Empresário de rua

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Coleciono histórias de gente que educou filho, comprou carro, casa própria trabalhando na rua. Sem crachá, sem carteira assinada, gastando sola de sapato, saliva e simpatia. Ambulantes, mascates e vendedores de porta a porta. Pessoas incríveis, trabalhadeiras, dedicadas, divertidas, com muitos causos para contar. Na rua Augusta dos anos 70/80, havia um ambulante anão. Vendia bilhetes de loteria, balas, cigarros, as primeiras folhas de zona Azul. Era simples e sorridente. Quando morreu, no velório cheio, ficamos sabendo que todos os filhos eram profissionais liberais com terceiro grau e que ele, apesar de trabalhar na rua, tinha uma linda casa.

Minha avó paterna era chapeleira. Não passou do primário, mas como era artista ganhou muito dinheiro fazendo chapéus extraordinários para a elite paulistana enfeitar a cabeça. Teve uma loja que quase quebrou porque ela não era gestora, mas estilista. Passou a fazer chapéus na garagem da casa dela para as clientes fiéis. Íamos de fusca vermelho entregar as obras-primas nas mansões dos Jardins. Do mesmo jeito que vó Gina ia de porta em porta, ela também tinha um vendedor particular. Ele vendia enciclopédias e livros clássicos, acredite se quiser. Uma vez por ano, ele aparecia na casa dela com o catálogo de lançamentos debaixo do braço. Vinha de terno marron, bem cortado, sapato mocassin, camisa branca e gravata. Era elegante e digno. Graças a ele, fiz o ginásio pesquisando em uma enciclopédia Delta Larousse último tipo. Quatorze volumes com capa cinza de couro, lombada redonda, decorada com filetes dourados. Quando estava perto de passar para o colegial, ele veio pela última vez porque logo depois minha avó morreu. O último negócio deles foi espetacular. Ele vendeu uma enciclopédia Britannica para minha avó monoglota. Era um escândalo. 24 volumes, capa marron escura, com filetes e letras douradas. Fiz o segundo grau e a faculdade ancorada naqueles livros. Tinha tudo. Freud, Marx, Deleuze, química, cinema, computação, filosofia explicados no melhor inglês do mundo. Quando comecei no jornalismo de revista, trabalhei na Saúde e volta e meia recorria à minha bíblia para desempatar alguma questão. Boa parte do que sei devo ao vendedor de livros cujo nome esqueci.

Mergulhei neste baú de reminiscências por causa de um personagem da atual novela das 7 da Rede Globo. Não sou noveleira, mas gosto de saber do que se tratam as tramas. Nesta que estreou segunda-feira, um dos protagonistas é um jovem lutador que se apresenta como “empresário de rua”. O que ele faz? Vende balas no farol. É empregado e patrão. Com o que ganha, compra novos insumos. Gira a roda enferrujada da economia em tempos de crise. Arrisca. Luta. Investe. Encara chuva, frio, calor e cara feia. Só para de correr para baixo e para cima, quando acaba o estoque. Em sua microescala, encara os mesmos desafios e dificuldades de empresários tamanho XL.

Gostei do personagem. Achei bacana. Inspirador. Nesse Brasil de micro, pequenos e médios empresários, gente como a gente, que acorda cedo e pega no pesado, paga imposto direto e indireto, paga conta, perde o sono e luta, todos os dias, para sair do vermelho e entrar no azul, enfim, estava na hora de valorizar o franco empreendedor. Na rua, na lojinha de bairro, na barraca da feira, no táxi, no Uber, no salão de beleza, na fábrica de bolos de dois funcionários existem empreendores de fibra, coragem e dignidade. São primos irmãos na crença de que vale a pena produzir de grandes empresários, como os gigantes Jorge Paulo Lehmann, Samuel Klein e Abílio Diniz. “Sinto orgulho do meu negócio”, disse Maria, uma senhora de 48 anos, que vende zona azul e produtos Natura na esquina perto de casa. A firma dela é uma cadeira, um guarda sol para os dias de chuva ou muito calor, uma caixa com amostras de produto e um caderno com os seus contatos. Ela é fera em networking. Conhece todo mundo. Troca a zona azul dos carros só quando o fiscal chega. Dá recado. Manda recado. Guarda pacote. Conversa com a velhinha solitária. Além de vender, agencia o trabalho de outros profissionais liberais. Tipo chaveiro, encanador, empalhador e pintor de paredes. Se o serviço emplaca, ela fica com uma pequena comissão que engorda a receita no final do mês. Perguntei se ela se considerava empresária e a resposta foi categórica. “Claro que sim, a diferença entre mim e os bacanas aqui do bairro são apenas alguns milhões.” Quer saber? Concordo 100% com ela

Segue no vídeo a história do David Portes, que diz ter ficado rico como empresário de rua:

https://www.youtube.com/watch?v=YLtN5FCcEog

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6 comentários sobre “Empresário de rua

  1. Concordo com vc. São batalhadores da adversidade. Em relação a enciclopédia Britânica, também tirei muitas dúvidas nela, que foi comprada por meu pai de um vendedor impecavelvelmente vestido (lembro muito bem disso!)!

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