Famoso quem?

 

 

Lá nos fundilhos do século passado, havia uma publicação chamada Who’s who. Era uma Bíblia sobre personalidades e celebridades. Redação que prestasse, tinha um exemplar. Era o jeito mais rápido de checar informações essenciais sobre pessoas importantes. Estava tudo lá. Quem era. Porque era importante. O que havia feito. Quando e onde havia nascido. Quanto dinheiro tinha. Alguns perfis traziam até o endereço residencial da pessoa. No Brasil existia um similar genérico. Chamava-se Sociedade Brasileira. Era editado pela nobre socialite carioca Helena Godim. Depois que ela morreu, a irmã dela, não menos nobre nem menos socialite, Lourdes Catão, assumiu o posto. A última edição saiu em 2012 e não li nenhum obituário com declarações de saudade. O Who’s who, pasmem, segue existindo firme e forte (http://www.marquiswhoswho.com/listees/publications/14-whos-who-in-the-world-2011), porque em inglês tem cliente para tudo.

Abri este baú de Pandora, porque nesta semana fiz uma palestra e participei de uma banca no Google/Youtube em São Paulo. Fui no escuro, sem consultar a lista de participantes. Sabia que eram empreendedores digitais: youtubers e vloguers. Não dei um Google. Não fucei no Youtube. Muito menos pesquisei no Who’s who, que dificilmente me ajudaria. A ausência de lição de casa me lascou. Minha palestra e minha visão de comunicação e negócio multiplataforma não ajudou muito a galera. Desconhecia as dificuldades deles para rentabilizar seus milhões de fãs. Só nos últimos 60 minutos caiu minha ficha e aproveito para pedir desculpas pelo tempo desperdiçado.

Da minha parte, conhecê-los foi uma revelação metafísica. Foi também a constatação de que a minha tese de mestrado sobre celebridades foi reduzida a documento histórico. A maior parte das 400 páginas que escrevi não faz sentido hoje. As dobras do mundo contemporâneo desenharam inúmeros universos paralelos que existem, convivem e podem jamais se encontrar. São independentes. São irrelevantes um para o outro. Podem ou não se cruzar. Tanto faz.

Conheci a Flávia, o Pirula, o Assombrado, a Alice, para citar alguns, porque um dos organizadores do evento é meu amigo e, gentilmente, me convidou para lá estar. Se lá não tivesse ido, seguramente, não saberia deles. Seguiriam sendo celebridades, mas não para mim. Quem são eles? Celebridades youtubianas, que produzem conteúdo diário ou semanal para milhões de fãs, seguidores e aficionados. Para esse público, eles são olimpianos. São admiráveis. São relevantes.

Alice Salazar tem um sorriso aberto e cílios impressionantes. Gostou de mim e eu dela. Logo no primeiro dia, veio me cumprimentar por minha fala e se apresentou. Jovem, loira, falante, apaixonada, é maquiadora de profissão. Trabalhou na RBS, em Porto Alegre, muitos anos antes de se mudar para o Youtube. Ganhava oitocentos reais e ralava muito. Começou a fazer um blog de maquiagem. Perdeu o emprego. Partiu para o vlog. Lançou um livro ensinando a maquiar que vendeu 40 mil exemplares. Hoje tem o maior canal de maquiagem do Brasil. Tem um milhão de inscritos em seu canal. Cada vídeo que ela faz tem, no mínimo, 200 mil visualizações. Pelos critérios mais recentes do Ibope, cada ponto de audiência corresponde a 65.201 domicílios e 193.281 indivíduos na Grande São Paulo. Logo, um ponto de ibope. Se for no Rio, onde os números são mais magros (39.600 domicílios e 109.982 indivíduos na Grande Rio de Janeiro) são dois pontos. Respeitável.

canal da Alice

Ela manda bem na frente das câmeras. Como outras entidades youtubianas, improvisa, é espontânea, engraçada, irreverente e fala conversando com a audiência. Entende tudo de maquiagem e de alma humana. Sabe que a auto-estima feminina depende do espelho e do olhar do outro. Foca nisso e oferece cápsulas semanais anti-depressão. Ela é querida.

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Por que participava do workshop batizado de Bootcamp? Para aprender o caminho das pedras do empreendedor. Alice, Pirula, Flávia, Assombrado são celebridades e agora precisam aprender a ser marcas. Ganham dinheiro com cliques e campanhas de varejo que o próprio Youtube vende e administra. Se virarem marcas, podem faturar muito mais com patrocínio, palestras, eventos e propaganda. Nesta fase, terão que disputar o dinheiro dos bancos, das empresas de telefonia, das montadoras, das fábricas de produto de beleza com as big estrelas da televisão, tipo Luciano Hulk, Grazi, Faustão, Ana Maria Braga…e mais recentemente tipo Fabio Porchat, que é da TV, do teatro e da Porta dos Fundos site do Porta.

O que lhes falta? A estratégia de marca. Falta também pertencer à dobra de celebridade do mainstream. Como é? É assim. Para faturar à beça com campanhas de produtos é preciso ter relevância, credibilidade, simpatia, star quality e ser uma celebridade de notório conhecimento. Aquele personagem que será sempre reconhecido na fila do banco, da padaria, do supermercado, do banheiro. Até por isso, você nunca irá vê-los na fila do banco, da padaria ou do supermercado. Esse notório conhecimento precisa durar. Não pode ser um snapchat. Precisa ter história. Precisa ser multimídia e multiplataforma. Fabio Porchat, para usar um exemplo de celebridade youtubiana, é a estrela do Porta dos Fundos, mas também fez cinema, teatro, stand up comedy, participou do Medida Certa do Fantástico e apresenta programa na TV a cabo. O moço é uma máquina de produção de conteúdo, simpatia e marca. É figura carimbada no Imdb. Tem wikipidia. Pensando bem, o who’s who ainda tem a sua utilidade…

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2 comentários sobre “Famoso quem?

  1. Claudia,
    Acabei em seu blog depois de ler a sua matéria sobre ter perdido o crachá. De fato não acho as mudanças algo fácil, menos ainda quando deixamos de trabalhar como loucas para assumir algo que vai além do trabalho, como o que você faz agora. Confesso que ainda não abandonei meu crachá totalmente, no entanto, caminho cada dia mais para um rumo desses.
    Acredito (depois de uma pane aos 25 anos) que temos que ter tempo para vivermos e não podemos deixar a nossa vida passar enquanto batemos o ponto numa empresa – mesmo que ganhemos bem e nos realizemos profissionalmente com isso.
    Após acessar seu blog, acredite, li diversas postagens sem querer parar nem para comentar. Você escreve “gostoso” e suas historias tem pegada de realidade… enfim, tens na lista da vida online, mais uma leitora/seguidora.

    Agora, vou em busca do seu livro para presentear uma amiga que nesse momento vive a deprê de ter perdido o crachá e ainda não entendeu que pode ser feliz sem ele.

    Abraço e sucesso nas jornadas 😉

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