Uma epifania no meio da multidão

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Faz algum tempo, para mim, que toda segunda quinta-feira do ano toda roupa é branca. Toda pele é preta, branca, amarela e vermelha, também. Todo mundo canta. Todo céu magenta e azula.

Faz algum tempo que toda segunda quinta-feira do ano, todo canto é santo, antes e depois da cerveja, e todo o mundo é baiano junto. Não foi diferente este ano. Mantemos o ritual e a tradição. O grupo era menor dessa vez, porque tem gente que chega para ficar e tem gente que vai para nunca mais.

Saímos do corredor da Vitória, bairro nobilíssimo de Salvador, Bahia, às 9 horas da manhã em direção à Igreja de Nossa Senhora de Conceição da Praia. Lá é o marco zero para peregrinação dos fiéis, infiéis, passantes, turistas, curiosos, entendidos e interessados que participam da Lavagem do Bonfim. Essa é uma das festas religiosas mais bonitas, mais alegres, mais sincréticas e mais pagãs que conheço.

São mais ou menos dez quilômetros de caminhada. Neste trajeto, da Cidade Baixa até a colina sagrada onde fica a igreja, vê-se de tudo. Ouve-se de tudo. Sente-se de tudo. Este ano, porque tem eleição, foi ainda mais intenso. Tinha mais festa. Mais música. Mais calor. Mais gente. E até mais confusão.

Eu mesma me vi, no meio da zorra, brigando com o motorista da trupe (para não usar uma palavra que começa com c, é seguida de o, depois de r, depois de j e você sabe como termina) do governador do Estado e do seu bando de correligionários de estrela no peito. Perdi a fé e a paciência quando vi uma camionete acelerando e apertando a multidão para que o um funcionário público pudesse entregar singelos copinhos de água gelada para a cambada de políticos. Ok, passou. Vamos mirar no que importa, porque desses só a Polícia Federal, o STJ e o inferno podem dar conta.

 

Chegamos aos pés da colina com a cabeça fervendo. Nem fizemos a tradicional foto coletiva. Também não tocava o hino de sempre.

glória a ti neste dia de glória
glória a ti redentor que há cem anos
nossos pais conduziste à vitória
pelos mares e campos baianos

dessa sagrada colina
mansão da misericórdia
dai-nos a graça divina
da justiça e da concórdia

Meio perdidos pela quebra de rotina, fomos direto para a grade amarrar nossas fitas e rezar. Dessa vez, levei uma só. Apenas três nós. Essencialmente um pedido.

“Só preciso disso. Só quero isso”.

Antes de subir os degraus, mais muvuca. No meio do caminho, a surpresa de encontrar pessoas muito queridas.

“– Se a gente tivesse combinado, não dava certo”, repetimos entre abraços, felizes, muito felizes pelo encontro casual. Ali, entendemos que não era por acaso que compartilhávamos uma amizade. Por muitas razões, um fio fino e resistente nos unia. Posso chamar de fé, mas acho que é mais do que isso.

Abraços dados, fita branca amarrada, fomos em busca de nossa benção sincrética. Um banho de ervas, folhas e pipoca. Não. não sou do candomblé. Mas respeito e admiro muito. É uma força que toca e mobiliza. Enquanto ouvia a mãe de santo desfiar sua rápida ladainha, escutei a voz do padre. Sincronicidade.

Em santíssima trindade, nos conectávamos com Ele. Rezei. Pedi. Lembrei. Já havia estado ali pedindo a mesma coisa. Fora atendida. Por que falharia dessa vez? Vou conseguir. Vai dar certo. Minha alma vibrou. Meu coração bateu mais rápido.  Respirei o cheiro da alfazema que a mulher de branco aspergiu no meu colo. Agradeci e dei minha doação. Foquei apenas no padre. Na outra benção.

“– Vamos unir nossos corações. Vamos pedir paz e amor ao nosso querido Nosso Senhor do Bonfim”.

Gritos, palmas, foguetes. A minha lágrima despenca no canto do olho.

“Ele me ajudou uma vez. Não vai me abandonar agora.”

Pela segunda vez naquela semana, Gil falou nos meus ouvidos:

“A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

A paz
Fez o mar da revolução
Invadir meu destino; a paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz

Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz”

Olhei em volta e meus amigos estavam lá, me esperando. Não sei se viram minha epifania. Não sei se entenderam o motivo da outra lágrima que desceu pelo rosto. Disfarcei porque ainda tenho vergonha e sou cretina. Fui com eles para a segunda festa do dia. Desde então penso Nele e rogo força. Peço luz. Peço paz. Que ela não saia mais do meu coração.

 

 

 

 

 

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