A estrada, o carro branco, a caminhonete preta

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Foi numa esquina da vida
Uma mulher em hora perdida
Um homem em ponto morto
Nessa base do tropeço e mal começo
Foi nascer contra a vontade este amor torto
Me admira ter vingado, quem diria
Que fosse loucura pra mais do que um dia
Na verdade, quem diria
Que enxergasse a luz do dia

(Bandeira de Guerra, Paulo Vanzolini)

Acordou atrasado na terça-feira. Perdeu a hora por causa da cachaça errada da véspera. Estava investindo naquela mulher, gerente de operações, há meses. Ela só esnobando. Na desculpa esfarrapada. No chá de cadeira. Daí, do nada, de lua, deu mole. Podia deixar passar? Podia perder a oportunidade? Não, né. Só que tinha a apresentação dos desafios anuais marcada para às 8h30 com o diretor alemão. Colocou o despertador para tocar. Colocou o celular para tocar. Mas a noite tinha sido tão Geni. O despertador tocou, o celular também, ele virou para o lado e abraçou conchinha a moça outra vez. Despertou 8h15, como se seu corpo estivesse nas profundezas do oceano. Abriu os olhos, puxou o ar e pulou da cama. “Meus Deus, vou perder o emprego”.

 

Ela levantou na hora de sempre. Cinco horas, quando o sol nasceu, o burro iniciou a sinfonia de zurros, o galo disparou a cantar e os primeiros malhadores iniciaram suas caminhadas matinais despertando a cachorrada, entediada, que late para todo e qualquer passante, de boa ou má alma, que se aproxima do portão. Arrumou as coisas. Religou o sistema. Deu as primeiras ordens do dia e rumou com sua lista para o mercado. Dia de compras. Dia de colocar o estômago à prova. Dia de não ter educação para garantir o preço justo. (Vamos abrir um parênteses esclarecedor: para estrangeiros e pessoas com cara de gringo, como ela, peixes fora d`água, o preço sempre será maior). Manteve a rotina.

Ele não escovou os dentes nem penteou os cabelos. Vestiu pedaços da roupa da véspera e ainda sem sapatos correu para o carro. No caminho, iria ajeitar as coisas. Pelo celular, ligou para a secretária já acelerando na linha Verde. “Dona Nilda, bom dia. Aconteceu um acidente. Estou atrasado porque tive que levar meu vizinho para o hospital. Ele morreu”, disse de um golpe a mentirada, para evitar falhar a voz e tentar convencer a si e a ela.

Naquela terça-feira, a Ceasa estava bem tranquila. O inferno deve ter sido na véspera, primeiro dia pós-feriado. Nada de trânsito. E melhor, vendedores preocupados em não voltar cheios para casa. O coco manteve o preço alto da semana passada. A laranja não subiu. A melancia baixou. Rapidamente, ela encheu a caçamba e o interior da caminhonete preta. No banco da frente, vazio, colocou o saco de 50 litros de folhas e temperos. Praticamente um corpo. Carregá-lo era um prazer. Adorava os cheiros misturados da salsinha com o coentro. Ficava inebriada.

A secretária fingiu susto e compreensão. Disse que iria avisar o dr. Helmut sobre a tragédia e justificar o atraso dele para a apresentação. Assim que desligou o telefone, ela comentou com a colega do lado. “Seu Edgar vai se ferrar. Deve ter se afogado na cachaça na noite passada, com as putas que ele anda, perdeu a hora e agora inventou essa desculpa esfarrapada de que o vizinho morreu e ele acudiu”. A colega, que achava o gerente geral de projetos um pedaço de homem, tentou até contemporizar: “Vai ver é verdade. Para de implicar com o coitado”.

O “coitado” sempre gostou de dirigir rápido. Sem falsa modéstia, se achava um Ayrton Senna das estradas. Adorava carros. Velocidade. Risco. Por esse motivo, havia aceito o emprego naquele fim de mundo. Trocou São Paulo por Camaçari, no interior da Bahia, pela oportunidade de trabalhar no desenvolvimento de um modelo inovador. E hoje, justo hoje, era o dia de ele brilhar. Por que cairá em tentação? Ela nem era aquilo tudo.

Ela estava inebriada com o cheiro do coentro mas não estava exatamente feliz. Nada em particular. Nada em especial. Apenas a euforia havia passado. A rotina se instalará e a música Cotidiano voltará a tocar todos os dias no seu ouvido. E o futuro? Estava sem futuro. Sem plano. Sem desejo. Sem vontade de escalar suas montanhas. A sua alma de planície parecia procurar abismos.

“8h28. Preciso chegar lá em quinze minutos no máximo. Este maldito trânsito, desta maldita estrada”, pensou Edgar, premeditando a história que contaria ao sr. Helmut. “Deveria ser rico em detalhes? Deveria ser breve e sucinto? Como emocionar um alemão? Como ultrapassar essa fila de tartarugas de quatro rodas?”, se perguntou, antes de engatar a terceira para ganhar força e velocidade.

“Preciso inventar um projeto novo. Preciso estudar. Preciso aprender a fazer vídeo. Preciso arrumar tempo…mas agora no verão? Que horas? Que maluco é aquele costurando pelo acostamento a milhão?”

“Sai da frente, pangaré, preciso chegar! Anda, anda, sai da minha frente!”

“Será que aquele maluco neste carro branco não está me vendo?”

“Será que aquele idiota da camionete preta não perceber que precisar reduzir para eu poder passar?”

“Será que ele não vai voltar para a pista dele?”

“Será que ele não vai brecar?”

 

 

 

 

 

 

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