Churrasco na laje

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Adoro comer. O convite para experimentar um churrasco de bode atiçou minha curiosidade e minhas papilas. A carne veio da Paraíba para a festa de casamento do sobrinho do meu querido Batista, meu taxista preferido.

Fomos em bando. Duas pick ups cabine duplas cheias de colegas de trabalho. Hoje, comemoramos três anos da inauguração da Pousada A Capela. Estávamos felizes e excitados. Quando os últimos hóspedes do final de semana partiram, fomos atrás. Destino: Jauá, a praia vizinha de Arempebe, ainda mais simples, ainda menos turística.

Batista tem quatro irmãos. A celebração foi na laje da distribuidora de bebidas do irmão do meio. Chegamos com um isopor cheio de cerveja para não abusar demais da hospitalidade. A laje era enorme. Mais ou menos 200 metros quadrados, cobertos por telhas de PVC cinza, aquelas que no passado era feitas de amianto. O modelo de moradia era tradicional. Negócio no térreo. Moradia e laje no primeiro andar. A casa grande e simples, já está pronta, com piso e paredes de porcelanato e mobiliário básico. A laje segue crua. Nela, só a churrasqueira está pronta. No mais, as paredes de tijolo ainda pedem reboco, assim como o piso de cimento deseja um dia acabamento.

Para sentar, cadeiras de plástico coloridas. Branca, amarela, vermelha herdadas de alguém ou de algum bar, já que mantém a impressão da logomarca de uma grande cervejaria. Chegamos em dez pessoas e nos juntamos a outras quarenta. Farra boa. Comida farta. Bebida jorrando gelada.

Nenhuma cerimônia no serviço, feito pelo próprio Batista, preocupado em nos oferecer a melhor carne, a melhor linguiça, o melhor frango caipira, a cerveja mais gelada. Fomos beliscando a comida compartilhada com as mãos, garfos e espetos. O verbo comemorar inteiro ali, sobre a mesa amarela da skol.

Crianças correm pelo salão. Uma mulher parente do irmão do meio do anfitrião chega com um cachorrinho da raça Pug, que vi pela primeira vez na casa do Clodovil na Granja Viana em São Paulo e depois da casa do Jorge Amado, no Rio Vermelho, em Salvador. Lembrei, então, do meu amigo Frei Betto, que fez um alerta sobre o modelo de inclusão social pela via do consumo implantado pelos governos do PT.  Lá estava o Pug, vindo de uma dinastia chinesa, para comprovar a tese.

Churrasqueira fumando. Copos se esvaziando e uma pilha de latas de cerveja se amontoando no canto do salão. O tom de voz foi subindo, subindo, junto com as risadas. Pensei na minha mãe, que ia adorar a carne do bode mas ia estranhar o barulho e a bagunça. Ela nunca foi em um churrasco na laje. Aquele era meu primeiro churrasco na laje.

Daí o inevitável. Ou melhor, o desejável. Apareceu um violão e um violeiro. Apareceram duas caixas de som. Apareceu um agogô. Os donos dos brinquedos ajeitaram os microfones, os banquinhos, o copo e a música começou. Rezei por um samba, mas o início foi sertanejo mesmo. De raiz, com Zezé, Chitão e Xororó. Músicas falando de amor e dor de corno. O cantor violeiro se esforçando nos agudos.

Conheço pouco do gênero mas me esforcei para gostar. Para minha alegria, apareceu um cavaquinho e um parente safo fez uma versão samba de roda para a música É o amor. Ficou linda. Cantei e levantei. Fiquei apoiada em uma pilastra por conta da minha crise de ciático e da minha vontade de não chamar muita atenção com meu jeito “sueca two reais” de dançar.

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A música foi animando. Meus colegas de trabalho também. Quando vi, Del,  um dos chefes de cozinha, estava ao microfone cantando uma sofrência. Tio Eri, nosso nobre faz tudo, feliz e relaxado, dançava à moda Pablo exibindo um sorriso de rei. O samba voltou e a pista improvisada encheu. Quando dei por mim, estava lá no meio da roda, no meio da laje, exibindo minha falta de dotes para a dança. A dor deu uma trégua e feliz nos braços de Grande cantei e dancei a minha música preferida do primo Paulo Vanzolini:

Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava

Volta por cima

Me senti em casa naquela laje, feita de música, carinho e humanidade.

 

 

 

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4 comentários sobre “Churrasco na laje

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