Conversa de elevador

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— Você precisa de ajuda?

A pergunta legítima é motivada pelo meu estado lamentável. Suada, suja e esmolambada depois de uma semana fazendo caixas com minhas tralhas e um dia de mudança pesada e mais o mundo ruindo em nossas cabeças: Síria, Rio Doce, Paris…A única notícia boa é o inominável sendo despejado da presidência da Câmara.

Sorrindo, agradeci com sinceridade. Estava tudo feito e para o cansaço, bastava uma noite de sono.

— Mudei hoje. Agora está tudo certo. Desculpe-me pelo aluguel do elevador.

Meu vizinho sorriu gentil e eu emendei com uma frase para esticar a conversa…

— …enquanto sinto o meu cansaço, penso nos sírios, caminhando centenas de quilômetros para encontrar um novo lar. Sem roupa, sem caixas, sem bens, com os filhos nos ombros…

Não conhecia meu novo vizinho, mas acertei em cheio.

— Tenho filho pequeno e sinto a mesma coisa. Aquelas imagens doem no fundo do meu peito. Me imagino ali, carregando meu filho nos braços, sem segurança, sem destino certo…

Mudei para o décimo quarto andar, o que permitiu esticar a conversa. Emendei…

–…o pior é que depois dos atentados de Paris a vida deles ficará ainda pior. Será difícil entrar na Europa.

Meu vizinho fez que sim com a cabeça.

–…Cretinos. Esses terroristas do Estado Islâmico não tem cara de cretinos? Um olhar estranho, doente, sem humanidade, parecem androides…, disse meu vizinho.

Foi a minha vez de concordar com a cabeça. Estávamos chegando e não dava tempo de eu dar minha opinião sobre Oriente versus Ocidente, jihadistas, xiitas e EI.

— Meu andar chegou. Muito prazer e obrigada. Me chamo Claudia.

— Prazer, sou Gustavo. Conte comigo.

Fechei a porta sorrindo. Perdi a vista para a piscina do clube e ganhei conversas no elevador. Recebi um abraço surpreendente de humanidade. Engavetei minhas lamúrias e rezei pelos mineiros sem água e sem rio. Pelos sírios. Pelos nigerianos que sofreram mais um atentado ontem. Pelos palestinos. Pela família nova que descobri morando debaixo do viaduto perto do aeroporto. Rezei pelos meus e agradeci.

Em casa, sozinha, em meio às minhas caixas, cheias de tralhas e memórias, lembrei da canção do Caetano Veloso. Gente.

Gente quer comer
Gente que ser feliz
Gente quer respirar ar pelo nariz

Gente lavando roupa
amassando pão
Gente pobre arrancando a vida
com a mão

No coração da mata gente quer
prosseguir
Quer durar, quer crescer,
gente quer luzir.

Cantando, tirei da caixa o martelo e o bate prego e coloquei na parede meus quadros preferidos. Gente quer ser feliz. Gente quer respirar ar pelo nariz.

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