A praga do cut and paste

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A primeira vez que ouvi a expressão “cut and paste” foi no século passado. 1984. Eu escrevia em uma Olivetti Lettera 82 verde, linda. Estava cursando o segundo ano de jornalismo na PUC-SP e um professor, Marcos Carlini, nos apresentou ao universo dos beatniks. Jack Kerouac, William Burroughs, Allen Ginsberg e Gregory Corso. Eu era uma pirralha comunista metida a intelectual. Pentelha e preconceituosa. Achava a cultura pop americana um lixo, porque vivia sob a influência dos existencialistas, marxistas e situacionistas. Meus ídolos eram, pela ordem, Camus, Sartre, Debord e, claro, Carlos Marques. Era, no entanto, cdf. Decidi desafiar o professor e mergulhei fundo no assunto e fiquei expert em beatniks japoneses. Consegui livros. Pesquisei. Escrevi um trabalho de 20 páginas. Tirei nota 10. Como era apenas pirraça, não consigo lembrar o nome do autor e o professor, especialista no assunto, faleceu há pouco tempo.

Não existia computador pessoal naquela época. Pesquisávamos em arquivos, enciclopédias e livros. Ser cdf fazia toda a diferença na nossa vida pessoal e profissional. A memória era intransferível. Quem sabia, sabia. Ninguém tinha coragem de copiar ninguém. Os casos de plágio eram raros e execráveis. Quem roubava a propriedade intelectual do outro ia para o exílio. Aconteceu com um jornalista muito famoso à época. Escrevia sobre música, literatura e cultura na Folha Ilustrada. Era idolatrado, até que um dia que descobriram que ele havia traduzido e publicado como sua uma matéria inteira da Rolling Stone americana. Fraude e farsa. Depois deste feito, mudou-se para a Indonésia e hoje, conta a Wikipedia anda pela Rússia. Na era pré-Google, cut and paste era feito com papel, tesoura e cola. Tratava-se de uma técnica literária criada pelos dadaístas e levada à termo pelos beatniks, na qual o autor picava e misturava trechos de modo aleatório para buscar novo sentido. William Burroughs era fera nisso. “Almoço Nu” foi escrito assim. Em 2012, tive o privilégio de ver o original de “Almoço” e de “On the Road” no museu da Literatura em Paris. No rolão interminável de papel, o corte e a cola. Única, original e criativa.

Lembrei de tudo isso hoje por causa de um hábito perverso meu. Às vezes, leio um texto em uma das redes sociais e desconfio. Desconfio porque soa falso. Desconfio porque soa perfeitinho demais. Desconfio porque parece muito familiar. Desconfio também quando a produção do ser humano é caudalosa. Intermitente. Inesgotável. Fico curiosa. Fico com inveja. Fico com a pulga atrás da orelha. Daí, uso uma técnica que aprendi com um professor universitário amigo meu. Copio um parágrafo no meio do texto e jogo no Google. Não pode ser muito longo, senão o buscador reclama. Bastam cinco ou seis frases. É batata. O dito cujo aparece duas vezes. Primeiro na fonte de onde foi copiado. Segundo no texto do ser humano caudaloso, que normalmente é craque em rede social e tagueia superbem os seus escritos. Aí minha inveja passa e eu sinto uma tristeza danada. Preferia me sentir desafiada a escrever mais, melhor, com mais emoção e intensidade. Preferia me sentir inútil, preguiçosa e vagabunda.

A fraude intelectual faz tempo que deixou ser motivo de vergonha ou problema. A miséria do cut and paste, ouço dos amigos professores e redatores, tornou-se normal, comum e banal. A explicação é “tipo assim”: “trabalho muito, ganho mal e por isso posso copiar”. Ou: “trabalho muito, não ganho nada para publicar na rede social e por isso posso copiar”. Ou ainda: “se o texto do outro é bom, se ele disse tudo o que devia ser dito, porque preciso escrever de novo, pensar de novo, ir além?”. Desfaçatez. Descaramento. Rouba-se ideias e palavras sem a menor vergonha. Por que? Para que? A propósito do quê? Dei um find, fiz um cut, outro paste e não achei a resposta. Bom sinal…

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2 comentários sobre “A praga do cut and paste

  1. Bom dia Cláudia, tudo bem?

    Meu nome é Leandro Alvarenga, e escrevo pois ouvi recentemente sua entrevista no TripFM, fiquei super inspirado pela sua história e desde então venho acompanhando o que você escreve por aqui.

    Gostaria de te convidar para participar de um evento que organizo em Belo Horizonte chamado CreativeMornings. Será que você toparia bater um papo para que eu possa te explicar com calma o que imaginamos por aqui? Te prometo que é algo super interessante. 😉

    Para saber mais sobre o CreativeMornings basta acessar os endereços abaixo.
    fb.com/creativemorningsbh
    http://www.creativemornings.com

    (Te enviei também uma mensagem pelo formulário de contato do outro site, com infos mais detalhadas)

    Desde já agradeço pela atenção e também pela inspiração.
    Um grande abraço,
    Leandro Alvarenga

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