Porque o Brasil não dá certo, segundo Dedé, a faxineira

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Dedé e Dadá são faxineiras. Também são irmãs por parte de pai. Se conheceram adultas, sem querer, morando na mesma cidade, no interior da Bahia. Dedé e Dadá trabalham na mesma empresa e ganham salário igual, pouco mais de um mínimo. Dedé e Dadá moram no mesmo conjunto habitacional, Minha Casa, Minha Vida, em um bairro periférico do trigésimo oitavo município mais rico do país. São proprietárias de um apartamento de dois quartos, sala, cozinha, área de serviço e banheiro. Deve ter quase 70 metros quadrados. Foi entregue com piso e acabamentos. Tudo bom, honesto e de qualidade. Financiaram o imóvel por 10 anos. Pagam entre 25 e 50 reais por mês de prestação.

Para mobiliar o apartamento, receberam um crédito de R$ 5000 para ser gasto em determinada loja em produtos como cama, sofá, armário, geladeira, fogão entre outros itens.

“Quando entrei pela primeira vez na minha casa, pensei: ‘este é o meu palácio!'”, diz Dedé, 28 anos, mãe solteira e trabalhadeira de quatro crianças. Francisco, o mais velho, tem 13. Magali, a mais nova, 8. Todos estudam no colégio municipal. Por causa dos filhos, Dedé foi uma das primeiras a receber a chave do seu apartamento quando inaugurou o conjunto. “As mulheres com filhos são sempre as primeiras a receber. E quando se trata de uma família, a escritura e o financiamento saem sempre em nome da mulher. Sabe como é, quando o casamento acaba, o homem vai embora e as mães ficam com os filhos.”

No Minha Casa, Minha Vida de Dedé moram 500 famílias. São prédios de três andares, sem elevador, com um pequeno jardim no térreo. As pessoas se organizam e se agrupam. Nos espaços vazios nasceram cabeleireiros, barbearias, bares, restaurantes. Tem a kombi que roda e vende cachorro quente. Tem o carrinho do padeiro. Tem a moça que vende produtos de beleza porta-porta. Tem aquela que organiza festa infantil e aniversário. A economia informal viceja. Nos domingos, é comum ter churrasco, festa e pagode na rua. Sim, sai briga. As mulheres brigam porque os filhos brigam e porque os homens pulam a cerca. “É normal. Acontece um barraco. Trocam-se uns tapas e a vida segue.” E o barulho, é um problema? “Não, porque basta alguém exagerar na zoeira que o vizinho chama a polícia e a zorra acaba na mesma hora”, conta.

“Você é feliz no seu castelo?”, pergunto. “Muito, mas podia ser mais. Fico revoltada com certas coisas que acontecem…” O que, por exemplo?

“É assim, dona Claudia, o Brasil não dá certo porque tem um monte de coisa boa que o povo estraga no meio do caminho. Não estou falando dos políticos não. Eles são, sim, tudo ladrão. Estou falando de nós, que parecemos ladrões de galinha. Fazemos pequenas coisas erradas, que somadas e multiplicadas fazem com que o que é bom fique ruim. O que é certo, dê errado.”

Me interesse com a reflexão. Dei corda. “Como é isso, Dedé? Fala mais.”

“É assim, dona Claudia. Eu pago R$ 25 por mês pelo meu palácio, porque quando fui escolhida não tinha carteira assinada. Hoje eu tenho. Acho até que deveria pagar mais. Mas tudo bem, sou honesta e pago em dia. Mas tenho vizinhos que não pagam. Tenho vizinhos que têm outra casa e já alugaram o apartamento do Minha Casa, Minha Vida, o que é proibido. Têm vizinhos que estão vendendo o apartamento, o que também é proibido, com contrato de gaveta. Resultado, por causa de tanta coisa errada, daqui a pouco vão dizer que o Minha Casa, Minha Vida é ruim. Não é. É, ótimo. Mas o governo, a Caixão perderam o controle. Quer outro exemplo? No começo a gente tinha um segurança. Cada um pagava 7 reais. O que são 7 reais. Mas ai o pessoal deixou de pagar e o segurança foi embora. Tenho mais um exemplo, quer ouvir?”

Faço que sim com a cabeça. Dedé continua.

“Comprei os móveis da minha casa com o dinheiro do governo. Coisas boas, de qualidade. Tenho tudo  que eu preciso. Pago em dia a prestação e daqui a pouco não devo mais nada. O que o pessoal fez? Comprou e não pagou. Malandragem mesmo. Sabe o que aconteceu? O governo cortou esse crédito. Quem recebe apartamento agora tem que se virar para mobiliar. Por que? Porque tem um monte de gente safada, sem moral. É justo isso? Não é.

Tenho um colega, homem trabalhador, pai de família, sério, nem bebe. Não conseguiu a casa porque o salário dele superava em 40 reais o teto. É justo? Em compensação, conheço um monte de gente que recebeu as chaves apesar de já ter casa. Por que? Porque fraudou, foi desonesto, foi espertalhão. Passou a casa para o irmão para poder pedir o benefício. É certo isso? É justo isso? Não é.”

Concordo com ela em silêncio. Haja Lava-jato para limpar tanta podreira.

 

 

 

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14 comentários sobre “Porque o Brasil não dá certo, segundo Dedé, a faxineira

  1. Isso é o resultado de tentar dar continuidade no que já sabe que deu errado, o Socialismo, o certo é dar condições de trabalho e salário dignos para as pessoas conquistarem seu patrimônio não pelo governo que tem culpa dessa bagunça.

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  2. O Brasil hoje não dá certo,porque o exemplo vem de cima.Somos administrados por um partido incompetente e corrupto e com uma dupla de Dilmá e Lulalá,não tem como ser transmitido para o povo um mínimo de honestidade.

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  3. A questão é histórica, vem da colonização do país. Recebemos a escória do velho mundo naquele período. Mentes que só pensam em levar vantagens se proliferam em nossa terra e hoje em dia na cultura comum quem não leva uma vantagem é bobo. 95% dos que criticam os políticos têm no seu sangue brasileiro um bichinho que os faria reproduzir os mesmos atos, caso assumissem tais cargos. Tenho esperança nas futuras gerações, até porque nós estamos ficando saturados de tanta podridão que ao mesmo tempo criticamos e produzimos.

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  4. O problema maior em tudo isso que foi dito é a tal EDUCAÇÃO, a bela, formal e antiga……desde o início a famosa frase” não pegue a borracha ou lápis do colega que ele não te pertence” . se isso for levado a frente um dia ninguém precisará burlar, mentir,roubar,omitir,entre outros e consequentemente pessoas melhores para nosso país/mundo.

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  5. Minha casa, minha vida é o de melhor que o povo brasileiro recebeu. Aqueles que são contra uma política socialista ou é capitalista ou quer ver o povo na constante miséria, ou melhor na escravidão da miséria. Assim são responsáveis por tudo de negativo que acontece com o povo brasileiro. Mas o peso da verdade ninguém tira.
    Parabéns pela matéria.

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  6. Perfeito!!! Culpamos os políticos mas de todas as formas existem interesses alheios e desta maneiro o país não anda…infelizmente!!!! A minha faxineira que também ganhou o apartamento dela fala o mesmo e aí alguns pagam pelos que agem de forma desonestas! Acredito que está no DNA do brasileiro!

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  7. Claudia, brasileiro é um economista informal e que dá sempre jeitinho para se dar bem. Se orgulhar dessa cultura, e quem faz direito se sente enganado por isso. Coisa chata isso. Dor de corno. Desculpe o desabafo, mas seu posto me remeteu ao que penso sobre as pessoas de nosso país e que me parece neste momento são maioria.

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