“Este país me embriagou”

Passei a semana na minha, na nossa, Pousada A Capela. Tive um casamento no sábado. Domingo, recebemos 19 clientes vindos de Milão, Itália, e de Nice, França. Quatro deles já haviam estado outras duas vezes na pousada. Traziam seus amigos para conhecer nosso espaço, o nosso “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Responsabilidade amplificada em francês e italiano. Sim, tenho complexo de vira-lata como todos os brasileiros. E também tenho 25% de sangue francês e 50% de sangue italiano, logo, tinha, sim, que agradar e encantar meus patrícios.

A semana voou. A semana foi deliciosa. A semana foi trabalhosa. A semana foi um desafio linguístico. Francês, italiano, português e baiano. Tradução simultânea e meus neurônios enferrujados gemeram de felicidade. Pedidos, sugestões, roteiros, reservas, demarcações, remarcações. Todo o tipo possível de concierge, porque dois casais adoraram A Capela e adiaram o prazo de partida. Serotonina na veia.

Na véspera da partida, um pedido especial. Vamos fazer um jantar musical? Claro, respondi. Especialmente, porque eles amam a minha trilha sonora de Chico, Caetano, Gil, Bethania, Djavan, Lupicínio, Cartola e Rita, Marina…. A um ponto que depois de uma noite de serenata, uma hóspede de Milão perguntou: “essa cantora, ontem, estava aqui?” Essa cantora era a querida Martinália, que já esteve aqui mas em outro verão. Muito bem, missão dada, missão cumprida. Preparamos um jantar lindo com peixe, polvo, salada e legumes (por isso, italianas e francesas são magras) com a música do tocador e cantador Fábio, um músico sorridente e gentil que mora em Arembepe. No repertório, os clássicos. Tom, Vinicius, Chico, Djavan…

— “Suona il Samba de Orly”, eram os pedidos.

Eu ali cantando, vendo, cuidando e pensando (tudo no gerúndio): estou numa dobra do mundo. Lá em Brasília, o inominável corcunda presidente da Câmara tenta seu xeque-mate. Lá em Brasília, meu ex-partido tenta seu xeque-mate. Nem eles sabem se devem ou não salvar Dilma, que boia, agora mais leve depois do regime e apaga com borracha e tinta a sua linda história. Lá em São Paulo, a Bolsa sobe e o dólar cai porque há um pedido de impeachment. Lá em São Paulo, a PM do governador chuchu enfia o revólver na cara das meninas na porta da escola e todos fazemos parte de um suicídio como bem escreveu a jornalista Adriana Dias Lopes.

Volto para a minha realidade. Fabio canta. Os gringos aplaudem. Fabio cantam e os gringos aplaudem mais. Seu companheiro, Martino, faz um solo lindo no trompete para acompanhar Garota de Ipanema e os gringos urram. Estão felizes e nunca ouviram falar do inominável presidente da Câmara, nem no inominável governador de Chuchu.

Daí Alberto, o mais latino e mais falante do grupo, levanta do sofá e sopra no meu ouvido:

— Estou embriagado de Brasil

Sorrio, feliz. A frase fica rodando na minha mente. Ele está embriagado. E eu, que vivo aqui, estou o que? Penso, penso, penso, penso e apesar de tudo, de todos, encontro a palavra:

— Inebriada.

No dicionário:

Significado de Inebriado

Inebriado: embebedado; embriagado; extasiado
Inebriar: v.t.d. v.i. e v.pron. Tornar-se embriagado pela ingestão de substâncias e/ou pelo efeito de seus vapores (fumos): os vapores da droga inebriaram-na; um aroma que inebria; inebriaram-se com lança-perfume.
Figurado. Provocar ou sentir algum tipo de enlevação; estar ou ficar em estado de extase; extasiar-se: inebriou-se com o talento da filha; um espetáculo que inebria; o amor inebriava-o.
(Etm. do latim: inebriare)

Dai, por meio do espelho do outro, da empolgação do meu cliente Alberto, entendo porque aos 21 anos desisti de partir. Porque abandonei meus planos de pedir o passaporte francês, italiano e português. Porque escolhi viver, trabalhar e morrer aqui. Porque todos os dias, por mais chato, por mais irritante, revoltante, desconfortável, monstruoso, violento que seja, encontro esperança e bom tempo.

Sim, sou assim. Naive. Otimista. Boba. Ridícula. Retardada. Sem visão. Sem noção.

Sim, vivo embriagada. Sim, vivo inebriada. E me orgulho, a despeito de tudo, deste meu país feito de gente de tudo o que é jeito que encanta, seduz e embriaga quem vem de fora. E, claro, não conhece os nossos inomináveis que um dia, se Deus quiser, estarão todos presos junto com o Delcídio, André, Marcelo, Baiano, Alberto, Renato, Walmir, José, Oto, Matheus…

Tim, tim. E saúde para todos nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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7 comentários sobre ““Este país me embriagou”

  1. Claudia,
    Parabéns pela continuidade das suas provocações e reflexões. Apreciaria lh eenviar alguns artigos que tenho publicado sobre desafios da longevidade, despreparo para a aponstadoria, etc. Para que mail posso faze-lo, caso inada interesse ?
    Boas festas e um 2016 com novos sonhos, desafios e conquistas.
    Bj
    Renato Bernhoeft

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