A mudança acabou. A mudança só começou

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Desfiz a última caixa da minha mudança ontem. Todos os quadros estão nas paredes e os caminhos estão livres. Falta ordem e falta estante para os livros, mas minha casa já é casa. Na porta da cozinha, a folhinha de 2016, presente do Hortifruti da esquina, lembra que este ano voou. Ontem era janeiro e eu aprendia a viver uma nova vida. Hoje é véspera de janeiro de novo e eu sigo aprendendo a viver uma nova vida.

Essa semana foi uma livre docência. Retornei a São Paulo depois de doze dias baianos. Estava com saudade da família, do filho e da Paulicéia. Estava precisando refazer uma rotina. Aproveitei as caixas reminiscentes para colar no filho e realizar um trabalho de dupla inédito. Pela primeira vez em treze anos, organizamos juntos a nossa vida. Sem intermediários nem facilitadores. Só eu e ele, escolhendo onde as coisas iam ficar e como iam ficar. Brigamos e brincamos. Descobri que ele ainda não sabia a diferença entre chave de fenda e chave phillips porque nunca havia sido desafiado a colocar uma tampa nova de privada.

Também tentei instrui-lo por telefone sobre como usar o bate-prego para colocar um quadro na parede da sala antes do horário do silêncio chegar. Fracassamos, porque nunca havia ensinado-o sobre o manejo do martelo. Meu filho é neófito de vida prática porque sempre teve tudo e todos fazendo tudo por ele. Chico também perdeu o crachá de delfim e está aprendendo coisas incríveis.

Organizei um workshop rápido sobre furadeiras, brocas, buchas e outros apetrechos que ele não conhecia nem de literatura, já que prefere romance e livros de história. Escalou a escada de alumínio para junto com a Maria organizar as roupas de cama e banho. Agora não mais perguntará onde está a toalha de rosto. Foi ele quem escolheu o lugar que ela vai morar.

Nem tudo foi doutrina. Nos intervalos, cantamos afinadíssimos as novas canções de Chico Buarque, que ele aprendeu depois de assistir o documentário do artista que tem um irmão alemão. Empolgado, fez questão de ver o filme novamente comigo. “Você vai amar, mamãe”, antecipou certo do meu fascínio. E fui às lágrimas quando ele tocou, só para mim, uma fiera de canções como Cotidiano, Todo Sentimento, Vitrines e Geni. Faz cinco anos que ele estuda violão. Faz poucos meses que o meu guri vestiu a alma adolescente. Faz poucos meses que ele se apaixonou pelo tocar, pelo cantar e pelo falar.

Enquanto organizávamos lençóis, toalhas, móveis, cds e livros, tecemos nossa cumplicidade. Ele entendeu o motivo da mudança, da urgência do trabalho e da economia de espaço. Às vezes sentia preguiça e a voz de comando materna fazia tremer os cristais. No final, a bronca acabava em riso. “Faço isso para te provocar. E você sempre cai”, disse Chico, zombando, da minha cara.

Ele tem razão. Sempre tropeço e, invariavelmente, dou um chilique. Sete a dois para ele. Ficamos colados. Dividimos a comida, a cama, o trabalho e a revolta. Com a televisão ligada nos canais de notícia, assistimos a todos os capítulos da ópera de lama e vergonha da política nacional. Como o telecatch dominou a cena da semana, comentamos os tapas, as cabeçadas, os xingamentos, as manobras, as trapaças em torno do julgamento do impeachment da Dilma e da cassação do inominável presidente da Câmara, o corcunda de Madureira. Debatemos uma hipotética sucessão e fomos ao Google checar se Tiririca poderia vir a ser presidente do país numa queda generalizada de caciques. Graças a Deus, não. Seria muita zika e uma piada muito sem graça.

A semana acabou. No retorno a Bahia, percorri os 2000 quilômetros de distância saboreando as últimas 72 horas. Sempre gostei de mudar. Mas nunca foi tão bom entender e acompanhar cada pequena alteração. Da respiração ao tom de voz. Dos hormônios à pele. Eu, menarcando. Meu filho, adolescendo. Um encontro de contas lindo e com muito tempo, que eu nunca tive. Sem modéstia, escrevo: merecemos cada segundo.

 

 

 

 

 

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10 comentários sobre “A mudança acabou. A mudança só começou

  1. Claudinha,( desculpe mas já somos intimas kkkk)

    Ha muito tempo ou diria até desde que iniciou seu blog, que conheci através de um comentário de uma amiga que faz parte do nosso facebook, tive o prazer de conhece-la um pouquinho através das letras. Digo isso pois também fui Abriliana, mas se a vi uma ou duas vezes na companhia foi muito, perdi meu crachá em uma mega operação do falecido depto Alphabase ( antiga DataListas), em Dez de 2013. Desde então, busco um novo rumo na vida, tentei me enquadrar em outras empresas outros segmentos, mas não nos reconhecemos e devido a falta de oportunidade em nosso país resolvi partir para meu ano sabático. Destino EUA finalidade, obvio aprender Ingles com pouca grana…. dizem que quem tem amigos tem tudo e, estou aqui para comprovar 4 meses em Chicago. 4 meses em Arkansas, 1 mês em Miami 3 meses em Los Angeles e assim vamos, ainda estou na metade da programação, pensando no que vou fazer quando voltar, assistindo à distância toda esta falta de amor ao pais e ao povo por parte dos nossos ditos políticos e obviamente comparando com as melhorias que os governantes aqui proporcionam aos Estados, escolas publicas ( onde estou estudando atualmente ), com agua quente nos banheiros, material escolar para estrangeiros gratuitos, piano no salão principal, uma vez ou outra um talento qualquer meu colega de sala despojadamente senta-se à frente deste e destila tudo que sabe sobre musica aos nossos ouvidos, aprendeu com a familia, todos tocam algum instrumento, Lindo de viver, tenho que me esconder dos colegas para não demonstrar que estou emocioanada, além no normal ( é claro….rsrsrs) E, hoje com seu post fui as lagrimas novamente, pois me identifiquei ainda mais com sua mudança. Enfim, passei por aqui apenas para agradecer sua disponibilidade em compartilhar conosco seus textos. Abs,Simone Date: Fri, 11 Dec 2015 22:15:13 +0000 To: bee_simone@hotmail.com

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  2. Seu comentário na rádio muito feliz mas e pouco de comodismo da nossa partes estou passado uma nuvem negra neste momento estou sobrevivendo nunca imaginei que iria passar uma crise dessa faz dois anos que vejo só desprego que será deste Pais !! Como vc diz a musica abriu seu leque mas porque sentia confortável na empresa então perder posto aquele dominou faz a gente não cair na real demora um pouco estou trabalhando isto quando sair não da aquele choque !!!

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  3. Claudia parabéns pelo texto…..de uma sensibilidade, leveza e beleza incríveis. Eu ainda estou no ardor de empreender, mas, continuo trabalhando como assalariado para mal pagar minhas contas, enquanto meu avião não decola. Apesar de todo este lamaçal, acredito que a vida irá se renovar e para melhor, como ela sempre faz conosco. Bjkas e sucesso.

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  4. Cláudia,gostei muito de ler o seu texto, que fala do cotidiano com muita leveza, conseguindo aguçar nosso olhar para detalhes primorosos e tão corriqueiros. É sempre muito bom vivenciar ideias bem escritas. E, a propósito da Pousada, deve ser uma excelente pedida. Gostaria de conhecê -la. Grande abraço.

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