Mamãe vai fazer 100 anos?????

IMG_3343

Adoro festa.

Tem uma música que invariavelmente toca em casamento, batizado, formatura, aniversário, carnaval de clube e qualquer tipo de bagunça que envolva gente querida. Nos primeiros acordes, já me sacudo. Começo a pular. A mexer os braços como um helicóptero desordenado. Danço mal, muito mal. Pareço uma galinha de angola ciscando no terreiro: tão feliz e animada, quanto desajeitada.

Neste último feriado, ouvi a música várias vezes. Só hoje, terça de cinzas pós-carnaval dos meus 50 anos, quando parei para trabalhar e escrever, me dei conta do porque gosto tanto dela. Preste atenção na letra.

Eu fico com a pureza

Da resposta das crianças

É a vida, é bonita

E é bonita

Viver

E não ter a vergonha

De ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser

Um eterno aprendiz

Mereci uma celebração digna de um século. Foram quatro dias de farra. Parentes e amigos queridos me abraçando, de perto e de longe. Recebi muitos beijos, carinhos e agrados, que não tem obrigada neste mundo suficiente para agradecer tudo. Ganhei muito presentes, que vou usar vida a fora como prova de gratidão e carinho recíproco.

Ah meu Deus!

Eu sei, eu sei

Que a vida devia ser

Bem melhor e será

Mas isso não impede

Que eu repita

É bonita, é bonita

E é bonita

O presente mais especial recebi do meu filho, Chico, que editou um minidoc com vídeos, fotos e músicas. Em 50 minutos, ele contou a minha história segundo o olhar dele. Confesso, sem pudor, que fiquei orgulhosa. Pelo talento dele. Pelo amor que mostrou ter por mim. E pela história que assisti.

Viver

E não ter a vergonha

De ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser

Um eterno aprendiz

Banhada em lágrimas e sacudida por soluços de muita emoção, assisti uma história honesta de uma pessoa bacana, que sempre acreditou no que diz o refrão da canção do Gonzaguinha, O que é, o que é. Viver e não ter a vergonha de ser feliz.

Me vi pequena, buscando ter minha identidade. Mudando de cara e de roupa, quando ganhei autonomia e deixei me vestir ou cortar o cabelo como minha mãe queria.

Captura de Tela 2015-11-03 às 16.11.58

E a vida

E a vida o que é?

Diga lá, meu irmão

Ela é a batida de um coração

Ela é uma doce ilusão

Hê! Hô!

Me enxerguei indo à luta no primeiro emprego aos 18 anos. Revi os anos loucos e incríveis de crença e militância quando a gente tinha certeza que ia mudar o mundo. E mudou. No movimento das Diretas Já. Nas greves dos anos 80. Nos protestos contra a inflação e hiperinflação. Me vi entrevistando um ex-companheiro, hoje presidiário e senti tristeza pelas escolhas erradas do meu ex-partido e de meus ex-colegas de sonho.

E a vida

Ela é maravilha ou é sofrimento?

Ela é alegria ou lamento?

O que é? O que é?

Meu irmão

Dei muita risada das mudanças de hábito, de vida, de revista. Mudei tanto, que claro hoje estou igual ao que fui aos 13. Só as rugas e os pneus denunciam minha altíssima quilometragem. Fiquei feliz em ver fotos de amigos queridos que seguem fazendo parte da minha história e que estavam ali do meu lado derramando lágrimas de alegria e saudade. O tempo é mesmo uma gota e a sensação de que parecia ter acontecido ontem foi geral quando vimos imagens no século passado que faziam parte da nossa memória afetiva coletiva.

Há quem fale

Que a vida da gente

É um nada no mundo

É uma gota, é um tempo

Que nem dá um segundo

Fui viajando neste túnel de tempo e de memórias. A sensação foi boa na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. A razão é de uma simplicidade franciscana. Tudo, tudo, tudo valeu a pena. O bom. O ruim. O ótimo e o péssimo. Os fracassos foram tão importantes (ou mais) que as vitórias. As perdas, com o tempo, proporcionaram ganhos enormes. Sem elas, teria perdido mais da metade da graça. Faltaria paixão, intensidade, sangue, suor e as lágrimas.

Você diz que é luta e prazer

Ele diz que a vida é viver

Ela diz que melhor é morrer

Pois amada não é

E o verbo é sofrer

Captura de Tela 2015-11-03 às 16.10.46

Quem viu o minidoc diz que um dos melhores momentos — depois da minha ida à maternidade e do nascimento do meu filho – foi o enxerto do filme E o Vento Levou para falar da minha Vida Sem Crachá. Scarlett O’Hara agarra um punhado de terra da sua fazenda destruída pelo fogo e pela guerra e jura que nunca, nunca mais passará fome. De novo, senti uma incontrolável felicidade ao ver que meu filho me entende como mulher guerreira. Se orgulha de mim. Me admira. De novo, o meu refrão. Valeu a pena. Todas as lutas. Todas as batalhas, inclusive aquelas que foram derrotas mas que não colocaram fim à guerra.

Eu só sei que confio na moça

E na moça eu ponho a força da fé

Somos nós que fazemos a vida

Como der, ou puder, ou quiser

E chega de nostalgia, porque a proposta é fazer outro festão nos 60, 70, 80 e, quem sabe, 90 e, porque não, porque não, 100…

Antes do ponto final, obrigada a todos que fazem parte da minha história.

CLAUDIA_50CLAUDIA_50.

Anúncios

2 comentários sobre “Mamãe vai fazer 100 anos?????

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s