Tolerância zero e ódio ao Pablo

Sou geração pós-68. Não fui barba e bolsa, mas usava sandália de couro e bata branca com bordados. Por ser jornalista, nunca me filiei a um partido. Mas sempre tive minhas fortes simpatias. Anjo torto, tinha orgulho de ser gauche na vida.

Engajamento. Militância. Diversidade. Pluralidade. Direitos civis. Direitos Humanos. Movimentos sociais. Movimentos sindicais. Movimentos políticos. Passeata. Panfletagem. Campanha. Crowdfunding. Cotas. Solidariedade. Me meti em todo o tipo de ação e mobilização em defesa dos proletários, operários, lumpesinato, minorias de raça, etnia, gênero e opção sexual, intelectual e religiosa.

Briguei com amigos queridos por causa de política partidária, políticas públicas, mobilidade urbana, cotas universitárias, opção sexual, ciganos, massacres, repressão e reação aos mais diferentes movimentos sociais. Sempre posei de bacana, engajada e tolerante.

Toda essa ladainha. Todo esse blábláblá para declarar que eu estava fingindo, mentindo e disfarçando. Não sou tolerante. Não sou compreensiva. Nem dotada da capacidade de compreender as escolhas e decisões alheias. Faz três horas que voltei para casa. Faz três horas que ouço Pablo, o cantor sofrência que canta sua dor de corno com agudos de dor de dente, berrar no aparelho de som do caseiro do vizinho. Estou enlouquecendo. Estou ficando nervosa e violenta. Perdi a paciência com o cachorro. Respondi mal ao email. Sinto ganas de enforcar alguém.

Minha tolerância chegou ao nível morto. Não suporto mais ouvir essa trilha, que a nova classe média aprendeu a chamar de música. Não aguento mais ouvir frases chulas de significado pornográfico e machista. Tenho vontade de escalar o poste de luz para cortar a energia e acabar com a lambança do caseiro, que celebra o aniversário da filha porque a dona da Casa Grande foi passar o final de semana em outro lugar. A barulheira me atordoa. Meu raciocínio está lento. Só consigo pensar em vingança. Em revanche. Entrar lá e quebrar todos os dvds, cds, pen drives com músicas desse miséria.

O volume baixou. Minha raiva ainda não. Por que é tão difícil encarar as diferenças?

 

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17 comentários sobre “Tolerância zero e ódio ao Pablo

  1. Oi, Cláudia!! Adoro seu blog, seu estilo literário e sua percepção das coisas. Identifico-me bastante com suas atitudes e postura. Adorei isso aqui! KKKKK “Tenho vontade de escalar o poste e cortar a energia…” Ahhh, mto bom! 😀 Adorei! Compartilho totalmente da sua intolerância com esse assunto e diferenças em Geral. Parabéns pelo Blog e pela sua nova vida!

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  2. Enquanto estava lendo, estava rindo e me identificando. Levantei, andei um pouco e depois percebi que a intolerância é perigosa, as vezes silenciosa, as vezes pode levar a atitudes extremas. Talvez seu post tenha sido só um desabafo daqueles que eu mesma já quis fazer. Mas ele me fez pensar, e em plena tarde, sem nenhum estimulante a não ser o café. É claro que existem as pequenas coisas do dia a dia que todos enfrentamos, mas existem as grandes, aquelas que mudam o mundo, como já vimos na história. Somos humanos, somos bons e maus. Por isso, o velho conselho de contar até 10 me pareceu a coisa mais sábia a fazer. Educação também seria bom, porque todos poderiam aprender a respeitar o outro. Ouvir música até certa hora e até certo volume, desde que não infernize o vizinho. É a nossa pobreza afetando a razão, país pobre é um pais com menos tolerância.

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    1. Anne, perfeita a sua reflexão. O assunto é bem mais complexo. Pablo foi apenas um pretexto, porque afeta a sensibilidade da razão e dos ouvidos. O buraco é muito mais embaixo e o início de tudo é o verbo educar. Obrigada por escrever. beijo

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  3. Uma das coisas que me encantou em sua pousada é que trata-se de um “oásis” no litoral baiano, a salvo de toda essa cultura musical duvidosa que se alastrou em todo país, e que não é restrita a caseiros. Eu soube que toca até em trilha de novela da Globo (não que trilha de novela seja parâmetro de música boa).
    Eu gostaria de ser um pouco mais tolerante, mas quando está tocando Pablo ou variações sertanejas, não consigo ficar no ambiente, conversar ou pensar com a música rolando…

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  4. Claudia, realmente é difícil, num mundo onde a principal doença é o estresse, não ter um dia de fúria. No paraíso que você está, o que posso lhe sugerir é sair dar uma volta e respirar fundo pausadamente, que certamente vai passar. Sei que a sugestão já não serve para o caso relatado, mas pode ajudar para as próximas. Boa sorte.

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  5. Claudia, essa foi uma das melhores, me identifiquei muito. Me sinto pouco tolerante com as diferenças, principalmente musicais e quando ela invade sua casa. Ah, te acompanho toda semana.

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