos amávamos tanto. Na porta do cine, procurei no cartaz o nome do diretor. Ettore Scola.

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Fui para casa em silêncio. Meus amigos não entenderam muito bem o que havia acontecido comigo. Lembro que inventei que estava com dor de barriga. Nunca mais fui a mesma.

Daquele dia em diante, me tornei sua fã. Seguidora. Ele se tornou meu amigo. Nunca o vi, mas sempre o amei com respeitosa distância. Em silêncio, como os personagens do filme O Baile, outra obra prima dele, que vi e revi um milhão de vezes. O nosso amor se renovou muitas outras vezes quando assisti a Um dia muito especial, Brutos, Feios e Malvados, A Família, Splendor e O Jantar.

Hoje pela manhã, soube pela minha mãe que havia perdido o meu amigo. Aqui no meu refúgio marítimo, as más notícias demoram mais a chegar. Na hora, comentei a notícia com um lacônico “que pena”. Mas desde então meu peito está apertado. Estou triste. Com vontade de chorar.

RIP, Ettore. Francamente, sentirei muito sua falta. Como acredito no céu, no purgatório e no inferno, tenho certeza que você está em boa companhia, ao lado do Federico, da Giulietta, do Marcello, do Vitorio… Logo, divirta-se. Quem sabe, um dia, também faço parte desse baile.

Ettore Scola
Italian film director Ettore Scola is seen during the award ceremony of the 7th Monte Carlo Comedy Film Festival in Monaco, Saturday, Nov. 24, 2007. (AP Photo/Lionel Cironneau)

 

 

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9 comentários sobre “Nós que nos amávamos tanto

  1. Acredito que o sonho de um cineasta seja fazer milhões de amigos assim. Uns tem o dom e a percepção dessa gratidão manifesta. Isso pra mim é parte do que se chama mérito de humanidade- pequena grande porção do que é divino. Arte a serviço ds vida mesmo depois.

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