Como fazer um copo

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Aquilo que eu escuto, eu esqueço

Aquilo que vejo, eu lembro

Aquilo que faço, eu aprendo

Confúcio

  

“Pegue uma folha de papel comum e coloque sobre uma mesa, de frente para você, na posição, vertical.”

A primeira vez era só para ouvir e se concentrar nos comandos.

“Pegue a ponta do lado esquerdo e dobre-a para a direita, de modo que a borda inferior fique paralela à borda da direita.”

Na segunda leitura, era para ouvir e tentar fazer.

“Pegue a borda inferior e dobre-a de modo que fique paralela com a borda debaixo.”

Na terceira leitura, como ninguém conseguiu, além de ler, alguém mostrou como fazia.

“Pegue o canto inferior esquerdo e dobre-o de maneira que toque no ponto médio da borda da direita…”

Eu, autoconfiante, sabida, fechei os ouvidos e comecei a fazer. Rapidamente, tinha um cone tosco que, sim, era capaz de guardar água, mas estava muito distante do modelo exibido pelo professor. “Quem conseguiu fazer?”, perguntaram. Metida, respondi: “Eu.” O mestre riu e chamou de genérico meu arremedo de copo. Não valia. Vergonha alheia, eu sei. Tentei de novo. Incapaz. No quinto fracasso, pedi socorro ao colega do lado, o Pedro, que, paciente, repetiu a operação quatro vezes comigo. Se precisasse fazer novamente, não seria capaz. Valeu a lição. Naquele momento, descobri que ser empreendedor não era bem aquilo que eu imaginava.

Independência e autoconfiança fazem parte. Ousadia para correr risco faz parte. Capacidade de improvisar faz parte. Iniciativa faz parte. Visão de oportunidade idem. Rede de contatos e persuasão também. Persistência e comprometimento são muito necessários. Faltavam na minha lista ingredientes que descobri básicos e indispensáveis. Caso contrário, jamais seria empreendedora. Com sorte, talvez, empresária. Se fosse pega pelo azar, com certeza, estaria falida.

No exercício do copo de papel estava embutido aquilo que os “empretecos” (apelido dos egressos do seminário Empretec) definem como CCEs ou Características do Comportamento Empreendedor. Na prática, eliminei sem a menor cerimônia o item planejamento, as metas, o monitoramento das metas e a qualidade. Como sempre, fui ao meu modo “fazendo” de forma rápida e, nesse caso, imperfeita. Sem perceber, enfatizei a avaliação feita pelo meu entrevistador de que eu tinha excesso de independência e autoconfiança e era um desastre em comprometimento, planejamento, metas e controle de qualidade. Eu me enxergava como o gênio da lâmpada, a bala que matou Kennedy, o último biscoito no pacote de bolacha.

A ficha não caiu. Parti para o próximo exercício, com o mesmo espírito de “filha da Xuxa”: alguém que “se acha”. A piada, aprendi no curso. A meta era montar uma empresa batizada com o nome de Cria que funcionaria por cinco dias, para a qual tínhamos de elaborar um plano de negócio completo. Era preciso rever custos, receitas e definir um padrão de rentabilidade. Uma regra era clara: a empresa não poderia comercializar produtos ou serviços que nossos sócios exploram em nossas empresas atuais. A empresa Cria, assim como todo negócio, deveria dar lucro durante a operação. Também não era permitido comercializar produtos e serviços a serem entregues após o encerramento. Nesse item empaquei. Não poderia trabalhar na criação da minha nova empresa. Teria que planejar algo que não seria importante nem necessário para o meu plano B. Emburrei. Fiz o primeiro projeto com o mote do Plano B convencida a convencer os professores a mudar a regra para mim.

Não há bons ventos para o barco que não sabe aonde vai

Sêneca

Antes de ganharmos a rua, ouvimos muito sobre o estabelecimento de meta. A ordem lógica é estabelecer metas (para ser meta tem que ser atingível) e objetivos que são desafiadores e que têm significado pessoal. Desafio é algo além da capacidade da pessoa, mas possível de realizar. Já as metas precisam ter dois tempos diferentes. Metas de longo prazo (cinco, dez, vinte anos) claras e específicas. Metas de curto prazo absolutamente mensuráveis. Enquanto eu ouvia, me lembrei do processo de montagem da pousada. Não defini direito o que queria. Fui fazendo. Defini que seriam oito apartamentos sem fazer as necessárias contas. Meu comprometimento não era com o negócio, mas com meu cargo de executiva. Por isso, vesti a carapuça até o pescoço quando ouvi a fábula do maluco com o arco e a flecha.

Era uma vez um arqueiro, bicho do mato, famoso por atirar suas flechas sempre no centro do alvo. Quem passava por onde ele morava tinha pavor, afinal o cara era craque na pontaria. Um guerreiro, curioso e destemido, soube do feito e decidiu encará-lo para conhecer o segredo de tamanha mira. Como era possível alguém ter um índice tão grande de acertos?

Lá se foi o guerreiro para a floresta falar com o arqueiro solitário, que ao contrário da lenda o recebeu muito bem. Tratava-se de um louco manso.

 

― Você pode me explicar como consegue acertar sempre no centro do alvo das árvores dessa floresta? ― perguntou o bravo lutador.

― Claro ― respondeu o doidinho. ― Me acompanhe!

Com habilidade, ele sacou uma flecha e, zás, atirou em uma árvore a cem metros de distância. Foi para casa e trouxe um balde de tinta. Pacientemente pintou um lindo alvo ao redor da flecha. Quando acabou, perguntou rindo.

― Quer atirar também?

Segundo chacoalhão do dia. Estava pintando alvos? Estava me contentando com resultados pífios com medo de fracassar? Estava acomodada com o lucro pequeno já obtido, sem vontade de puxar mais a corda? Antes de me levantar da cadeira, ouvi a seguinte máxima: “Quem se afasta do fracasso se afasta do sucesso.” Será que eu ia começar a perder?

Antes de partir, fizemos uma atividade riquíssima. Fomos convidados a escrever sobre nós mesmos. Quem sou eu? Escrevemos e não compartilhamos nossa visão e objetivos de vida para os próximos 12 meses, cinco anos, dez anos e vinte anos. Quando terminei, uma música do Gilberto Gil começou a tocar na minha cabeça, como um acalanto:

Imagino-te jaqueira

Postada à beira da estrada

Velha, forte, farta, bela

Senhora  

Sim, era uma boa trilha para meus setenta anos.

Aprendizado 1: No empreendedorismo, só faz sentido ser persistente se existir uma meta. E meta é sempre numérica.

Aprendizado 2: Criar um plano B é um comportamento empreendedor novo para alguém que sempre teve crachá. Ter consciência disso e se abrir para essa experiência é fundamental para o propósito dar certo.

Aprendizado 3: Tenha calma na hora de montar o seu copo de papel. Ela será seu, perfeito ou imperfeito.

Aprendizado 4: Fique esperto com as armadilhas do seu próprio desejo. Errar faz parte, com exceção daqueles que pintam seus próprios alvos.

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2 comentários sobre “Como fazer um copo

  1. Bom dia.Quero parabenizá-la pelo blog,tenho acompanhado e tenho aprendido e curtido bastante!!
    Gostaria da sua opnião,pois tenho uma empresa de perfumes e cosméticos,estou começando agora ( 1 ano e 9 meses),e tenho percebido que para deixar tudo conforme a lei diz,a sensação que tenho,é que vou trabalhar para vender impostos,além do alto valor de um aluguel,luz,água,telefone,funcionário…
    Estou me perguntando até onde compensa sonhar no Brasil.

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    1. Elisangela, obrigada por sua mensagem. A sua pergunta é muito difícil. Eu também odeio pagar imposto, principalmente quando não vejo retorno para o país, mas não dá para ter um negócio e não ser legalista, não andar na lei. Dá para ter um bom contador e um bom advogado, que podem te ajudar a buscar reduções na medida do possível e permitido. Quanto a crença, a pergunta é outra. Você quer mudar do Brasil? Morar em outro país? Em caso negativo, foque no seu negócio, na sua energia e na sua garra. somos melhores e maiores que os políticos que não nos representam. espero ter ajudado.

      um beijo

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