Um anjo na janela

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Era janeiro de 1994, acho. Estava muito doente. Em maio do ano anterior, havia tido o primeiro pneumotórax. Manoel Bandeira fez um poema sobre ele. No caso dele, uma forma de tratamento para a tuberculose.

PneumotóraxFebre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Para mim, era uma doença mesmo. Pneumotórax espontâneo.

Trabalhava como editora assistente na maior semanal de informação do país. Consegui boas férias para janeiro. Um amigo do meu sogro, diretor de uma companhia aérea, conseguiu uma passagem TP90, com 90% de desconto. Barganha. Pechincha. Fomos. São Paulo, Toronto e Paris de Air Canadian. Chique. Luxo. Vale lembrar que naquela época, classe média, média, não tinha cartão de crédito internacional. O dinheiro e os travellers iam na meia.

Todo esse lelelé, esse nariz de cera, para usar o jargão jornalístico, é para enfatizar que realizei um sonho de vida quando cheguei à ilha de Monte Saint Michel, na costa Oeste da França. Viajar para o exterior e peregrinar em lugares tão especiais não era algo corriqueiro naqueles tempos. Tratava-se de uma epopéia. Sou apaixonada por Ulisses e Homero, sem conhece-los.

Também sou devota de São Miguel. Na tradição católica,  São Miguel tem quatro papéis principais. É o comandante do Exército de Deus. É líder das forças celestes em seu triunfo sobre os hostes infernais. No segundo, é  o anjo da morte, levando a alma de todos os falecidos para o céu. No terceiro papel, mede as almas numa balança perfeitamente equilibrada. Por fim, São Miguel é, também, o guardião da Igreja. Era comum o anjo ser reverenciado por ordens militares de cavaleiros durante a Idade Média. Sou apaixonada pela Idade Média, tempo de trevas e também de muita luz.

Quando cheguei em monte Saint Michel ainda era dia. A maré não tinha subido 100% e pude enxergar a absoluta beleza daquele ilhote de pedras no meio da foz de um rio, à beira do mar. Improvável lugar para se construir no século XIII uma abadia e um santuário em homenagem ao santo.

Hoje, Monte Saint-Michel recebe 3,2 MM de turistas por ano. Dei sorte. Quando fui, a cidade estava tranquila, não vazia. Percorremos tudo. Nos perdemos, felizes, nas ruas em formato de curva. Fiz inúmeras fotos da estátua de Miguel colocada no topo da igreja, a 170 metros de altura. Lembre-se, estávamos ao nível do mar.

Eu não sabia quando fui, mas durante a Guerra dos Cem anos, entre França e Inglaterra, o monte foi uma fortaleza impenetrável. Não passaram ingleses. Ficou França até o final. Com a Revolução Francesa, a nova ordem mundial fez com que a ilha se tornasse laica. De 1789 até 1863, o monte virou prisão. O conde de Monte Cristo hospedou-se lá, revelam as placas informativas presas nas paredes rochosas. A fascinação crescia a cada passado. Soube, então, que em 1987, o monte foi declarado monumento histórico.

 

Era noite quando a fome de um almoço tardio apertou. Escolhemos um restaurante pela simpatia e pelo cardápio. Queria comer “moules frites”, comida típica de lá. Passei a infância ouvindo maravilhas sobre o prato – um crustáceo originário da Bélgica muito comum na região do Canal da Mancha. No jantar, descobrimos que em cima do restaurante havia um pequeno bed and breakfast.

“Vamos ficar?”

O vinho, a cumplicidade, o amor disseram sim. Depois do jantar, magnífico, subimos. Estávamos em uma casa medieval, em uma ilhota medieval, feita de rocha. Apenas incrível. O dia havia sido espetacular, mas cansativo e frio. Tirei todos os capotes e antes de rumar, ligeira, para a cama quente, olhei pela última vez na janela. Lá fora, névoa, luz amarela e vazio. Nem um cão vadio se atrevia a caminhar na rua naquela hora.

Deitei na cama fofa, com um gigante edredon de pena de ganso.

A partir daqui não sei o que é sonho, realidade, vida, morte, divino ou profano.

Levantei da cama. Fazia frio. Mas algo dizia que precisava olhar pela janela. Tiritando, fui. Sem chinelo. Só de meia. Abri a janela de madeira sobre o vidro. Olhei para direita. Virei o rosto para a esquerda. No final da rua circular, vi uma silhueta e fique curiosa. Parei. Olhei. Era um homem. Estava escuro. Ele vestia uma armadura. Tinha cabelos encaracolados. Carregava uma espada. Um escudo. Andava firme e reto. Altivo. Olhei de novo. Ele tinha asas. Asas? Olhei outra vez. Ele estava mais perto. Pude ver tudo. Nos mínimos detalhes. Ele era dourado e brilhava, iluminado  pela luz amarela dos postes.

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Por um segundo, tive a impressão de que ele virou o rosto para a direita e me viu. Olhou para mim. Sorriu. Devolvi o sorriso.

A memória seguinte é conturbada. Quase como uma febre. Estou na cama, olhos esbugalhados. Não sei se vivi ou se sonhei. Não consigo lembrar este detalhe. Lembro de todo o resto. Minuciosamente. Poderia descrever mais. Falar dos passos. Do modo como marchava diligente. Poderia falar da beleza do seu corpo, definido, e das formas de sua armadura. Vi coisa parecida anos depois no Met de Nova York. Contei tudo para meu companheiro, também devoto, que se emocionou.

Miguel Arcanjo na noite escura, caminhando em seu monte e revelando-se só para mim. Se fiquei maluca, gostei. Se foi um presente, agradeci. E orei. Um anjo na janela. Só meu. Agora nosso. Amém.

 

 

 

 

 

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10 comentários sobre “Um anjo na janela

  1. Claudia, feliciaciones por sus post, este particularmente vívido, me ha emocionado. Felicidades! Siempre recuerdo con mucho placer sua pousada A Capela y la recomiendo a mis amigos.

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